Adotada!
6 Novo regime
— Prestem bem atenção, vocês dois! A sua irmã voltou, mas não vai ser para continuar igual ao que era antes! O regime agora é outro. Ela vai ter que pedir licença para usar as coisas aqui em casa, e vocês vão me ajudar a vigiar. Ela vai ter que fazer trabalhos aqui em casa, e todo o dia eu vou colocar a lista na geladeira das coisas que ela tem que fazer, e ela só pode fazer outra coisa depois que terminar!
Fernando e Rosana escutavam muito sérios, sem interromper. A mãe continuou:
— Eu sempre tratei ela igual eu tratei vocês, mas descobri que foi esse o meu erro. A Bia não é igual a vocês, ela teve outra formação, ela é mais dura, não responde ao afeto, não dá valor ao que recebe. Então eu resolvi rebaixar ela, e coloquei em um estágio intermediário entre ser filha e não ser filha. Ela vai ter que conquistar pouco a pouco as prerrogativas que perdeu, até voltar ao estágio de filha. Conto com a ajuda de vocês!
Fernando e Rosana prometeram fazer o que a mãe pedira, e saíram para a escola, deixando dona Silvana sozinha com Bia, que não tinha aula porque ainda não estava matriculada na nova escola. Cansada, mas satisfeita com sua recém-descoberta firmeza, Silvana ficou observando Bia, que fazia a faxina na sala. Procurava se certificar de que estava seguindo o modelo de Marcela, a filha adotiva de dona Lígia, então dera para Bia vestir um vestidinho bem gasto e curto, e mais nada. A apresentação era o primeiro passo para mostrar de forma insofismável a posição que ela teria na casa a partir daquele dia. Procurando relaxar, acompanhou com os olhos o vai-vem dos pés de Bia enquanto ela ia de um móvel a outro para tirar o pó. Era importante que ela estivesse descalça a fim de assinalar bem a diferença entre ela e os demais moradores, parentes e visitas. Sentindo-se vitoriosa, pegou o telefone para conversar com dona Lígia e contar-lhe tudo.
Bia acordara aquela manhã como no dia seguinte a uma tempestade. Notava o céu claro, mas sentia-se vazia por dentro, como se a enxurrada houvesse levado tudo. Era estranho não poder escolher a roupa que ia vestir. Era estranho não poder fazer o que quisesse. Até a casa parecia-lhe estranha, como se nunca houvesse morado ali. Agora estava ocupada na faxina, mas pelo menos não era mais naquela casa imunda com gente entrando e saindo e a tia a berrar-lhe nos ouvidos a toda hora. Mas suas mãos ansiavam pelo celular que lhe fora confiscado, seu corpo ansiava por outra roupa, e também estranhava o contato do chão com seus pés descalços. A toda hora virava-se para contemplar as solas acinzentadas da poeira do chão que não varrera direito.
Como não tinha aula, depois do almoço a mãe passu-lhe mais uma rodada de tarefas que a mantiveram ocupada até a tarde. Volta e meia entrava uma vizinha ou uma amiga, e Bia sentia-se tão envergonhada que os pelos das coxas se eriçavam, mas ninguém parecia reparar nela. À noite os irmãos chegaram e trocaram algumas palavras com Bia, mas o clima ainda estava longe da descontração. Rosana estava satisfeita por ter o antigo quarto de Bia só para ela.
Bia acordou feliz no dia seguinte, pois haveria aula. Nunca pensara antes que teria tanta satisfação ao vestir o uniforme azul e branco da escola pública e cobrir os pés com meias e sapatos. Quando a mãe lhe entregou o celular em mãos, sentiu como se retornasse à vida. Escutou a instrução da mãe para retornar assim que terminasse a aula, e rumou para a escola.
O prédio era bem mais simples que o de sua antiga escola particular, mas Bia não ligou. Olhou ao redor procurando gravar bem as caras dos novos colegas, e intuir com quem ali valeria a pena fazer amizade. Era um grupo bem variado, mas Bia não sentiu saudades dos colegas da antiga escola, pois achava-os muito metidos. Procurou o rosto de algum menino bonito. Difícil encontrar, precisaria de paciência. Os professores pareciam meio desligados, mas simpatizou com um ou dois. Até estranhou como estava bem comportada na classe. Pouco conversou naquele primeiro dia, mas ainda assim, à saída, havia feito amizade com uma menina chamada Leila e um menino chamado Cláudio.
Chegando em casa, a mãe perguntou-lhe como havia sido a aula e quis ver todas as matérias que haviam sido dadas, coisa que ela nunca fizera antes. Mandou-a fazer o dever bem sentadinha na pequena mesa de estudo de seu quarto, e em seguida o uniforme e o celular retornaram ao armário, e Bia vestiu novamente a roupinha de trabalho para a tarefa da tarde: passar roupas.
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