Adormecer antes das seis
1 Criaturas curiosas
Notas iniciais
Podia ver vultos se mexendo, sombras sorrindo e sentir as coisas respirando, como os pulmões gastos de um velho.
Esquecera-se de como era andar do lado de fora ― com a terra viva sob as solas dos pés descalços e o vento gelado encontrando seus joelhos. A força das coisas era tão intensa que complicava a assimilação do mundo ao seu redor.
Antes, deslizava por uma corrente de cheiros e sons e algumas vozes; com pássaros assoviando em algum galho, chaleiras sendo tiradas do fogo e pessoas rindo ao virar uma rua, descer uma escada ou escalar uma árvore. A nitidez havia abandonado o mundo e as nuvens escuras e frias escondiam as estrelas no céu.
O som de uma respiração cansada ali perto denunciava outra presença. O garoto estava agarrado à espada, resistindo ao sono com uma triste dedicação. Não entendeu muito bem por que ele simplesmente não deixava que sua mente fosse abrangida com a mais bela das serenidades.
Aproximou-se. Sem que nenhum barulho fosse feito, o vulto do garoto levantou a espada em sua direção, deixando a ponta mortal a poucos centímetros de sua barriga. Era um aviso simples e claro para manter distância.
— Não precisa disso — murmurou encolhendo os ombros e com a voz recheada de sono. — Eu não sou ameaça pra você.
Percebendo que não era mentira, Nico baixou a espada ― mas não a guarda. Estudou-o com cautela e desconfiança, direcionando sua atenção para todas as pequenas reações.
Clovis temia mais por não enxergar, do que por não saber se defender. Talvez fosse ridículo e imprudente, ainda assim, deu mais um passo sobre o chão úmido e sentou-se ao seu lado. Não muito perto, não muito longe,mas o suficiente para ouvir o som do ar mal coordenado que os pulmões expulsavam por sua garganta.
Logo a curiosidade tentou lhe aguçar os sentidos. Os olhos se arregalaram, os ouvidos se dedicaram a escutar e o nariz buscou, com tanta discrição quanto pôde, algum cheiro que fosse novo.
Gostaria de ver o rosto dele, a cor do cabelo e o formato do queixo. Talvez tivesse longos fios ruivos na cabeça ou uma cicatriz na bochecha ou lhe faltasse metade do braço. Tristemente, ainda não tinha como saber.
— Você parece cansado — murmurou, sentindo que o sono dele lhe afetava. — Devia dormir.
— Cale a boca.
O garoto tinha uma voz rouca, baixa e de tom hostil. Era novidade para seus ouvidos, mas chegou a acreditar que poderia tê-la ouvido antes e o som tivesse sido cravado como uma sensação de medo no estômago. Apesar disso, gostava da maneira com que flutuava no ar, como gostava de alguns pesadelos.
Era voz para canções de ninar. Se fosse menos medroso, pediria a ele para cantar uma ― mas sabia, por saber, que o outro não receberia o pedido com tolerância. Talvez ele até possuísse uma, o que seria ainda mais agradável.
Conhecera muitas canções de ninar ao longo da curta vida. Em diversas línguas e sobre muitas coisas. Todas elas encantadoras. No entanto, não possuía uma que fosse apenas sua.
— Me responde uma coisa? — perguntou Clovis, em baixo tom, arregalando os olhos. — O que é que tem no escuro?
Ele não lhe respondeu. Não parecia mesmo ser uma pessoa de falar muito. Na verdade, parecia ser exatamente o oposto disso.
O silêncio se estendeu por um tempo tão longo que achou que fosse ficar sem uma resposta. E isso não o surpreenderia tanto, para ser sincero.
Lembrou-se, naquela falta de sons, que já não sabia mais contar o tempo. Ele fluía e passava; apenas isso era de seu conhecimento. Quem sabe fosse, afinal, coisa de tolos ficarem contando o tempo.
— Depende — sua voz se montou no sossego, cansada como antes, mas a aspereza a abandonara. — Do que você tem medo?
Clovis sabia que era estupidez das grandes contar seus medos à pessoas com sono. Todavia, era curioso o suficiente para aceitar ser um pouco estúpido.
— De muitas coisas — sussurrou.
— Todas essas coisas existem no escuro.
— São muitas — protestou, arregalando os olhos de novo. — O escuro parece pequeno demais para todas elas.
Nico demorou a falar de novo. Porém, enquanto a demora se desdobrava, desta vez tinha quase certeza que ele iria dizer algo. E, de fato, sua fala baixa incisou o silêncio:
— O escuro é uma estrada e, como todas as outras estradas, leva a algum lugar ou retorna a outro. E nunca vi estrada pequena, se quer saber.
Tinha medo do escuro. Entendia isso agora.
“Só estúpidos dizem seus medos a pessoas com sono” lembrou-o a voz que sempre tentava impedi-lo de fazer bobagens. Optou por ouvi-la desta vez, porque ele estava com sono e conhecia o escuro suficientemente bem para gerar problemas.
Sua desconfiança, antes tão grave, agora diminuía ― embora ainda estivesse ali, rondando suas reações, como um animal rodeia um grupo de zebras, em busca da presa mais fraca.
Como não percebeu a ameaça, Clovis concentrou-se em fazê-lo dormir. Atravessou suas resistências, depois pulou e dançou por entre os tecidos negros de sua mente, rodopiando com seus fantasmas, sem de fato conhecê-los.
Via coisas e sentia coisas.
Sentia medo.
Ele tinha segredos e uma coroa que ninguém podia ver. No fundo de um lago escuro, ela reluzia sua desesperadora grandiosidade com a veemência de um milhão de luzes. Se fosse corajoso o suficiente, mergulharia apenas para vê-la de perto, contudo, mesmo que agora soubesse melhor das coisas, ainda tinha medo.
— Eu não quero dormir. — O menino chutou sua canela com força.
— Meu pai diz que todos precisam dormir. — Ele resistia bem; poucos o faziam. — Você devia saber disso.
— Seu pai... é tão desprezível como os outros deuses.
— Por vezes — murmurou, observando atentamente as águas daquele lago —, você entrega seu ódio para as pessoas erradas.
— Eu mandei parar.
Em suas palavras, o garoto colocou o tom certo de autoridade e uma porção bem calculada de ameaça para lhe causar medo. Obteve notável sucesso.
— Desculpe.
Por mais que a curiosidade lhe corroesse, afastou-se; Nico parecia sentir sua presença e não se mostrava nem um pouco contente com ela. Seus pensamentos compunham um terreno perigoso, com entranhas suspeitas e arriscadas. Não era tolo o suficiente para chegar mais perto e correr o risco de ser engolido. Acabaria se afogando.
— Eu não quero voltar pra lá — sua voz era de quem lutava, mas enxergava a derrota. Sabia o que estava por vir e, mudamente, lhe fez um pedido.
Clovis sorriu:
—Não se preocupe, não sou tão estúpido assim. Se eu chegasse perto demais, sua mente me engoliria e me cuspiria pirado.
— Se você chegasse perto demais, não haveria opção de retorno, isso eu garanto.
— Tudo bem — murmurou, abraçando os próprios joelhos para se proteger do frio. — Durma agora, chega de ficar com os olhos abertos com medo de seus pesadelos. — Queria ver seu rosto. Gostava ver as coisas. — Eu vou guardar seus sonhos pra você, Vossa Alteza.
Relutante a confiar no que dizia, o garoto adormeceu.
Com frio e com medo do escuro, Clovis tentou não ver as demências e profundezas de sua mente; seus desesperos, medos e inseguranças; seus segredos e todos os fantasmas que ele andava evitando.
Prometera ficar longe e, ainda que sua curiosidade lhe implorasse de joelhos para espiar mais um pouco, não o faria, pois ele, sendo astuto como era, não demoraria a descobrir sua ousadia. Não desejava aborrecê-lo, pois se ele retrucasse a invasão com aborrecimento não seria boa coisa.
Além disso, era de fato um rei. Não se deve quebrar promessas feitas a um rei.
Semideuses não evitam sonhar, normalmente. Ele evitava. Esquivava-se, lutando até o último segundo e procurando águas calmas onde se esconder; um lugar seguro para onde fugir. Raramente encontrava.
Era uma criatura curiosa. Por isso mesmo (e porque gostou de sua voz), levou-o para longe de seus abismos. Não podia lhe dar sonhos, não ainda ― ele era muito problemático para sonhar. Mas lhe era permitido afastá-lo dos pesadelos.
Naquela noite, pela primeira vez em muitas noites, Nico di Angelo dormiu tranquilo.
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