Depois da aula de frações, salva graças ao nosso novo aluno, chamei Arn para uma audiência em particular para discutirmos onde deveriamos transferir os nossos encontros de estudo, já que o número de alunos está ficando maior de que esperava.

- O que acha do bosque à oeste de Cair Paravel? Fica bem entre a vila telmarina e a vila narniana.

- Seria uma ótima ideia, Arn. Mas eu acho que os pais se sentiriam mais tranquilos com seus filhos dentro dos limites do castelo.

- Ou longe de narnianos...

Arn olhava timidamente para baixo, encarando seus dedos que amassavam sua camisa.

Tentei repreende-lo mas vi que o que dizia fazia sentido. Se as próprias crianças ficaram desconfiadas com um fauno na classe, imagine seus pais.

Acariciei o ombro esquerdo de Arn tentando reconforta-lo, mas ele continuava a encarar sua camisa esfarrapada.

- Tudo será resolvido em breve, Arn. Só é necessário um pouco mais de convivência.

- Majestade... nesses últimos anos as coisas vêm melhorado muito. Foi um bênção rei Caspian ter aparecido em prol dos narnianos. — Não pude evitar sorrir com seu comentário. — Mas a humilhação... Eles ainda nos tratam copmo animais. Claro que todos não! Mas a maioria. Podem não demonstrar por palavras, mas seus olhares dizem tudo.

Lembrei da reação das crianças e da indiferência de lorde Ersan em relação à questão narniana.

- O maior passo já foi dado, querido. Agora só precisamos nos ajustar, nos adaptar. E isso leva tempo. Não culpe as pessoas pelas injustiças que elas cometem, mesmo que silenciosamente. Foram milhares de anos de preconceito e falta de informação que meia década vai mudar. Precisamos ter paciência.

Arn olhou para mim e deu um sorriso tímido. Fiz mais um afago em seu ombro e o acompanhei até a saída do palácio. Combinamos de nos encontrar novamente para discutir sobre um melhor local para as aulas. Nossa reunião ficara para a próxima semana, a qual daria férias para os alunos e fim de organizar a futura escola mista.

Arn colocou os livros debaixo do braço e sumiu no bosque. Dei um pequeno suspiro enquanto observava sua silhueta de bode sumir entre as árvores. Quando desapareceu, fiz o meu retorno para o castelo com uma leve sensação de que estava esquecendo de uma coisa muito importante.

...

- A postura é o que diferencia uma rainha do resto dos convidados. Em um jantar real, ela está sempre altiva, elegante e...

- Amarrada? — disse enquanto tentava me ajeitar nas cordas que amarravam meus ombros à luxuosa cadeira de jantar.

- Se isso quer dizer "não avançar sobre a comida", sim.

- Não consigo nem mesmo alcançar os garfos!

- É tudo uma questão de prática... Não estique tanto o braço! Não está tentando alcançar um livro numa estante alta demais. Tente a leveza...Majestade! Esse é o garfo para pescado!

- Rosagunde, eu agradeço mas eu tenho outros afazeres.

- Quais? Pelo que sei sua... seu encontro de estudos de hoje terminou.

- Tenho que conversar com meu marido...

- Com o "rei", sempre refira-se ao seu "marido" como o "rei".

- Certo. Tenho que me encontrar com o rei.

- Seria completamente inapropriado. O rei deve estar ocupado com os assuntos de Estado.

- Mas se eu for até ele...

- Minha rainha, entenda que ele tem questões mais importantes para resolver, seja lá qual for que seja a sua.

E com isso voltamos às nossas lições de etiqueta.

...

Depois de um banho e da estranha ajuda para me vestir, finalmente estava sozinha em minha câmara de dormir, penteando meus cabelos enquanto esperava Caspian para dormir.

Senti uma leve brisa e ouvi o barulho da porta se fechando atrás de mim. Pouco depois, as molas do colchão rangeram e um par de botas foram jogadas no chão. Fez-se alguns minutos de silêncio. Sei que quem estava sentado na cama era Caspian, pude sentir o seu cheiro no mesmo momento em que abriu a porta. Não me permitia olhar para ele, não queria ver uma expressão de dor ou de decepção nos olhos que tanto amo.

- Não a vi o dia inteiro. — disse Caspian com a voz rouca. Que mesmo estando a alguns passos atrás de mim, tive a impressão de que falava ao meu ouvido, resultando num arrepio na nuca.

- Estive muito ocupada com as crianças e Rosagunde. Almocei e jantei na sala íntima.

- Senti sua falta.

Não pude evitar de olha-lo. Estava, assim como o esperado, sentado na cama, sem as botas, com as calças de flanela, mas com uma leve camisa de algodãom; estava pronto para dormir.

- Me perdoe pelo que aconteceu no desjejum...

- Pensei que iria me defender.

Caspian levantou da cama e veio ao meu encontro, segurando levemente nas minhas mãos.

- Juro que era o que eu mais queria. Mas... Estela... quero que entenda que não posso ser parcial em uma reunião dessa. Tenho que ouvir todas as opiniões e considera-las. E você agora, meu amor...

- Eu sou a rainha.

- Sim. E é por isso também que não a defendi. Eu e você devemos seguir a mesma conduta, para também não gerar conflitos dentro da corte. Mas isso não quer dizer que a proíbo de defender seus ideais. O que quero dizer...

- É que tudo tem uma hora certa.- disse com um sorriso.

- Exato.

Caspian me retribuiu o sorriso e aproximou seu rosto do meu. Fechei meus olhos e senti seus lábios acariciarem os meus e pedirem passagem para minha boca. Nos beijamos até perdermos o ar dos pulmões. Tentamos recuperar o fôlego por alguns momentos, mas sem desencostar nossos lábios. Depois de devidamente oxigenados, Caspian me deu um leve beijo na testa e me tomou nos braços me levando para a cama.

Assim que meu corpo encostou nos lençóis e almofadas macios, não pude evitar um bocejo.

- Acho melhor descansarmos, tivemos um dia muito agitado hoje.

Eu concordei e nos enrolamos nos lençóis assim como um no outro, para desfrutar de um sono limpo e sem mágoas.

Notas finais
espero que estejam gostando!!!
bjoooooooooo