Adulterada

2 Elástico


— Você jamais poderá se livrar de mim, Olívia, eu estarei para sempre dentro de você, eu sou parte sua, não tente negar. – o olhos daquele homem eram negros, profundos, janelas de uma alma impiedosa, pronta para acabar com qualquer sentimento bom que pudesse nascer perto dela. – Nada do que você possa fazer irá me apagar da sua vida.

Olívia estava dentro da sua antiga casa, sentia-se fraca e indefesa, a presença dele lhe causava mal estar. Ouvia a voz rouca pronunciar calmamente aquelas palavras, que a atingiam como tiros. Correu pelo corredor até a porta dos fundos, estava trancada. O homem aproximava-se.

Seu quarto era a única alternativa, bateu a porta, trancou-a. As lágrimas percorriam seu rosto, o desespero tomava conta do corpo. Foi até sua cama e deitou, encolhida, como quando ainda era criança e uma noite de tempestade a assustava. Fechou os olhos e tentou esquecer onde estava.

Não sabia por quanto tempo havia dormido, com a visão ainda ruim, olhou ao redor e tentou distinguir as formas à sua volta. Uma rua mal iluminada, da qual ela pouco se lembrava, estendia-se em frente aos seus pés. Eu deveria estar no meu quarto. Havia um carro completamente destruído e muito sangue. Imóvel, seus olhos fixos no vermelho que cobria o chão, ela tentava absorver aquela cena.

Minutos depois, uma voz a fez recuar, alguém ainda estava vivo dentro do carro. Uma voz feminina repetia a mesma frase, que ela só pode compreender quando se aproximou.

— Por que você não me salvou? – a voz saía fraca, carregada de uma dor maior do que a da própria morte iminente. – Você disse que me salvaria, por que não me salvou?

O coração de Olívia batia descompassadamente, várias cenas apareceram em sua mente. Rose deitada sobre a grama, apontando para as constelações acima dela. “Como é possível existir algo tão bonito? Quer dizer, eu sinto como se pudesse ser o que quiser, como se as estrelas me dessem poderes para ser mais do que sou.” Aquelas palavras pareceram fazer tanto sentido, naquela noite. Não havia preocupações ou problemas. Ela sorria, estava feliz. Então tudo simplesmente virou um borrão, a voz de Rose foi se afastando, até se tornar inaudível. “Por que você não me salvou?”

***

O sol entrava pela janela do quarto quando Olívia acordou com o próprio grito. Seu corpo suava e seu coração parecia não caber em seu peito. Sua mente ainda não havia clareado, todas aquelas imagens giravam dentro dela, provas de que nada poderia afasta-la de tudo o que tentava, há tanto tempo, esquecer.

Seus pesadelos ocorriam com menos frequência ultimamente, mas ela sabia que jamais a abandonariam. Aquilo estava impregnado em sua vida e nada era poderoso o suficiente para livra-la disso. Mas, ela não desistiria de viver. “Ele ficaria satisfeito com a minha fraqueza, mas esse não será um gosto que sentirá.”

Ela teve de aprender a ser forte já quando criança e, agora, tinha que continuar sendo, por Martin e, também, por si mesma. Não poderia destruir tudo depois de ter lutado tanto para estar ali. Queria ser livre do passado e sempre acreditou que, em parte, havia conseguido. Mas, seria apenas questão de tempo até ver que sua vida era um empréstimo que seria cobrado anos mais tarde, com juros. Era como um elástico esticado. Graças a ele, ela poderia seguir em frente. Entretanto, uma parte sua havia ficado presa em tudo aquilo que passou e, quando ele não tivesse mais força para leva-la adiante, ela seria arremessada de volta, furiosamente.