Adopted Children
3 Capítulo 3 - Chuva.
Notas iniciais
OBS: Peço desculpas desde já para quem achar que alguns detalhes desse capítulo forem fortes, eu tinha que ter alguma explicação para o desenrolar da história, então... Nem se liguem.
Londres, Construções S&A.
FUGIR
A palavra ecoava como bala na cabeça do pequeno, aliás, uma bala o atormentava também. Escondido sob o jogo de sombras de um prédio abandonado, o moreno caía de bruços mergulhado em sangue e lágrimas, os braços frágeis tentavam alcançar um pequeno objeto de vestuário laranja, uma faixa também respingada de sangue.Não era ralho tentar alcançar, era mais uma exigência ele conseguir. Ainda que se arrastando, ele sorriu com o objeto em mãos, uma faixa alaranjada que era na sua maioria surrada.
Soltou um grito de dor quando tentou se levantar a todo custo. Decidiu ignorar a dor e se levantou com dificuldade, ainda que segurando no pilar da construção. Cuspiu um pequeno respingo e continuou andando, tropeçando de vez em vez ate que alcançou um buraco na parede e viu o sol. Estava tanto tempo no escuro que seus olhos arderam com a claridade morna. Cambaleou para fora e se viu perdido nas ruas estreitas daquela parte da cidade. Suspirou caindo no chão, tinha saído do forno e ido direto para a frigideira...
— O que foi? — escutou uma voz masculina perguntar. — Já vai bater nele? É só um pirralho...
— É isso que torna as coisas mais divertidas.
— Você é maluco, cara. — murmurou o primeiro. — E se ele morrer?
— Ninguém vai sentir falta, é só um moleque de rua...
— Sádico... — sussurrou meio emburrado.
O moreno pasmou, não queria voltar para o escuro e ser espancado outra vez. Correu meio que em dificuldade, esperava achar a saída e viver. Tinha fugido de casa, decisão não muito sábia quando se tem apenas cinco anos, mas aqueles dois garotos mais velhos tinham decidido fazer de sua vida um inferno, batendo e esmurrando ate que ele caísse inconsciente no chão, o mantendo ali para o dia seguinte.Estava farto, doído e furioso. Quem aqueles filhinhos de mamãe pensavam que eram? No mínimo exterminadores do futuro. Pensava em matá-los e destruir tudo a sua volta, mas a timidez o impedia, além de que eles haviam mostrado que eram fortes, mais de uma vez.
Um som fino e perturbante cortou o ar, os três pararam para identificar de onde, mas tudo o que existia era o céu límpido e a fábrica abandonada, isso estava estranho... Agora, um grito ensurdecedor foi ecoado através das paredes de metal. O moreno reconhecia aquele barulho de antes, arregalou os olhos quando se lembrou de onde, o barulho que tinha ouvido em casa, o que o fazia temer, o barulho da morte.
Temia pela vida, temia por tudo... Não ficaria ali! Correu o máximo que podia, ainda que ferido e encharcado de sangue, seu sangue. Tinha medo ate da própria sombra, não poderia se dar o luxo de relaxar... Não com aquilo, não com... Sua vida. Na tentativa de correr, tropeçou em algo no chão, os olhos se voltaram para a carcaça dos dois garotos sem olhos, engatinhou mais para trás e topou com um homem de capa verde que o olhava irritado, mal os olhos foram piscados e ele já corria assustado.
Aquela figura o amedrontava bastante, já que olhava com cara de poucos amigos e tinha olhos aperolados que o lembravam do avô. Espantou o pensamento e se escondeu em um armário em um dos sets dali, agora era uma boa hora para lembrar do avô, não que ele quisesse ou tivesse escolha, aquele momento ainda estava lúcido na sua memória, era único e não tinha como esquecer, nem com qualquer terapia.
O sol raiava muito alto, os alunos do fundamental brincavam do lado de fora com brinquedos e outras coisas como se nada mais importasse. Mas havia de ser assim, nada era dividido com eles e não tinham com o que se preocupar, era como ganhar férias por dois ou três anos. Um grupo mais afastado brincava de roda, entre eles o próprio moreno que ainda nem se quer pensava que sua vida iria mudar, apenas na porção do dia, ainda neste.
— Entrem, seus pais já irão chegar. — chamou a professora de óculos.
— Hai Tsuna-sensei! — gritaram em coro.
O moreno sorriu apanhando a mochila e saindo antes de todos.
— Tsuna-sensei! Ele ta indo só! — avisou uma fofoqueira na sala.
— Hun? Ah! Boa sorte Mamoru-kun. — sorriu e o moreno acenou correndo pra casa.
— Não é justo. — emburrou cruzando os braços.
Mamoru saiu em disparada, o avô disse que estaria voltando hoje de um campeonato internacional e que queria vê-lo em casa são e salvo, nada de jogadas de bola perigosas ou tentativas frustrantes de imitar o avô em força e tamanho. Tinha orgulho de como o velho era bom, das jogadas sensacionais que ele e seu time faziam em jogos no mundo á fora, algo tão mágico e tão esplêndido, queria ser igual. Avistou a casa tão grande e bonita do vizinho e logo ao lado a sua, um casa verde com um jardim bem grande e a porta laranja, girou a maçaneta e notou a sala.
— Oji-san. — chamou deixando a mochila cair na entrada da sala.
— Olá, Mamoru! — sorriu abraçando o avô. — Como esteve sem mim?
— Bem. — pulou animado. — Vocês ganharam de novo?
— Pode se dizer. — murmurou com um sorriso terno. — O que quer almoçar?
— Onigris! — gritou e o velho olhou feio. — Hun... Rámen.
— Ok.
O almoço seguiu animado, com uma ou outra brincadeira da parte do mais velho que divertia o neto, nada mais. A noite chegou tão rápido que os dois já estavam esgotados, então subiram para dormir. O mais novo se mexia na cama como se tivesse um mal pressentimento, mas encarou tudo e dormiu. Mas a noite reservava um surpresa... Ele acordou no dia seguinte, notou a falta do café na mesa e suspirou com um sorriso divertido na cara, aproveitaria para acordar o avô dorminhoco como todo bom neto.A porta do quarto branco estava trancada, estranho, pegou a chave reserva debaixo do carpete e abriu cautelosamente, para não acordar o jogador estrela antes da hora, mas a cena o chocou.
— Oji-san! — gritou.
O jogador de futebol estava estirado no chão, morto, completamente fora de circulação. O garoto começou a lacrimejar e finalmente chorar, como ele não pode ouvir um barulho? Chorava sob o peito do adulto quando algo vermelho pingou em seu nariz, subiu o olhar e notou uma frase escrita na parede, ao que tudo indicava, de sangue.
"In solitude one is born, the one is bathed in blood ... This box is marked, live while you can."
Na solidão apenas um nasce, o escolhido é banhado em sangue... Esta casa esta marcada, viva enquanto pode.
Os olhos do moreno perderam a cor, que droga era aquela? Seu avô atirado num chão branco, as paredes cheias daquela mensagem escrita em sangue, isso era algo que só se via em filmes... Um barulho fino e perturbante encheu o quarto e uma silhueta apareceu envolta na escuridão. Exibia um sorriso e com uma ventania desapareceu, o moreno pegou a faixa laranja e se mandou, caso aquilo aparecesse ali de novo ele estaria morto... Chorava correndo sem rumo quando topou com uma garota de olhos violetas e caiu.
— Não olha por... — parou olhando o sangue na camisa branca do garoto no chão. — O que aconteceu? De onde veio esse sangue?
— Sai! Eu não quero ajuda! — gritou se afastando.
— Afe, que grosso. — resmungou cruzando os braços, ela era mais velha.
Os olhos diminuíram quando fitou a figura no alto de um poste, aquela droga estava o seguindo?
— E-Eu tenho que sair... — murmurava engatinhando para trás.
— O que foi? — olhou assustada para o pequeno ensanguentado.
— Sai! Para de me seguir! — reclamou levantando em meio a cambaleadas e correndo para longe.
— Espera! — gritou sem sucesso, o moreno havia corrido. — Droga... Aqui esta ficando maluco...
Para sua surpresa, a garota avistou uma figura risonha pulando alguns prédios, que droga estava acontecendo?
— Sai! — gritava para as pessoas na frente enquanto corria e caía, mas levantava.
— Parado aí seu moleque. — mandou um garoto alto puxando Mamoru pela cola da camiseta. — Vamos ter uma conversa sobre boas maneiras...
Apartir daí ele foi levado para a fábrica e espancado sem parar, morria de fome, mas as correntes o seguravam, era como um condenado que preferia morte á aquilo. E teve? A cada dia odiava mais e mais aqueles dois, mas a figura desapareceu e parou de segui-lo, bom sinal. Estava acostumado com o escuro, algo tão familiar que parecia abraçá-lo como um filho, era como um segundo pai...
Os passos ecoaram no set, ele havia sido descoberto. Saiu do armário como a criança assustada que era e correu, tudo se baseava em correr... As lágrimas caíam e eram pisadas, precisavam serem esquecidas, não importava como e nem de que maneira. Os céus pareciam concordar e uma chuva intensa se iniciou, as pisadas espalhando água e o choro sendo coberto pelas gotas, uma combinação fatal. Os olhos pousados na esquina pareciam vibram com a saída, mas era uma cilada, um lugar sem espaço para escapar... Sentou no chão esperando o fim, um fraco covarde não merecia viver... Tinha deixado o avô na casa e fugido, não tinha feito nada além de correr e se esconder, que raios de vida era aquela? Decidiu se deixar ser morto. Uma onda de frio o atingiu, não só pela chuva, mas por uma respiração, os olhos foram abertos e lá estava a garota, os olhos lilases e a capa preta de chuva, sua respiração estava poucos centímetros da dele, mas ele abriu um sorriso.
— Por que não me mata? Estou me dando de corpo e alma. — debochou caindo para trás.
— Eu bem que poderia. — murmurou sentando em um barril. — Mas você é fofo demais, droga!
— Já olhou minha cara? — apontou para o rosto. — Eu não valho nada. Vá embora.
— Que mal agradecido, a gente vem ver se ele pelo menos sobreviveu e recebe patada.
— Vá embora! — gritou com todas as forças. — Se não esta aqui para me matar, vá embora!
— ... Você estar esperando ser morto tem a ver com seu avô?
— Saia daqui! Você não tem direito de falar do Oji-san! — vociferou pendendo para trás.
— Seu moleque atrevido! — Retrucou. — Não tem nem a metade da minha idade e sai falando assim!
— Saia! — gritou derramando lágrimas. — Saia... Eu não a quero aqui!
— Seu... — grunhiu fechando os punhos.
— Saia, desapareça... Eu quero o cara que veio me matar, não você!
— M-Matar? — repetiu. — Isso é sério?
— Man-san...
Os olhos fitaram a figura no alto da torre de ferro que sorria como sempre, agora parecia uma garota de cabelos pretos e olhos amarelos, estava ali para matar ele? Inconscientemente deu um passo para trás mas voltou encarando, merecia aquilo de uma forma dura ou fácil. No entanto, a mulher desfez o sorriso e desapareceu.
— O que foi?
— Desapareceu, Man-san desapareceu...
— Man? Quem é?
— Ela não me matou... Eu não mereci morrer?
— Você não ta falando coisa com coisa.
— Desapareceu... Man-san...
— Para! Quem é Man?
— Endou Mamoru? — o moreno assustou-se ao ouvir seu nome inteiro. — Estou aqui para lhe buscar.
— Você é amigo da Man-san?
— Man? — repetiu atordoado. — Não, sou Renshi do Departamento.
— Ah...
— Um moço do Departamento? — fitou a garota. — Você é bem velho...
— E enquanto a você?
— Ah! Eu tenho pais, moço!
— Bem, vamos Mamoru-kun.
— Até, Girl-san! — acenou e a garota caiu.
— É Andy! — gritou fechando o guarda-chuva.
Os céus pararam de chorar, "Man" havia desistido de lhe matar e ele havia ficado com um buraco no peito, aquele tal de Renshi havia o resgatado e o levado para o Departamento, sorriu ao colocar a faixa laranja na cabeça, aquilo era um pedaço gigante do seu amado avô, não haveria como substituir e melhor com ele do que em um caixão. Apesar do sangue, da mensagem e da desistência ele poderia dormir bem, sabendo que havia feito o que era necessário e se arrependia de correr, teria de enfrentar as coisas de frente, bem de frente. De homem para homem, sem a chuva ou as lágrimas nos olhos e no corpo, apenas o problema e ele.
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