Adeus

1 nevermind


Há uma frase de uma música que eu talvez tenha tentado, por certo tempo, adotar para minha vida. “I’m not like them, but I can pretend”. Traduzindo, eu não sou como eles, mas posso fingir.

O problema é que não posso fingir.

Não mais.

Tentei, mas não é algo mais em meu alcance.

Tenho usado roupas que não gosto, falado coisas que, quando transformadas em sons em minha boca, sinto que não é eu quem as transmite. Por meses li coisas que não eram — e não são — de meu interesse. Fui há lugares apenas pensando “se me recusar, ele vai fazer algo contra mim. Fisicamente. Talvez seja melhor...”.

Cometi um grande erro, por várias vezes, pensando que a dor emocional eu poderia suportar. Essa dor foi me comendo por dentro. Até que eu não suportasse mais. É o limite. Eu estou na linha da faixa, na ponta do precipício.

Minha mãe deixou o mundo dos vivos há tanto tempo que eu mal consigo me lembrar de seu rosto. Tenho vivido com meu pai.

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Sinto muito medo de que me julguem de superficial por me incomodar com tantas coisas. Roupas, meu nome de registro, meu cabelo, as duas bolas em meu tronco que para mim são como um sexto dedo do pé.

Eu não preciso de um sexto dedo do pé.

Mas nada disso importa mais.

Tenho me sentido tão deslocado. Fugi de casa uma vez. Voltei, e nada foi pior do que tudo o que aconteceu depois.

Ele me faz fazer coisa para Ele.

Coisas que não gosto de pensar.

Poemas. Sei fazer poemas. Eles não são bons, nem de longe. Posso fazer uma lista de 1 milhão de poetas melhores que eu.

Na verdade, não sei se sou — fui — um bom poeta. Jogo meus sentimentos em um papel, umas palavras bonitas, é isso.

A maioria dos versos que escrevi ninguém chegou a ler. Tenho pensado muito em postar em algum site, mas no fim nada importa, porque ninguém os achará bons, Nem eu mesmo os acho razoavelmente bons. Mas era o que, de certo modo, me deixava livre de todo esse peso por alguns minuto.

Da escola, principalmente.

Sei que sou jovem demais para saber qualquer coisa sobre ter uma vida difícil, pode dizer. Há milhares e milhares de pessoas que já sofreram mais do que eu jamais sofrerei. Mas minha dor é pessoal. Ninguém a sofre, por que você está julgando minha dor, então? Apenas eu tenho voz para dizer sobre ela. Podem me chamar de doente, aberração, podem me dar socos com livros de biologia, eu sempre serei a aberração que sou.

O pecador.

Você pode tentar trocar as letras do meu nome, a letra do meu pronome. Eu sempre serei eu. Eu.

Apenas eu. Não quem você, ou Ele (aparentemente, pelo que ouço) desejam que eu seja. Não posso controlar minha essência. Minha alma é incontrolável, meus sentimentos são imprevisíveis.

Tem sido apenas eu por muito tempo. As palavras que escrevo no momento se perderão em algum lugar, e eu apenas quero mostrá-las em algum lugar para alguém ler, porque sei que o homem que diz ser meu pai jamais se importará com o que escrevo, com o sangue que pinga no papel.

Não tenho exatamente uma frase, ou algo emocionoal demais. Ou talvez tenha

Então, talvez isso tudo seja inútil.

Mas, me lembro de uma coisa. Algo que penso muito. As vezes, as pessoas me dizem coisas, e eu reflito sobre essas coisa por tanto tempo. Tanto tempo. Sinto que ficarei louco. São coisas aparentemente tão leves aos olhos dos outros. Ele riem. Todos riem. Eu não. Não entendo. Digo, forço um sorriso ou dois, mas por que me machuca tanto, e os outros riem tanto? Há graça em fazer as pessoas se sentirem mal? No que estamos nos tornando?

Não quero ser a pessoa que deixa os outros para baixo e fica tudo bem por isso, então estou pedindo desculpas para todos que já magoei em algum momento, propositalmente ou não. Não posso dizer para todos pessoalmente, porque isso seria impossível, mas desculpas são algo mais além do que um palavra dita em voz alta, e sim um sentimento expressado, não necessariamente público.

Falando sobre impossibilidades, minha psiquiatra disse ao meu pai que seria impossível que eu continuasse a viver sem tais remédios. Quando fugi de casa, o sistema me encontrou, e então me levou até o doador do esperma, que foi obrigado a me levar até uma “especialista”.

Ela me receitou alguns comprimidos.

Esses comprimidos me mantiveram vivo por muito tempo, mas serão eles que me levarão até um lugar melhor, eu espero.

Talvez eu vá ao inferno, afinal.

Há mesmo um inferno, um céu?

Não sei dizer em qual mereço ir.

De qualquer forma, qualquer coisa me parece melhor do que isso aqui onde estou.

Pode parecer uma atitude equivocada para alguns, mas é algo que tenho pensado. Por muito tempo. Muito mesmo. Não consigo tirar a ideia da cabeça. É como uma cola super forte que não se desgruda de mim.

Sei o que preciso fazer.

Sei como fazer.

Então, farei.

É o meu adeus definitivo. O adeus para todas as pessoas que conheço e para aqueles que não conheço também.

Sinto-me melhor em escrever essas letras em meu computador. Sinto-me, de certa forma, bem. Não estou chorando, não estou mais triste do que estive nos últimos meses. Estou, de alguma maneira, bem.

Bem comigo mesmo.

Quero partir dessa vida usando as roupas que gosto. Que me identifico. Mas não tenho como saber se vão me enterrar assim. Estou tentando pensar que aquilo será apenas meu corpo, porque minha alma é que irá comigo, não importa o que farão com meu corpo, ou o nome que colocarão em minha lápide.

Meu nome é John.

Não foi uma decisão aleatória. Lembro de minha tia contar que o avô dela e, consequentemente, da minha mãe, era britânico. Seu nome era John. Minha mãe teria colocado este nome em mim, mas nasci com peças de menina, então foi me dado um nome diferente.

Não culpo ninguém por ser quem sou. Não culpo nem eu mesmo, mas é o que está me matando, de certa forma.

Não tenho como controlar.

Sinto muito por ter sido um poeta tão medíocre. Sempre tentei passar uma mensagem em meus poemas, mas ninguém nunca os leu, na maior parte. Me desculpe por não ter contribuído em nada para a sociedade. Sempre fui um peso morte e não tenho tempo para consertar isso.

Sei quem está cavando minha cova, sei quem colocará terra sobre mim, sei que deveria ser forte, acima de tudo, mas sou fraco.

Morrer é fácil.

Não entendo por que pedem “você morreria por alguém?” sendo que a morte é algo fácil. Pode ser rápida, você pode nem notar. Faria mais sentido perguntar se você viveria por alguém. Porque, em vida, muitas coisas podem te machucar, na morte nada te atingirá.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!