Adormecida em Palavras

1 Pequenos Fragmentos (Prólogo)


Para sermos do bem é preciso conhecer o mal e saber que ele está adormecido ao nosso lado, pronto para nos atender quando chamado. Precisamos estar atentos e saber filtrar nossas atitudes, pensamentos e palavras para que ele não seja despertado.

O acordar é a parte mais difícil da minha dura existência. Abro os meus olhos, forçadamente, e ainda vejo a sua imagem a rodopiar dentro da minha cabeça. Elas dançam e serpenteiam para cima e para os lados, implorando para que eu volte a fechar os olhos e que o sonho possa ter a sua continuação. E diabos, como eu quero que aquilo aconteça. Mas sou traído pelos meus sentidos, todas as madrugadas, por aqueles que pensava que podia confiar, os meus olhos, o portão dos que dizem que ainda possuo alma. Digo isto porque deixei de ter alma, a partir do momento que deixei de poder amar. Não deixei de amar devido a um gesto mimado de dizer sim ou não. O destino assim o ditou.

A solidão costumava ser um amigo de conveniência, daqueles que se chama para fazer o nosso coração realçar a dor de não ter ninguém. Mas mesmo esse amigo aliou-se ao destino, ganhando uma nova forma mais mortífera. Fugir das suas garras, que sabem a inferno, tornou-se algo que deixei de poder fazer. Ao mesmo tempo que fugia do demônio, os fios do destino paralisavam-me. Entrar em pânico era a coisa mais agradável de tudo o que sentia quando a solidão me despedaçava cada parte de mim, que ainda conseguia amar.

Olhos cegos e gritos mudos. A minha visão transmitia o que os meus pulmões tentavam transmitir, porque falar pela boca era-me impossível. Mas nem isso me garantia uma segunda oportunidade. Errara bastante na vida. O destino decidiu ser implacável para mim.

Não sabia conhecer-me. Mas talvez tenha sido essa questão que fez com que o destino decidisse que eu apenas devia existir para amar-me a adormecer.

Nunca entendi a vida, até tê-la arrancada. Arrancada pelo destino. Destino. Esse egoísta ser que manipula a vida de todos como bem lhe apetece. Manuseia os seus fios, para bens de uns, e para mal de mim. Decidiu, um dia qualquer, que eu tinha que deixar de amar. Obedeci, esperando uma recompensa que durasse mais que o meu existir. Mas além de egoísta, decidiu também ser hipócrita.

Caí em mim, no momento do juízo final. De joelhos, encarando o chão, veio novamente aquela sensação que adormecera o meu corpo numa harmoniosa onda de calor. Nunca soube o significado do amor, ou para que ele serve, porque nunca aprendi a usá-lo para os outros, mas sim, para fazer o meu corpo sonhar, num coma aprazível que durava apenas oito horas e que demorava mais um conjunto delas a voltar.

Aqui ando eu, vagueando o meu ser pelos labirintos de uma cidade adormecida, que outrora me dizia tudo. Sou um fantasma para os que me conhecem e os que ganharam curiosidade em me conhecer. Esses rostos desconhecidos encaram-me, esperando uma resposta, uma resposta qualquer, que sou incapaz de dar. Porque deixando de amar, deixas de te importar pelas coisas.

O amor passa, a amizade volta, mesmo depois de ter adormecido um certo tempo. Uma pessoa pode passar a vida inteira adormecida. Eu estava adormecida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.