Adeus Nova Iorque

4 Eu não acredito


Notas iniciais
- Oi leitores! — Fico feliz por cada vez mais ver pessoas novas lendo, obrigada — Não se esqueçam de comentar hein — Beijos e boa leitura

— Pode começar a falar, ou só vai falar quando chegarmos na sorveteria? — o Louis perguntou assim que sairmos da sala de cálculo avançado.

— Ok já que você está tão ansioso... meu pai me ligou ontem perguntando se eu aceitaria me mudar para o Brasil, ele vai se casar com minha madastra e eles querem que eu vá para lá.

O Louis parou de caminhar e paralisou no meio do corredor.

— Louis?- o chamei.

— Tu tá de rincadeira né?

— Não, é sério por isso que eu precisava falar contigo.

— Não vou te deixar ir.

Baixei a cabeça, percebi que ele olhava para mim.

— Você quer ir?- ele perguntou se aproximando.

— Eu não sei- respondi e continuei a caminhar, ele agora me acompanhava- Eu quero ir, mas não posso te deixar e deixar minha vó, vocês são a minha família mas desde o acidente ficar em Nova Iorque só lembra minha mãe.

Vi o olhar dele cair e sua expressão de felicidade virar de infelicidade. Acabamos de percorrer o corredor em silêncio, odiava o ver assim. Atravessamos a rua e entramos na sorveteria. Como de costume sentamos na terceira mesa do corredor.

— E o que você decidiu? — ele perguntou largando a mochila no chão e cruzando os braços na mesa

— Nada, por enquanto. Meu pai me deu um prazo para pensar. Até o final da semana que vêm,mas não sei o que fazer... preciso da tua ajuda nessa decisão como muitas outras que já tomei.

— Preciso de sorvete para pensar.- ele falou se levantando e indo até o balcão de pedidos onde a Mack, a dona da sorveteria, uma moça de 30 anos, com os cabelos ruivos e pele com sardas, sempre de sorriso no rosto estava.

Eu não precisa de sorvete,mas precisava urgentemente de pensar. Olhei para a minha volta, a sorveteria era pequena e era decorada com cores pastéis, tinha apenas cinco mesinhas e mais três na rua, tinha uma escada de madeira perto do balcão que dava para o segundo andar onde tinha uma pequena biblioteca onde a Mack guardava e deixava a exposição a grande coleção de livros que ela tinha.

Dois minutos depois o Lou voltou com duas tigelas de sorvete e colocou na minha frente.

— Sorvete de morango com calda de morango e bala de goma. Agora sim vamos conseguir pensar!

— Eu não sei o que fazer!

— Âmbar, você se sente bem aqui?

— Sendo bem sincera, não. Mas quando estou contigo ou com a vovó me sinto, me sinto em casa, em paz.

— Eu não quero perder minha melhor amiga,mas agora pensando, nunca mais vi aquele sorriso lindo depois que a tua mãe faleceu, eu sinto saudades dele, pela tua felicidade eu aceitaria tu ir e seria muito egoísmo meu te prender aqui.

— Lou, para de falar bobagem. Em qualquer lugar que eu esteja vou continuar sendo tua melhor amiga. Você sabe que a nossa amizade é maior que qualquer distância e que sempre vou estar contigo, mesmo que não seja presencialmente.

Ele olhou diretamente para os meus olhos.

— Me promete que nada, nem ninguém vai acabar com a nossa amizade?- ele perguntou.

— Prometo.

Então ele jogou seu corpo contra a cadeira.

— Se for para você ficar bem, eu te deixo ir.

Eu sorri pegando uma colherada de sorvete.

— Vamos nos falar todo dia ok?- perguntei para ele.

— Claro que sim e se alguém te fizer algum mal eu atravesso o oceano r chego em ti em dois minutos.

— Eu vou ficar bem. Mas ainda não é certo. Não sei como deixar minha vó e ela não aceitou ir junto.

— Acho que ela também não quer que você vá, mas vai te dizer para ir, se é que já não disse.

— Ela falou,mas como já disse, vocês dois são a minha família.

— Não baixinha. Nós fizemos parte da sua família mas seu pai também é, agora a tua madrasta vai ser e seu irmão também r se eles tiverem outro filho vai ser! Rlrd te amam baixinha e só querem teu bem, assim como nós, mas lá tu não vai sentir tanto a falta da sua mãe e vai poder recomeçar, você merece uma chance. Meu Deus, vou sentir sua falta todos os dias, a todo minuto, a todo segundo sim,mas você tem uma chance de viver coisas novas e não quero que desperdice dessa forma.

Olhei para ele, e então vi que ele estava realmente falando de coração aquelas coisas.

— Obrigada por ser meu amigo gigante. Eu não fazia ideia do que fazer, agora já estou conseguindo pensar.

Ele sorriu em forma de gratidão.

— Eu que te agradeço Âm.- ele olhou a hora no relógio de pulso — Tenho extra curricular de visual agora, tem alguma hoje?

— Não.

— Então vou contigo até o ponto do ônibus.

— Você vai se atrasar para a aula!

— Você sabe que eu sou o presidente do clube de audiovisual e tenho minhas vantagens por isso, então... vamos!

Eu sorri. Como sempre ele estava se achando. Levantei e coloquei minha mochila nas costas, ele fez o mesmo e então atravessamos a porta de vidro da sorveteria e caminhamos até o ponto de ônibus.

— Então já vi que vou perder minha colunista na área de comunicação.

— Não não é tão difícil achar alguém que publique o cardápio do dia.

— Mas vai ser difícil de achar alguém que ouça os alunos e descreva isso.

— Eu posso deixar alguém no meu cargo antes de ir embora.

— Se você for, quando vai?

— Assim que for para as férias de final de ano já vou para ficar.

— A boa notícia é que em fevereiro meus pais querem visitar minha irmã e o namorado dela lá e eu vou junto. Mas não sei se aguento tanto tempo longe de ti.

— Ai Louis quanto drama! Todas férias vou para lá.

— Sim e depois volta.

— Eu sei que vou conseguir.

Paramos no ponto do ônibus, puxei o zíper do meu casaco, cada dia fiacava mais frio,apesar de ser meio de novembro e faltava um mês para o inverno. Vi meu ônibus chegando e me despedi do Louis,ele sorriu e eu entrei no ônibus. Paguei minha passagem e me sentei em um banco vago, mais três paradas e o garoto do ônibus iria subir. Abri minha mochila e comecei a procurar meus fones no meio dos meus livros, puxei o cabo, fechei o zíper e empurrei a mochila para os meus pés. Tatiei o celular no bolso do casaco e o conectei nos fones.

Busquei uma música na minha playlist, escolhi Holiday do Dj Antoine, sempre fui muito ligada a música eletrônica, fechei meus olhos para pensar enquanto deixava a música me levar. Pensei em tudo que eu já tinha vivido em 16 anos.

— Posso me sentar aqui?- ouvi uma voz me tirar dos meus pensamentos e abri os olhos. Não acreditei no que estava vendo, era ele, o garoto por quem eu tinha uma quedinha pedindo para se sentar ao meu lado.- Ahhh...claro.- falei tentando sorrir mas acho que meu sorriso não saiu muito certo porque ele me olhou estranho.

Ele se sentou e colocou sua mochila preta com alguns botons no colo, então abriu a mochila e pegou o mesmo livro de ontem e voltou sua atenção para a leitura. Fiquei olhando para ele com o canto do olho e me senti feliz por ele saber que eu existia.

Aumentei o volume da minha música, agora estava dando Sweet Summer, um dos meus grupos favoritos: The Dirty Heads. Me virei para a janela e fiquei observando o que acontecia do outro lado, então senti alguém me cutucando e olhei para o lado.

— Desculpa te incomodar... você está ouvindo Dirty Heads?

Olhei para o garoto que segurava o livro colocando a palma da mão dentro para não perder a página.

— Ah...- nossa, pensei,a voz dele era muito linda que eu nem conseguia formular uma resposta óbvia.- Sim.- respondi rapidamente.

— Eles são demais né? A minha música favorita é Cabin By The Sea, posso dizer que eles estão entre meus grupos favoritos.

Olhei para os olhos dele através da lente do óculos, eles eram tão intensos e azuis.

— Sim, demais- tentei dialogar.

— Mas em questão de música, eu sou muito eclético, gosto muito de reggae como alternativa ou até mesmo de pop. Eu sou muito ligado a música, acho que tenho uma vocação,a arte, mas não é algo que eu posso levar para a vida, a música não é muito valorizada.

— Eu acho que todos nós temos nosso propósito também, seja tirar sorrisos ou lágrimas.

— Pois é, mas desde pequenos nós aprendemos a ser médicos, advogados e nunca perguntam o que queremos, mas dizem o que devemos ser.

Eu olhei para ele, meu Deus, aquele garoto pensava que nem eu, então tentei dar continuidade para a conversa.

— Eu sempre fui diferente, mesmo todos dizendo o que devo ser, na verdade nunca senti que sou daqui, não me encaixo muito bem com as pessoas daqui.

— Eu te entendo, eu nunca tive a cabeça aqui na terra.

— Sabe o que eu acho?

— O quê?

— Que a gente perde tempo estudando, depois com o trabalho, tudo para ganhar dinheiro e ser infeliz em uma carreira nada a ver com nós, e depois, envelhecer e não desfrutar de nada, morrer com dinheiro e infeliz, deixando o dinheiro para netos e filhos que vão continuar com esse ciclo.

— Nossa, de onde tu veio e como nunca conversamos antes?- perguntou impressionado.

— Eu não sei de certo de onde vim, mas busco meu propósito, e tu, de onde veio?

— Eu vim da calmaria do mar. Morei na praia desde criança, Carolina do Sul, em Folly Beach. Sabe?

— Conheço.

— Mas faz tempo que me mudei pra cá.

Olhei rapidamente para a janela,a próxima era meu ponto então puxei minha mochila dos meus pés para meu colo.

— Você já vai descer?- ele perguntou.

— Sim- respondi olhando para a minha mochila.

— Adorei falar contigo- ele falou sorrindo.

— Eu também.- retribui o sorriso.

— Você é diferente- ele falou isso como estivesse curioso.

O ônibus parou, me levantei passando por ele.

— Foi bom te conhecer, apesar de pegarmos o ônibus juntos a tanto tempo.

Eu sorri para ele e a porta se abriu.

— Até mais.- ele falou quando botei o meu pé para fora e senti o vento gelado.

— Até.- me despedi dele.

Desci do ônibus com os fones ainda nos ouvidos e com um sorriso no rosto, não estava acreditando que eu e ele éramos tão parecidos. Por que minha parada era aquela? Queria poder ficar o resto do dia falando com ele e vendo aqueles olhos profundos brilharem, mas agora pensando bem, eu nem sabia o nome dele e se iriamos nos falar novamente.