Adeus Nova Iorque
2 Deu tudo errado
Encostei minha cabeça na janela, aquele estava sendo um dos piores dias da minha vida, o mundo estava desabando nas minhas costas, em primeiro lugar acordo com minha vó chorando com saudades da minha mãe, então tiro uma péssima nota no trabalho que quase dei minha vida fazendo, na sequência, brigo com Louis, meu melhor amigo e por último recebo um telefonema do meu pai dizendo que ele iria se casar com aquela mulher.
Olhei para a vista da janela do ônibus, Nova Iorque era muito para mim, não gostava daquela cidade desde o falecimento da minha mãe a cinco anos atrás, tudo me lembrava ela, o Central Park, onde ela amava fazer caminhadas, o Starbucks na esquina de casa, a sorveteria onde ela me levava para tomar sorvete na frente da minha escola,pelo menos dali a dois meses estaria indo para o Brasil passar o natal com meu pai, a noiva dele e o filho deles.
O ônibus parou, parei de olhar para a janela e olhei para a porta do ônibus e torci para que fosse ele,o garoto por quem tenho uma queda a uns dois anos. Acompanhei ele na leitura de Harry Potter, descobri que ele come barrinhas de cereal de morango todas terças e quintas, sei a cor da armação dos óculos de leitura, aliás, as três cores, sei que ele gosta de Doctor Who e de Star Trek pelas camisetas dele. Apesar de ele nunca ter me notado, me fazia bem só olhar ele com a cabeça entre um livro, que naquele dia era um romance, como de costume ficou de pé de frente para mim. Fiquei olhando discretamente, ele era alto,o seu cabelo era louro com um corte undercut, tinha bochechas rosadas e olhos claros, ele nunca tinha sorrido mas seus olhos pareciam estar sempre sorrindo, seu maxilar era bem fino, tinha um lábio fino e um nariz achatadinho, os óculos estavam no dorso do nariz, seus óculos eram quadrados e pretos.
Ônibus parou, olhei para rua, era minha parada.Passei por ele, eu a porta do ônibus se abriu, eu desci.
A vida noturna em Nova Iorque já estava começando, homens de pastas e engravatados passavam com pressa na volta para casa,ouviasse o som dos saltos das mulheres cansadas após um dia cansativo, passei por um grupo de garotas de vestido, salto e maquiadas, logo mais a frente,outro grupo vinha, dobrei a esquina, andei mais algumas quadras, parei na frente de um velho prédio de três andares, ele tinha uma cor verde e última vez que tinha sido restaurado, bem, eu não me lembro, peguei minha chave, passei a mesma pela fechadura e entrei no velho prédio, subi a primeira escadaria e logo estava de cara com o apartamento de número 3, coloquei a chave na fechadura e abri a porta, limpei meus pés no capacho.
— Âmbar, é você? — ouvi a voz da minha vó vinda da cozinha, logo ela apareceu no corredor, minha vó, apesar de estar casa do 70 anos e ter criado cinco filhos, ela aparentava ter 50 anos, ela tinha o cabelo muito louro e quase nenhum fio branco, usava naquela tarde um conjunto rosa chá, na sua cintura tinha um avental florido, ela sorriu ao me ver.
— Oi vó.- retribui o sorriso apesar de ter tido um dia péssimo, dei um passo á frente e lhe dei um abraço como de costume.
— Como foi seu dia filha?
— Bom.- menti.
— Tem certeza?- ela perguntou se afastando.
— Sim vó, só estou cansada.
— Vou terminar o jantar, tome um banho primeiro e depois venha comer.
— Sim vó.
Ela deu outro sorriso e entrou na cozinha novamente, percorri o corredor até encontrar a porta do meu quarto.
Aquele apartamento era enorme, apesar de ser antigo como a maioria dos prédios em Nova Iorque, tinha três quartos, um meu,outro da minha vó é o último usávamos para a sala de costura da minha vó e um espaço para estudo, também tinha uma sala extensa, um quartinho para área de serviço e uma cozinha com sala de jantar.
Abri a porta branca com detalhes e entrei no meu quarto, logo de cara dava para ver minha cama de casal, nas pontas tinha dois baquinhos que eu fazia de criado mudo, em cima da cabeceira da cama tinha uma janela enorme, nos pés tinha um banco, no lado esquedo, uma planta, tinha uma porta que dava para meu armário, no lado direito tinha outra janela com um banco onde tinha vários livros, e na parede de frente para cama tinha um papel de parede do mapa mundique ocupava só essa parede.
Joguei minha mochila ao lado do banco nos pés da cama e me joguei na cama, minha cabeça dilatava, fiquei dois minutos ali, de olhos fechados, então juntei forças para levantar e tomar banho. Peguei um short de pijama e um moletom qualquer e entrei no banheiro, me despi e abri o registro do chuveiro, entrei no box e esperei a água levar um pouco daquele dia pelo ralo.
Fiquei dez minutos de baixo da água, então fechei o registro, sequei meu corpo, vesti meu pijama e prendi meu cabelo em um rabo de cavalo mal feito e fui para a cozinha, me sentei na ponta da mesa de seis lugares, minha vó estava virada para o fogão e cantarolava uma canção, ao perceber minha presença ela interrompeu a canção.
— Como foi a escola? — ela perguntou em seguida.
— Bem- respondi tentando não parecer desanimada.
— Como foi no seu trabalho?
— Péssimo, tirei C.
Ela olhou para mim, parou o que estava fazendo e se sentou ao meu lado.
— Agora está explicado por que você está assim. — Senti a mão da minha vó parar no meio das minhas costas em forma de conforto. — Calma Âmbar, é só um trabalho.
— A senhora viu como eu me esforcei!- baixei minha cabeça.
Ficamos em silêncio mas não demorou muito ouvirmos o apito do forno. Minha vó se levantou, pôs o suflê na mesa, levantei minha cabeça, ela pegou um prato e me serviu. Peguei um garfo e comecei a empurrar a comida de um lado para o outro.
— Âmbar minha neta, fui só uma nota ruim.
— Não foi só uma nota ruim. Briguei com o Louis, o papai vai se casar com a Bia e eu não aguento mais essa cidade, apesar de ter passado tantos anos, tudo me lembra a mamãe, me sinto pesada.-desabei, as lágrimas não demoraram muito para surgir.
Minha vó ficou em silêncio, empurrei o prato de comida e baixei minha cabeça, estava tentando ser forte por ela, mas não estava mais aguentando.
Ouvimos o telefone na sala tocar, senti minha vó levantando.
—Já volto querida.
Minha vó saiu da cozinha, ouvi o telefone parar de tocar e em seguida o "alô" da minha vó. Levantei minha cabeça, puxei a manga do moletom e limpei meu rosto.
Minha vó apareceu na porta da cozinha, ela estava com o telefone na mão
— Seu pai quer falar com você!- ela me avisou aproximando o telefone de mim, pensei em inventar uma desculpa para não falar com ele, mas respirei fundo e segurei o telefone.- Oi pai.- falei tentando parecer feliz.
— Oi querida, como você está?
— Estou bem.- menti- E como vocês estão?
— Estamos bem. Tenho novidades pra ti.
Cruzei os dedos na esperança que fosse uma notícia boa e esperei ele falar.
— Preparada?- ele perguntou fazendo mistério.
— Sim, pode falar.
— Adivinha quem vai se mudar para o Brasil?
—Hiiii... quem?
— Tu princesa.
Dei um berro no telefone, parte da minha tristeza sumiu e comecei a pular de um lado para o outro na cozinha.
— Sério?- perguntei não acreditando.
— Sim filha, quando você vier para as festas de final do ano você já vêm pra ficar. Faz tempo que estamos preparando essa surpresa mas decidimos te contar só hoje.
Olhei para minha vó que estava de costas para mim lavando a louça.
— Pai, e a vó?
— Tentei trazer ela mas ela disse que o lugar dela é ai.
— E a escola?
— Já está tudo pronto para o ano que vem você começar aqui, até compramos o apartamento com teu quarto incluso mas para isso você tem que aceitar o morava aqui sabemos como Nova York é um lugar importante pra ti, as tuas amizades, tua escolas e os lugares que tu frequenta.
— Pai, eu quero muito ir mas preciso de tempo para pensar.
— Claro princesa mas seria melhor se decidir até o final de semana que vêm porque já estamos com tudo pronto.
— Sim pai,espero que até lá eu tenho que é uma resposta.
— Nós vamos ficar muito felizes em ter a nossa filha mais velha conosco.
Nossa? Aquela mulher não era minha mãe e nunca iria chegar nem aos pés dela mas preferi nem começar uma discussão.
— Claro pai, fico muito feliz com o convite.
— Filha, tenho que desligar, tenho uma reunião agora.
— Sim, tudo bem.
— Beijo. Te amo princesa!
— Beijo, também te amo pai.
Deixei ele desligar então coloquei o telefone em cima da mesa. Minha vó se virou para mim.
— Então pode contar o que seu pai falou para você começar a pular de um lado para o outro tão de repente?
— A senhora já sabe. Ele me convidou para ir morar no Brasil só que tem uns problemas eu não quero te deixar vó, também não quero deixar o Louis, vocês são as pessoas mais importantes da minha vida.
— Mas nós sempre vamos estar aqui, eu vou visitar você, vamos nos falar por telefone e internet. Âmbar, você não é feliz nem gosta de Nova Iorque desde que sua mãe faleceu. Você pode recomeçar no Brasil, eu vou sentir muito a sua falta mas vou estar bem.
— Eu preciso pensar vó. Vou falar com o Louis amanhã, se ele quiser.
— Querida, vocês sempre foram amigos, uma simples briga não vai acabar com a amizade de vocês.
— Eu espero que não.- falei me levantando.- Vó, obrigada por tudo, vou dormir um pouco.
— Descanse Âmbar, eu te amo e sempre vou cuidar de você.
— Boa noite vó.
— Boa noite querida.
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