Adeus, meu esqueleto no armário
1 Sabores da vida
Eu tinha acabado de me curar de um coração ferido quando você apareceu.
Tão despretensioso, tão amigável e tão parecido comigo em tantas coisas — gostos e opiniões. A única coisa a qual não se encaixava ao certo eram nossas visões de mundo.
Você via o mundo como um lugar frio e cruel. Eu o via com uma beleza única e simplória.
Mas isso era porque eu ainda não havia conhecido a dor de verdade. Não havia experimentado da angústia e amargura verdadeiras.
Tudo bem, eu admito. Eu já havia passado por situações difíceis, afinal de contas, a vida não é somente flores, há tristeza, raiva, frustação — e tudo bem, estes são sentimentos da própria natureza humana.
Mas nenhuma dor antes me perfurou tão profundamente quanto a que você me causou.
No início, não posso negar, era bom. As borboletas no estômago, as bochechas quentes, o coração inquieto só de falar com você. Os beijos inocentes trocados, os abraços e olhares cúmplices. Não havia outro lugar nesse mundo que se comparasse ao seu lado.
Mas o meio? Ah, o meio disso tudo... Complicado e difícil. Questões familiares, dificuldades, falta de tempo e saudade excessiva — você não fazia ideia de como ficar longe de você me deixava triste.
Tudo bem, eu me conheço. Sei que eu era exigente quando se tratava de atenção e dedicação, mas era um pecado tão grande assim querer ter você ao meu lado? Não é o que todo apaixonado quer, afinal? Você tratava essa simples questão como a maior das minhas falhas, como se o simples fato de eu querer sua companhia fosse um ultraje, como se você estivesse cansado de mim — e talvez estivesse mesmo, mas eu era teimosa demais para perceber.
Então tudo passou de doce para agridoce. Nosso tempo juntos era pouco e você simplesmente não fazia questão da minha companhia, você já não me olhava como antes e eu me sentia cada vez mais insignificante para você, cada vez mais desimportante e deixada de lado. Você não tinha a mínima consideração por mim, pelos meus sentimentos e problemas. Você era insensível demais para entender a minha sensibilidade — porque afinal, eu sempre fui uma pessoa excessiva.
E o pior eram suas justificativas tolas para o tratamento frio que você me dava, tentando de toda forma reverter a situação em prol da sua imaturidade emocional, me culpabilizando por coisas que não eram minha culpa.
O final foi o mais amargo possível. Uma conversa longa que durou um sábado inteiro. Eu não me lembro do que falamos, não me lembro das suas palavras ou sequer das minhas. Só me lembro da sua voz derrotada e conformada, sabendo que aquele seria nosso fim. Lembro do seu choro, dizendo que jamais se sentiu ferido como estava se sentindo naquele momento. Lembro do meu maxilar tenso, do meu peito dividido entre tristeza, raiva e compaixão. Lembro que você colocou uma música do nosso artista preferido para tocar — e então a tristeza levou o melhor de mim. Chorei lágrimas quentes que desciam queimando minha pele como água escaldante. Você, que já tinha o rosto molhado e inchado, me apoiou no seu peito, tocando com uma suavidade espantosa meus cabelos emaranhados.
Nos despedimos e prometemos ser amigos.
Nunca realmente chegamos a ter uma amizade, porque depois da amargura veio a acidez.
Você não demorou muito para aparecer com outra garota, assim como não demorou muito para me mandar uma mensagem falando que precisava de distância.
Te liguei várias vezes e você não atendeu nenhuma delas.
Derrotada, me conformei. Tentei seguir em frente, embora doesse como o inferno pensar em você.
Foram dois meses chorando todas as noites antes de dormir. Foram dois meses duvidando do meu próprio valor. Foram dois meses sem comer e dormir direito.
Naquele tempo eu entendi a sua visão de mundo. Pensei que o mundo realmente fosse um lugar cruel, um lugar ruim.
Mas sabe, eu só cheguei a pensar mesmo, nunca a acreditar.
No final das contas, eu tinha minha família e amigos ao lado; minha mãe que sempre fazia minha comida favorita para me animar. Minha irmã que me deixava dormir com ela nas noites solitárias. Meu pai que sempre me convidava para assistir alguma coisa com ele. Meus amigos que sempre que podiam vinham me fazer companhia ou mesmo só me emprestar o ombro deles para chorar.
Como, então, eu podia ser capaz de acreditar na sua visão pessimista de mundo se eu tinha essas pessoas maravilhosas ao meu lado? Se o mundo fosse um lugar ruim de verdade, pessoas como aquelas deveriam existir?
Então eu comecei a me esforçar de verdade para deixar você para trás. Me concentrei em aprender coisas novas, me concentrei nas pessoas que eu amava e me concentrei em mim mesma.
Foi quando você decidiu reaparecer.
E eu me senti mal de novo.
Eu não queria me sentir daquele jeito novamente, então dessa vez eu que te expulsei da minha vida.
E você me deixou em paz por alguns meses mais e insistiu em reaparecer.
Tentei dar uma chance, você parecia diferente — ledo engano.
A verdade era que você só queria alguém para te validar, alguém para você usar como curativa para as inúmeras feridas que você tinha — feridas essas que você nunca tinha me mostrado.
E eu tentei, tentei mesmo te ajudar e estar ao seu lado. Você, afinal, tinha sido alguém que um dia me fez feliz e tentar te apoiar era o mínimo que eu poderia fazer.
Mas assim que você se viu satisfeito, foi embora. Me desprezou e me tratou com indiferença.
Dois meses depois eu descobri o porquê: você estava em um novo relacionamento, já tinha alguém para validá-lo e servir de curativo no meu lugar.
Hoje em dia ainda penso em você, é verdade.
Mas jamais quero-te de volta. Não depois de tudo que você me fez passar.
Adeus, meu esqueleto no armário. Vou tentar encontrar minha felicidade e espero que você encontre a sua — se já não a encontrou, é claro.
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