Adeus, Viajante
3 Capítulo Dois
Notas iniciais
Denver, Colorado, 2015 – Lottie
Foi uma péssima ideia dormir antes de estudar para minha prova de matemática. Eu acordei às seis horas do dia seguinte sem ter sequer passado o olho na matéria.
Me levantei e fui ao banheiro, querendo tomar um banho rápido. Isso é, se isso for possível.
Droga, Lottie!, disse a mim mesma. Por que você fez isso? Me responde, porque eu realmente não entendo esse seu lado preguiçoso que sempre deixa as coisas para a última hora! Agora, você vai ter que estudar correndo!
Saí do banheiro apressada. Meu cabelo ainda estava pingando quando eu sentei na minha escrivaninha e peguei meu livro, tentando pelo menos dar uma revisada na matéria.
Droga, droga, droga, droga!
↔
Estou atrasada.
Foi a primeira coisa que pensei quando fechei o livro e olhei para o relógio.
Desci as escadas, indo em direção à cozinha, pedir para que Kile, meu tutor, me levasse para a escola.
— Kile! — O chamei antes que ele abrisse a porta da frente. Ele olhou para mim assustado.
— O que houve Lottie? Por que ainda está aqui? — Ele perguntou.
— Acordei um pouquinho tarde. — Eu disse. — Pode me dar uma carona até a escola?
— Claro que posso. — Ele disse e saímos, indo em direção ao carro vermelho parado na porta da garagem.
Entrei e sentei no banco do passageiro rapidamente. Poucos minutos depois estávamos na porta do colégio.
— Muito obrigada, Kile. — Eu agradeci.
— Disponha, Lottie. — Ele disse. — Boa aula.
— Obrigada. Bom trabalho para você. — Eu respondi, saindo do carro.
Eu sorria enquanto olhava para o chão, andando em direção às portas do colégio. Estava quase chegando quando alguém tocou no meu braço.
Ruby!, pensei, e me virei para ela ainda sorrindo. Quando vi que ele não era Ruby, qualquer resquício de felicidade sumiu do meu rosto.
Mas... quem é...., pensei, mas não completei a frase. Eu o reconheci em questão de segundos.
— Você é Lottie Jones, não é? — Ele perguntou, cauteloso.
— Você é.... — Eu comecei, mas senti dificuldade em terminar a frase. Ele estava lá ontem. Ele está me seguindo? Eu deveria estar pálida de espanto. — O cara que desapareceu ontem...
— Preciso falar com você. — Ele disse, um pouco impaciente. — Não vai tomar muito de seu tempo, é uma coisa rápida.
Ouvindo aquelas palavras, forcei uma expressão séria. Respirando fundo durante um surto de adrenalina, soquei o nariz do homem com toda a força que tinha e saí correndo até a escola. Senti que as pessoas ao nosso redor começaram a cochichar, mas eu não estava dando muita importância àquilo naquele momento. A única coisa que importava era correr, correr e correr.
Pouco antes de sair correndo, pude ouvi-lo gemer de dor. Olhei para trás, e o vi esfregando o nariz, com uma expressão complicada; uma mistura de dor com surpresa e.... raiva, talvez?
Pude vê-lo virar as costas, saindo da propriedade escolar. Suspirei aliviada.
Isso ainda não está acabado, pensei. Não, sinto que está longe de terminar... Mas... o que eu posso fazer? Porque isto está acontecendo comigo? Isso não pode estar acontecendo! E agora, o que eu faço?
Eu ainda corria pelos corredores, enfrentando alguns olhares curiosos. Minha primeira aula demoraria alguns minutos para começar, e por essa razão, fui em direção ao banheiro feminino, me trancando lá dentro.
Ele está me perseguindo!, concluí. Como ele sabe meu nome? Como ele sabe onde eu estudo? Por que eu? Dentre todas as pessoas, por que eu?
Peguei meu celular e mandei uma mensagem para Ruby, dizendo que era urgente e que ela deveria me encontrar no banheiro da ala oeste do primeiro andar.
Sentei no chão, fechando meus olhos com força e abraçando minhas pernas. Eu estava ofegante não só pela corrida, mas também pelo medo.
Não demorou muito até que eu ouvisse batidas na porta, seguidas pela voz preocupada de Ruby:
— Lottie? Você está aí?
Eu me levantei correndo e abri a porta, abraçando-a por conta do desespero.
— Wow, se acalme Lottie. O que aconteceu? — Ela perguntou enquanto acariciava minhas costas e fechava a porta com o pé. Eu a soltei e nos tranquei dentro do banheiro.
— Ele... o cara de ontem... o ninja... — Eu não conseguia formar uma frase lógica. — Aqui...
— O quê? O cara de ontem está aqui? É isso? — Ela perguntou, parecendo indignada. — Você me preocupou à toa?
Balancei a cabeça, negativamente. As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. Como ela poderia achar que aquilo era à toa? Ele estava me perseguindo! Ele está me perseguindo! Não é uma simples coincidência! Não é como encontrar um amigo antigo, ou rever um desconhecido que você esbarrou na rua; é uma coisa séria e preocupante!
— Ele falou comigo... — Eu disse. — Ele sabe meu nome... Ele está me perseguindo!
Pela primeira vez em muito tempo, Ruby pareceu realmente preocupada e aflita. Ela me abraçou de novo, e eu chorei desesperada.
— Ele disse que queria falar comigo! — Eu disse.
— Ele não vai chegar perto de você, eu não vou deixar. — Ela disse. — Fique calma, Lottie.
— Eu estou com medo, Ruby! — Solucei.
— Eu sei, Lottie. — Ela disse. — Mas se acalme... Nada de ruim vai acontecer.
Me separei dela.
— Como você sabe, Ruby? — Quase gritei. — Você não pode prever o futuro!
— Você também não sabe se ele quer te fazer mal. Talvez ele só queira ajuda, talvez ele te conheça de algum lugar, eu não sei! O mundo não se resume à maldade!
Esfreguei os olhos e sequei as lágrimas com a barra de minha blusa.
— Existem pessoas boas, Lottie. Nem todas existem para machucar as outras. — Ela continuou falando. — Se acalme. Talvez ele só queira sua ajuda.
Juntei todas as forças que ainda me restavam para sorrir para Ruby, mostrando que acreditava nela. Sua expressão se suavizou, e ela me abraçou de novo.
— Tem razão. — Eu menti. — Acho que eu me descontrolei um pouquinho.
— Um pouquinho? — Ela zombou e eu bati no braço dela.
— Vamos para a aula. — Eu disse, pegando um papel para secar o rosto.
— Vamos. — Ela concordou, abrindo a porta. — Como você fugiu dele?
— Dei um soco no nariz e corri... — Eu murmurei. Ruby riu, mesmo que a situação não fosse tão engraçada assim. Sua risada me fez rir, e logo, nós duas estávamos atraindo olhares dos estudantes enquanto passávamos pelos corredores.
Se ao menos minha alegria e despreocupação não fossem mentira...
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