Admirável Novo Mundo

12 Vi pérolas e conchas e corais


Notas iniciais
Muito obrigada à Daiana Caster pela recomendação e a MrsSong e a MalucaPorHumbelle pelos comentários!

A areia dançava na praia, grãos resvalantes que se friccionavam com o vento passante, aumentando a sua temperatura para níveis que não seriam tolerados por pés descalços.

A brisa entrava pelas janelas sem vidro da cabana, abertas de par em par, fazendo voar as velhas redes de mosquiteiros que serviam de cortinas, desgastadas até ao fio e remendadas por um marinheiro prendado.

Completavam a falta de decoração do cómodo as roupas que tinham perdido a sua utilidade e que pendiam de móveis, esvoaçando levemente, ou se mantinham inanimadas pelo chão rústico.

Para além do assobio da aragem morna entrando e saindo da edificação simples, se ouvia o roçar de duas correntes de prata penduradas num dos postes da cama, terminando no tilintar de dois medalhões se encontrando num ciclo variável, e o som de respirações aceleradas, prontas para se atirarem de um precipício.

O grito de um bando de gaivotas se fez ouvir no meio de um voo picado, enquanto dois corpos rolavam num colchão que não era de penas.

Oh Captain, my Captain…

Recuperando o fôlego em golfadas profundas, Anna dobrou o lençol amassado e passou as mãos pelo cabelo, retirando as mechas transpiradas do seu campo de visão.

De debaixo da outra extremidade do tecido, emergiu a cabeça sorridente de Tiago, boca aberta com satisfação e peito que subia e descia com rapidez.

Deitados em sentidos desencontrados, ele beijava os pés da inglesa ao subir um trilho bem-aventurado enquanto lhe massageava as pernas e calculava a forma de as prender em caso de represália ao comentário que se seguiu:

— Se eu não soubesse que você era virgem, ia achar que tinha sido treinada num harém turco.

Ela sorriu, feliz com o elogio torto, se libertando das mãos caminhantes, e respondeu se virando na direção do pirata, lhe dando um soco no peito desarmado e colocando as mãos em forma de concha em torno do seu ouvido para lhe sussurrar:

I love you too.

Ele massageou o peito dolorido e criou para os dois um céu branco, puro, os cobrindo até à cabeça com o lençol, uma tenda para viajantes do deserto bem no litoral brasileiro ou para dois amantes escondidos do mundo:

— Eu sei, meu amor. Nunca fui tão feliz.

Ferrão pensava nas ocasiões, ainda na época da adolescência, em que mergulhava no mar em busca de ostras para vender. Ninguém era melhor do que ele a intuir a localização dos pontos em que se concentrava a riqueza das pérolas prontas para serem descobertas.

Levava muito tempo até que aquelas pedras preciosas do leito marítimo se formassem. Para que uma pérola pudesse existir, era imprescindível que uma ostra fosse agredida por um grão de areia que a penetrasse.

Apenas a resposta contra a agressão desse grão despoletava a reação pela qual o molusco começava a produzir madrepérola, paralisando assim o seu invasor, o envolvendo num abraço enquanto do assalto resultava um belo fruto.

Quanto mais tempo a ostra conseguisse ficar fechada para o mundo exterior, maior ficaria a pérola escondida.

Mais do que muitos, Tiago compreendia que apenas do sofrimento nascia a beleza pura. Aquilo que corta a nossa carne também a faz cicatrizar mais forte.

A carne no estômago do pirata se queixou da falta do seu conteúdo e, muito produtiva em sucos gástricos, mas incapaz de gerar pérolas, se fez ouvir na cabana.

O Capitão apanhou um par de calças abandonadas e fez tenção de se vestir, mas, no lugar de uma camisa, foi uma loira nua que se encontrou pendurada nas suas costas, o fazendo cair de novo na cama:

— Tira as mãos de cima do seu homem, sua doida inglesa! A torneira secou e eu tenho que ir caçar.

Ela riu, tapando a boca dele e distribuindo beijos autoritários:

— Eu é que digo quando a torneira pode fechar. Me caça, Captain.

Tiago cumpriu a ordem, pescando Anna no vale de lençóis e a prendeu debaixo de si, usando as mãos como um anzol humano, imobilizando braços e pernas num jogo consentido:

— Quer morrer de fome, Marquesa? A gente só tem uma banana na despensa.

Ela gargalhou, procurando levantar a cabeça e usar os dentes para mordiscá-lo no ponto onde o Capitão guardava a sua tatuagem de lobo:

— Não faz mal. A gente divide!

O animal primordial dentro de Ferrão pediu para aceitar a oferta e adiar a outra caçada, já que a melhor das presas se oferecia para ele de bandeja, mas a realidade e o pragmatismo o chamavam com força:

— A gente passou uma semana nessa cama. Tempo muito bem passado, mas ficamos sem mantimentos até que Piatã e o Marquesa regressem.

Sem a previdência de procurar algo tragável, Tiago só se podia oferecer para alimentar Anna à base de jiló, o único recurso comestível de que dispunham nas redondezas e, mesmo assim, só porque um marinheiro acautelado e com sentido de humor o lá tinha plantado.

— Vamos voltar para o navio?

O Capitão desistiu de se tentar levantar e resolveu se focar no lado doce da vida para responder à pergunta da inglesa, caminhando com dois dedos levantados pelo seu ventre liso:

— Não exatamente. O Marquesa vai ser o nosso meio de transporte. Quero te levar num lugar que é muito especial para mim.

Manhosa, ela se espreguiçou num sorriso que poderia parecer blasé a quem não a conhecesse:

What? Não se está adiantando? Que eu saiba, ainda não pediu que eu fugisse com você, pirata malvado!

Ele se decidiu por resolver na hora o problema, recorrendo ao ato de enfiar a sua barba controlada na curva do pescoço da loira e a uma formulação no imperativo:

— Foge comigo, Anna Millman.

Rindo e brincando, ela o afastou, lhe empurrando a testa com a palma da mão:

— Isso não é um pedido. Isso foi uma ordem, Captain!

Ele revidou roubando um beijo, já em sentido de alerta para a revanche merecida:

— A única ordem que você recebeu na sua vida e vai ter prazer em cumprir, Marquesa…

Um mínimo vibrar no solo fez com que os músculos de Tiago se contraíssem e ele se apoiou para levantar a cabeça. O ouvido treinado pela natureza selvagem o tinha colocado atento para uma outra situação, o que não lhe agradava:

— Tem um monte de cavalos vindo na nossa direção.

Anna balançou a cabeça em descrédito, não conseguindo alcançar a distância a que se encontravam do problema:

— Não ouço nada, Tiago.

Ela não queria acreditar que o mundo exterior que queria evitar lhe ia entrar assim porta dentro. Na melhor das hipóteses, talvez se tratasse de uma visita amiga:

— Piatã?

Ferrão lamentou sinceramente o fato de ter que a desiludir:

— Piatã não seria tão descuidado. Bota uma roupa, Anna.

Eles ainda não estavam preparados para fazer sala quando as visitas chegaram.

Apertando atabalhoadamente os botões e as fivelas, Miss Millman e Ferrão espreitaram por uma das janelas e reconheceram pela cor e pelo formato as fardas dos vários homens que os cercavam.

Todos eram agentes de Pedro de Alcântara, os seus emissários particulares. Anna sentiu a dor de um murro imaginário no estômago.

Não tinha concebido que a conseguissem seguir até àquela praia remota. Não podia deixar que aqueles homens deitassem as mãos aos documentos que vinha escondendo.

Na praia, vozes estranhas se faziam ouvir em tom coral, ampliadas pela boa acústica de quem está habituado a dar ordens. Os filhos da pátria, em nome do príncipe, exigiam a rendição imediata dos ocupantes da cabana.

Sem lhes dar tempo de resposta, os militares dispararam a primeira salva de balas, fazendo com que Tiago e Anna se baixassem debaixo da janela, enquanto carregavam a pólvora nas pistolas.

Várias das pequenas bolas pretas, não muito diferentes de pérolas mortíferas, mas sem valor, se crivaram no estuque das paredes, fazendo saltar pedaços, e a inglesa sentiu apreensão na forma como o pirata pesou o momento e revidou, levantando a mão para disparar através da janela aberta, mas mantendo o corpo protegido.

Ela fez o mesmo, mas, com o acesso ao barracão das armas barrado, em poucas horas de cerco a pólvora tinha acabado e as pistolas do casal se tornavam inúteis.

Chorando, a inglesa deixou cair a arma sem munição, reparando na tristeza de Ferrão em a ter desiludido.

Não tinham outra opção a não ser saírem e esperar misericórdia de quem não conheciam.

Anna rastejou pelo chão até a um móvel e puxou dele uma gaveta, despejando o seu conteúdo em cima das tábuas de madeira, mas, remexendo com desespero pelos diversos objetos, não conseguia encontrar o embrulho procurado.

Tiago a seguiu e, antes de a levantar do chão, beijou a inglesa uma última vez:

— Foi uma boa luta, meu amor.

No exterior, os soldados aguardavam inquietos, com as armas carregadas dispostas em semicírculo e apontadas para um disparo rápido.

A bandeira branca atirada de dentro da cabana foi para vários deles um alívio, mas nenhum deles alterou a sua posição de defesa pronta para o ataque.

Na porta da construção simplória surgiram duas figuras que, lado a lado e aparentemente desarmadas, levantaram as mãos vazias.

Sem que nada o fizesse prever, o homem agarrou a mulher por trás e, lhe tapando a boca, colocou uma navalha aberta encostada à sua garganta.

As palavras que o agressor disse ao ouvido da sua refém surpresa e de enormes olhos abertos esbugalhados nunca seriam percebidas pelos soldados, mas também nunca seriam esquecidas por ela:

— Me desculpa, Anna. Eu vou parar na forca de qualquer jeito, mas eu preciso que você viva.

Empurrando a loira contrariada através da areia e na direção dos agentes do Príncipe, Ferrão reviveu os seus dias de chacota gloriosa para com os símbolos da autoridade:

— Parabéns para os cavalheiros! Não é qualquer um que se pode vangloriar de ter capturado o grande Capitão Tiago Ferrão. Demorou, meus caros!

Para qualquer um, se tratava de uma captura digna de um caçador premiado. O pirata procurou reconhecer qual, de entre aqueles homens, era o seu líder e foi para ele que dirigiu o seu discurso saído de um plano desesperado:

— Reconheço que foi um dos meus melhores planos, seduzir a donzela e atirar todas as culpas para cima dela, mas, já que aqui estão, podem ficar com a minha confissão: eu, Tiago Ferrão, sou o líder da conspiração contra Pedro de Alcântara. Aqui estão as provas.

O Capitão sabia que quando tirasse a mão que segurava a navalha da garganta da loira e tocasse no bolso do gibão, o lógico seria que os soldados aproveitassem o momento para o subjugar e libertar Anna das suas mãos.

Foi justamente isso que eles fizeram, ao responderem às ordens do seu superior satisfeito.

Quando o General Avilez foi requisitado para uma missão sem importância como a de investigar o desaparecimento de uma das damas de companhia da Princesa Leopoldina, não exultou pela confiança depositada.

Todos sabiam que se tratava de uma missão menor e que apenas lhe tinha sido atribuída por ele ter caído em desgraça e por ter perdido a confiança do Príncipe para intervir em assuntos de Estado.

Não era a primeira vez que o General tinha que procurar por um rabo de saia aceso, o que geralmente terminava rapidamente quando ele encontrava a dama desaparecida numa cama de uma qualquer estalagem, quase sempre registada sob nome falso e acompanhada por um oficial ou camareiro sedutores.

Aquele caso era diferente. Para começar, a donzela em questão tinha sido, anos antes, raptada de forma pública por um conhecido pirata da zona.

Relatos diversos e contraditórios referiam que ela tinha sido avistada no cais da cidade no mesmo dia em que tinha sido registada uma queixa de roubo de uma das embarcações lá ancoradas. Não se podia tratar de apenas uma coincidência.

Depois de quase dois meses de busca, Avilez sentia que, se tinha dificuldade em entender as mulheres do país, muito menos conseguiria entender as ações de uma estrangeira. Anna Millman e o seu paradeiro permaneciam um enigma quando, finalmente, recebeu por um acaso uma boa pista sobre o seu possível captor.

Jogando todas as fichas na hipótese da inglesa ter resolvido ser feliz revivendo o passado, o General e os seus homens tinham viajado no sentido de investigar os indícios.

A operação de resgate se tinha tornado numa missão perigosa de guerra aberta. Avilez estava muito mais interessado em capturar, vivo ou morto, o famoso terror dos mares, o Capitão do Marquesa, do que empenhado em devolver sã e salva a uma estrangeira outra mulher que não pertencia àquele país e não tinha valor para os seus planos.

Os soldados se entreolharam com a confissão inesperada de Tiago, sem saber o que fazer com as ordens que levavam.

O seu líder ao perceber que, no colo, lhe caía seguramente toda a estima do Príncipe Regente e, possivelmente, uma promoção inesperada, se sentiu vingado de todas as semanas em que tinha sido obrigado à função reles de perseguir uma mulher.

Anna e Ferrão foram empurrados para o areal e os soldados os deitaram com a face virada para o chão, enquanto os revistavam. Do bolso interno do gibão de Ferrão, um soldado retirou triunfalmente um embrulho em pele e o entregou com reverência ao seu superior.

O General Avilez se apressou a abri-lo e ler mentalmente o seu conteúdo em tragos largos, ficando cada vez mais satisfeito à medida que avançava nas frases e descia nas linhas. Graças àqueles documentos, teria o seu cargo de volta e muito mais.

O que falhou no militar condecorado foi a capacidade de se aperceber da comunicação sem palavras entre o casal capturado.

A inglesa balbuciava sons sem nexo, barulhos libertados pelo entrecortar do choro, mas, de olhos fixos no auto-confesso traidor da pátria, entendeu o que ele lhe pedia com o olhar tranquilo.

Contudo, Anna não parou de gritar quando a colocaram na garupa de um cavalo. Não conseguia tirar os olhos de Tiago, brutalmente espancado antes de ser colocado dentro de uma gaiola para animais que seguia em cima de uma carroça, mas, manietada com as mãos atrás das costas, pouco lhe restava a fazer no momento.

Notas finais
Isto é o que acontece quando só nos 45 do 2º tempo a autora se lembra que está escrevendo fanfic que é só +13 ;). Nota histórica: a torneira, tal como a conhecemos, foi inventada em meados de 1800. Muito a propósito. No próximo capítulo: todo o mundo está de regresso ao Rio. Tem Ferrão, Anna e Pedro, dona Jú ;).Este não foi um gancho feliz, mas não podia deixar de desejar Feliz Natal a todos! Beijos e queijos! :)