Adaptação
5 Capítulo 5
Notas iniciais
O taxi estacionou em frente à casa, e o casal saiu. Oscar pegou as malas enquanto Heloisa pagava a rodada. Marcelo já tinha aparecido no portão e ajudava o pai com a bagagem, enquanto Heloisa dava um beijo no enteado e entrava. Mateus estava terminando de arrumar a mesa, ainda não era meio-dia, e aquela seria a primeira vez que todos almoçavam juntos, oficialmente como família. Heloisa deu um beijo e um abraço apertado no filho – nunca tinham se separado por tanto tempo – e foi para o quarto com Oscar se trocar.
Ambos tomaram um banho antes do almoço. Estavam cansados da viagem, mas faziam questão de que sua primeira refeição como família fosse em seu lar, não em um restaurante. Quando Oscar e Heloisa se sentaram à mesa, ela estava posta e totalmente arrumada, a comida era alguma coisa que Marcelo e Mateus haviam preparado juntos. O casal falou sobre a viagem, o hotel, a praia e até mesmo disse que pensava em voltar lá com os rapazes no futuro. Os garotos ouviam com interesse, fazendo pequenas perguntas num ponto ou outro. Quando o assunto foi encerrado, foi a vez dos pais saberem dos filhos.
— O que vocês fizeram aqui durante esse tempo? – perguntou Heloisa.
— Primeiro, fizemos compras – respondeu Mateus.
— Não saímos muito. Só fomos ao parque – acrescentou Marcelo
— Só isso? Não aprontaram nada que eu e a Helô devêssemos saber? – perguntou Oscar, em tom de brincadeira.
— Não.
— Não.
A mesa foi retirada e a louça lavada em conjunto. Marcelo lavou os pratos, copos e talheres com o pai, enquanto Heloisa e Mateus os secavam. A tarde correu veloz porém, tranquila, enquanto Oscar e Heloisa arrumavam as malas, davam aos filhos pequenas lembranças de viagem (de Heloisa para Marcelo e de Oscar para Mateus), e organizavam pela casa alguns pequenos suvenires que tinham trazido. Era palpável o contentamento do casal e seus filhos não pareciam muito mais estranhos do que o normal.
À noite, o jantar foi preparado por Oscar, um prato não muito complicado, que Marcelo já conhecia há anos e era preparado pelo pai apenas em algumas ocasiões. A sobremesa foi sorvete, comprado por Heloisa, e após a refeição, Marcelo, Mateus, Oscar e Heloisa assistiram a uma partida de futebol pela televisão. O jogo possuía um comentarista bastante ativo, sendo que nenhum membro da família deixou de aproveitar o programa.
Mateus foi o primeiro a abandonar a sala e ir tomar um banho.
Quando ele saiu, Marcelo fez o mesmo, deixando Oscar e Heloisa sozinhos na sala. Quando saiu do banheiro, o casal já tinha ido para o quarto e logo Marcelo também foi para o seu.
A luz estava apagada, com Mateus deitado na cama e Marcelo não sabia se ele estava dormindo ou não. Mateus recostou em sua cama, sem dar sinal de que iria se deitar e Mateus, ainda deitado, falou:
— Qualquer coisa já temos pelo menos um casal feliz nesta casa.
Marcelo se dirigiu à cama do irmão e se sentou ao lado dele, enquanto este permanecia deitado. O constrangimento mútuo foi o primeiro sentimento, pela situação, pelo que tinha acontecido, pelo que tinham confessado um ao outro sem nem usar palavras. Ainda agora se sentiam meio
intimidados, mas esse sentimento quase sumia ante um medo maior: o medo do futuro.
— A gente sabia que não duraria pra sempre – respondeu Marcelo, passando as mãos nos cabelos de Mateus.
— Tá falando da lua de mel ou de nós dois? – perguntou Mateus.
— Ambos – respondeu Marcelo.
— A gente vai ser irmãos, isso vai durar pra sempre, isso a gente sabe.
Marcelo se aconchegou na cama de Mateus, ficando deitado ao lado do rapaz. A noite estava quente e, apesar de deitado, ele não usava cobertor, vestido apenas com uma bermuda. Mateus esticou sua perna por cima da
do irmão e passou seu braço por baixo da cabeça dele. Aquela posição tão grudada talvez não fosse confortável, devido ao calor que fazia, mas nenhum dos dois tinha intenção de desfazê-la.
— Então de qualquer forma a gente vai estar junto pra sempre, mesmo que o que a gente … sinta não dê certo – disse Marcelo.
— É muito estranho, não acha? Tudo bem que se espera que irmãos se amem, mas acho que não é desse jeito que todo mundo espera. Principalmente irmãos, no exato sentido da palavra – respondeu Mateus.
— Você não é meu irmão de sangue, então o modo como as pessoas esperam que eu te ame não importa. E
daí que eu superei esse modo? – disse Marcelo, procurando a mão de Mateus ao lado do rapaz.
— É estranho imaginar isso quando até dois meses atrás, a gente mal se conhecia.
Marcelo ficou em silêncio por algum tempo, e Mateus se perguntou se o magoara de algum modo. Depois de uns dois minutos, o rapaz falou:
— Eu não estou dizendo que quero passar o resto da vida com você. Nós somos jovens, pode ser só paixão adolescente. Nós podemos sair amanhã e conhecer outros caras e nos apaixonarmos por eles, sentirmos o que estamos sentindo agora, e então desencanar, perdermos o interesse. Isso pode acontecer duas, dez ou cem vezes. Não invalida o que eu sinto agora. Agora eu só quero ficar com você.
Mateus ficou alguns momentos parado em silêncio, então chegou mais para perto do irmão na cama e se pôs de joelhos sobre Marcelo, com as pernas entre a sua cintura. O primeiro lugar que ele visitou foi sua boca, com os sabores de ambos ainda novos demais
para que cada um provasse sem um leve arrepio. Mateus desceu a boca pelo corpo de Marcelo, pelo peito e pela barriga, com a cabeça reclinada sobre o corpo do irmão e seu cabelo fazendo uma leve cócega na pele dele.
— Parece que sempre tem mais de você para conhecer – disse Mateus.
Marcelo passou a mão pelos cabelos do irmão. Um sentia o calor do corpo do outro. Complicações quanto a parentesco podiam esperar para o dia seguinte e na completa escuridão do quarto poder-se-ia dizer que ambos estavam no mesmo mundo.
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