Adeus, Viajante

13 Capítulo Doze


Denver, Colorado, 2015 – Lottie

Eu, Jonny e meus tutores tivemos uma longa conversa depois da ceninha que fiz na porta.

Kile e Jane disseram que estavam surpresos pelo fato de não ter contado nada sobre Jonny para eles, mas que estavam felizes por mim. Tentei ignorar Jane, que insistia em dizer que era quase um milagre eu não estar mais encalhada, mas era praticamente impossível, porque todas as vezes que ela dizia aquilo, Jonny tinha um ataque de risos. Quando as coisas se acalmaram, consegui finalmente contar da viagem que faria. No início eles ficaram receosos quando disse que Jonny também iria, mas se acalmaram quando mencionei o nome de Ruby.

— Nossa, está realmente tarde. — Disse Kile, olhando no relógio. — Jonny, você vai para casa a pé?

— Sim. — Jonny mentiu.

— Ah, não, Jonny! — Disse Jane. — Durma aqui, as ruas são perigosas nesse horário.

Sorri internamente. Eu conhecia Jane antes mesmo dela se tornar minha tutora, e sabia que ela insistiria com Kile até que ele concordasse em deixar Jonny dormir aqui.

— Ah... tudo bem. — Disse Kile, depois de uma breve discussão com Jane. — Você pode ficar no quarto de hóspedes, Jonny.

— Ah, ok. — Ele disse, e depois de eu ter pisado discretamente em seu pé, ele completou: — Obrigado.

Jane sorriu e mostrou a Jonny onde era o quarto de visitas. Enquanto ela conversava animadamente com ele, Kile se virou para mim e perguntou:

— Há quanto tempo o conhece?

— Sete meses. — Menti.

— E há quanto tempo estão namorando?

— Quatro meses. — Respondi. — Por que a pergunta?

— Você não é do tipo que esconde namoros. — Disse Kile.

— Eu... — Comecei a ficar desesperada. Kile tinha razão: eu não era do tipo que namorava escondido. Aliás, eu não era do tipo que fazia qualquer coisa escondido. Só algumas exceções, é claro. — Eu realmente gosto de Jonny, mas estava esperando as coisas ficarem mais sérias antes de apresentá-lo a vocês.

Pelo que parecia, minha mentira funcionou perfeitamente, pois Kile parou com a interrogação e foi em direção à Jane, abraçando-a por trás.

— Vamos ir dormir agora, Lottie. — Ela disse.

— Tudo bem. — Eu respondi. — Boa noite.

— Boa noite. — Eles disseram em uníssono, e Jane completou: — Agora vá lá e dê uma boa noite ao seu namorado também, Lottie.

— Comportem-se. — Advertiu Kile. Eu assenti e os assisti subindo as escadas. Quando ouvi uma porta se fechando, olhei para Jonny, encostado no batente da porta.

Nos encaramos durante alguns segundos, até que ele quebrou o silêncio.

— Não vai me dar um beijo de boa noite, ex-encalhada? — Ele zombou, sorrindo.

— Cala a boca, Jonny. — Eu disse e subi as escadas, aborrecida, enquanto o ouvia rir no andar de baixo.

— Amanhã eu te acordo cedo para irmos, ok? — Ele disse, ainda rindo.

— Tá.

↔

Acordei com Jonny batendo em minha cara. As cortinas do meu quarto estavam fechadas e o sol parecia nem ter nascido ainda. Afundei minha cabeça no travesseiro e resmunguei:

— Que horas são?

— Quatro e meia da manhã.

— O sol nem nasceu ainda! — Reclamei.

— Ontem eu disse que te acordaria cedo, não que te acordaria depois do amanhecer. — Ele disse. — Vá tomar um banho.

Levantei-me debilmente da cama e segui para o banheiro.

— Não demore! A água do mundo está acabando! — Ele disse. Me encostei no batente da porta do banheiro, olhando para ele.

— No futuro também? — Perguntei.

— Não. Mas as pessoas falam isso umas para as outras aqui no passado, não é? — Ele disse.

— E como vocês consertaram o problema da água? — Perguntei.

— E eu sei lá. Isso foi muito antes de 3002. Foi antes de eu nascer. — Ele deu de ombros.

— Você nunca tem as respostas para as minhas perguntas! — Reclamei. A vida daquele garoto devia ser um mar de rosas no futuro. Ele não se importava com nada além do nariz dele!

Me tranquei no banheiro e comecei a tomar banho, querendo que todo o sono desaparecesse do meu corpo.

↔

Saí do banheiro e encontrei Jonny deitado em minha cama. Parecia entediado.

— Você demorou. — Ele disse.

— Que horas são?

— Cinco e quinze. Vamos logo, eu quero voltar para o futuro.

— Essa pressa toda não vai te levar a lugar nenhum, sabia? — Eu disse, pegando minha mochila. — Já estamos saindo, e logo, logo, vamos encontrar Gabriel Smith.

Descemos as escadas e encontramos Jane na cozinha, o que era uma visão realmente estranha. Ela odiava cozinhar, e odiava mais ainda acordar cedo.

— Jane? — Perguntei, espantada.

— Oh, bom dia, Lottie. — Ela disse, se virando para nós. — Bom dia para você também, Jonny.

— Bom dia. — Ele respondeu, quase indiferente.

— Arrumei algumas coisas para vocês. Garrafas de água, barrinhas de cereal e essas coisas. — Ela disse. Me senti mal em dizer que não precisava e que pararíamos na estrada para comer, então, não disse nada. Peguei as coisas e as coloquei em duas sacolas. Entreguei uma a Jonny, então, sinalizei a porta com a cabeça.

— Vamos? — Eu disse.

— Vamos. — Ele respondeu. — Tchau, Jane.

— Até a próxima, Jonny.

— Tchau. Volto daqui a alguns dias. — Eu disse.

— Tudo bem. Tchau, Lottie.

Saímos de casa e fomos até a esquina, onde o carro ainda estava estacionado. Entramos e jogamos nossas mochilas e sacolas no banco de trás. Jonny pegou a chave do bolso e ligou o carro rapidamente. Coloquei o cinto de segurança e instruí Jonny a fazer o mesmo. Ele me obedeceu, emburrado. Talvez, no futuro, o tráfego seja mais seguro e os cintos de segurança acabam perdendo sua utilidade.

— Estou mais perto de casa do que nunca. — Comentou Jonny, acelerando o carro. Olhei para ele, sorrindo. — O que foi?

— Nada. — Eu respondi. — É que é divertido te ver desse jeito.

— Que jeito?

— Esse.

— Grande objetividade, Lottie. Obrigado. — Ele disse revirando os olhos.

— Disponha. — Disse.

Tirei o celular do bolso. Liguei o GPS e digitei um endereço.

— Vamos à “Uncompahgre National Forest”? Essa é a resposta da charada? — Jonny perguntou.

— Claro que não. Esse é um endereço próximo. — Eu disse. — É bem complicado chegar até o lugar da charada.

— Se você diz... — Ele murmurou e voltou a atenção para a estrada.

— Posso te pedir uma coisa? — Perguntei.

— Pode.

— Fique calado durante as próximas horas de viagem. Sua voz me irrita e não vou conseguir ouvi-la por mais de seis horas. — Disse tirando meus tênis e colocando meus pés no painel do carro.

— Você é muito folgada, sabia? — Ele disse.

— Shhh! — Disse ligando o rádio.

— Músicas do passado... — Jonny bufou, ouvindo a letra da música. — Vocês só sabem falar sobre bundas?

— Parece que hoje em dia, sim. Mas ainda existem cantores e bandas decentes por aí. — Eu disse, trocando de rádio. — E calado!

— Essa música é bem melhor. — Jonny disse, depois de alguns segundos.

— Você pode calar a boca por, pelo menos, um minuto? — Disse, um pouco alto demais.

— Além de folgada, é escandalosa. Você adora gritar, não é? — Ele disse, dando um meio sorriso.

— Cala a boca e escuta o GPS. — Eu disse.

Jonny finalmente obedeceu, ouvindo as instruções robóticas do GPS, e focando o olhar na estrada.

Pude ter uns minutos de sossego, coisa que não tinha há muito tempo.