Adhara
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Acordei com uma sacudida brusca do barco. Era de noite e a madeira do barco rangia de um jeito tenebroso.
Ouvi passos no andar de cima, mas era perto das três da manhã, quem estaria acordado esta hora da madrugada? Decidi dar uma olhada. Sentei na ponta da cama e coloquei os pés no chão frio. "Certo Adhara agora você consegue." pensei. Fiquei de pé, agora vem a parte que eu geralmente me desequilibro. Tiro o pé direito do chão. Eu teria caído se não tivesse me segurado na cadeira ao lado de minha cama. Fui cravando as unhas na parede de madeira e dando passos pequenos, o movimento do barco não ajudava muito. Fiquei cara a cara com a escada de madeira. Se eu caísse o barulho acordaria todo mundo no barco.
Cair não é uma opção.
Segurei-me forte no corrimão e me icei para cima. No final da escada em vez de virar para a esquerda, em direção da Copa, fui para a direita, de onde vinha a luz de algum cômodo em que a porta não fora fechada.
Nas janelas do corredor podia ver a chuva caindo. Era uma noite de tempestade. Cheguei perto da porta de onde a luz saia e espiei. Era a cabine do capitão. Não conseguia ver quem estava controlando o leme, apenas ouvia o barulho dele sendo girado de um lado para o outro, o radar apitando e a chuva caindo no vidro de onde conseguia se ver toda parte da frente do barco e o mar.
Eu estava prestes a voltar para o meu quarto quando alguém disse:
– É muito feio ficar espiando. — Falou Jake
"Merda", pensei enquanto ia para baixo do marco na porta.
–Não deveria estar dormindo? -Ele perguntou.
–E você, não? -levanto uma sobrancelha.
–Um bom capitão cuida do seu navio.
Não respondi.
–Graças a você estou sem metade da orelha.
–Se esta esperando um pedido de desculpas não vai conseguir.
Ele arqueia as sobrancelhas. Eu arranquei metade da orelha do capitão. O pensamento me faz querer rir, mas não vou rir na frente dele.
–Tenho que admitir, pernas caem muito bem em você. -Jake diz.
Não respondo. Só fico olhando seria pra ele.
–Boa noite. -Digo, concluindo a conversa.
–Boa noite, sereia.
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Quando acordo, babá Nicholas estava sentado na cadeira ao lado da minha cama.
–Bom dia. -Ele diz.
–Que horas são? –Pergunto, me sentando.
–Perto das nove da manhã.
Esfrego os olhos.
–quer tomar café? — Ele pergunta. Faço que sim com a cabeça. -Consegue andar ou quer ajuda?
–Eu consigo.
Fui andando de vagar, principalmente na escada. Eu ia à frente e ele atrás para que caso eu caísse ele podia me segurar, mas graças a Poseidon isso não aconteceu. Ele ter que me segurar não ia ser nada menos que muito constrangedor.
Entramos na cozinha, eu sento e ele abre a caixa de metal branca e grande.
–Você gosta de fruta?
–Só comi fruta uma vez.
–Então vai provar algo novo hoje.
Ele coloca na minha frente uma fruta laranja com bolinhas pretas dentro.
Ele me da uma tira de metal gasta e eu não tenho ideia do que é aquilo. Espero ele começar a comer a mesma fruta que eu para ver o que fazer com o instrumento de metal de formato estranho.
–O que é isso?- pergunto apontando para o instrumento de metal. Que vergonha.
–É um garfo. -Ele responde. -Você usa a parte com dentes para tirar um pedaço da fruta e colocar na boca. E tem que tirar as sementes do mamão, elas não são comestíveis.
–Ah. Fiquei observando como ele fazia para usar o tal do garfo.
Depois de um tempo observando tentei fazer a mesma coisa. Nas primeiras vezes os pedaços de fruta que eu tirava caiam do garfo... Ou do prato.
Mas peguei o jeito bem rápido. Tirei um pedaço da fruta e coloquei na boca. Era bom até, não era a melhor fruta que eu já comi (se bem que eu comi só duas frutas na minha vida toda).
Escuto o barulho de passos vindo pelo corredor e se aproximando.
–Bom dia Nicholas, bom dia princesa. — Diz Evan sentando do meu lado.
–Oi Evan. — Responde Nicholas sem entusiasmo.
–Sereia, você não respondeu minha pergunta de ontem.
Olho pra ele com raiva. Ele vai mesmo ficar me irritando com isso?
–O canto das sereias pode enlouquecer um homem?
–Não te devo satisfação. -Respondo.
–Finalmente falou alguma coisa. — Ele sorri maliciosamente.
–Da um tempo Evan. -Diz Nicholas revirando os olhos.
–Por que quer tanto saber? — Pergunto.
–Quero saber do que você é capaz. -Ele diz, olhando no fundo dos meus olhos.
–Você não tem outra pessoa para incomodar Evan? — Diz Nicholas, irritado.
–Eu sei que você tem alguma carta na manga sereia, estou de olho em você.
Evan diz isso e logo depois pega algo na caixa branca gigante e sai.
–Desculpe. — Diz baba Nicholas. — Você é a única mulher no barco, a explosão de testosterona é inevitável.
Reviro os olhos.
–Mas a culpa é sua. — Ele completa.
–Minha? — Pergunto cruzando os braços.
–Ninguém mandou você ser tão bonita.
Não vou ficar vermelha, não vou.
–Por que vocês não me deixam ir? Por que não me atiram no mar? Eu quero minha vida de volta.
–Sua cauda se foi, se te atirarmos no mar você vai morrer de fome ou hipotermia, o que vier primeiro.
–Vocês estão a quanto tempo no mar?
–Uma semana. Vamos voltar daqui alguns dias.
–Voltar... Para o continente?
–Sim, e você vai conosco.
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Acordei no meio da noite. Estava quente e cada vez que eu me movia bruscamente sentia uma pontada de dor na lateral do corpo. Levantei na cama e sai do quarto, agora conseguia caminhar direito e subir a escada não era mais tão difícil. Eles nunca me deixavam sair das cabines do barco, o que atiçou minha curiosidade para ver o que tinha do lado de fora. Sai do barco e fiquei cara a cara com a noite quente e estrelada.
Meus pés tocavam no chão frio e húmido da água do mar, o que me fez sentir mais saudade da minha cauda, da minha antiga vida e da liberdade que eu tinha. Cheguei até as barras de proteção da proa e olhei para o mar escuro e calmo desejando de todo o coração que eu pudesse estar nadando nele.
Sentei nas barras com os pés para fora da água. Queria uma falsa noção de liberdade. Não funcionou muito. Fiquei por vários minutos parada la, sentindo o vento quente e húmido no rosto e escutando o barulho das ondas batendo na parte inferior do barco, convidando-me a me jogar.
–Vai se atirar? – Pergunta uma voz atrás de mim.
Nicholas senta junto comigo nas barras de proteção.
–Não. – Digo baixinho.
–Você está tão triste, não posso fazer algo para ajudar?
–Você não pode trazer minha cauda de volta.
–To me sentindo muito culpado, se não fosse por mim você não estaria aqui.
–Como assim?
–Eu estava cuidando das gravações da câmera quando você apareceu, se eu soubesse que eles iam te dar uma facada e te trazer para o navio eu não teria avisado.
Não disse absolutamente nada.
–Posso te perguntar uma coisa? – Ele perguntou.
–Eu tenho escolha? – Disse sarcasticamente, ele ignorou.
–Eu sei que você não quis falar mais cedo, mas vou perguntar mesmo assim.
–O que?
–Estou curioso... É verdade? Sobre o canto das sereias?
Solto uma risadinha. Parece que a curiosidade de Evan infectou minha babá.
–Sim. – Olho para ele. – O canto é um feitiço em si.
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