Adorável Vizinho
3 2° - Pobre Matthew
Notas iniciais
Durante o intervalo, peguei meu lanche e me sentei em uma mesa junto do grupinho dos nerds que me convidaram e fiquei conversando com eles.
Notei Matthew entrar no refeitório pouco tempo depois e ir para a fila pegar seu lanche. Uma das líderes de torcida apareceu atrás dele na fila e os dois começaram a conversar, porém ele não parecia tão interessado quanto ela.
E foi aí, que eu tive uma ótima idéia. A colocaria em prática mais tarde.
Meu vizinho pegou seu lanche, se despediu rapidamente da morena e se sentou em uma mesa próxima a minha, junto com um grupinho de garotos novatos.
Então, acho que pela primeira vez, eu realmente prestei atenção nele.
Matthew era branco, com o cabelo bem cortado e castanho escuro, os olhos eram de um castanho claro que chegavam a parecer meio esverdeados dependendo do ângulo em que a luz batia em seu rosto e ele tinha um sorriso lindo, moldados por lábios finos e umas covinhas até que fofas. Estava longe de ter o corpo escultural dos caras do time de futebol, mas ainda sim não era tão magro quanto a maioria dos nerds.
– Charlie? – era Ária, uma garota loira e baixinha que me chamava. Ela estava sentada na mesma mesa que eu, já que sempre andava com aquele grupinho e tirava as melhores notas.
– O que foi?
– Aquele garoto novo... você o conhece? – ela perguntou meio envergonhada.
– O Matthew? Ele é meu vizinho. Infelizmente. – respondi revirando os olhos. – Por quê?
– Nada não. Vamos pra aula? O sinal já vai tocar. – assenti.
(...)
Já dentro da sala novamente, durante uma aula entediante de matemática, eu resolvi por minha idéia em prática. Peguei uma folha de caderno e escrevi:
“Oi Matt, fiquei sabendo que você é novo aqui. Que tal a gente dar uma volta pela cidade e depois irmos para minha casa? Sabe, meus pais estão viajando e só voltam no final de semana.
Beijinhos.
De: Hillary Jackson.
Para: Novato Gato. “
Pedi um batom vermelho emprestado para Ária, que apesar de eu nunca ter visto usando, tinha em sua bolsa, passei e dei um beijo na folha deixando a marca.
Quando notei que Matthew estava distraído conversando com outro novato que estava sentado ao seu lado, pedi ao professor para ir ao banheiro. Quando me levantei e passei pela carteira do meu vizinho, coloquei o bilhete embaixo do seu caderno e sai da sala.
Agora é só ele ler e ver se ele cai na ‘armadilha’.
Se Matthew ficar todo animadinho para cima da Hillary, ele será só mais um garoto babaca que provavelmente vai levar uma surra do capitão do time de futebol que é namorado dela. Mas se ele ignorá-la eu terei a certeza de que ele é gay. Porque quem ignoraria um convite da garota mais popular e gostosa do colégio?
(...)
As aulas passaram se arrastando e quando finalmente o sinal tocou, eu guardei meu material rapidamente e assim que olhei para Matthew, vi que ele lia o bilhete com uma expressão indecifrável no rosto. Ele terminou de guardar os seus materiais ainda com o bilhete em mãos enquanto o grupinho das lideres de torcida ainda estavam todas reunidas no canto da sala, e eu continuei sentada no meu lugar. Elas teriam treino mais tarde, portanto não tinham pressa de ir embora.
Meu vizinho finalmente se levantou, pôs a mochila nas costas e ainda segurando o bilhete, caminhou em direção ao grupo das garotas.
Elas pararam de falar assim que o viram se aproximar, e olharam para ele enquanto enrolavam o cabelo com um dedo e o olhavam de cima a baixo na maior cara de pau.
– Quem de vocês é a Hillary Jackson? – ele perguntou sério ignorando os olhares.
– Sou eu. – a capitã das líderes de torcida ficou na frente das outras garotas com as mãos na cintura. – O que você quer comigo gato?
Matthew olhou Hillary de cima a baixo antes de respondê-la. Ela tinha o cabelo liso e loiro jogados sobre os ombros, usava uma maquiagem exagerada e roupas ridiculamente curtas, deixando a mostra suas pernas longas, sua barriga sarada e um decote que mostrava metade dos seus seios grandes.
– Em primeiro lugar, eu tenho nome. Sou Matthew. E em segundo, você deveria ter um pouquinho de vergonha na cara e deixar de ser tão oferecida. — Matt disse irritado jogando o bilhete na cara da loira e saindo da sala, deixando todos que presenciaram a cena, principalmente Hillary e eu, de boca aberta.
Eu esperava qualquer coisa, menos que ele iria até ela e a chamaria de oferecida!
Ela juntou o bilhete do chão e leu.
– Eu não escrevi isso aqui! – gritou furiosa jogando o papel no lixo e saindo da sala em passos largos, sendo seguida por suas ‘amigas’ nojentas.
Se ela descobrir que foi eu quem escreveu... Ferrou!
Sai da sala quando ninguém mais já estava lá e fui para casa a pé, sem encontrar Matthew pelo caminho.
Assim que cheguei fui para meu quarto e me joguei na cama.
Depois de toda aquela cena, com certeza Matthew é gay. Que desperdício.
Minhas cortinas estavam fechadas, mas por algum motivo, decidi abri-las. Meu vizinho estava sentado na sua cama de costas para a janela e falava no telefone. Eu fiquei sentada na poltrona que havia em meu quarto, com um livro no colo, o observando. De repente ele se levantou e começou a andar de um lado para o outro do quarto, acho que pela primeira vez consegui decifrar sua expressão. Ele parecia chateado.
Quando desligou o telefone, uns dez minutos depois, ele finalmente me notou e deu um sorriso sem graça. Peguei um caderno que estava perto de mim e escrevi.
“Hei!”
Ele riu e pegou um caderno também. Então começamos a conversar.
“Hei.”
“Está tudo bem?”
“Sim. E com você?”
“Yeah!”
“Quer dar uma volta?”
Hesitei por um momento e ele notando minha expressão insegura voltou a escrever.
“Só estou a fim de fazer amigos.”
Eu sorri e confirmei com a cabeça.
“Já estou saindo.”
Em menos de dez minutos, Matthew e eu estávamos chegando a uma praça perto das nossas casas. Sentamos num banco e começamos a conversar.
– Então, você é daqui mesmo? – ele me perguntou.
– Sim, moro em Boston desde que nasci. E você é de onde? Tens sotaque.
– Brasil.
– Jura? Minha melhor amiga mora lá! – contei e notei que eles realmente tinham o mesmo sotaque.
Mesmo que fosse um desperdício Matt ser gay, ele parecia ser um bom amigo pelo menos.
– Que legal!
– Pois é. E porque você se mudou para tão longe?
– Minha mãe conheceu o John, meu padrasto, que mora aqui desde os dez anos, mas que também é brasileiro. Aí de uma hora para outra, ela decidiu largar o emprego e tudo que tinha no Brasil e vir morar com ele aqui, e como eu não tinha com quem ficar lá, acabei vindo junto.
– Ah, entendi. Mas e o seu pai?
– Ele morreu quando eu tinha quatro anos. – Matthew contou, parecendo meio chateado ao falar disso.
Era óbvio que alguma coisa tinha acontecido com o pai dele. Eu precisava mesmo perguntar´isso? Caramba Charlie!
– Me desculpe, eu nem imaginava. – ele sorriu.
– Tudo bem, eu já superei. Faz muito tempo.
Ficamos em um silêncio um pouco constrangedor enquanto observávamos algumas crianças brincarem com seus pais num parque que tinha próximo de onde estávamos.
– Sabe... difícil mesmo foi deixar para trás meus amigos e a minha namorada.
O mundo pareceu para de girar por alguns longos segundos. Namorada? Com ‘A’ no final? Então Matthew não é gay?
– Espera aí! Você não é gay? – eu perguntei para ele, incrédula.
Ele soltou uma gargalhada alta e gostosa de ouvir.
– Claro que não! De onde você tirou isso?
Eu o encarei ainda confusa e com vontade de espancá-lo. Ele estava rindo da minha cara!
– Primeiro você pareceu não dar a mínima a me ver sem calças na noite passada, apesar de que eu não estivesse feito aquilo por querer, e depois ainda se apresentou através das “plaquinhas.” – disse fazendo aspas com os dedos.
– E daí? — ele perguntou despreocupado.
– E daí que se você fosse hétero teria olhado para as minhas pernas e achado muita graça da minha calcinha bege e... – ele voltou a gargalhar me interrompendo. Revirei os olhos e continuei. – E você fez o maior fiasco hoje na escola por ter recebido um bilhete da Hillary te convidando para ir até a casa dela.
Ele parou de rir e me encarou com a testa franzida.
– Como você sabe que ela me convidou para ir até a casa dela?
Droga Charlie! Eu tinha que falar demais para variar.
– Eu... é... tirei essa conclusão pela forma que você falou com ela. E é bem a cara daquela oferecida fazer uma coisa dessas. – inventei me enrolando um pouco com as palavras.
– Uma coisa que eu já sei sobre você ruivinha: não sabes mentir. – ele disse com um sorriso torto no rosto.
– Não me chame de ruivinha! E eu não estou mentindo.
– Por favor Charlie, está escrito na sua testa que foi você quem armou tudo aquilo para me testar. Aí só porque não fiquei todo animadinho e fui para cima daquela garota, você tirou essa conclusão completamente precipitada, de que sou gay. Mas é ruivinha, eu tenho namorada. E você é meio maluca pelo visto. — ele disse me provocando.
– Você que é um idiota! Eu não tirei nenhuma conclusão precipitada, tenho culpa se você se comporta como um cara gay? – disse alterando a voz e me levantando do banco onde estávamos.
– Olha aqui garota... – ele começou também se levantando.
De repente, um homem com uma menina no colo, que provavelmente seria sua filha, se aproximou de nós.
– Algum problema aqui moça? – ele me perguntou, porém encarava Matthew.
– Não senhor, está tudo bem. Obrigado. – avisei e o cara assentiu. – ‘Tchauzinho’ Matt. – me despedi com um sorrisinho debochado no rosto e voltei para a minha casa.
Mas no caminho, aquele imbecil começou a correr atrás de mim e a gritar meu nome.
– Charlie! Volta aqui garota! – ele gritava e eu gargalhava, correndo até chegar em casa.
Desculpe Matt, mas a Charlie aqui nunca vai sair por baixo!
(...)
Mais tarde, tomei um banho e fui para o meu quarto ler um livro.
Eu estava deitada na cama, quase dormindo com o livro em minha cara, quando ouvi de novo o barulho irritante de alguém batendo na janela.
Era Matthew, obviamente.
Assim que apareci em minha janela, ele pegou um caderno e rapidamente começou a escrever, porém antes que terminasse eu fechei minha cortina com força e voltei para a cama.
Pobre Matthew mexeu com a pessoa errada.
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