Adormecidos

1 Capítulo 1


A neve caia lá fora, eu a olhava pela janela do carro, minha mãe estava no volante e meu irmão, Justin, ao meu lado. As arvores estavam cobertas por uma camada branca, eu queria ir lá fora e apenas me deitar na neve, fria mas fofinha. Eu tinha meus fones nas duas orelhas, passava alguma música, quando senti. Uma batida forte no carro, tudo que consegui ver antes de apagar no banco detrás do carro foi, os airbags cobrindo a frente deste.

Tudo estava preto, queria gritar, correr, chamar minha mãe, ligar a luz, acabar com aquela escuridão mas, nenhum som saiu, tentei mais uma vez mas nada. Parei de tentar e comecei a andar em meio a escuridão, parecia que não saia do lugar, comecei a correr, mas parecia que estava correndo parada.

Após algumas horas, as coisas começaram a clarear ao ponto de eu conseguir ver onde estava. Parecia um hospital, havia pessoas deitadas em macas ligadas a bolsas de soro, enfermeiras corriam de um lado para o outro apressadas. Por que estava em um hospital? Me lembrei da batida. Comecei a procurar por Justin e por minha mãe, desviando de todos no caminho, já que, pareciam não me ver. Cheguei na sala de espera. Procurei entre as pessoas ali.

Achei primeiro minha mãe, ela estava chorando sem parar, meu pai, que provavelmente havia sido chamado, estava ao lado dela a confortando mas também parecia ter chorado, meu irmão estava ao lado deles e também chorava.

- Mãe! — gritei mas ela não pareceu ouvir. — Mãe!? — gritei mais alto dessa vez. Nada. — Justin! Justin! Pai! Pai?! — nenhum deles olhou, nem ao menos pareceram ter ouvido.

O que será que havia acontecido? Por que eles estão chorando? Por que nenhum deles me ouve? Eu parecia invisível. Girei meu corpo na tentativa de me perceberem até ficar tonta e cair no chão, nem assim me viram ou me olharam. Comecei a chorar, não queria ficar invisível, impercebível. Um homem com um jaleco branco e calças pretas veio até a sala. Era um médico, provavelmente, minha família olhou para ele. — Sinto muito mas, parece que ela ficará em coma. — quando ele começou a falar isso minha mãe desabou de novo, a cena de quando eu havia chegado se repetindo mas, dez vezes pior.

-Por quanto tempo? — perguntou meu pai. Ele parecia mais cansado e mais velho.

- Ainda não sabemos. Pode ser por horas, dias, semanas, anos. Teremos de esperar.

- Posso vê-la? — perguntou minha mãe, era a primeira coisa que ela tinha dito.

- Claro, me acompanhe.

Ver quem? Quem está em coma? Se eles não iriam me ver, eu iria segui-los e foi o que eu fiz, eles entraram atrás do médico no quarto. O quarto era bonito, tinha um TV na parede clara, uma janela grande, um sofá e uma poltrona, uma mesa de cabeceira, uma cama e nela alguém, quando olhei melhor era eu. O que estou fazendo ali? Se eu estou aqui por que estou ali? O que? Aquela não sou eu.

- Eu estou aqui!Olhem! — gritei para eles mas, olhando para minha mãe, que estava sentada em uma cadeira ao lado da cama, pegando minha mão, eu acho. Quando ela tocou na mão, senti o toque. Era como se estivesse em dois lugares ao mesmo tempo. Continuei parada na porta, olhando a cena estranha. Uma mulher, enfermeira, entrou no quarto, passando por mim, literalmente! Era como se eu fosse uma fantasma. E se eu sou uma? Meu mundo pareceu desabar. Eu estava em coma mas meu espírito estava fora, ninguém conseguia me ver mas eu os conseguia ver e sentir quando tocavam meu corpo inerte. Caí de joelhos no chão chorando, pensei em Ethan, como será que ele reagiria a notícia? Ethan e eu namoramos a mais de dois anos, ele não demonstrava muito mas se importa comigo. Ouvi minha mãe falando baixo, como se estivesse ao meu lado, conseguia ouvir claramente. Ela falava que era tudo culpa dela, que nunca mais se perdoaria pelo que houve.Como poderia ter sido culpa dela? Acidentes acontecem toda hora.

Tudo que eu queria fazer era gritar, consola-la, chorar, abraçar minha família, e o fiz, abracei cada um, mesmo eles não podendo sentirem.

Após alguns minutos de choros e consolos, eles saíram e eu fui atrás, sem me importar em desviar das pessoas, ainda era estranho mas o que eu poderia fazer?

Eles saíram pela porta, quando fui sair, bati de cara com algo,tentei de novo, bati mais uma vez, tateei o que esbarrei, parecia uma parede, uma parede invisível. Ótimo, não posso mais sair? Tenho que ficar presa ao meu corpo. Aquilo estava parecendo os filmes e livros que eu lia mas, nunca achei que isso poderia acontecer mesmo, para mim, era tudo ficção, até agora.

Me conformei que não poderia ir embora e dei algumas voltas pelo hospital. Pessoas estavam deitadas em macas, ligadas a soros, algumas choravam ou dormiam.Enfermeiras empurravam cadeiras de rodas, algumas pessoas choravam na sala de espera, um médico tentava reanimar um paciente em um dos quartos. Os enfermeiros anotavam a hora da morte. Tudo era triste, aquelas pessoas morrendo, e eu aqui, sem poder fazer nada, apenas assistindo.Será que eu tinha de comer ou dormir? Estava com uma sensação de vazio mas não queria que, na hora de comer não sentisse o gosto ou na hora de dormir, ficar acordada por horas e horas, entediada.O vazio no meu estômago começou a aumentar e a se manifestar.

Fui até a lanchonete, as pessoas passando por dentro de mim, demorou algum tempo até eu conseguir pegar algo sem deixa-los passar por entre meus dedos,escolhi alguns pãezinhos de queijo e tirei algum dinheiro do bolso da minha jaqueta preta e deixei em cima do balcão, não sabia se elas podiam ver mas, me parecia errado roubar mesmo sendo espírito. Voltei ao meu quarto, liguei a televisão, passava alguns filmes de terror,comecei a assistir mas depois me levantei e fui até meu corpo. Ainda estava com a mesma roupa do acidente, uma jaqueta preta, calça jeans também preta e uma blusa cinza meio transparente,meu cabelo estava sujo e desgrenhado, havia alguns cortes em meu rosto mas nada sério.Havia sangue seco em minhas unhas.

Toquei em minha mão, estava fria como a de um morto mas mesmo assim, conseguia sentir. Continuei o filme, acho que adormeci, era mesmo possível porque, quando abri os olhos já era manhã. A TV estava desligada, olhei para mim,Ethan estava ao meu lado, deve ter vindo assim que amanheceu, ele me olhava com pena. Seus cabelos e seus olhos castanhos me prendiam a atenção, ele vestia uma camiseta branca e um jeans azul escuro, como eu queria toca-lo, beijar seus lábios, mas não podia e isso me matava por dentro. Ele segurava minha mão, sua pele estava quente, seu rosto parecia um pouco molhado e seus olhos estavam vermelhos, deve ter chorado.

Após alguns minutos ele saiu do quarto, fiquei esperando algumas horas, mas ele não voltou, me perguntei aonde ele teria ido, não disse nem adeus ou tchau. Será que ele vai voltar amanhã. Era horrível ficar presa a esse hospital, sem poder saber o que acontece no mundo exterior, sem ver minha família. Dei um passeio maior pelo hospital, achei uma sala do tipo, recreação, tinha alguns brinquedos, roupas, fantasias e, o melhor, um piano,preto, amava tocar piano. Corri até ele e me sentei, comecei a tocar uma das muitas músicas que sei. Não sei se alguém pode me ouvir tocando mas não vou parar por causa disso. Continuei tocando, ninguém parecia ouvir então, continuei. Toquei umas cinco músicas, entre elas, uma que eu mesma compus.

Quando parei, olhei para o relógio, devo ter tocado por algumas horas, já era quase noite. Olhei ao redor da sala. Havia alguns brinquedos e jogos de tabuleiro, fantasias,sapatilhas de balé, nada que me interessasse. Sai da sala e continuei andando, não havia muita coisa que eu poderia fazer.

Fui até a lanchonete, peguei uma fruta dessa vez, deixei o dinheiro e voltei pro quarto. Ninguém mais tinha me visitado hoje. Mexi no bolso da jaqueta, procurando meu celular, não achei, devem ter guardado. Andei até o atendimento, entrei lá e comecei a procurar, nada. Fui até o fundo, havia um monte de armários fechados.

Comecei a procurar, colocando minha mão la dentro e puxando para fora, se não fosse o meu, guardava de volta, e fiz isso mais vezes até achar.

- Finalmente! — gritei quando achei,olhei o que eu tinha ali, meu celular, com metade da bateria, meu fone, uma cartela de chicletes e um pouco de dinheiro que tinham tirado. — Ainda bem.

Comecei a olhar minhas mensagens, algumas de Ethan, outras de minhas amigas. Coloquei o fone, escolhi uma música qualquer e comecei a dançar enquanto cantava pelos corredores, sem me importar com os outros passando por mim. Tirei o fone e deixei a música tocar, no último volume. Fui para meu quarto, a música ainda tocava e eu me mexia conforme o ritmo. Ao entrar, passei meu olhar por mim e vi minha mãe ali.Parei e desliguei a música.
Ela estava chorando e segurando minha mão, como não tinha sentido o toque? Acho que estava muito ocupada e distraída. Fiquei ao seu lado, ouvindo claramente o que ela dizia.

- Sinto muito filha, é tudo minha culpa. — ela dizia. — Você vai acordar logo, e tudo vai voltar ao normal.

Tomara mãe.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.