Adeus, Viajante

14 Capítulo Treze


Denver, Colorado, 2015 – Lottie

— Eu estou com fome. — Disse, pela milésima vez.

— Come uma das barrinhas que Jane colocou na sua sacola. — Jonny disse, também pela milésima vez.

— Eu já comi todas. — Respondi. — Até as suas.

— E quem te deu o direito de comer minhas barrinhas? — Ele disse, indignado.

— Eu. — Dei de ombros. — Estou com fome! Quero comida de verdade!

— E as barrinhas são de faz-de-conta?

— Jonny! — Reclamei.

— Lottie! — Ele respondeu, fazendo uma voz engraçada.

Ficamos alguns segundos em silêncio, ouvindo o rádio. Jonny virou o rosto e olhou para mim, dizendo:

— Pelo que consta nessa coisa, a próxima lanchonete é daqui cinquenta milhas. — Franzindo as sobrancelhas, ele perguntou: — Milhas?

— Sim, milhas. Vocês não usam milhas?

— Não. Usamos quilômetros. — Ele disse. — Quanto isso dá?

— Em quilômetros? — Perguntei. Jonny balançou a cabeça positivamente. — Sei lá. Deixa eu pensar.... Uma milha equivale a, aproximadamente, um metro e sessenta e um centímetros.

— Como você sabe disso? — Ele perguntou.

— Eu perguntei para o meu professor de matemática. — Respondi. — Simplesmente por curiosidade. Continuando, 1,61 multiplicado por cinquenta, é....

Semicerrei os olhos, fazendo as contas. Jonny arqueou uma sobrancelha e disse, antes mesmo que eu pudesse terminar a multiplicação:

— 80,5km. Você é horrível em matemática, sabia?

— Ah, desculpe minha imensurável burrice, Senhor Viajante. — Disse sarcasticamente.

— Tudo bem, mera habitante do passado. Está desculpada. — Ele respondeu, sorrindo.

— Idiota.

— Obrigado.

Revirei os olhos, e desviei minha atenção para a janela. O céu estava nublado, indicando uma possível chuva.

— Se chover, será um problema. — Comentei.

— Por quê? — Jonny perguntou.

— Quando chegarmos lá você vai descobrir. — Disse e Jonny gemeu.

Meu estômago roncou e eu grunhi.

— Eu estou morrendo de fome! — Reclamei.

↔

— Finalmente! — Disse, saindo do carro. Jonny nem tinha acabado de estacionar ainda, e eu quase caí na calçada.

— Exagerada. — Ele disse, saindo do carro. — Será que aqui tem banheiro?

Olhei para ele com as sobrancelhas franzidas.

— O quê? — Ele perguntou.

— Você não viu os banheiros há dez milhas atrás? — Perguntei.

— Tinha banheiros há dez milhas atrás? — Ele perguntou, parecendo aborrecido. — E eu fiquei segurando...

— Você estava apertado por todo esse tempo? Por que não disse nada?

— Porque isso é irritante. Se eu estava falando para você parar de reclamar, eu não tinha o direito de fazer isso.

— Que bom que você sabe. — Disse. — Provavelmente tem um banheiro dentro da lanchonete.

— Tomara. — Ele disse.

Entramos na lanchonete e Jonny, ao avistar uma porta aos fundos do lugar, foi em direção ao banheiro (quase correndo, diga-se de passagem).

Fui em direção ao caixa, já que a lanchonete estava praticamente vazia. Meu pedido ficou pronto rapidamente, e eu me sentei numa das mesas, esperando Jonny.

Até que a comida de lá era boa. Não chegava a ser como a comida dos Fast Food mais famosos, mas dava pro gasto.

Jonny saiu do banheiro, parecendo aliviado. Ele se sentou na mesa comigo e pegou uma de minhas batatas fritas. Bati na mão dele, mas ele não largou a batata.

— Quem te deu direito de comer minha comida, Jonny?

— Eu. A comida é boa? Não é envenenada, nem nada?

— Jonny. — Disse, séria. — Isso é uma lanchonete de estrada. Por que a comida seria envenenada?

— E eu vou saber? Eu já disse que vocês do passado são estranhos e assustadores.

Jonny se levantou e fez seu pedido. Rapidamente, ele voltou para a mesa e comemos em silêncio.

↔

Era a terceira hora de viagem, e eu estava completamente entediada. Eram oito da manhã, e só haviam alguns carros naquela estrada.

— No futuro, o que vocês fazem quando ficam entediados? — Perguntei, virando meu rosto para Jonny. Talvez ouvir sobre o futuro torne a viagem menos chata.

— É impossível ficar entediado no futuro. — Ele respondeu. — Lá sempre tem uma coisa para fazer. Parece que é impossível ficar parado.

— O que você costumava fazer? — Perguntei.

— Eu era uma pessoa relativamente famosa. — Ele sorriu, olhando para mim, de soslaio.

— Por que você era famoso?

— Eu sou filho do maior cientista do século XXIX. — Ele disse, endurecendo um pouco sua expressão. — Eles costumavam me convidar para alguns eventos sociais.

— Ah, entendi. — Disse. Pelo que parecia, Jonny não gostava de falar sobre a família dele. — O que mais você fazia?

— Eu costumava ir muito ao cinema. — Ele disse. — Ia a shows, festas de amigos.... Quando eu não tinha lugar para ir, eu trabalhava.

— Trabalhava? Onde?

— Não se trata de onde, Lottie. Se trata no quê.

— Ok, então: No que você trabalhava? — Disse, enfatizando as duas palavrinhas.

— Em invenções. A máquina do tempo era uma delas. — Ele disse, sorrindo. Parecia que lembrar de suas invenções o fazia feliz.

— O que você inventou? Além da máquina do tempo, é claro. — Eu disse, curiosa.

— Algumas coisinhas bobas. Por exemplo: um microchip embutido num ponto.

— Espera, o quê? O que é isso? — Perguntei, confusa.

— Você sabe o que é um ponto, certo? Aquela coisa que os famosos costumam usar, e geralmente, uma pessoa fala o que ela deve dizer?

— Ah, sim. — Eu disse. — Continue.

— Eu inventei um ponto sem fio. Depois, embuti um microchip nele. A ideia era usar o fone e escutar música sem que ninguém percebesse. — Ele sorriu. — Eu era muito idiota naquela época, mas acabei ganhando bastante dinheiro com isso.

— E o que você fez com o dinheiro? — Perguntei. Jonny ficou sério, em silêncio. Ele parecia considerar se me contava, ou não.

— Usei para o tratamento da minha irmã. — Ele respondeu, baixo.

— Não sabia que você tinha uma irmã.

— Pois é. — Ele disse. — Eu não tenho mais.

Aquilo me calou. Embora estivesse tentada à saber a doença que a irmã dele tinha, eu sabia que não deveria perguntar e abrir ainda mais uma ferida que parecia ainda longe de cicatrizar.

Mesmo sem perguntar, Jonny disse:

— Ela morreu há dois anos. — Sua voz permanecia firme, mas seus olhos pareciam lacrimejar. — Você quer saber porque ela morreu, não é?

— Você não precisa responder. Isso não é da minha conta. — Eu disse.

— Não tem problema. — Ele disse. — Há quatro anos, meu pai estava inventando uma nova fonte de energia. Ou melhor dizendo, tentando inventar.

Jonny suspirou, bagunçando seu cabelo. Alguns segundos depois, ele voltou a falar:

— Ele estava mexendo com muitos produtos radioativos. Ele e Kim, a assistente dele, estavam vestidos com roupas de segurança. Mas ela não.... Ela entrou no laboratório no exato momento em que um dos materiais explodiu. Meu pai e Kim não se machucaram, mas ela...

— Qual era o nome dela? — Perguntei.

— Erin. Ela tinha dez anos quando... quando aquilo aconteceu. — Ele respondeu. — Meu pai foi um irresponsável.

— Mas onde sua mãe estava?

— Minha mãe é paralítica. Ela não conseguiu segurar Erin. — Ele disse. — Meu pai tratou aquilo como um acidente comum. Ele nunca prestava atenção na minha mãe... Ele é um cara detestável.

Jonny falava do pai com tanto desgosto que parecia odiá-lo. Ele mordia o interior da boca, parecendo irritado.

— Famílias são complicadas. — Eu murmurei.

— Sim. — Ele disse. — Eu não gosto de falar sobre Erin com as pessoas, mas achei que você entenderia.

— Por que você achou isso? Sou filha única.

— Mas você sabe como é a vida de uma criança doente. Você sabe como é perder alguém que ama muito. Você cresceu sozinha, mas eu tive a sorte de ter Erin. Eu me lembro quando ela nasceu... eu tinha odiado a ideia, porque eu pensava que seria deixado de lado. Mas no momento em que a vi pela primeira vez, eu a achei incrível. Foram os melhores doze anos da minha vida.

Jonny suspirou, triste.

— Depois disso, eu saía de casa e não voltava por vários dias. — Ele continuou. — Eu não queria ter que olhar para a cara do meu pai e lembrar de como ele tratou as únicas pessoas que realmente o amavam. Eu não conseguia olhar para a cara dele sem me lembrar de Erin. E eu também não conseguia olhar no espelho, porque toda vez que eu fazia isso... era como olhar para meu pai. Somos muito parecidos, e eu odeio isso.

Jonny parou de falar. Naquele momento, só conseguíamos ouvir o GPS e o vento. O carro estava mergulhado num silêncio muito desconfortável, e eu me conformei com meu tédio, tentando deixar as coisas quietas o bastante para Jonny se acalmar.

Eu sempre estrago tudo.