Admirador
1 único
Sanji tinha um amigo diferente das demais crianças. Seu nome era Zoro, os cabelos verdes, pele escura e um corpo mais robusto que o seu. No entanto, era nos olhos castanhos que Sanji via o que o distinguia das outras.
Seu olhar era seco e não havia brilho, por conta disso fora isolado. Muitos tinham medo e boatos surgiram para aumentar mais ainda o muro em volta de si, mas Sanji se aproximou de Zoro. Não entendia exatamente por que, mas era como se Zoro fosse alguma criatura por não parecer com uma criança e muito menos com um adulto, além do fato de sentir pena do garoto excluído.
Talvez seria um animal. Pelo menos foi isso que seus olhos impassíveis lhe transmitiram assim que o encarou. Sanji tivera a sensação de que Zoro havia despertado o sexto sentido ao observar aquelas orbes tão de perto pela primeira vez. Mesmo estando agachado e brincando na terra, com o rosto sujo e barro nas unhas das mãos.
Ao contrário de Zoro, Sanji era um bom garoto e um aluno exemplar. Por conta disso, frequentemente ganhava bullying dos amigos da escola, amigos bem suspeitos e que sentiam inveja toda vez que um professor parava para elogiá-lo.
Sanji pôde se ver um pouco em Zoro, ambos sofriam alguma distinção, mas depois da primeira troca de olhares, soube que o estava subestimando. Zoro não era digno de pena a ponto de formar a dupla dos excluídos, ele era pra ser adorado.
Por isso resolveu ser seu amigo para apresentá-lo aos outros, mas Zoro era bom demais e seu mundo muito à frente, quando era tão misterioso e não puxava saco de ninguém. Um sentimento egoísta de tê-lo só para si, dominou sua mente e logo deixou de lado essa ideia de socializá-lo.
Contudo, Sanji sempre sentia que não era o bastante para estar ao lado dele, embora Zoro estivesse ali no outro dia ou na hora seguinte, sempre ao seu lado. Uma disputa idiota cresceu entre os dois com Sanji querendo ser igual a Zoro e não compreendendo o que aquele marimo queria. Tal relação gerou muitas brigas problemáticas, mas não havia outro igual a ele e faziam as pazes.
Numa tarde voltavam da escola e passavam numa alameda com árvores florescidas daquela primavera, o cheiro das flores era forte, o sol poente caía bem com as cores de suas pétalas amarelas e Sanji reparou que Zoro passava sorrindo.
— Marimo, você podia sorrir mais vezes. — Aconselhou contente. — Fica bonito!
— Sobrancelha enrolada — O jeito que ele chamava Sanji por conta das espirais nas suas sobrancelhas. —, estou começando a entender.
Sanji o encarou, vendo o curativo sobre sua bochecha devido ao galho de uma árvore durante um passeio no bosque. — O quê?
De vez em quando, Zoro lhe parecia muito vago ou abstrato. Não que Sanji pensasse exatamente nessas palavras, por que qual criança diria “abstrato”? Mas ele já conhecia a sensação e no final de tudo, reforçava o pensamento de que Zoro era muito à frente de seu tempo por fazê-lo sentir tais sensações.
— O motivo das brigas.
Isso chamou bastante a atenção de Sanji, ele não entendia por que um deus do olimpo perdia tempo em competições com um mero ser humano. Claro, Sanji não pensou nessas palavras, porque era uma criança e nem havia estudado ainda algo greco-romano.
— Eu quero ser você...
Por essa Sanji não esperava, logo seu Michelangelo dizendo algo assim? Era isso mesmo? Freud ou Nietzsche deviam ter algo pra falar sobre, mas Sanji nunca ouviu falar dos dois. E nem mesmo sabia o que era ironia do destino, mas achou curioso o seu melhor amigo sentir o mesmo que sentia por ele. Riu.
Resolveu pegar na mão ralada de Zoro e passaram a descer a alameda com suas mochilas pesadas, mas o sobrancelhas percebeu um brilho no olhar do amigo carrancudo, enquanto a primavera trazia consigo o presságio de que logo não seriam mais crianças.
Fale com o autor