Adotada!
14 Sentindo o chão
Bia acordou na manhã seguinte sentindo-se limpa e vazia como um copo que acabou de ser colocado no escorredouro. Contemplou-se no espelho e achou-se bem disposta. O sol entrava pela janela, iluminando o quarto que ela chamava de seu sem reservas, já nem se lembrava do antigo quarto que tivera naquela casa, agora ocupado unicamente pela irmã. Virou-se para contemplar as nádegas marcadas pelas cintadas, naquele dia não iria à escola pois não podia sentar-se, mas a mãe lhe passara algumas tarefas para sinalizar que ela estava de volta à rotina de suas obrigações normais.
Na mesa do café os irmãos ainda pouco falavam com ela, mas Bia estava ciente de que a reconciliação teria que ser gradual. Procurou concentrar-se na arrumação da sala, sentindo com satisfação os cheiros familiares. Não queria nunca mais sentir o cheiro de mistura de cigarro com esgoto da casa de André. Sabia que na casa da mãe, estava na posição inferior ao grau mais baixo, mas sentia-se aliviada por estar ali. Nada lhe pertencia, sentia receio até de tocar os objetos de que tirava pó, só tinha de seu a roupinha batida que a mãe lhe permitira vestir para a faxina do dia, e tinha que ficar descalça na presença dos moradores da casa, mas não obstante, o contato dos pés descalços no assoalho era reconfortante para Bia, pois ao mesmo tempo que lhe ensinava sua posição ali, assinalava que ela tinha chão para pisar. Bia queria sentir o chão. Estava no fundo do poço? Estava, mas isso era bom, pois tocando o fundo do poço se toma impulso para subir...
À tarde, na casa vazia, o serviço feito, Bia procurou colocar os pensamentos em ordem. Pensava nas amigas, nas colegas de escola com quem nunca mais falara desde que fugira de casa, e tinha a impressão de que teria que recomeçar do zero. Mas quando a mãe chegou trazendo-lhe um celular antigo para servir de improviso, Bia quase chorou de alegria. Nunca pensara que um objeto tão simples, mas agora seu, podia lhe dar tanta alegria. Descobriu mensagens antigas e preocupadas das amigas, e a todas respondeu implorando desculpas.
Mas no dia seguinte, rumando para a escola, Bia estava apreensiva. Uma coisa era responder mensagens no celular, outra era olhar na cara. Mas todos vieram vê-la com grande interesse e preocupação.
— Oi, sumida!
— Nossa, que loucura que você fez!
— A gente ficou preocupada, fizemos até um grupo de oração na igreja!
Bia respondeu a todas as perguntas sem omitir nada, e surpreendeu-se ao ver que tantas pessoas ali tinham consideração por ela, sem que antes ela desse o menor valor. Os professores também a cumprimentaram com gentileza, e no recreio Bia foi o centro das atenções. De volta à casa, no jantar, Bia escutou a mãe falar ao irmão:
— Fernando, eu quero que você ajude a sua irmã na escola, porque ela perdeu muitas aulas!
Fernando respondeu afirmativamente sem demonstrar enfado, e Bia ficou olhando o irmão com ternura.
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