Adultério
3 Capítulo 3 – Separação
Notas iniciais
Capítulo 3!
Espero que gostem!
Fic feita para a Azumi e betada por ela também!
Beijos
Acendi um cigarro e traguei a fumaça pros meus pulmões após 14 anos sem me importar se minha “esposa” descobriria que eu estaria fazendo aquilo... muito mais dentro de casa.
Akiyou não gostava do cheiro e do gosto, então eu parei de fumar antes de nos casarmos. Me limitando a uma ou duas recaídas por ano... aumentando esse número nas últimas semanas compulsivamente, é claro...
Respirei fundo e olhei o relógio antes de levar o cilindro novamente aos lábios.
Duas horas da manhã. Em meio de semana...
“Vadia...”
Uruha me entregaria o vídeo apenas no dia seguinte, mas sinceramente... eu já não podia mais esperar.
Ouvi o barulho de chaves na porta e me mantive impassível ao vê-la sorridente enquanto adentrava o apartamento e retirava os saltos altos. Sua cabeça se levantou e ela tentou disfarçar a surpresa ao me ver de pé atrás do sofá luxuoso de nossa sala de estar.
–Yuu... acordado a essa hora? Não tem trabalho amanhã? – perguntou com um sorrisinho nervoso, pondo uma feição curiosa e interrogativa ao ver as malas grandes ao lado da mesa de centro – o que é isso?
Não respondi, apenas peguei meu celular e disquei um número.
–Alô, gostaria de pedir um taxi para o apartamento 612 no edifício Plaza Mizuta... sim, obrigado – desliguei após a mulher me confirmar o meu já cadastrado endereço na empresa junto ao meu nome.
–Vai viajar? – ela perguntou num sorriso ainda nervoso, adentrando a sala com cuidado, só então notando um envelope em cima do tampo de vidro na mesa de centro.
–Pegue, é pra você – falei ao novamente tragar meu cigarro, e, sorri de lado ao notar que ela nem mesmo havia me chamado a atenção por a fumar e por fazer aquilo dentro de casa.
“Invisível e indiferente... “
Quando eu havia me tornado aquilo aos olhos dela?
Ela fechou o rosto e pegou o envelope rispidamente, abrindo e retirando as diversas fotos de dentro dele com impaciência. Vi seus dedos tremerem quando os olhos negros identificaram as imagens em suas mãos, estes correndo de uma foto a outra enquanto balançava a cabeça sem perceber.
Akiyou me olhou e eu apenas me mantive ali, seco... mórbido e sem expressão. Estava doendo demais dentro de mim para que eu soubesse como era sentir novamente.
–Os papéis do divórcio chegarão às suas mãos em no máximo duas semanas, espero que tenha um bom advogado entre os seus amantes – fui aquele a quebrar o silêncio incômodo de olhares sem perguntas e sem explicação que trocamos – até lá... eu não quero ficar sob o mesmo teto que você, não quero ao menos ver seu rosto ou ouvir a sua voz se não for estritamente obrigatório.
Ela mordeu o lábio e pareceu rapidamente em dúvida antes de respirar fundo e sorrir de lado. Seco... cruel...
Sem tentativas de explicação, nem lágrimas de arrependimento, ainda que fossem falsas...
–Sabia que um dia você descobriria, demorou bastante... – Akiyou despiu-se do sorriso falsamente confortador e me encarou em seriedade- ... eu realmente te amei Yuu, mas as coisas mudam e você não soube dar valor a mulher que tinha dentro de casa, eu não posso gastar minha vida e o que me resta de juventude me dedicando a uma vida tão sem graça e insossa quanto a que nós levávamos... essa vidinha “perfeita” e que você fantasiou, ser uma dona de casa,esperar o marido chegar do trabalho com o jantar pronto... eu estava sufocando...
–Sua insatisfação ficou bem clara pela quantidade de amantes que o detetive que contratei conseguiu pegar em apenas duas semanas... – a interrompi acidamente.
Ela voltou a sorrir de lado.
–Entendo que queira sair de casa, também acho melhor não nos vermos mais do que o necessário para acertar toda a divisão – assentiu de um modo firme e naquele momento fui eu quem sorriu, divertido, machucado e ofendido, mas extremamente divertido.
–Eu não vou sair do imóvel o qual trabalhei tão duro para comprar... – Respondi a interrogação dela ao meu divertimento e como se fosse planejado o telefone da sala tocou. Andei pausadamente até o aparelho preso à parede e o atendi, sorrindo amplo para a confirmação do porteiro antes de devolvê-lo ao gancho – sim, pode mandar subir – continuei a sorrir assim que desliguei e fui até duas das malas no centro da grande sala, rolando-as até a porta – seu táxi chegou querida.
Assisti com rancor e humor sua feição se torcer numa face totalmente irritada.
–Você acha que eu vou ser aquela a sair de casa? – questionou em ultraje e eu somente voltei a andar e pegar as últimas duas malas, deixando-as mais próximas da porta de saída.
–O apartamento está em meu nome, fui eu quem pagou por ele... não vejo porque eu deveria sair – respondi por fim, voltando a tragar o cigarro esquecido entre meus dedos.
–Vai me colocar na rua? – inquiriu em espanto ao se dar conta de que de fato eu não estava falando nenhuma mentira – a essa hora?
–Se tivesse chegado mais cedo teria tido mais tempo, com certeza há hotéis abertos a essa hora e você é bem independente, certo? Uma gerente tão atenciosa... – dei de ombros em provocação — ... sempre teve suas “amigas” de trabalho... ah sim... na verdade suas amigas eram homens com os quais você trepava... bem, pode pedir abrigo para eles também, opções é o que não falta...
Duas batidas na porta e eu a abri, sorrindo falsamente para o taxista e carregador de plantão ali fora, assim como eu havia pedido.
–Podem levar as malas da senhora para o carro e a levem onde ela quiser – assenti em simpatia.
Os dois homens adentraram o hall com olhares desconfiados, mas discretos, pegando cada um duas malas e saindo porta a fora.
Akiyou bufou exasperada e marchou em passos pesados até mim, estalando sua mão fina em meu rosto numa bofetada.
–Cretino – sibilou entre dentes, antes de se abaixar para pegar os saltos e também sair do apartamento.
–Vadia – praguejei ao ouvir o bater violento da madeira da porta.
Fechei meus olhos e voltei a respirar fundo.
Doía... doía muito...uma vida inteira jogada fora... a sensação de não ser nada, não ser ninguém..... não ter nada... não ter ninguém...
De repente toda a luta de um adolescente órfão para vencer na vida tinha sido completamente inútil.
Solidão, humilhação,e dor...
Caminhei pela sala e peguei uma das garrafas caras do meu bar particular mais ao canto, voltando pro sofá e me jogando neste enquanto terminava o cigarro em minha mão e jogava a bituca restante no cinzeiro em cima da mesinha logo à frente. Virei a garrafa de conhaque de uma vez, sentindo o liquido descer rasgando e minha cabeça se aturdir rapidamente pelo efeito do álcool. Liguei a TV e sorri quando meu dedo passou pelos canais pagos até parar em um filme pornográfico.
A mulher gemia enquanto o ator desconhecido metia nela e eu não pude deixar de me afundar mais numa gargalhada melancólica ao lembrar que aquela performance da atriz se assemelhava muito à minha “querida ex-esposa” enquanto se deliciava com o pinto do Uruha dentro dela.
“Ah Ah Ah Ahh” a atriz gemia... Akiyou gemia...
Virei mais um gole direto da garrafa e apertei minha ereção semi-rígida por cima da calça. Vergonhoso e deprimente para um homem da minha idade...
Eu também havia me tocado daquele jeito quando assisti ao vídeo daquela tarde... vergonhoso... vergonhoso...
“Ah ah ah...” ela gemia... elas gemiam... ele gemia...
Meus dedos adentraram o tecido e o ritmo se tornou mais rápido, mais forte... Aparentemente meses sem consolo sexual haviam mexido com o meu sistema.
Minha cabeça inundada com as imagens daquela tarde... daquele vídeo... a pele branca, alva... o suor e os impulsos... os fios negros tampando o rosto que se esforçava para aparecer o mínimo possível... mas ainda assim os lábios sendo comprimido em prazer...
Ela gemia... ele gemia...
Eu gemia....
A cabeça estalava assim que me dei conta de que estava consciente quando meu celular no bolso tocou. Abri os olhos com dificuldade, mirando o teto da sala... havia caído bêbado no sofá.
“Que ótimo...”
Resmunguei mentalmente, pegando logo o escandaloso aparelho e levando-o ao ouvido sem ao menos ver quem era.
“Yuu?” – reconheci a voz de Akira a muito custo e esfreguei meus olhos com a mão livre enquanto tentava me obrigar a voltar do meu estado incômodo de ressaca.
–Sim?
–Onde você está? Está duas horas atrasado, precisamos de você na reunião de criação do novo projeto de divulgação daquela empresa de cosméticos... – Akira começou a jogar exasperadamente e eu ouvi um tom talvez conhecido também dizer “Ele está bem?” — ...você está bem?
Sorri sem graça, provavelmente a voz fosse de Takanori, já que aqueles dois pareciam estar tão juntos... juntos demais... provavelmente rindo de mim pelas costas...
–Já estou indo, me dê mais meia hora – foi o que respondi, derrubando a ligação e me esforçando para me por de pé. Cambaleei avidamente até o banheiro mais próximo, tirando minhas roupas sem vontade e voltando a cambalear até o chuveiro, abrindo-o e deixando a água inicialmente gelada cair sobre mim enquanto esta se aquecia.
“Idiota...”
Soquei a parede de azulejo.
– Seu desempenho na reunião foi ótimo como sempre, mas poderia me explicar o motivo do atraso de três horas? – o chefe do departamento questionou ao me olhar fixo atrás de sua mesa.
Preferi me manter em pé, por mais que ele houvesse me oferecido a cadeira para sentar, nunca compartilhamos de nenhum tipo de interação que não a estritamente profissional, e até certo ponto horrivelmente tensa e não amigável. Se eu quisesse por algum motivo tolo me abrir e falar de minha vergonhosa vida conjugal para alguém... com certeza não seria praquele cara.
–Particularidades pessoais – respondi em seriedade – peço desculpas pelo atraso, e tratarei de repor o horário hoje mesmo, por isso.. se me der licença, tenho que fazer as alterações que discutimos hoje no projeto ...
–Terei que reportar isso em seu relatório de avaliação de desempenho... – a voz me chamou a atenção e eu não me importei em franzir o cenho para o homem que representava algo como o nível hierárquico depois do meu ali — ... sei que é favorito para ocupar o cargo de assessor da Diretoria geral, mas... como chefe de departamento, eu não posso favorecê-lo...
Sorri de lado em divertimento. Minha promoção no trabalho não era bem um assunto que estava em foco em minha mente.
–Como quiser – assenti, dando às costas e caminhando até a porta de saída da sala que confortavelmente possuía alguma privacidade devido às persianas nas paredes de vidro.
–Sua esposa.... como ela está? – a pergunta me fez parar com a mão na maçaneta de metal e eu me virei em reflexo para mirá-lo.
Um sorriso odiosamente provocativo, totalmente intencional e cheio de significados.
Gargalhei rapidamente em descrença.
Até praquele cara ela tinha dado? Eu pude mesmo ser tão cego e burro?
–Não sei... você talvez saiba melhor que eu? – questionei num olhar divertidamente melancólico – suas filhas sabem que o pai dorme com mulheres dos outros?
–Oh... então você percebeu? – o senhor de mais de quarenta anos rebateu em inquisição, mantendo aquele maldito sorrisinho falso — ... você é um ótimo funcionário Shiroyama-san... tão absorto no trabalho e em crescer... me adoece saber que não vou ter a chance que você tem dentro dessa empresa apenas por minha idade já estar avançada demais...
–Idade avançada que não te impediu de dormir com uma mulher casada – pontuei em escárnio e nojo.
Aparentemente eu havia me mantido cego e alheio a coisas e pessoas demais...
“Idiota...”
–Você não merece tudo o que tem e todas as oportunidades que conseguiu, seu vira-lata ... – ele rugiu de volta e eu só pude sorrir em descrença ao praticamente palpar a inveja ridícula e nojenta que aquele imbecil sentia de um idiota como eu — ... se pudesse, não pensaria duas vezes antes de assinar sua demissão, mas os diretores gostam tanto do queridinho Shiroyama-san do Marketing e Propaganda...
–Não ter poder pra isso ainda que ocupe um posto acima do meu te frustra? – cuspi em morbidade — ... eu não estou nem aí. Acaso Akiyou foi procurar abrigo em seus braços essa noite? Me surpreende as fotos não terem te mostrado como um dos amantes dela... um homem de sorte ou apenas um velho que está bem em comer uma vadia que trepa com caras diferentes todos os dias?
Meu insulto não teve o efeito que eu desejava e me peguei alvo de uma gargalhada gozadora e exagerada. Franzi meu cenho e me segurei para não perder minha cabeça de vez e agredi-lo. Tinha certeza que era isso que ele desejava ao começar toda aquela provocação, ter uma acusação séria o suficiente... eu não continuaria a ser cego e retardado.
–Não sei, você se importava de ser marido de uma vadia que trepa com todos os caras que pode, exceto você? Akiyou-san reclamava tanto do seu desempenho...
Meu sangue ferveu e por um minuto odioso eu me deixei consumir pela fúria e frustração, avançando em passos largos em direção ao homem que se colocava de pé, sorrindo e parecendo esperar somente que eu lhe fizesse algum dano físico para ferrar com a minha vida de vez.
O peguei pelo colarinho e ergui meu punho, certo de que valeria a pena ao menos matar aquele desgraçado ainda que me custasse caro depois. Foi quando o alerta de mensagem do meu celular me fez despertar e eu o soltei no chão, me pondo sob controle...
Não daria aquele gostinho a ele... e nem a ela...
Podia apostar que Akiyou provavelmente quisesse recolher acusações contra mim ou apenas se vingar por eu tê-la expulsado de casa...
A minha Akiyou jamais faria tal coisa, mas a minha Akiyou... talvez nunca tenha existido de qualquer modo.
E aquela mulher... aquela mulher com certeza faria isso.
Respirei fundo e voltei a marchar para a saída, dessa vez não hesitando em abrir a maçaneta e me colocando para fora o quanto antes. Passando pelo departamento lotado de funcionários e indo direto para fora deste ao invés de minha sala, ciente de que olhares e cochichos se faziam audíveis ao meu redor.
Subi até o terraço do prédio empresarial... um terraço sem graça, cheio de fiação de equipamentos. Bati a porta de metal e voltei a respirar, erguendo minha cabeça e abrindo meus olhos para encarar o céu cinza do final de tarde. Tornei a inspirar ar poluído de cidade grande para os meus pulmões e peguei de uma vez o celular que anteriormente havia me salvado de foder com a merda da minha vida de vez.
Estranho que, de algum modo, ver a identificação de “ Kouyou” em minha tela tivesse me causado um sorriso pequeno. Estranho porque...aquele cara não era nada meu, aquele cara era um prostituto, e um prostituto que havia transado com a minha até então esposa...
“Eu já terminei a edição, me avise quando puder te entregar.
PS.: Eu realmente sinto muito por tudo, desculpe causar algum incômodo. Espero que esteja bem”
Meu sorriso se ampliou e eu me peguei gargalhando ridiculamente, sem saber de quê ou porque, mas... era engraçado.... estranho e engraçado...
Aparentemente a única pessoa que, de algum modo, se preocupava com um idiota como eu...era justamente o prostituto que eu havia contratado para trepar com a minha mulher.
–Idiota...
–Boa noite – cumprimentei ao adentrar o quarto reservado no motel, me desfazendo mecanicamente de minha pasta e paletó, deixando-os na poltrona ao lado da entrada e encarando a figura elegante e curiosa na poltrona próxima a cama, do outro lado do quarto.
–Por que alugar um quarto de motel apenas para a entrega de um vídeo?- Uruha questionou diretamente, visivelmente na defensiva ainda que sua voz se mantivesse educadamente baixa e regrada. Ele realmente era educado e gentil demais para ser o que era.
–Akiyou aparentemente está tentando conseguir alguma acusação contra mim... – respondi ao suspirar em cansaço, caminhando até a cama e me jogando nesta. Senti todos os meus músculos tensos reclamarem por tentarem se relaxar tão rapidamente e voltei a suspirar, abrindo meus olhos e encarando o teto espelhado... eu estava literalmente um caco.
Deprimente...
–Ah, entendo... – ouvi sua voz suave e grave assentir e fechei minhas pálpebras em reflexo ao estranho relaxamento que ela era capaz de me fazer sentir... realmente... educado e elegante demais para ser o que é... – verificou se não havia ninguém te seguindo então...
–Sim... meu carro está estacionado há quadras de distância e me misturei com a multidão quando percebi alguém suspeito, está tudo limpo, sou burro mas nem tanto... – rebati em humor negro – o restante do pagamento por seus serviços está dentro da maleta, pode abri-la e pegá-lo, por favor?
Ouvi o som do estofado anunciar que ele havia se levantado e o vi andar até a poltrona ao lado da entrada com minha visão periférica. Me forcei a me sentar e levei minha mão à minha nuca, tentando inutilmente amenizar a dor ali... meu corpo todo doía. A ressaca acumulada da manhã, o trabalho estressante, as palavras ridículas daquele desgraçado e toda a tensão e confusão mental da tarde... eu estava velho demais para tudo isso... velho demais... cansado demais...
–Está certo? – perguntei ao notar que ele não havia contado as notas dentro do envelope antes de guardá-lo dentro do bolso do paletó aberto por cima de uma camisa branca e um jeans escuro.
Elegante e moderno... eu queria ser assim... parecer tão bem como ele.
–Quantos anos você tem? – perguntei, me dando conta de que não fazia a mínima ideia da idade daquele homem... parecia jovem, mas o quão mais jovem que eu?
Os lábios pequenos se abriram num sorriso sem graça.
–Geralmente não digo a minha idade – Kouyou respondeu – mas vou fazer uma exceção para você... tenho trinta anos...
–Mentira – lancei um olhar desconfiado e ele gargalhou em humor, levando a mão ao bolso traseiro da calça, tirando de lá uma carteira e de dentro da carteira uma identidade.
Deu alguns passos para se aproximar de mim e eu aceitei o documento oferecido, lendo o verso com o nome e data de nascimento, junto ao nome de seus pais. Virei a frente e sorri ao olhar a foto sem graça de um jovem de cabelos longos e loiros.
–Esse é você? – questionei, me permitindo um milésimo de diversão ao vexá-lo pela foto.
Uruha deu de ombros e recolheu a identidade, voltando a guardá-la. Eu gargalhei exageradamente e voltei a mirá-lo.
–Você é apenas três anos mais novo que eu... – pontuei em gozação comigo mesmo – eu realmente estou muito acabado...
–Argh... – ele reclamou ao rodar numa estranha expressão de enfado — ...é apenas questão de roupa e cuidados pessoais, você é um homem muito bonito.
Voltei a gargalhar, e dessa vez seriamente me acometi em tal ação.
–Não precisa mentir para agradar seu contratante, o contrato já foi efetuado e você já recebeu o valor combinado – rebati de volta em humor.
–Oh! Mas é importante fidelizar o cliente no pós-venda, seria bom que ele pensasse em mim caso quisesse contratar o serviço novamente — ele voltou a argumentar espertamente.
–Espero que esse cliente não volte a precisar do serviço... – respondi ao deixar meu sorriso escurecer... — mas se precisar, pode ter certeza de que ele só pensaria em você.
Sorri pequeno e abaixei minha cabeça. Voltei a erguê-la e coloquei a figura dele em meu campo de visão.
Uruha parecia incomodado com algo, mas ainda assim se mantinha em pé, parado e me fitando como se pretendesse fazer algo para me consolar, mas se negasse a tal coisa.
Por que eu conseguia lê-lo tão bem? Por que ele me transmitia tanta confiança? Por que ele parecia ser uma pessoa tão boa ainda que tivesse um trabalho daquele?
–Não me entenda mal Kouyou... – comecei a falar ao encarar seus olhos chocolates — ... mas acredite quando eu digo que no momento, você é a única pessoa em que confio...
–P-Por que? – ele questionou num gaguejo notavelmente nervoso e eu voltei a puxar meus lábios discretamente para o lado.
–Você não finge ser o que não é... – respondi ao sorrir de lado — ... e por incrível que pareça... foi o único que verdadeiramente se preocupou comigo... – gargalhei em melancolia. Por que eu estava me abrindo para ele daquele jeito? Estaria tão deprimentemente necessitado daquele modo?
Me assustei quando senti o peso de alguém se sentar ao meu lado da cama e parei de rir quando o vi suspirar pesadamente ao encarar o chão.
– Não deveria pensar algo como isso, não de alguém como eu... – ele censurou seriamente, voltando seus olhos para os meus — ... eu transei com a sua mulher Shiroyama-san, fiz isso por dinheiro, o dinheiro que você teve que me pagar pelo serviço... como pode dizer que confia em uma pessoa assim?
Voltei a puxar os lábios de lado.
–Você é nobre e educado demais pra ser o que é... – suspirei — ... só uma pessoa confiável diria para não confiar nela, não acha? Alguém não cofiável teria tentado me convencer de que eu estava certo e tentaria confirmar minha confiança em si... me enganar.. mas você... por que é tão sincero? Não acho que isso ajude no seu trabalho...
–Eu não finjo ser o que eu não sou – ele interrompeu em evidente defensiva.
–Sim, eu sei disso – assenti ao interrompê-lo também.
–E eu sou um garoto de programas, transo com pessoas por dinheiro... acho que isso é auto explicativo – rebateu como se aquilo de algum modo parecesse fazer sentido naquela conversa.
–Sim, você transa... – dei de ombros, suspirando e voltando a fitar o teto espelhado – não te discrimino por isso... cada um faz o que é preciso para sobreviver, nunca cheguei a tal ponto, mas vim de cidade pequena para a capital, também já tive que me virar... tive sorte e lutei muito para conseguir o que tenho... nunca precisei escolher esse caminho como ultima alternativa, mas ... não acho que seria capaz de me negar a qualquer coisa caso fosse necessário... – mais um suspiro cansado -...não se ache a escória do mundo só porque você vende seu corpo, todos nos vendemos em troca de dinheiro de algum modo... inclusive eu... – finalizei ao me lembrar da discussão com o chefe do departamento. Se não fosse meu receio em estragar o meu padrão de vida e tudo que lutei para conseguir... eu estaria me sentindo melhor se tivesse espancado-o e descontado toda essa frustração irritante nele?
–Você... é diferente do que eu pensei – ouvi sua voz e tornei a sorrir, voltando a olhá-lo nos olhos.
–Como você pensou que eu era? Um bêbado maluco e suicida ou um corno burro e retardado?
–Um homem rico que achava que com dinheiro se vingaria daqueles que lhe causam problemas e apagaria sua dor – ele respondeu.
Inesperadamente me peguei tentando desvendar o que aquelas palavras significavam, mas quando me dei conta havia me perdido naquele olhar tão fixo e transparente. Ele ainda poderia ser apenas alguém muito bom no que fazia... mas eu sinceramente o tinha como alguém que de algum modo... eu conseguia ler perfeitamente por algum motivo estranho.
–Posso fazer uma coisa que não estava no contrato? – os lábios se moveram numa pergunta baixa, quase sussurrada e nenhum de nós dois foi capaz de quebrar o inesperado laço entre nossos olhos.
Eu não sei o que havia dado em mim, talvez fosse a depressão, a falta de rumo, a carência... o cansaço, a tristeza... mas... eu sabia, sabia perfeitamente o que ele estava querendo dizer com aquilo. Por isso fui o primeiro a tomar uma iniciativa e puxar de uma vez a nuca fina para mim, selando nossos lábios em um beijo gentil.
Era a primeira vez que eu sentia a vontade de beijar outro homem... era a primeira vez que eu beijava outro homem... como aquilo poderia parecer tão certo?
Eu não era mais um adolescente confuso... por Kami... eu já tinha mais de 30... e ainda assim...
Sua boca se moldava com tanta perfeição contra a minha que eu receei aprofundar o toque de lábios, mas não suportei, movimentei minha cabeça e ele correspondeu maravilhosamente bem. Elegante, gentil e educado... como ele transmitia ser. Invadi a linha úmida com a língua e adentrei a cavidade molhada com uma lentidão prazerosamente viciante... foi quando encontrei a língua dele ali dentro e esta se entrelaçou tão bem contra a minha que minha mente se pôs completamente em branco, e eu me deixei aprofundar o ósculo de um modo mais desejoso e apaixonado do que eu pensei que fosse possível.
Misteriosamente meu corpo se moveu por si mesmo ao se aquecer e ao levar minhas mãos de sua nuca e da cama para o quadril magro. Minhas pernas se movimentaram para me colocar parcialmente de pé, sem ousar apartar minha boca da sua, quando dei por mim já inclinava meu corpo contra o dele, forçando-o a ir se deitando na cama macia de motel.
O ar faltou em meus pulmões e obrigatoriamente meus lábios tiveram que se afastar dos dele. Ofeguei rapidamente por ar antes de mordiscar a pele do maxilar de traços retos, descendo pela região próxima à orelha até a cútis do pescoço.
–Hum... –ele grunhiu bem baixinho e como se fosse um botão de partida meus dentes ousaram aprofundar mais entre os fios negros e curtos, abocanhando um punhado maior de pele – Não... – ele se retesou e me empurrou para cima com uma força tremenda, me fazendo incapaz de ir contra a pressão para me afastar.
Nossos olhos se encontraram e eu li confusão e medo genuínos no olhar dele.
Foi quando voltei a mim que percebi que Uruha tremia, tremia pavorosamente, como se estivesse diante da coisa mais assustadora do mundo. E foi ao voltar a mim que minha mente também se nublou de confusão e eu me tornava ciente de que estava agarrando a outro homem.
Voltei a me sentar no colchão, ele se levantou rapidamente como se estivesse a fugir de algo no mesmo instante em que fiz isso.
Não quis encará-lo, e ele também não fez nada além de andar desesperadamente rápido para a saída, praticamente correndo porta a fora daquele quarto de motel.
Suspirei e deixei minha testa se apoiar em minhas mãos apoiadas pelos cotovelos em meus joelhos.... o que diabos eu havia feito?
O que diabos eu estava pensando em fazer?
E o mais importante... por que meu corpo parecia reclamar violentamente por não poder saciar todo esse calor dentro dele?
–Idiota...
Notas finais
Mistérios circulando a história!
Algum palpite?
Próximo capitulo já está terminado e o 5 em progresso... realmente postar a fic me pressiona psicologicamente a terminá-la mais rápido....
Provável atualização sábado ou domingo!
Beijo.....
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