Adolescentes Fluorescentes
1 Dialogay
— E ai, tem certeza disso?
— Não e você?
— Claro que não.
— Mas a gente sabe que é o certo...
— E a gente se ama.
— Exatamente.
"
— Eu to me sentindo tão pleno, tão livre, que, juro, não sei nem descrever.
— É como se o mundo não tivesse paredes, daqui, né?
— Sim, é exatamente assim... Nada sufoca a gente, cada nuvem tem uma forma, nada é monótono e retangular como em São Paulo, meu Deus!
— Deus não, meu bem...
— Deus não?
— Você sabe que Deus é a justificativa pra gente fugir.
— Deus era uma desculpa dos seus pais, na verdade.
— Sim, exatamente... A desculpa pra que não existíssemos.
— Mas você acha que Deus é aquilo que eles pregam?
— Se eu soubesse quem é Deus, não precisaria fugir com você num barco.
"
— Tem pouca água no meu cantil.
— A gente tá rodeado de água.
— Ai, que engraçadinho, você.
— Sou bastante.
— Silêncio sobre isso e... Onde vamos parar?
— Acho que tem um píer há uns dois km de nós.
— Como você sabe?
— Teoricamente a gente velejou 30km e estaríamos chegando num píer na cidade mais próxima. Quer ver... Cadê o mapa, cara?
— Amor, eu não peguei mapa nenhum.
— Como assim? Tava na sua mochila junto com as bolachas.
— Eu nem mexi nessa sacola, você que tá todo controlador com a porra da comida.
— É óbvio, você é taurino e eu não quero passar fome.
— Tá achando ruim reclama no SAC, gatinho.
— Sério, não seja idiota, cadê a porra do mapa?
— Eu. Não. Sei.
"
— Você meio que deu em cima do cara da vendinha.
— Eu?
— Você.
— Sim, eu, óbvio.
— Na cara dura assim?
— Você acha que conseguiríamos água como?
— Não precisava ser tão descarado.
— Não precisava ter perdido nosso mapa.
— De novo isso, amor?
— Desculpa. Você sabe que eu sou ridículo e rancoroso.
— Você é ridículo e rancoroso.
— Eu sei, tá?
— E você é lindo, teimoso e tem a bunda mais bonita que eu já vi na vida.
— Mais que a do Ryan Reynolds?
— Nem tanto, amiga.
— Seu idiota.
— Se eu não ganhar um beijo agora, te derrubo desse barco.
— Você vai cair junto, porque eu sou teimoso.
— E ridículo e rancoroso.
"
— Você ja parou pra pensar em nós dois trabalhando?
— Depende.
— Do que?
— Acho que prefiro a ideia de ser o dono de casa e ver você chegando de jaleco todo dia com o jantar ja na mesa.
— Você é bem família tradicional, né?
— Lógico que não. A gente é viado, isso não tem nada de tradicional.
— Viado que quer dividir o papel de mãe e pai em casa.
— Quem tá dividindo isso é você e você é machista.
— Machista, eu? Me poupe.
— Cara...
— Que foi?
— Porque eu achei que você fosse tão desconstruído?
— Porque provavelmente você se olhou no espelho quando olhava pra mim. Quis ver uma coisa que eu não sou.
— Nossa...
— Nossa o que?
— É isso que você pensa de mim? Que eu sou um babaca que procurou o autorreflexo em alguém?
— Não.
— Então porque você acabou de dizer isso?
— Porque sempre que você discorda de mim eu quero te jogar nesse mar.
— E isso é um problema meu ou seu?
— É um problema do mar.
— Do mar?
— É, olha só...
"
— Você melhorou, meu bem? Mil desculpas... Eu não queria ter feito aquilo, eu...
— Eu te amo.
— Eu também te amo. Me desculpa.
— Se você não tivesse me jogado na água provavelmente estaríamos a uns mil km de casa.
— Qual casa?
— A nossa casa. A dos nossos pais.
— Você tá falando serio?
— Sim... Eu to falando sério.
— Espera só um pouquinho... Amor, só porque você tá numa maca de hospital não quer dizer que eu não possa te dar um tapa.
— Eu sei disso... Sei mesmo.
— Para de rir!
— Ok, desculpa... Mas eu tô falando sério. A gente é completamente louco, meu bem.
— A gente é completamente louco.
— Isso nunca iria dar certo.
— Eu ainda posso pagar essa consulta, a gente pode conseguir uma grana e parar por aqui mesmo, organizar nossa vida e...
— Ei... Sério... Isso foi ridículo.
— É... Nós somos meio ridículos.
— Eu to com muita sede.
— Eu to com muita fome.
"
— Quanto tempo demora pra fretarem esse barco?
— Uns dois dias até o Guarujá.
— Será que ele chega inteiro em casa?
— Não tenho a mínima ideia.
— Pois é... Ai... Vamos colocar o pé na água uma última vez antes de toparmos com nossos pais de novo?
— Vai fazer alguma diferença?
— Sei lá, amor... O mar é um troço meio místico, acho que a gente devia tomar um último banho sem paredes ao nosso redor.
— Livres, certo?
— Nunca fomos.
— Eu sei.
— Eu também sei.
"
— É, veja você, onde é que o barco foi desaguar...
— A gente só queria o amor.
— Deus parece às vezes se esquecer,
— Ai... Não fala isso, por favor. Esse é só o começo do fim da nossa vida
— Deixa chegar o sonho, vai...
— Prepara uma avenida... Porque a gente vai passar.
FIM
Fanfic Inspirada na letra de Conversa de Botas Batidas — Los Hermanos
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