Admirável Novo Mundo

15 Vi o frescor das coisas naturais


Notas iniciais
Muito obrigada pela paciência de quem ainda não desistiu de acompanhar as muitas peripécias de Anna e Ferrão! :)

A selva pode parecer maravilhosa para quem por lá se passeia descontraidamente e sabe bem para onde vai, mas é um cenário intimidante para quem anda perdido.

Parece que as plantas ganham vida e se entrelaçam maquiavelicamente para encurralar os seres humanos e até mesmo o movimento inocente de uma borboleta pode parecer assustador.

Nessas circunstâncias, qualquer ser humano consciente só pensa em conseguir fugir daquele inferno verde.

Anna não sabia de onde tinha tirado a força para carregar um corpo muito mais pesado do que o seu, mas avançava sem descanso, arrastando um homem adulto pendurado nos seus ombros.

Plantas espinhosas lhes rasgavam a pele e lhes abriam sulcos na carne, mas eles não se podiam dar ao luxo de parar. As areias da ampulheta do tempo estavam se esgotando para Tiago e ela sabia disso.

Sem desistir, a inglesa tinha remado pelos dois durante mais de um dia, e, seguindo as indicações do Capitão, aportado no local que ele indicou como adequado.

Enquanto ele deu mostras de reconhecer o caminho de terra por entre plantas intocadas, apontando a direção por onde seguir, ela sentiu a esperança de que tudo iria terminar bem, ignorando os músculos dos braços que pareciam poder ceder a qualquer momento.

Nenhum deles podia admitir sentir dor antes de chegarem ao único local em que o pirata confiava conseguir ajuda.

Ele tremia, com o suor frio escorrendo de cada poro. Ferrão sabia reconhecer que o veneno que corria nas suas veias era de ação lenta, mas que esse era apenas um de dois motivos para ainda estar vivo. O outro era Anna.

— Por onde é que vamos agora?

Tiago percebeu que tinham parado diante de uma árvore caída depois de um temporal e quis responder à pergunta, mas os seus pulmões se estavam cerrando, e, com eles, a capacidade de raciocinar. Ele vinha fazendo um grande esforço, mas o seu corpo já não lhe obedecia, escorregando dos braços da inglesa para o chão de folhas caídas.

Anna queria tentar mantê-lo acordado, queria contornar o obstáculo diante deles, queria ter poderes para ser mais do que era.

Ela abanou o homem enfermo, retendo as lágrimas que de nada serviriam para resolver aquele estado de aflição:

For God's sake, Tiago! Por favor, me diz por onde seguir…

As muitas setas que silvaram o ar, cortando-o em tiras finas antes de se espetarem com ruído nas árvores atrás deles, assustaram a inglesa, que usou o próprio corpo para proteger o do Capitão.

Naquela ocasião, sem ter meios para fugir para longe, Anna se deixou ficar no chão à medida que, cautelosamente, se aproximava dela uma tribo muito especial.

Os vários índios que formaram um círculo em volta do casal permaneceram num silêncio observatório. Andavam seminus, mas se enfeitavam com pinturas na pele. A cútis viva era tela bem mais expressiva do que qualquer seda do oriente ou pintura italiana.

A formação de autóctones se viu quebrada aquando da chegada de um homem branco que trazia pendurada ao pescoço uma pequena cruz em pedra.

A inglesa intuiu que devia deixar que aquele homem de meia-idade examinasse Ferrão e que seria seguro que, à ordem de quem ela assumiu como líder dos indígenas, vários homens carregassem o pirata numa maca improvisada no local.

De qualquer forma, ela percebeu que não o conseguiria tirar dali sozinha e aceitou uma ajuda que veio com poucas palavras, seguindo, com dificuldade para manter o ritmo de quem estava habituado a correr por aquele chão, o grupo compacto.

Uma clareira criada pelo homem ao ser desprovida das suas árvores originais abrigava várias cabanas assentes em troncos e cobertas por folhas de árvore de cacau, ainda que cada uma fosse única e muitas remontassem a estilos arquitetónicos pouco prováveis de serem representados num local daqueles, mas Anna não fez essa associação de imediato.

Ao ouvir os gritos que todos conheciam como de perigo, várias pessoas saíram das habitações e a praça de chão de terra se encheu de gente.

Eram índios, brancos, negros, mulatos, caboclos e que mais misturas houvessem ou ainda não tivessem sido inventadas.

Chamado às pressas, o feiticeiro da tribo parecia crescer diante dos enormes olhos da britânica, com as suas vestes de palha, máscara artesanal de expressão violenta e imutável e pescoço de girafa adornado com dezenas de colares de contas coloridas, búzios, conchas e penas.

A inglesa nunca viria a saber em concreto o que se viria a passar quando Tiago foi levado para dentro de uma cabana e para longe dos seus olhos.

Impedida de entrar pelas mulheres da tribo que a seguraram, Anna teve apenas noção da passagem de tempo medido através da audição dos gritos de dor do pirata que a perseguiriam para sempre.

Ela apenas percebeu que o ritual tentava retirar o mal de dentro daquele homem, limpar corpo e espírito infetados.

Anna estava disposta a participar de qualquer mandinga que lhe trouxesse Tiago de volta, independentemente do preço a pagar para equilibrar o mundo mágico, mas tinha que passar por aquela prova de fogo.

A loira lambia as muitas lágrimas com a ponta da língua. Estava oca de dor por dentro, ou talvez tivesse um coração tão grande que já não lhe coubesse no peito. A sua alma estava pequena, reduzida a um grão de areia que ameaçava ser levado pelo vento.

Só muitas horas depois e já transferido Tiago para uma outra cabana, permitiram que Anna se aproximasse dele.

Num catre simples, ele dormia num sono profundo, mas calmo. O ritual tinha deixado marcas visíveis que não se coadunavam com o modo de pensamento daqueles tempos modernos, mas tinha funcionado.

Ao lado do pirata, uma mulher negra dona da sabedoria da idade aplicava o seu conhecimento em mezinhas inofensivas como erva de tapoeiraba branca e ervas de passarinho.

Não se apercebendo disso, Ferrão acordou por instantes, reconhecendo a mulher que segurou sem força pelo estreito pulso:

— Tia…

Anna tirou os olhos de cima do Capitão e examinou profundamente a enfermeira diante dela, correndo também os olhos pelo cômodo esquecido diante de tanta preocupação.

Os livros, os mapas de correntes marítimas em cima de uma pequena escrivaninha e algumas peças de roupa em cima de um baú eram prova suficiente de que Ferrão já lá tinha estado muitas vezes antes.

Com um calor de receção que a inglesa raramente encontrava, a senhora a abraçou, confirmando as suspeitas fundadas:

— Tiago já tinha escrito muitas vezes antes me falando de você, mas as palavras não me tinham mostrado como você é linda. Apesar das circunstâncias, seja muito bem-vinda, Anna.

A loira retribuiu o carinho, mas se afastou, permitindo que a sua anfitriã respondesse à pergunta que ela não formulou.

— Os pulmões do Tiago já estão funcionando. Isso foi veneno de cobra que a gente nunca viu e que já se espalhou por todo o corpo, mas o nosso menino é forte. Há de sarar.

Tempo. Esse bem inestimável que podia decidir entre a vida e a morte. Anna se sentia culpada pela má administração dos seus minutos:

— Eu devia ter feito alguma coisa…Se ele me tivesse dito, eu teria feito algo.

Com a exceção da própria, mais ninguém a acusaria pelo acaso de uma desgraça impossível de prevenir:

— Não tinha como, filha.

O aldeamento estava bem abastecido do essencial para a passagem dos dias necessários para que o corpo de Tiago expurgasse o restante veneno entranhado.

Os locais cultivavam mandioca, milho, feijão, batata-doce, abóbora, amendoim, banana e tudo o mais que consolasse um estômago cansado.

Para qualquer visitante desavisado, era óbvia a cozinha de fusão entre povos. Anna lambia os dedos de cada vez que comia beijus, originalmente preparados com mandioca pelos índios e, depois da influência da culinária portuguesa, agora preparados da mesma maneira das filhós, doce de natal que se repetia todos os dias naquela floresta.

As maiores cabanas chegavam a ser ocupadas por dezenas de pessoas da mesma família. Tiago tinha uma só para ele e foi a casa dele que as anciãs tinham indicado a Anna ser também o local onde ela deveria pernoitar.

Ela percebeu que todos a estavam tratando como mulher de Ferrão e a ideia não a desagradou de todo.

Demasiado fraco para dormir numa das redes, o pirata descansava durante boa parte do dia numa esteira de folhas entrelaçadas colocada junto a uma das aberturas da cabana passava as noites na cama que agora servia dois e nos braços da loira.

Anna percebeu que Tiago estava recuperado no dia em que lhe dava um caldo de galinha às colheradas e ele abriu os olhos para perguntar num tom brincalhão:

— Você é que fez?

Ela se manteve propositadamente em silêncio, semicerrando os olhos e trincando o lábio inferior enquanto esperava o comentário que se seguiu, certa do dramatismo de comédia ligeira do pirata traduzida num riso miúdo:

— A gata comeu a sua língua? Melhor, a pobre da gata comeu essa sopa? É dessa que eu empacoto para o outro lado…

Anna não vinha comendo muito. A preocupação de ter deixado pontos importantes por resolver ainda não era suplantada pela presente companhia.

Semanas após a mudança de residência, Padre Olinto a veio encontrar a meio da tarde fazendo companhia aos roncos melódicos do belo Capitão adormecido.

Num tom baixo de quem sabe o que diz, o clérigo fez sinal para que ela o acompanhasse:

— Vem comigo. Você não vai ajudar o Tiago se não se conseguir aguentar em pé.

Olinto não se considerava um líder, mas um erudito da vida e, ocasionalmente, um cozinheiro de mão cheia.

Com um sorriso bondoso, ela conduziu a inglesa até à sua humilde casa e lhe estendeu um prato de comida quente.

Anna ficou impressionada com as paredes daquela habitação, completamente forradas com livros que se esticavam por várias matérias e chegavam de diferentes épocas.

Respondendo a um gesto do braço do sacerdote sem sotaina, eles se sentaram informalmente na soleira da porta inexistente, vendo passar pessoas que seguiam nas atividades de um dia-a-dia feliz.

Independentemente de credos, mais do que um padre, aquele era um tio para toda aquela gente. A loira já tinha constatado o respeito e devoção com que todos o tratavam.

Um contador de histórias nato, daquela vez Olinto decidia narrar uma que também era sua, mas que se vinha desenrolando desde o início dos tempos:

— Esta era uma terra de índios. Pelejavam uns contra os outros pelo controlo do território, mas, um dia, fartos das mortes que se acumulavam, descobriram que se conseguiam entender através da palavra.

A espia inglesa suspendeu o que mastigava e engoliu, pousando o prato enquanto o padre sem igreja continuava:

— Eles entenderam que esse seria o seu maior tesouro e se mantiveram escondidos dos olhos perigosos do homem branco, quando ele chegou.

Anna sentiu que o tempo recuava e tudo em volta retrocedia também ao cenário do passado, em borrões de imagens e sons correndo para trás. Ela conseguia visualizar homens e mulheres que já tinham partido há muito regressando ao espaço que agora ela ocupava.

Olinto percebeu que estava fazendo um bom trabalho e avançou no tempo contado:

— Um dia, faz já muitos anos, chegaram à aldeia vários negros fugidos de uma fazenda, quase todos feridos por fora e por dentro.

Ela já tinha ouvido contos similares, mas poucos tinham um final feliz para os fugitivos. O sacerdote sorriu ao contar o desfecho inesperado:

— Uma coisa pouco provável aconteceu. Eles se estranharam, não se compreenderem pelos sons das palavras, mas se entenderam por gestos de paz e começaram a construir uma aldeia maior e melhor. Prosperaram.

Desde criança, a inglesa estava habituada a que lhe contassem histórias através de gravuras, mas aquela lhe enchia a mente como se se tratassem de milhares de pinturas que rodavam num movimento contínuo.

Naquela viagem, Olinto chegava ao seu próprio tempo:

— Depois chegaram muitos outros, mas, nessa época, esta gente já estava preparada para receber de braços abertos quem precisasse de auxílio, independentemente dos constrangimentos do local de nascimento. Tínhamos muito a aprender uns com os outros.

De volta ao presente, na frente deles, um homem usava um forno improvisado para mostrar a outros como cozer telhas de barro. Todos o escutavam atentamente, reproduzindo os passos executados pelas mãos brancas que, cobertas de poeira, já não tinham cor definida. Todos teriam um melhor abrigo quando chegasse a época das chuvas de verão.

Olinto terminava o trajeto que o tinha trazido até ali:

— Continuou chegando gente e todos continuamos escondidos. Índios, negros, brancos… até um padre cansado da vida e uma criança portuguesa que, contra todas as expetativas, sobreviveu a um naufrágio e veio parar a uma praia aqui perto.

Com a voz doce, Anna confirmou o que já sabia:

— Tiago…

Aquela era uma família construída de cima para baixo, mas não lhe faltavam alicerces fortes.

Tudo aquilo parecia demasiado bom para ser verdade. A inglesa tinha dúvidas que colocou por ordem de curiosidade:

— Como é que se conseguiram esconder? Quando a Corte chegou ao Brasil começaram a mapear toda a região…

— Há muitos anos atrás, o nosso Tiago teve uma ideia. Foi dele o plano de criar o mito de piratas perigosos vigiando a nossa costa. Ninguém chega perto por mar. Ninguém se atreve a entrar numa terra de selvagens. Ainda hoje são os homens do Marquesa que abastecem a aldeia com o que a gente não consegue produzir.

Aquela era uma cidade em miniatura, uma civilização ainda não descoberta pelo Velho Mundo ou compreendida pelo seu novo mundo-irmão.

A loira via uma amostra de um mundo possível, o que a reconfortou face ao futuro. Naquela hora soube exatamente quais palavras lhe poderiam trazer esperança:

— Existe alguma forma de eu conseguir enviar uma carta?

Olinto levantou o sobrolho com curiosidade, medindo o pedido, mas aquiesceu com bonomia:

— Dá sempre para a gente dar um jeito de isso acontecer. Nunca ouviu falar do famoso jeitinho brasileiro?

Anna olhou para cima e teve o vislumbre de ser coberta por uma enorme águia de asas abertas, cortando o céu sem fim. Estava livre.

No tempo certo, a peçonha finalmente abandonou o corpo de Ferrão e ele recuperou a sua vida de sempre.

Numa noite, a loira veio encontrá-lo sentado debaixo de uma árvore que parecia existir desde o início dos tempos.

Ele era mimado por todos. As mulheres do aldeamento se revezavam para lhe trazer canjica, farofa, fartura de leitões e pastéis de carne douradinhos em banha de porco, o que lhe começava conferir um estado perpétuo de barriga levemente inchada de que Anna não se queixava quando a apertava carinhosamente.

Insetos e aves noturnas enchiam a atmosfera de ruídos cantantes que agradavam a ouvidos humanos.

A brisa leve por entre a folhagem soprava palavras muito ternas num idioma que Anna começava a reconhecer como também seu.

A tribo a acolhia. Ela era como um deles, mas não era ainda uma deles. Talvez nunca o viesse a ser realmente.

Anna se sentou, encostando as costas contra o tronco grosso e serrando as circunstâncias que os tinham trazido até ali:

— Não sei como é que você ainda não me odeia. Desde que entrei na sua vida, quase morreu meia dúzia de vezes. A sorte é que você tem sete vidas, mas já não tem mais vidas para gastar.

Sério, ele retirou a corrente com a medalha do santo ladrão e a colocou ao pescoço da loira, encostando os dois fios entrelaçados e encaixando as medalhas uma na outra:

— Você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Não tem em quem eu confie mais do que em você.

Indefeso como uma criança de poucos anos, Ferrão deitou a cabeça no colo da loira e se colocou à disposição para que ela lhe fizesse os carinhos que seriam só para ele.

Ela assentiu, raspando as unhas pelo couro cabeludo do pirata, constatando que ele já estava precisando cortar de novo aquele cabelo que crescia com o viço de ervas daninhas.

A fera ferida estava convertida numa cria de gato. Ana esperava o momento em que ele iria começar a ronronar, mas Ferrão continuava com os dentes afiados, perguntando ao levantar os olhos:

— Você não se aproveitou de mim enquanto estive inconsciente?

Com um sorriso ardiloso, ela balançou negativamente a cabeça, o que resultou num leve franzir brincalhão de desilusão na cara do pirata:

— Que pena.

Como forma de protesto, Anna puxou levemente a orelha de Tiago, perguntando sob forma de distração:

— Foi bom crescer aqui?

— Não podia ter pedido mais da vida.

Ela compreendeu, descendo a mão pelo tórax de Ferrão, antes de a fixar no seu abdómen macio:

— E aquele nome estranho que eles usam com você…

— …significa “filho de Anhangá”.

Divertida, a inglesa franziu a testa e levantou os cantos da boca:

Anha-what?

— Anhangá. Os tupinambás temem Anhangá, um espírito mau que é meio gente e meio bicho, de pele preta e olhos faiscantes.

Ela riu com vontade, mas compreendeu a comparação:

— Você não deve ter sido uma criança fácil, Captain.

— Não fui mesmo, Marquesa.

Cumpridora ou não de ordens, a criança que Tiago tinha sido tinha crescido num mundo como Anna suspeitava poder não existir igual. Um mundo demasiado novo e demasiado diferente para poder ser aceite, mas ela o teria compreendido:

— Porque é que escondeu assim de mim a sua história?

Ferrão levantou a cabeça e se encostou novamente contra a árvore, envolvendo Anna com os ramos a que chamava braços.

Ele tinha uma dívida enorme para com cada um dos habitantes daquele aldeamento e tinha também assinado um pacto de sangue figurativo, se dispondo a proteger aquele modo de vida. Nunca os poderia abandonar.

Tinha sido muito inocente da parte dele pensar que, uma vez recuperada Anna, tudo seria fácil, mas o ataque quase fatal de Hassan o recordara da sua frágil mortalidade.

Tiago encarou os enormes olhos inocentes de inglesa, que caçavam a atenção dos seus mesmo sem tentar. Um leve desconforto da realidade que enfrentavam o remexeu por dentro.

Se não se tinha conseguido proteger a si mesmo, como a protegeria na eventualidade certa do perigo que sempre o perseguia?

O pirata quis oferecer à espia a oportunidade de se libertar para sempre:

— Você pode ir embora da tribo. Eu te arranjo um bom guia e ele te leva onde você quiser. Perto daqui dá para embarcar para a Europa e aí você fica segura…

Em resposta, ela o agarrou com força, pressionando testa contra testa, e soprando as palavras diretamente para dentro da boca de Ferrão. Talvez assim ele as conseguisse finalmente engolir e aceitar:

— Eu posso ir embora, mas eu não quero, Captain. Eu quero ficar aqui com você.

No meio da noite da selva, os olhos faiscantes do filho de Anhangá da tribo incendiaram-se como se lhes tivessem acendido velas por dentro.

Entre árvores cobertas por ramagens discretas, a penugem do bicho bravo dado à costa havia muitos anos se eriçou quando as mãos hábeis de Anna começaram a desabotoar a sua camisa de cima para baixo, revelando ao mundo, em toda a sua glória, um verdadeiro animal cordial.

Contudo, eram bons espíritos aqueles dois que se encontravam, entrelaçavam e atravessavam um ao outro no meio da sua noite privada, querendo apenas provar na pele um do outro que eles eram um só coração.

Notas finais
Estava com esperança que liberassem o nome da personagem de uma certa Tia/Madrinha, mas ainda não o fizeram. Estava me roendo para chegar neste capítulo. Numa época em que a diversidade cultural, religiosa e política colhe tanto ódio e é tão atacada, não custa mesmo nada semear um pouco de tolerância, nem que seja através da ficção. No próximo capítulo: um pequeno salto até setembro de 1822. O resto é História ;). Beijo para todos!