Adeus, Viajante
10 Capítulo Nove
Notas iniciais
Denver, Colorado, 2015 – Lottie
Estávamos saindo de uma loja e indo em direção a um orelhão, para que eu pudesse falar com o cara das certidões falsas.
Jonny estava calado desde que saímos de casa, e eu não sabia como começar um pedido de desculpas.
— Vamos nos encontrar com ele na praça perto da cafeteria, daqui a vinte minutos. — Eu avisei. Ele simplesmente deu de ombros e assentiu com a cabeça, mostrando que tinha ouvido.
Chegamos ao local e nos sentamos num banco, afastados um do outro pelas sacolas. Não havíamos comprado muita coisa, pois Jonny não passaria tanto tempo assim no passado e também não levaria as roupas para o futuro.
Eu observava as criancinhas brincando quando Jonny quebrou o silêncio e disse:
— Não queria me fazer perguntas?
— Ah, eu... — Comecei, sem jeito. — Sim, eu queria.
— Vá em frente. — Ele disse, olhando para mim. Não pude decifrar sua expressão; ele ainda parecia chateado, mas sorria levemente.
Qual o motivo do sorriso?, me perguntei. Por que ele está feliz? Tem algo na minha cara que me faz parecer uma idiota?
— Por que está sorrindo? — Perguntei.
— Essa é sua pergunta? — Ele sorriu mais abertamente, zoando com minha cara.
— Não. Foi só uma curiosidade repentina. — Eu disse. — Analisando bem, você está quase sempre sorrindo, mesmo sem motivo.
— Eu poderia ter parado em qualquer lugar e época, mas vim parar justo no ano de 2015. — Ele disse. — Foi muita sorte vir parar num lugar onde eu poderia ter a chance de voltar para casa. Por mais que eu esteja muito longe de casa, tanto no tempo quanto no espaço, eu fico aliviado em poder voltar.
Jonny estava sendo sentimental?, pensei. Como isso é possível?
— Próxima pergunta. — Ele disse.
— Anh.... Anteontem, quando você nos observava na cafeteria, você desapareceu.
— Ah, isso. — Ele disse, sabendo o que eu perguntaria. — Você quer saber como, não é? Quando eu criei minha máquina, a criei para viajar no tempo e espaço. Ou seja, a ideia era poder ir para qualquer época, em qualquer lugar. Quando eu vim para o passado, testando a máquina, não vim parar no Colorado.
— Onde você estava? — Perguntei, curiosa.
— Kansas. — Ele disse. — Então, tentei voltar ao futuro, mas o relógio não funcionava; sempre que eu ativava a viagem, ele fazia um chiado estranho e piscava algumas vezes. Aí eu recebi a mensagem de Gabriel, e presumi que você também estivesse no Colorado. Foi muita sorte ter te encontrado de primeira.
Assenti, mostrando que entendia.
— Estranhamente, eu continuo podendo viajar no espaço, mas não no tempo. — Ele continuou. — Assim eu desapareci.
— E para onde você foi?
— Para um hotel, no Kansas. — Ele disse. — Me hospedei lá e acabei com o último centavo que eu tinha.
— Entendo. — Disse. — Então sua máquina do tempo é um relógio?
— Sim. — Ele disse. — Quer ver?
Balancei a cabeça, mostrando que queria. Ele riu da minha animação.
Então, ele tirou um relógio do bolso. Era um relógio praticamente comum, mas ele não mostrava as horas. As palavras “Denver, Colorado” estavam escritas na tela, com uma data acompanhando.
— Está aqui há quatro dias? — Perguntei. — Só isso?
— Sim. — Ele assentiu. — Olha só o que ele faz quando eu tento viajar no tempo...
Ele mexeu alguns botões e mudou as palavras para “New Humphrey, Northern Union”. Jonny colocou o ano de 3002 e apertou um botão.
O relógio fez exatamente o que ele disse: chiou por alguns segundos enquanto piscava, voltando para as configurações de antes.
— Isso é estranho. — Admiti.
— Essa situação é estranha. — Ele disse. — O que você queria?
Dei de ombros.
— No futuro existe algum aplicativo que apague uma mensagem já enviada? — Lembrei-me do que Ruby mandou perguntar.
— Sim. É muito útil, se quer saber. — Ele disse.
— Seu celular ainda funciona? — Perguntei.
— Sim, por quê?
— Então por que você não manda uma mensagem para alguém do futuro que possa te ajudar?
— Acha que ainda não pensei nisso? — Ele perguntou, desanimado. — Eu já tentei isso, mas o telefone está fora de serviço. Só entra na Internet daqui e funciona como um celular normal. É como se ele fosse só mais um celular do passado com um design diferente.
— Entendo. — Disse.
Que chatice deve ser ter um celular do futuro que funciona como um celular do passado, pensei.
— Minha última pergunta: você vai simplesmente voltar ao futuro, ou vai voltar e te impedir de vir ao passado? — Eu disse.
Jonny me olhou, curioso.
— Não sei. — Ele respondeu. — Se eu me impedir, não vou saber que a máquina não funciona como deveria. Se eu simplesmente voltar, meu pai vai estar furioso. Provavelmente vai destruir o relógio.
— Por quê?
— Porque... a máquina não é exatamente minha. Eu fiz os cálculos, o design e tudo mais. Eu projetei a máquina e comecei a construí-la, mas quem a terminou foi meu pai, o grande cientista do futuro George Nicholson. — Ele disse. — Ele acha que a máquina também é dele.
— E não é? — Perguntei. — Quer dizer, ele também trabalhou nela. Por mais que tenha sido uma participação pequena, ele participou, e é um dos criadores.
— Posso continuar? — Ele perguntou e eu assenti. — Eu disse a ele que viajaríamos juntos, no dia seguinte. Mas eu menti e viajei sem ele. Meu pai deve estar uma fera.
— Ou preocupado. — Eu disse.
— Não. — Ele balançou a cabeça negativamente. — Da última vez que eu voltei depois de desparecer, ele só ficou surpreso e irritado.
— E sua mãe?
— Nem tive a chance de falar com ela. Minha intenção era viajar ao passado, voltar, forjar um roubo no laboratório, esconder a máquina e agir como se nada tivesse acontecido.
— Você ainda pode fazer isso. — Eu disse. — Não precisa impedir sua vinda, pode simplesmente voltar alguns segundos depois de ter partido e fazer tudo o que planejou.
Ele olhou para mim, pensativo.
— Tem razão. — Ele disse. — Até que você é inteligente para uma garotinha de quinze anos.
— E você é lerdo demais para um cara que inventou uma máquina do tempo. — Revirei os olhos.
— Retiro o que eu disse. — Ele disse, desviando o olhar para uma mulher que passava. — Você continua sendo uma garotinha de quinze anos irritante, respondendo o que ninguém te pergunta.
— E quem disse que eu me importo com isso? — Disse, sorrindo. Ele olhou para mim e também sorriu.
Talvez ele não seja tão irritante assim, pensei.
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