Admirável Novo Mundo
19 Não sei se tudo errei ou descobri
Notas iniciais
Anna terminou de ler a primeira carta e a guardou de novo no alforje a seu lado, reconfortada pela sensação sempre agradável de enfiar os dedos dos pés na areia.
A vida lhe tinha dado a oportunidade de habitar em aposentos luxuosos, mas ela nunca tinha encontrado um escritório de despacho que a satisfizesse mais do que as muitas praias para onde as suas constantes viagens a levavam.
O tempo a trazia de volta a maio, mas, naquele ano, ela estava muito longe da noite fria em que um obscuro conde inglês lhe tinha entregado uma missão condenada que a levaria até ao outro lado do mundo, através da viagem com que tinha chegado finalmente em casa.
Se sentindo tão pertencente ao Brasil como se lá tivesse nascido e crescido, ela pegou na segunda carta e partiu o seu lacre encarnado com um pequeno punhal, descerrando as páginas da vida cuidadosamente dobradas.
O riso do marido e do filho a fizeram esquecer da importante leitura e Anna voltou para eles a sua atenção, se enchendo da alegria revigorante que a preenchia por dentro antes de se escoar para fora.
Com uma pequena pá de madeira, Tiago e Joaquim terminavam a última das torres do seu castelo em miniatura, refúgio fortificado provisório enquanto uma onda ligeira não o desfizesse com um só golpe.
Orgulhosa da sua obra tosca, a criança gargalhava, se equilibrando precariamente em pé antes de cair de bunda na areia, o que não acabava com a sua diversão bem-humorada. Era bem filho de Ferrão.
Desde o dia do nascimento do filho, a mãe sabia que tudo iria ser diferente. Anna Millman tinha sido derrubada de imediato por três quilos de gente.
A família que se construía a cada dia tinha uma existência de nómada, passando a maior parte do ano dentro de um barco, atendendo às missões atribuídas por um monarca que se estreava na governação, mas Tiago e Anna faziam questão de ter também uma casa com telhado, assente num chão familiar e nunca oscilante, lugar seguro para poderem proteger o filho.
Sempre que o momento o permitia, escolhiam voltar à aldeia e viver a vida num paraíso tropical, num vagar de quem sabe apreciar os pequenos momentos e enganar o tempo de forma a o colocar a seu favor.
Se lhes fosse dado a escolher, a antiga espia inglesa e o seu capitão reformado gostariam de passar o resto da sua existência semeando descendência e vendo crescer os seus ramos, nutrindo o modo comunitário de vida pacífica pela qual tinham arriscado a vida, mas o destino lhes vinha sendo contrário.
Os períodos de sossego eram valorizados pela sua raridade. Joaquim tinha acabado de fazer apenas dois meses quando Pedro se viu na necessidade de demitir o seu ministério e José Bonifácio passou à oposição.
Quatro meses depois, o antigo ministro seria banido do país e Anna e Ferrão se veriam na obrigação de continuar atuando nos bastidores para garantir a subsistência do país, carregando nos braços esse fardo ao mesmo tempo que embalavam o filho.
Era uma nova missiva do aflito Imperador que naquele momento tinha ido parar às mãos da loira, mas ela tinha perdido a sua atenção numa batalha facilmente ganha pelo momento em família.
Com pouco mais de um ano, Joaquim começava a querer dar os primeiros passos vacilantes e, para a mãe, seria imperdoável perder o momento.
Tiago percebeu na esposa a divisão entre vontade e dever e pegou na criança ao colo, a trazendo para junto de Anna, ao mesmo tempo que perguntava sem palavras pelas recentes novas da Corte Imperial.
Ela aquiesceu, suspirando, e retomou a leitura no ponto em que tinha parado:
— Pedro suspeita que José Bonifácio, mesmo exilado em França, está planejando algo que se pode virar contra ele. Maria da Glória vai muito bem no inglês. Os ministros de Dom João começaram a colocar a hipótese de Portugal aceitar a independência do Brasil, mediante o pagamento de uma indemnização, mas Pedro diz que não tem como pagar…
Ela levantou o sobrolho antes de continuar. O Imperador lhe pedia soluções mágicas, mesmo sabendo que ela não tinha uma varinha de condão:
— A nova gravidez de Maria Leopoldina vai muito bem e o bebé deve nascer em agosto. O Imperador quer que eu sirva de intermediária e envie correspondência secreta para uma das suas irmãs. Talvez Isabel Maria o consiga ajudar nas negociações.
Pedro de Bragança não perderia o hábito entranhado de misturar vida pessoal com vida pública, nem mesmo quando tratava de assuntos delicados com os seus espiões particulares.
Ferrão riu da desorganização do monarca, encolhendo os ombros com a capacidade do ainda herdeiro do trono de Portugal de tratar tudo o que tinha de mais precioso como se fosse uma lista de quem vai ao mercado:
— É tudo?
A inglesa sorriu, recuperando o último fragmento da leitura recente:
— Não. Leopoldina envia cumprimentos e manda a gente ser feliz.
— Nunca me vou acostumar com isso.
Perto deles, as ondas repetidas terminavam em braços de espuma que se abriam na areia que se arrefecia ao receber o seu toque.
Tiago esqueceu a sua proximidade secreta à realeza e se concentrou nos bracinhos roliços do filho, que davam vontade de trincar, mas que lhe estavam acertando com força no ombro. Joaquim exigia atenção e ela não lhe seria negada.
— Suponho que é para usar o nosso contato usual…
Anna riu com o comentário do marido. Inadvertidamente, a necessidade de encontrarem um agente de ligação tinha criado um pequeno monstro fascinado pela velha civilização:
— Piatã já está passando mais tempo na Europa do que aqui com a gente. Qualquer dia, não vai querer voltar.
Se o índio eventualmente mudasse de ideias e quisesse tempos depois voltar ao Brasil, encontraria um país em constante mudança, talvez difícil de reconhecer usando as suas memórias.
A constituição fora finalmente outorgada por Pedro uns meses antes e criara um Estado altamente centralizado. Se tratava de um governo baseado em boas intenções, mas um castelo de cartas voláteis, prontas a serem utilizadas num jogo de interesses e com tendência a desabarem, mesmo sem intervenção externa.
Anna e Ferrão dividiam as mesmas inquietações, inundados por dúvidas recorrentes quanto à validade dos seus esforços.
Pouco tempo antes, a inglesa tinha sofrido nova tentativa de assassinato. Homens como o Conde não perdoavam e não esqueciam, mas um verdadeiro brasileiro não desistia nunca.
A tenacidade de Tiago seria para sempre a maior garantia de que nenhum matador conseguiria chegar perto de Anna.
Tal como o novo país, também o filho deles descobria o sentido da marcha autónoma. Com a brincadeira na areia, o menino caía, rolava, mas se levantava sozinho, debaixo do olhar vigilante dos pais.
Era em momentos como aquele que a loira sentia a esperança de que tudo iria correr bem:
— O nosso filho já só vai conhecer um país assente no princípio da liberdade, governado por si mesmo…
Como se condicionado pela menção a política, Tiago levantou Joaquim e o virou, para lhe cheirar o conteúdo das fraldas. Felizmente, se tratava de um falso alarme:
— O Brasil é um país maravilhoso, meu amor, se você conseguir esquecer a corrupção, o flagelo da escravatura, a falta de direitos das mulheres e dos mais pobres….
Ferrão articulava os seus pensamentos num tom irónico, mas Anna não conseguia evitar o pequeno grão de dúvida enterrado bem dentro do seu coração, mas prestes a germinar.
Nos piores momentos, comparava a sua luta aos esforços de quem se vê obrigado a viajar numa canoa furada e tem acesso a apenas uma pequena caneca para tentar retirar a água que não para de entrar na embarcação.
Parecia demasiado longínquo o dia em que se retirariam os grilhões reais de quem estava preso pela sua cor de pele. Anna temia já não estar viva quando esse maio glorioso finalmente chegasse.
Joaquim deu três pequenos passos na direção da mãe que o recebeu no colo com os braços abertos e com alegria pelo pequeno grande feito. Passo a passo avançariam no caminho necessário.
Sempre ao lado da loira, Ferrão desenhou na areia um coração e preencheu o seu conteúdo com as iniciais dos três.
Uma águia altiva, um lobo feroz e o seu filhote híbrido. Um novo tipo de bicho, menos mitológico do que o que seria de supor. Sangue bom, jovem, a mistura entre civilizações que se tornaria no símbolo de um Brasil que se afirmaria perante o resto do mundo.
Anna sonhava com a educação de uma verdadeira geração brasil. Se tudo mais falhasse, eles seriam a mudança do paradigma congelado no tempo. O seu pequeno pirata carregaria a bandeira da liberdade e seria o alimento para a recusa em fraquejar perante o medo de errar.
Naquele momento, Joaquim tentava comer areia, as mãos gorduchas procurando com curiosidade os grãos que tentava levar à boca.
A mãe o socorreu, explicando com paciência a diferença entre o que era comestível e o que não o era.
Da mistura de erros, sobravam e prosperavam os grandes acertos.
Tiago caçou a sua Marquesa com os olhos, colocando uma das mãos dentro do desenho. Ela o seguiu, cobrindo com a palma segura o dorso da mão do marido. O último foi Joaquim, batendo com uma força crescente na montanha de extremidades que se levantava de dentro de um coração de areia.
Anna sorriu, antes de roubar um beijo ao ladrão que tinha mudado a sua vida e, tocando no medalhão de família, o sentiu completo. Dentro daquelas linhas caberiam muitas outras iniciais.
Na linha do horizonte surgiram as esperadas velas desfraldadas do Marquesa, uma sombra recortada pelo brilho do sol, um transporte incógnito para quem não se podia fazer anunciar.
A inglesa brasileira se levantou e segurou o filho nos braços, enquanto o seu Capitão carregava o alforje e as armas nos ombros.
Devagar, caminhavam juntos pela zona de rebentação das ondas cansadas até à área de atraque do navio.
A meio do trajeto, Ferrão parou para ouvir o ruído do oceano, adivinhando as suas intenções antes de se voltar para a loira.
Mergulhando nos olhos dela, deixou que eles falassem do amor que se espelhava também nos seus:
— Anos incríveis nos aguardam…
Ela riu, franzindo adoravelmente o nariz no mesmo trejeito que sabia fazer derreter o seu Captain:
— Well, tenho uma ideia ainda melhor para nós dois e para os nossos filhos.
Debaixo de um sol tropical, Tiago enlaçou ao mesmo tempo Anna e Joaquim, o que lhe permitiu uma confissão numa versão de constatação:
— Nunca vai ser fácil.
Ela assentiu, consolando e sendo consolada com o contato de quem lhe era mais próximo, antes de reiniciar a marcha:
— Não, mas não é por isso que a gente vai deixar de tentar.
Movidos pela esperança e pelo amor, eles seguiram pela praia, conscientes de que a perpétua movimentação da água do mar, camadas aquosas sem escolha quanto ao seu movimento de eterno retorno, apagavam os trilhos de pegadas assentes na areia que se movia.
FIM
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