Adeus, mamãe.
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Mais uma vez observara o sol se por naquela tarde. Trazia-lhe uma sensação estranha fazer aquilo. Sentia um vazio se aproximar a medida em que as sombras das árvores se estendiam e o céu tornando-se cada vez mais escuro.
Meia dúzia de bavetes cantarolavam, anunciando a chegada da noite fria e calma como de costume. Sua atenção fora cortada por um cheiro que lhe enchia a boca, a janta estava servida. Guizado de peixe, arroz e uma farofa com pedacinhos de carne seca. Ainda podia sentir o gosto daquilo…
Na manhã seguinte acordou com barulho de chuva no telhado, então correu para a janela de seu quarto a fim de apostar corrida com as gotas que deslizavam no vidro úmido. Gostava de imaginar que as gotas eram pequenos cavalos, e que ganhava o primeiro que chegasse na base de madeira inferior. Nunca ganhou uma aposta consigo mesmo.
Depois de um breve período, o sol impetuoso reinava diante as nuvens dissipadas. Secava as gramas e folhas que nelas jaziam gotículas de água. A chuva chegara como um presente divido, era-lhe de todo bom grado recebê-la naquele momento tão seco e sufocante no campo. Notara algo brilhar em meio as pedras, uma brilho rubro, vermelho como o sangue. Sentiu-se encantado com aquilo, e como um feitiço colocou-se a caminhar em sua direção. Desceu as escadas de madeira velha correndo e em segundos já estava do lado de fora. Procurou por horas a fonte daquele vermelho que lhe ardia os olhos, mas nada pudera encontrar. Regressou desapontado ainda imaginando que objeto reluzia a luz do sol de uma forma tão majestosa.
A vida no campo era bem pacata, então sobrava-lhe tempo para colocar em práticas suas imaginações comuns como as de uma criança de 10 anos. Faria 11 em outubro, e pensar nisso enchia-lhe os pulmões de alivio, pois sabia que seus primos iriam o visitar e ao menos uma vez mais sentiria o conforto de uma companhia.
Era um menino solitário, que ocupava seu tempo com labirinto de formigas, bonecos de barro e um reino construído em pedrinhas brancas. Tinha uma longa estrada que levava os habitantes imaginário para um lago, que jazia ressecado pelo verão intenso desta temporada. Morava com a mãe. Seu pai morrera num acidente de carro, uma morte rápida e indolor. Helena ficou tão solitária que enfrentou duas depressões. E uma terceira estaria por vir.
Merly – assim o chamava – percebia como sua mãe estava mal, e com isso procurava dar-lhe o seu melhor lado. Tornou-se tão companheiro quanto um menino de dez anos poderia ser para sua mãe. Observar seu semblante triste e descuidado provocava-lhe uma sensação desesperada, já que era essa face que fazia-o recordar das vezes que ficou doente, e que teve que ficar com seu tio Thomas enquanto sua mãe se recuperava dessa amarga doença mental profunda.
Agora, mais que nunca Merly procurava rasgar um sorriso em sua mãe. Assistia televisão juntos, ajudava nas faxinas de casa, tentava conversar com ela, mas nada parecia agradá-la. Seu rosto caído, travado numa expressão de tristeza era o único que tinha naquele momento. Por vezes a avistou chorando escondida, e ele a acompanhava com desespero ao vê-la sucumbir a doença, um choro tão intenso que seus olhos tremulavam e seu coração batia tão forte quanto as de um guepardo adulto.
Seus temores eram incontroláveis, e a medida que os dias avançassem os demônios em sua cabeça a comeriam por completo.
Sabia que não poderia ficar parado, ver sua mãe definhar era horrível, ainda mais para um garoto.
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O sol ainda nascia, e o vento gelado rasgava-lhe o rosto jovem e desprotegido. Passou por terrenos irregulares, esburacados e profundamente rico em vida. Era incrível pensar como num pequeno pedaço de terra poderia abrigar tantas espécies diversificadas. Observou sapos pulando dentre vitórias-régias até a margem do outro lado dum pequeno lago. Gaivotas o acompanhava guinchando, parecia que de alguma forma mostrava o caminho, seja la qual fosse seu destino.
Parou de frente a um desfiladeiro, e la de cima pudera observar uma pequena chalé destruída pelo tempo. De longe parecia abandonada e sem vida, mas a medida que avançava notara uma pequena vela a queimar e sua luz escapando dentre os filetes de madeira velha. Aproximou da porta e antes que reunisse ar o suficiente para um grito, abriu-se vagarosamente e uma voz convidativa soou la de dentro:
— Pode entrar garoto, achei que nunca viria. Disse a voz rouca.
Sem pensar duas vezes Merly aceitou o convite do desconhecido. Assim que entrou notou que o interior do chalé era tão desprovido de vida quanto o lado de fora. Cadeiras reviradas, mesas com objetos que um dia tivera alguma utilidade, quadros estilhaçados e uma lareira com troncos úmidos e carbonizados. Se perguntou como alguém poderia viver ali.
Sentou-se num banco velho próximo a parede à espera do anfitrião, que não demorou muito para apresentar-se. Era um velho com cabelos longos e grisalhos, barba amarelada e olhos tão fundos como os de alguém que não dormira a meses. Trajava roupas simplórias e um pequeno chapéu descansava em sua cabeça. Mas, oque chamou-lhe a atenção fora um anel em seu dedo. Era grande até mesmo para um velho daquele tamanho, possuía uma pedra encrostada do tamanho de uma azeitona, vermelha e reluzente.
— Desculpe o chamar dessa forma, mas estou acabado demais para caminhar por ai. Disse para Merly enquanto ajeitava uma poltrona resistindo ao tempo para sentar-se.
— Mas o senhor não me chamou. Respondeu Merly.
O velho então levantou a mão e com os dedos da outra começou a rodar o anel envolta de seu dedo.
— Não diretamente. Respondeu com uma cara tanto sábia.
Só agora se deu conta do brilho que avistara a dias atrás, daquele objeto que inutilmente procurara por incansáveis horas.
— Era o senhor que.. Não.. Não é possível. Disse o garoto surpreso com oque acaba de descobrir.
— Como? Completou.
— Eu tenho meus meios, sou como você, oque difere é algumas décadas de experiência. Respondeu enquanto abria um sorriso amigável.
— Preciso que faça algo pra mim, e o darei oque queres. Disse o velho.
Merly não compreendera muita coisa, mas aceitou aquilo tão fácil como uma criança confiante, segurando a mão da mãe caminhando por lugares desconhecidos e assombrosos.
— Oque preciso fazer? Disse o garoto.
O velho fez um esforço levantando da poltrona velha e úmida, e então disse:
Preciso que volte, e lhe dê adeus.
O menino espantado com oque acabara de ouvir arregalou seus lindos olhos castanhos numa reação incontrolável e então disse:
— OQUE?
— Preciso que volte garoto, e apenas lhe de adeus. Disse novamente o velho agora numa expressão pouco excitante.
Merly entendendo a situação colocou-se a chorar. Lágrimas escorriam atingindo seu peito e com uma voz falhando dizia:
— Não que..quero que qu'ela morra, não deixe-a mo..morrer..
O velho sem dizer nada apenas abraçou numa tentativa de confortar o pobre menino.
— Vá, ela precisa disso.
Ainda com o rosto grudento de lágrimas, deu meia volta e sem olhar para trás retornava de onde viera.
O caminho era longo, mas de alguma forma não sentia cansaço. Caminhava rigorosamente dentre as pedras e poças de lama que lhe cobria os joelhos sem exitar. Com sorte chegaria antes do sol se por.
Em sua mente procurava aceitar a ideia de perder a mãe, mesmo ainda tão jovem. Pensou que talvez viver com o tio Thomas não fosse tão ruim assim, mas nada lhe confortava agora. Ele queria sua mãe, queria aquela pessoa que lhe contava histórias, que lhe trazia comida quente, que acariciava sua cabeça todas as noites antes de dormir. Não suportava a ideia de perdê-la, mas sabia que de alguma forma ela já tinha partido a algum tempo.
Avistou sua casa, e uma pequena luz incandescente ainda ardia na sala. Abriu a porta delicadamente com medo de levar alguma bronca, mas fora surpreendido com a cara dela imaculável como a de antes. Sentada no sofá com sua expressão fria e derretida.
Aproximou-se dela, tentou segurar sua mão magra e fina e com um choro preso na garganta balbuciou algumas palavras ilegíveis.
Sentou ao seu lado olhando-a com os olhos transbordando lagrimas
— Mamãe. Disse, apoiando sua cabeça no ombro dela.
Lembrou-se das palavras do velho e reunindo todo ar que pode, disse:
─ Te amo..
Como mágica, aquele ambiente frio e desolador da sala começara a destorcer e sentiu-se mais leve. Olhou para trás e pode ver o velho na porta, como se o esperasse. Um brilho gradativo vinha do alto e em segundos se viu planando. Uma sensação estranha tomava seu corpo, imagens começaram a encher sua cabeça. Se viu brincando com seus primos Richard e Willys em seu aniversário de 8 anos, viu-se construindo seu pequeno-grande castelo de pedrinhas brancas no verão do ano passado. Viu-se sorrindo enquanto brincava com sua mãe no quarto no terça a tarde. Se viu votando para casa com seu pai, depois de um final de semana inteiro na casa do tio Thomas, mas, de repente, viu algo a mais. Uma luz se aproximava em sua direção e uma barulho estridente de buzina aumentando de forma progressiva, até que o silêncio reinou. Apos um breve período viu-se preso nas ferragens torcidas do carro com seu pai. Viu-os sangrarem. Viu também a notícia chegando para sua mãe e o desespero brotar em seu rosto. Viu-a adoecer e a chorar por dias..
Agora, depois de tudo, sabia porque o velho pedira aquilo
Percebeu que somente largando aquele mundo que não lhe pertencia mais devolveria a saúde de sua mãe presa nos sentimentos saudosos do que fora seu filho.
Merly entendera depois de anos que era ele o culpado, então segurou a mão do velho, e com um olhar triste e faminto de abraço distanciou-se daquela que um dia lhe dera tantos motivos pra sorrir e disse:
— Adeus mamãe.
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