Admirável Perfeição
1 Capítulo Único
Notas iniciais
No ano de 2777, a humanidade comum fora completamente extinta.
Não pelas forças exercidas pela natureza ou por um acidente científico americano, tampouco foram os alienígenas que atacaram o planeta Terra; foram os próprios humanos que cavaram suas covas.
Porque a humanidade consegue ser confusa, vergonhosa, impiedosa, impulsiva, desesperada, hipócrita, homicida e errônea, mas acima de tudo, tem a incrível habilidade de criar demônios e perder o controle deles mais tarde.
Desejando a perfeição, os poderosos determinaram um único padrão de beleza e pensamento para as pessoas. No começo, houvera resistência e mortes; mais tarde, o caos se abateu definitivamente sobre o povo.
Os presidentes caíram, tal como seus distintos países. Os Estados Unidos da América tomou total controle da situação, desenvolvendo uma caça especial àqueles que continuavam a resistir ao poder.
A Paz Mundial fora finalmente conquistada, mas de que adiantava se a raça humana deixara de existir, levando consigo seus ideiais?
— Ela deve estar por aqui.
Seus devaneios apagaram-se de súbito. Encolhida debaixo da cama com o caco de vidro firmemente seguro em sua mão, Rachel Turner limitou-se a fechar os olhos e prender a respiração.
— Lacramos todas as portas, Turner — uma segunda voz masculina ecoou pelo pequeno quarto. — Entregue-se agora, e nada acontecerá.
Ela conteve uma risada irônica. No fim, a perfeição era requisitada apenas para os mais fracos, pois os fortes ainda cultivavam a típica hipocrisia.
As botas de couro negro pararam em frente à cama de dossel. Rachel sentia a frieza da parede e do piso contra sua pele, enquanto tentava não perder a calma.
“Prenda a respiração”, disse a si mesma.
Mas ao ver um dos homens agachar-se, a ideia de continuar invisível virou pó. Assim que o rosto do soldado (um homem grisalho e cheio de cicatrizes) pairou em frente à si, seus membros finalmente se moveram.
O caco de vidro perfurou um de seus olhos, e Rachel cerrou os dentes ao ver o sangue jorrar sobre suas mãos. O berro emitido pelo homem expressou “perfeitamente” a dor que ele sentia.
Impulsionando o corpo para frente, Rachel lançou-se contra o soldado ferido, mandando-o para trás. Apanhou agilmente a arma do piso e antes que o outro homem pudesse reagir, duas balas perfuraram sua garganta, acabando com a vida dele naquele mesmo instante.
A morena colocou-se de pé, agradecendo mentalmente pelas aulas de tiro que recebera de seu pai anos antes.
Abriu a porta do quarto e esgueirou-se para fora, apertando os dedos ao redor de sua recém adquirida arma. O corredor mostrava-se silencioso, tal como o restante do apartamento. Dando uma olhada rápida na sala de estar, na cozinha e no banheiro, percebeu que não havia a presença de nenhum inimigo.
Quando verificava o empoeirado e escuro quarto de hóspedes, um som a sobressaltou. Um segundo foi tempo suficiente para constatar que era o telefone, e alcançando a mesa ao lado do sofá na sala de estar, puxou-o do gancho sem delongas.
— Rachel?
— Sou eu, Soph — a mulher murmurou, ainda em alerta. — Pode falar.
— Encontrou o David?
Rachel mordeu os lábios, cerrando os olhos por um momento.
— Não — respondeu finalmente, arrancando um suspiro de frustração de sua amiga. Cerrou os punhos, contendo a raiva que inundava seu peito.
— Charlie estava enganado, então — contrapôs Sophia Thompson, visivelmente decepcionada. — É melhor voltar. Jack e Charlie estão se estranhando de novo.
— Onde está o Josh? — Rachel pegou algumas garrafas com àgua da geladeira, lançando-as na mochila aberta em cima do balcão da cozinha. Algumas latas de salsicha e feijão se encontravam dentro de uma sacola, guardadas antes dos dois Caçadores resolverem aparecer.
Sophia suspirou pesarosamente do outro lado da linha.
— Ele não se mete.
Rachel fechou o zíper da bolsa, colocando-a nas costas.
— Já estou indo. — disse simplesmente, antes de desligar.
Girou a maçaneta da porta principal, dando uma última olhada no local que chamara de lar por anos à fio. Seus olhos se detiveram no porta-retrato cuidadosamente aprumado em cima da mesinha de centro.
A foto retratava o garoto de quatros anos, exibindo um sorriso contagiante enquanto abraçava a mulher com demasiada força e carinho.
Ela conteve as lágrimas, conseguindo desviar a atenção daquela imagem sufocante.
Fechou a porta, trancando-a e guardando o chaveiro embaixo do tapete que se encontrava à soleira.
Ajeitando a mochila sob o ombro, e mantendo a Glock 380 segura entre seus dedos, refez o objetivo principal em sua mente: encontrar seu filho, custe o que custasse.
(...)
Sentado em um dos bancos distribuídos pelo pátio, Josh Lenhart virava a garrafa com cerveja, dando pequenos goles, mantendo os olhos fixos nos protões de ferro.
Sempre que a morena cismava de deixar o esconderijo para procurar seu filho, ele se sentia completamente vazio.
Não por medo dela ser capturada — duvidava seriamente que isso pudesse acontecer —, mas pelo amargo sentimento de culpa que inundava seu peito sem aviso.
Se não tivesse sido tão tolo no passado, certamente seria ele quem estaria deixando o esconderijo em busca de David, cumprindo seu papel como pai.
No entanto, aquelas eram apenas hipóteses incompletas. David não era seu filho, e Rachel jamais lhe concederia uma segunda chance.
— Josh! — Hayley Forbes parou à sua frente, interrompendo o fluxo de pensamentos do rapaz. No auge de seus vinte e seis anos, exibia o mesmo corpo da adolescente que fazia parte do time de natação do colégio. Diferentemente de oito anos atrás, mantinha seus cabelos castanhos curtos e repicados. Os olhos acinzentados transpareciam uma aura fria, ao contrário da típica ironia que a garota sempre demonstrara no passado. — Charlie e Jack estão se matando, e você continua aqui?
Josh apenas bebeu mais um gole de sua cerveja, fingindo plena surdez. Hayley suspirou, ocupando o lugar ao lado do moreno.
— Você ainda sente algo por ela, não é?
O moreno se limitou a observar os portões da fortaleza.
O esconderijo deles não era exatamento “o” esconderijo — já que se tratava apenas da estrutura do colégio NovaHead, que conseguia deter somente alunos e não forças armadas — embora fosse melhor do que suas casas inseguras à invasão dos Caçadores.
Aquele grupo de refugiados havia, coincidentemente, estudado naquele lugar, e conhecia de cabo a rabo cada sala ou corredor que ainda se mantinha de pé. Obviamente que depois de oito anos fora algumas coisas foram acrescentadas ou retiradas, mas a estrutura permanecia a mesma de antes; quadra, refeitório, pátio, uma escadaria que levava ao andar inferior com sete salas, e em frente uma outra sequência de degraus que levava ao patamar superior (contendo outras sete salas de aula). Após os banheiros, se alojava um caminho de pedras que levava aos jardins e à uma pequena praça com bancos coloridos ao ar livre. Finalmente, seguindo diretamente pela passarela de pedras, se encontrava a Diretoria, antigamente temida por muitos, mas que agora não passava de um espaço vazio e castigado pelo tempo.
— Minha relação com a Rachel não te interessa — Josh deixou a garrafa vazia com Hayley, levantando-se em seguida. Antes que a moça pudesse abrir a boca, ele lhe deu as costas e desceu para o corredor inferior do colégio.
As lâmpadas zumbiam acima de sua cabeça, algumas quebradas, outras emitindo uma mera luz bruxuleante.
Alcançou a Sala 12, ouvindo o barulho da TV ligada, enquanto Travis Turner permanecia em frente à ela, como se esperasse receber notícias de sua mãe.
O garoto era o mais novo do grupo, sendo também o mais isolado. Enquanto os outros cultivavam os vinte e poucos anos, Travis exibia oito primaveras mais vividos do que qualquer um. Assim como sua tia, conservava os cabelos negros e os olhos castanhos, sempre querendo passar força aos demais mesmo sendo o mais frágil dentre eles.
Parecendo ouvir os passos do Lenhart, o garoto desviou a atenção da TV por um milésimo de segundo.
— Tia Rachel já voltou? — questionou, fitando-o com sua curiosidade infantil.
— Não — Josh respondeu simplesmente, aproximando-se do menino.
A bandeira dos Estados Unidos reluzia na televisão, enquanto o presidente Patrick Griffindor acenava para seu povo.
“Nossa sociedade era feita de guerras e crimes”.
Cenas de conflitos entre Israel e Paquistão desenrolavam-se diante de seus olhos, com feridos inocentes no meio do campo de batalha.
“Até que no ano de 2777, o governo americano mandou soldados bem armados para os demais países, possuindo uma tecnologia que mudaria a humanidade, tornando-a perfeita”.
Josh cerrou os punhos, enquanto milhares de pessoas em celas de vidro recebiam os primeiros choques em seus cérebros.
“Hoje, três anos após a revolução, alcançamos a Paz Mundial”.
Pessoas de todas as idades caminhavam pelas ruas, sorrindo uns para os outros, como verdadeiros zumbis controlados...
— Chega — Uma voz firme ressou, arrancando Josh de seus devaneios com um solavanco.
Rachel apagou a TV, carregando sob o ombro a mochila com suprimentos.
— Não é bom você ver isso, Travis — Ela bagunçou os cabelos do menino maternalmente, enquanto ele a envolvia em um forte abraço. Josh percebeu os olhos inchados da morena, e concluiu que ela havia chorado. Desviou o olhar assim que recebeu o olhar dela.
— Cadê o primo David? — Travis olhou sob o ombro da tia, como se esperasse que o menino de quatro anos adentrasse a sala.
A Turner continuou mexendo nos cabelos lisos do garoto.
— Eu ainda não o trouxe, Travis — Rachel sorriu forçadamente. — Mas prometo que vou encontrá-lo, tudo bem?
— E a minha mãe? — Travis murmurou, encarando o piso.
— Eu vou achá-la — a morena manteve o mesmo sorriso na face. — E logo, logo poderemos sair daqui.
Travis meneou a cabeça positivamente, ainda encarando o piso. Josh conteve um suspiro, sabendo que as palavras da “ex” eram apenas em favor da tranquilidade do sobrinho.
— Ah, vocês estão aí! — Sophia chegou à porta da sala, para alívio do Lenhart. Exibindo seus cabelos loiros encaracolados, e os olhos verdes astutos, a moça sorriu radiante para os amigos. — Jack e Charlie tem uma novas pistas sobre o esconderijo do governo.
Passando pelo pátio e subindo para o corredor superior, Travis mostrou-se mais animado do que nunca, tagarelando sobre a possibilidade da mãe e do primo estarem vivos. Porém, Rachel não compartilhava da mesma alegria. Acabara de ir até o local onde Jack afirmara que os Caçadores haviam usado como esconderijo, e que possivelmente abrigava sua irmã e seu filho, percebendo quão errado o amigo estava.
Em três semanas fora a tantos lugares, que aos poucos sua determinação ia se esvaindo.
Os Caçadores tinham um prazo para encherem as celas e reutilizarem a tecnologia que “mataria” a mente dos humanos e as substituiria por uma falsa perfeição. Variava entre um mês à quinze dias. Rachel contava diariamente o número de pessoas que ainda eram pegas, e de qualquer forma não tinha um tempo suficientemente longo para gastar.
(...)
Charlie e Jack Stwart eram irmãos gêmeos, que aproveitavam o tempo livre jogando Assassin’s Creed e inventando discussões banais para escapar do tédio.
Eram rapazes altos, bonitos, com cabelos claros e sardas espalhadas pelas bochechas, sem falar nos olhos escuros e zombeteiros. Não era à toa que ambos eram cobiçados desde os tempos na escola.
Se Sophia não fosse tão lerda, certamente teria notado que ambos gostavam dela desde a infância.
— A área 51 é a mais provável! — Jack insistiu, apontando para o laptop aberto. — Os melhores sistemas de defesa foram aperfeiçoados por lá, e nem mesmo uma borboleta consegue passar dos limites permitidos. O presidente seria muito burro se não usasse aquele espaço para colocar os prisioneiros!
— Querido irmão — Charlie se pronunciou, impaciente. — O presidente já é um jegue disfarçado, então certamente deve ser burro também! Em segundo lugar, você deveria tentar esconder seu fanatismo pela área 51. Tá começando a ficar estranho. — O outro Stwart revirou os olhos. — E em terceiro lugar... Por que diabos usar as borboletas como exemplo?
Travis conteve a risada, divertindo-se com o dilema dos irmãos.
— Acho que o conjunto de prédios ainda é o mais provável — concluiu Josh, e Charlie sorriu vitorioso.
— Minhas teorias são sempre as mais prováveis! — disse, mexendo no notebook, e apresentando ao grupo um mapa do centro de Nova York. — Esses aqui — Ele apontou para alguns prédios. — São os que foram tomados pelo governo na época da revolta. Já passei por lá umas duas ou três vezes, e garanto que o bairro ficou completamente deserto. As ruas foram fechadas por carros e pneus, e os moradores abandonaram tudo em sua maioria.
— Podemos ir até lá — Sophia afagou o braço de Rachel, tranquilizando-a. — Dar uma conferida. Se formos espertos conseguiremos entrar sem problemas...
— Para morrermos à toa? — Hayley foi cortante, segurando um cigarro entre os dedos e mantendo a cara azeda de sempre. — Sem chance...
A Thompson lançou um olhar significativo a Forbes, como se desejasse acabar com o tempo dela no planeta. Josh, no entanto, interferiu em uma possível discussão.
— Já pretendíamos invadir a prisão do governo, Hayley — Foi veemente, cruzando os braços diante do peito forte. — Rachel deixou bem claro que estava nisso para salvar o Charlie e a irmã. Nós concordamos em ajudá-la, lembra?
Hayley desviou o olhar, emburrada.
— Façam o que quiserem — levou o cigarro aos lábios, antes de sair vagarosamente do local.
— Detesto admitir, mas ela tem razão — cruzou os braços. — Eu não preciso de ajuda. Posso me virar sozinha a partir daqui.
Charlie e Jack se entreolharam, um tanto receosos. Sophia mordeu os lábios, enquanto Josh permaneceu quieto. Travis apenas os encarava atentamente.
— É isso que você quer? — A Thompson fitou a amiga nos olhos, como se buscasse algum sinal de hesitação. No entanto, não encontrou nada além de sua determinação.
— Eu só estou nisso para encontrar minha irmã e o Charlie. Assim que eu achá-los, vou embora.
(...)
Como um ritual noturno, o grupo apagava as luzes do colégio, acendendo algumas velas para o caso de Caçadores sobrevoarem a região e suspeitarem de algo.
Sophia serviu o jantar, preparado com o que Rachel conseguira arranjar em seu apartamento. Ninguém estava de muito bom-humor, especialmente Travis.
O garoto parecia ainda mais deprimido com a ideia da tia ir sozinha até os prédios no centro de Nova York, e ao decorrer daquele dia tentou convencê-la do contrário. No entanto, a Turner mostrou-se resistente e firme à qualquer sugestão.
— Vai dar tudo certo — dissera, com uma incrível convicção.
Uma chuva torrencial desabou no final da noite, logo que cada um se ajeitava da melhor maneira possível nas salas do corredor inferior. Travis adormeceu quase que instantaneamente, assim que Rachel colocou-o entre os cobertores e cantou-lhe uma breve canção de ninar, mexendo nos cabelos do menino carinhosamente.
Fechou a porta da sala, suspirando pesarosamente. Na manhã seguinte, antes que qualquer um despertasse, ela estaria deixando o colégio. Ao menos evitaria as despedidas tristes, e o choque de ver Travis implorando novamente para que não fosse.
Enquanto subia os degraus que levavam ao pátio, recordou-se da irmã, Ashley Turner. No fundo, não havia se preocupado tanto quando soube que a mesma tinha sido capturada. Afinal, foi ela quem causou a maior decepção em sua vida, quando agarrou-se com Josh na festa de aniversário dele, enquanto Rachel levava uma chapada Sophia para casa.
Fora Ashley quem se consagrou melhor do que a irmã, e mais desejável aos olhos de Josh e de todos os garotos de NovaHead. E também fora ela quem teve Travis aos dezesseis anos, depois de várias tentativas de abortá-lo.
A morte não seria o pior caminho para Ashley; seria apenas o alívio de Rachel.
No entanto, ela ainda era sua irmã. Fazia parte de sua família, e era uma ligação viva com sua infância e seu passado. As mágoas não mais interessavam, já que Rachel conseguira se erguer depois da traição. Se tornara uma renomada delegada, tivera um lindo filho com o major do exército americano, e ficou viúva antes dos vinte e quatro anos.
Quando reencontrou os antigos colegas tendo apenas uma mochila com suprimentos e uma pistola quase sem munição, soube que nem tudo estava perdido. Ainda poderia rever seu filho, e possivelmente teria a chance de recomeçar com sua irmã.
Caso Rachel não conseguisse salvá-los, preferia morrer a entregar sua mente para o maldito vírus da perfeição.
Ela preferia continuar imperfeita e humana, a ser transformada em uma robô sorridente.
(...)
Antes que o sol surgisse no horizonte, Rachel se encaminhava rapidamente para os fundos do colégio. Lançou a mochila por cima do ombro, e escalou o muro envelhecido pelo tempo. Anos atrás, a maioria dos alunos matava aula graças àquele conjunto de blocos e cimento. Hoje o "muro da discórdia" era usado como uma rota de fuga para um mundo arruinado.
Seus pés alcançaram a calçada, e a morena ajeitou a mochila sobre as costas. Se tivesse sorte, conseguiria chegar ao centro antes das sete, horário em que nenhuma alma viva poderia sair de casa sem receber um tiro na testa.
Pressionou o alarme do Sedan preto, destravando-o. Lançou a mochila no banco de trás do carro, e entrou no banco do motorista em seguida. Girou a chave na inguinação, e observou se o tanque estava cheio.
Quando soltou o freio de mão, um papel voou do bolso lateral de sua jaqueta de couro desgastado. Apanhou-o, e naquele momento centenas de recordações voltaram à sua mente.
Os jovens estavam reunidos, sorrindo, como os rebeldes que foram anos atrás. Sophia ainda tinha espinhas pela face e Hayley se preocupava mais com seus óculos Chanel. Charlie e Jack disputavam por um bom espaço na foto, enquanto Josh abraçava Rachel pela cintura, como se jamais pretendesse soltá-la.
— Eu só estou nisso para encontrar minha irmã e o Charlie. Assim que eu achá-los, vou embora.
Fechou os olhos, amassando a imagem com uma das mãos antes de lançá-lo pela janela.
Aquele era o fim de um tempo que jamais voltaria.
(...)
— Eu não acredito nisso! — Sophia sibilou, tentando não perder o pouco do controle que ainda lhe restava.
— Ela deu no pé — concluiu Josh, bebendo sua cerveja matutina.
Em um impulso de raiva, a loira deu um tapa na mão do Lenhart, lançando a garrafa com a bebida no chão. Josh encarou o piso com uma expressão indecifrável, fitando a Thompson como se fosse matá-la ou simplesmente dar-lhe as costas.
— Você... — Ela começou, parecendo buscar palavras que o definissem. — Você não está nem um pouco preocupado com a Rachel?
Josh arqueou as sobrancelhas.
— Pensei que estivéssemos falando da Hayley.
Ele não fez o mínimo esforço para impedir que a mão pálida de Sophia acertasse seu rosto. Manteve a face na mesma posição do impacto, até que vagarosamente a encarou.
— Você sabe muito bem que a Rachel iria até o fim do mundo atrás do Charlie. — Sophia apontou o dedo na direção dele, o rosto vermelho em fúria. — E sabe que poderia ter ido com ela, mesmo com todas as coisas que aconteceram no passado! Mas você preferiu se preocupar em silêncio, a se declarar novamente e fazer o seu papel como aquele que a protegia! E quer saber de uma coisa? Vá se foder, Josh Lenhart! Estou farta de torcer por um romance que você não fez nem questão de recuperar! Sabe quantas chances você teve de se reconciliar com a Rachel? De confortá-la, de ser seu porto seguro nessa busca pelo Charlie? Se... Se ela for pega... — Sua voz falhou, acabando com a interminável tagarelice.
A única coisa cabível que Josh fez foi permanecer diante dela, encarando a garrafa quebrada no piso, e possivelmente processando cada palavra dita.
— Obrigado.
Sophia encarou-o. Josh sorriu de canto, melancolicamente.
— Eu precisava disso. — Explicou, antes de dar-lhe as costas.
Pela primeira vez, sabia exatamente o que fazer.
(...)
Eram quase nove e meia da manhã quando Josh estacionou seu Sedan preto em um beco qualquer.
Aquele modelo de carro era único, visto diariamente em todas as ruas de Nova York. Não foi difícil para Josh conseguir um daqueles.
Ultrapassou a murada de pneus provisória que bloqueava a rua citada por Charlie, e iniciou uma sequência vagarosa de passos.
Os prédios altos e arruinados pelo governo aparentavam completa desertes, tanto por fora, quanto por dentro.
Corredores espaçosos estendiam-se por ambos os lados, e em certo ponto, Josh conseguiu ouvir gritos.
Desceu as escadas de ferro, alcançando um túnel que se iluminou ao sentir sua proximidade. Correndo como um completo desesperado, virou outros corredores e chegou ao andar subterrâneo.
Vazio... Exceto, talvez, pelas cinco celas de vidro predispostas pela extensa câmara.
— Josh!
Virou-se, encontrando Rachel, que auxiliava uma Ashley Turner mais do que atordoada a se manter de pé. Charlie Turner estava em seu colo, abraçando o pescoço da mãe com uma força imprecisa.
— Rachel! — o alívio inundou seu peito instantaneamente.
A morena colocou a criança no chão, logo que Josh se aproximou o suficiente para envolvê-la em um forte abraço e tirá-la do chão.
— Desculpa — Ele disse contra seu ouvido, sentindo o perfume inebriante da moça. — Por eu ter sido um completo tolo no passado e agora.
— Está tudo bem, Josh. — A voz dela possuía um tom de descomunal alegria. — Eu te amo. E eu aceito seus erros, seus defeitos. Você me faz bem.
E aquilo foi tudo o que ele mais quis ouvir dos lábios dela.
Rachel se afastou assim que foi colocada no chão.
Charlie a envolveu novamente.
– Eu te amo, querido — as primeiras lágrimas molharam sua face, e o menino corou.
– Sei disso, mamãe.
– Então, me obedeça, ok? — assim que ele assentiu, Rachel continuou. — Hayley está esperando lá fora. — Josh franziu o cenho, mas a Turner não se preocupou em explicar. — Corra com a tia Ashley! Não confie em estranhos. Tudo bem?
Charlie assentiu, abraçando a mãe.
– Eu te amo, mamãe.
Ashley sorriu para a irmã uma última vez, antes de partir com seu sobrinho. Rachel encarou o moreno, entrelaçando seus dedos aos dele.
– Eu vou explodir esse lugar — Ela olhava ao redor, enquanto uma determinação voraz a consumia. — Pelo meu filho, e por todos que ainda estão lutando. Eu cumpri minha promessa.
Josh apertou a mão dela, fechando os olhos.
– Me desculpe, Rachel — murmurou, enquanto ela retirava o pequeno explosivo do bolso de sua jaqueta. — Por tudo.
Rachel não lhe respondeu. Talvez não quisesse relembrar o passado em seu último momento de vida.
Um grupo de Caçadores e "perfeitos" surgiu, mas era tarde demais.
Tarde demais para qualquer um.
O estrondo inebriu suas mentes, antes que seus corpos perecessem para a iminente morte.
Do lado de fora, Hayley acelerou o Sedan preto, com Ashley e Charlie seguros no banco de trás.
Era sua vez de fazer algo bom pela Rachel e pelos outros.
(...)
Abaixo.
Ele deixou seu corpo cair, abandonando o parapeito do prédio.
Abriu os olhos, reconhecendo a Times Square cada vez mais próxima.
Tudo estava normal.
Não haviam pessoas perfeitas, ou Caçadores à espreita.
Sorriu, fechando os olhos novamente.
O impacto ocorreu, mas não houve dor. Em seu lugar, apenas a sensação de alívio o dominou.
– Josh.
Abriu os olhos, sentindo o frio do asfalto contra seu rosto.
– Rachel.
Estava na hora de recomeçar.
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