Admirável Mundo Cão
5 Uma fuga lembra outra
Notas iniciais
Eu tinha quase certeza que não faltava muito para eu passar pelas grades. Mas também tinha certeza de que tinha que esperar um bom dia para minha fuga. E o dia era esse. Um dia depois da ronda. Nenhum guarda, nenhuma visita para inspecão — Uma vez que a ronda gerava uma série de conflitos -, nada. Naquela noite, eu comi a comida toda. Bem devagar, divindo em três porções, uma a cada meia hora. Sabe qual a melhor hora para fugir de um dementador? Meio-dia. Muitos imaginam que uma grande fuga seja melhor a noite. E tem razão. Principalmente porque as pessoas podem te ver melhor de manhã. Só que tem que um dementador não te vê nunca. Ele só senti suas emoções.
Mas, pelo que entendi enquanto pesquisava para me tornar um animago, as emoções ficam muito mais "simples" e rasas quando nos transformamos. Ai que vem o porque do meio dia. Além de dementadores não gostarem de sol, e isso faz com que fiquem dentro do seu alojamento quando o sol está a pino, esse é um bom horário por causa dos ratos. O almoço é servido as onze em Azkaban. Eles dizem isso quando você entra, e é tudo que você sabe por um tempo. Eu me guiava por esse horário. Ai, muitas pessoas não comem sua comida toda, e empurram o prato para fora da sela. Os ratos já decoraram o horário. Tanto quanto os prisioneiros. Eles chegam em bando para raspar nossos pratos.
E por que ratos são importantes? Por que talvez Peter seja um deles e eu possa comê-lo com uma bocada só? Não! Quem será se fosse assim tão simples. Mas é porque, nessa hora, minhas emoções menos humanas podem ser facilmente confundida com a deles.
Os ratos aqui já convivem comigo, alias. Nem se assustariam com a minha presença.
Eu esperei. Comi o café da manhã todo, em pequenas porções. Eu precisava ter força naquele dia, sem ganhar peso. por isso a decisão por ficar bem alimentado só perto do dia certo. Comi metade do almoço, e deixei o resto para os ratos.
Como eu disse, passei a aula inteira pensativo. O dia inteiro, na verdade. Pois aquele era um dia de aula integral.
“Nós nos deparamos com bruxos das trevas todos os dias. Os cumprimentamos, sorrimos para eles, damos passagem. — Começou Katherine, andando pela sala. Porque ao contrário do que nos é dito durante a infância a adolescência, eles não tem cara. Nós, bruxos e bruxas, bons ou ruins, como somos descritos pelos trouxas? Da pior maneira possível. Curvados, velhos, com verugas, calhos, com roupas rasgadas- a sala inteira riu. — É, vocês podem rir, é engraçado mesmo, eu também acho. Mas essa ideia não é muito longe da nossa ideia sobre o bruxo das trevas. Mas eles não são assim. — Ela deu uma pausa. A turma parecia ao mesmo tempo concordar e estar apreensiva. — Por exemplo, alguém aqui já esteve cara a cara com o Lord (sic) Voldemort?
Silêncio. Silêncio total. Fazia apenas alguns anos que ele tinha ficado verdadeiramente conhecido. Os seus atos estavam no profeta diário todos os dias. Muitos trouxas e nascidos trouxas tinham morrido. Muitas criaturas como lobisomens e gigantes já estavam do seu lado. Ela já era “você-sabe-quem”.
– Eu já. Disse Lilian olhando fixamente para Katherine. Ela nunca gostava de falar sobre isso. Mas parecia ter achado que a informação era importante para a classe toda.
– E como ele se parece Evans?
– Ele é… Bonito. — Lilian começou, meio desconcertada. James fez uma falsa cara de ciumes. — Bem apanhado, digo. Anda de terno, fala com polides, é muito articulado, alias. Não parece assustador, só intimidador. Como um chefe que te irrita, mas no fundo seria bom agradar. Eu diria até que ele é… Espirituoso. É, essa é a palavra.
Katharine pareceu um pouco impressionada. Talvez não imaginasse ter uma descrição assim, tão completa e real. Mas Lily sempre foi assim. Impulsiva e segura em suas falas.
– Exatamente Lily. Em que situação vocês o viu? Katherine perguntou interessada.
– Bom, eu e Jay, quer dizer, o Sr. Potter estavamos no beco diagonal, saindo no três vassouras quando recebemos uma coruja vinda do nada, pedindo para que fossemos próximos ao Gringotes para ouvir uma proposta de carreira. — Lilian deu uma risadinha abafada.- Isso mesmo. Estava escrito “carreira” e não “emprego”. Ficamos curiosos, porém, com o pé atrás. — Katherine ouvia atentamente. Será que estava entrando na mente de Lily? Não posso dizer com certeza. — Chegando lá, estava ele. Se apresentou, falou sobre a proposta dele e…
– E eu disse que a proposta dele era uma grande bosta. James completou, parecendo estar incomodado em lembrar esse fato. — Aparentemente quem nos “indicou” esqueceu de mencionar que a Lily era nascida trouxa.
– E depois? Katherine perguntou.
– Depois que James disse isso, ele ficou placido, como se não estivesse ouvido nada, tentou nos persuadir mais um pouco, mas eu percebi que os “comensais” ou seja lá que nome aqueles tinham… Estavam se aproximando e pegando suas varinhas. James também percebeu, jogou a capa por cima de nós dois e então seguramos um sapato de bebê que estava no meu bolso, e que era na verdade uma chave de portal.
– Exato. E por que vocês não aparataram? Katherine perguntou, como que para analisar.
– Porque não é muito bom aparatar em situações de alto stress, pois é a chance de estrunchar é muito alta. Lilian respondeu, e por um minuto eu vi a mesma Lilian que respondia tão rapidamente as perguntas de McGonagall e Snug.
– Sabe o que ouvimos aqui turma? — Katherine falou, saindo de perto de sua mesa e caminhando pela sala. — Uma descrição e uma atitude perfeitas. Não é atoa que Voldemort foi procurar vocês. Precisão e pensamento estratégico assim, são qualidades que ele aprecia muito. E além disso, serviu de exemplo para o que eu quero dizer nessa aula: bruxos das trevas muitas vezes não se parecem bruxos das trevas.
E assim ela continuou. Em algumas horas ela parecia falar com tanta experiência, que algo me fazia crer que ele já tinha conhecido e escapado de muitos bruxos das trevas. A pergunta é: Teria ela conseguido perceber rápido, ou teria chegado a entrar em alguma dessas gangues malucas?
Uma fuga me lembrou de outra.
A aula acabou. E as outras aulas que vieram depois dela. Em todas, eu tentei. Mesmo que eu estivesse prestando atenção durante todo o tempo, em meu lado oculto do cérebro martelava. Por que ela vasculhou minha mente toda?
James e Lily me chamaram para sair, eu disse que encontrava com eles depois. Eles iam encontrar com Peter lá e Remo também ia. Eu fui pegar a minha moto, mas fiquei esperando Katherine sair. Sabia que ela estava em outra turma. Acendi meu cigarro especial e fiquei ali, refletindo sobre a frase e a esperando. Sem que eu tivesse notado, ela já estava ali. Só notei quando ela disse:
– Cheiro interessante Sirius. Vejo que tem amigos trouxas.
– Não é preciso ser exatamente amigo de ninguém para conseguir uma boa erva. Eu disse dando uma tragada e arqueando as sobrancelhas de forma marota.
– O que você quer falar comigo? Ela falou sem delongas. Tirou o beck da minha mão e deu uma tragada enquanto me encarava.
É claro que eu já sabia que ela era das minhas desde o inicio. Mas eu nunca iria oferecer nem falar sobre. Embora os bruxos sejam bem mais tranquilos com essas assuntos do que os trouxas (já que temos todas essas poções alucinógenas e podemos beber desde muito novos) eu nunca ofereço nada pra ninguém. Se quiser pega, assim como ela fez.
– Por que você vasculhou minha mente? Ela passou o beck de novo pra mim e olhou de um lado para o outro. Parecia uma pouco constrangida. Eu fiquei esperando, encarando sem piscar. Apaguei o cigarro la lateral da moto e guardei o resto no bolso.
– Olha… Não me entenda mal. Eu não faço isso sempre. Digo, invadir mentes.
– Sei. Eu disse rindo de canto. Ela fechou a cara. Mas logo depois sorriu. Era uma falsa marenta. Mas um ponto em comum?
– Você praticamente jogou suas lembranças e pensamentos em mim. — Katherine passou a mãe sobre os cabelos jogando eles para tras. Parecia querer ganhar tempo. — Era… Era quase como se você quisesse que eu invadisse a sua mente. Foi involuntário.
– Entendi agora porque você foi tão grossa comigo.
– Na verdade eu fui grossa pelo motivo que eu falei antes. Por que não queria ser incomodada. Até então eu tinha visto sua mente só de forma superficial. Mas quando eu “joguei aquelas coisas na sua cara”, você assumiu uma expressão de total incredulidade e mais que isso… Vergonha, desapontamento. Como se você estivesse triste por aquelas serem as características que se sobressaiam em você. Nessa hora eu fui arrastada para dentro da sua mente. Por isso sai e fiquei na minha.
Ela foi tão sincera naquele momento, que me desarmou completamente. Eu estava querendo muito conversar com alguém aquele dia, e ela chegou lá e lia mentes. Foi uma extrema coincidência. Eu não disse nada. Olhei para meu próprios pés e evitei encará-la.
– Você poderia ter uma vassoura, aparatar, ter uma chave de portal… Mas prefere uma moto voadora. Ai Sirius, depois você reclama da fama. Ela disse para descontrair e depois deu uma risadinha fraca.
– Quer dar uma volta? Eu falei ajeitando a barba, que agora eu realmente tinha, para compensar um hábito que nutria desde criança.
– Pensei que você ia sair com seus amigos. Ela disse. Não foi um não. Ela apenas exitou. Eu tinha que continuar tentando.
– Eles estão acostumados com as minhas fugas.
– Tudo bem então. Ela falou simplesmente.
Eu subi na moto e fiz sinal para que ela fizesse o mesmo. Ela veio. Se aconchegou nas minhas costas e enlaçou minha cintura. É um ato normal quando se pega carona em motos e James, Lily e Remo faziam isso direto. Mas é claro que aqui era diferente pra mim. Não sei se pra ela foi alguma coisa. Acho que não.
Eu realmente tinha que fazer uma coisa. Fui até uma montanha cercada pela vegetação alta e densa. Eu sempre ia até aquele lugar. E depois de muito tempo, aquilo me foi tão útil. Desci da moto e ela fez o mesmo. Eu tirei minha jaqueta de couro e ela ficou me olhando de canto, achando estranho. Prova de que ela não estava lendo a minha mente. Eu só disse: "”Fique perto da moto." Katherine era suficientemente inteligente para entender as coisas sem perguntas. Dei uns passos para frente e ela ficou me observando, parada perto da moto. Eu continuei e com um pulo, me transformei no meu mais consciente alter ego, Almofadinhas. Ela ficou olhando surpresa. Eu estava bem forte naquela época. Bem nutrido, ganhando meu próprio dinheiro e vivendo bem a vida. O que queria dizer que eu era um enorme cão negro de pelos brilhantes e olhos azuis. Eu cheguei mais perto, ela hesitou, mas colocou a mão suavemente em meu focinho. Eu pus a língua para fora. A maneira mais fácil de sorrir, para um cachorro. Ela sorriu de volta. Eu fiz um movimento com a cabeça e fui até a sacola que estava no chão.
Só nessa hora Katherine a percebeu. Uma sacola preta e bem amarrada. Rasguei com meu focinho e depois também afastei com os dentes o pano que envolvia seu conteúdo. Era carne crua. Crua e levemente salgada. Encostar a mão na carne significaria transmitir meu cheiro humano para ela. E com isso perder a confiança deles. Puxei a carne com a boca e fui levando mais adiante. Quando eu já estava no ponto que queria, soltei a carne e lati para o alto. Não demorou muito e eles vieram. Cinco cachorros no mato. dois deles maiores do que eu. Eles sempre me esperavam.
Muito estranho que quando você é um animago, você consegue entender outro animal tão facilmente. O líder deles chegou mais perto e rosnou olhando para frente. Eu abaixei a cabeça e cocei o focinho indicando que ela era minha amiga. Eles entenderam, mas ficaram observando por um tempo. Como ela não se mexeu, eles se aproximaram. Me cheiraram e ficaram me rodeando.
Eu levantei, dei umas empurradas neles com a pata. Essas eram as boas vindas. Quando um humano da comida para um cachorro, ele costuma comer rápido. Isso faz parte da herança de medo que eles tem para com os humanos. Eles tem medo de ser uma armadilha. Dos humanos fingirem que vão dar e retirarem, e por ai vai. Mas quando eu tentava, eles simplesmente não tinham pressa. Eles confiavam.
Era uma sensação mágica para mim. Os caninos em geral, confiam muito uns nos outros, e nos seus donos. Mas eu não era nenhum nem outro. E isso que fazia diferença. Eu sempre tive problemas com confiar, em encaixar. Mas não aqui. Era como se eu tivesse nascido para ser um animago, e acho que nasci mesmo.
Katherine observava de longe minha interação. Ela parecia intrigada. Depois que eles — e eu, pois fazia parte da cerimônia. — comemos, eu fui corres um pouco com eles e mijar em umas árvores. Ossos do oficio. Me despedi com uns latidos, e fui para perto da moto. É claro que eles sabiam que eu não era um cão. Mas me consideravam um deles.
Quando voltei a forma humana, Katherine estava apoiada na moto ainda me encarando. Eu sorri sem graça.
– Queria te mostrar meu lado mais humano. Esses ai são meus outros amigos.
– O lugar onde você não é Sirius, o maioral, e sim um entre eles. Parte do bando. Interessante. Eu ri. Percebi que ela estava brincando.
– Eu não sou Sirius o maioral em lugar nenhum Senhorita Snaler. Rebati, sem me conter.
– Será?? Ela disse levantando as sobrancelhas.
A constatação podia querer dizer suas coisas: Ela reafirmando minha fama de esnobe, ou me dizendo, nas entrelinhas, que eu realmente me destacava entre as pessoas. Cocei a minha cabeça. E sinto que isso pareceu meio canino. Então ri logo depois. Não tive reação.
Ai você me pergunta: O grande Sirius Black, com medo de falar alguma coisa? Como eu disse, eu não era o maioral. Eu já tinha ficado nervoso com mulheres muitas vezes antes. Mas ela quebrou o gelo.
– Sirius, você não é mais um na multidão. E isso, não é necessariamente ruim.
Eu tive vontade de beijá-la. Mas me contive. Não podia tentar uma investida, não depois de todo o progresso. eu estava sendo tão forte que nem me reconhecia.
– Obrigada Katherine. Eu falei rindo fraco. — Agora estou indo encontrar com a galera. Você quer vir?
– Esse não é o momento que vocês falam mal dos professores?
– É. Mas não falamos de você, pode deixar.
– Nesse caso, sim, preciso me distrair mesmo. Subimos na moto e lá fomos nós.
A sensação de liberdade que eu experimentei naquele dia, com meu bando, com a minha moto e com ela, ficou na minha memória e eu nem sei bem porque.
Na cela, mais de quinze anos depois, e pelo menos uns quinze quilos mais magro, cá estava eu, sentindo-me parecido. Já estava a postos. Os ratos estavam ali, comendo o resto do meu almoço sem se preocupar comigo. Tentei me projetar para fora da cela. Prendendo a respiração.
A cabeça passou tranquilamente.
Quase consegui sentir o cheiro das árvores tão distantes, lá no continente.
Minhas costelas se contraíram e eu quase não tinha gordura corporal. Passou.
Me lembrei da última vez que vi James. Ele estava tão magnificamente feliz, que a lembrança me causava o oposto.
O resto do meu corpo deslizou pelas grades sem nem ao menos tocá-las. Os ratos me rodearam. Eu devia estar fedendo muito. Mas ter eles em volta era ótimo.
Tentei me lembrar do caminho pelo qual fui arrastado para dentro da cela e essa lembrança era tão ruim que parecia que tinha um dementador do meu lado. Eu gritava. Muito, como um louco varrido. Eu dizia que era mentira, que Peter estava vivo, que eles tinha que ir até ele. Gritava por Harry, dizia que ele era minha responsabilidade. Ninguém me ouvia. ninguém se importava. Diante do Pânico para capturar comensais da morte antes que um assumisse o lugar do líder era tanto, que nãoo haviam julgamentos. Só prisões.
Fui seguindo pelo caminho, encontrei a entrada. Mais uma grade. Mas essa era mais larga que a da cela. Não sei qual o motivo da existência dela, já que não tínhamos banho de sol. Passei novamente.
Lá estava eu, diante de um barranco de pedras escuras que ia dar direto em um mar congelante. Fui bem rápido para pegar o embalo. Corri como nunca e quando dei por mim, fui parado pelo mar que me invadiu. Eu sabia que era para essa direção que eu deveria seguir, pois os barcos estavam por ali. Era por onde os prisioneiros chegavam. Era muito bom ser um cachorro nessas horas. Primeiro porque cachorros geralmente tem mais facilidade para nadar. segundo pq roupas encharcadas nesse momento não seriam bem vindas.
Eu estava Eufórico. Tão eufórico que só me dei conta do quanto havia nadado quando percebi que já era noite. Eu tinha saído meio dia. Provavelmente passava das sete da noite. Continuei. Estava cansado e fraco, mas não tanto. Nenhum nem outro. Avistei copas de arvores. Talvez as que tinham invadido minha imaginação com seu cheiro.
Fui chegando mais perto, e mais perto. Percebi que as árvores estavam distantes da praia. Uma longa faixa de areia se estendia antes. Continuei nadando, mantendo a calma. Minhas patas tocaram a areia por dentro na água. Meu coração disparou. Eu Estava tão agitado que não conseguia sair do lugar. As ondas mansas me levavam de um lado para o outro, e um pouco para trás. Tudo não passou de um minuto. Mas para mim foi um século.
Sai da água, ensopado, exausto, faminto e livre.
Deitei. Respirei fundo e aliviado.
E Harry? Será que ele gostaria de mim?
E adormeci com a água batendo nas minhas patas traseiras.
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