Adaptação
4 Capítulo 4
Notas iniciais
A tarde estava fresca e agradável, e o parque não estava muito cheio. Marcelo estava sentado na grama ao lado de Mateus, que estava deitado com as pernas estiradas. Aquele lugar ficava a cerca de 20 minutos a pé da casa de Mateus, e ele costumava caminhar até lá de vez em quando, pelas faixas especiais para deficientes visuais. Aquela era a primeira vez que levava alguém junto.
Enquanto assistia as folhas das árvores balançando ao vento, Marcelo refletia quanto ao que sentia. O garoto ao seu lado era seu irmão. Era um rapaz cego que, até um ano e meio atrás, ele nem sequer conhecia. Há duas semanas, ambos não tinham trocado mais do que palavras educadas. Quando foi que aquilo tudo se tornou o que sentia agora?
Marcelo tinha 18 anos, mas nunca fora uma mente romântica e nunca esperara das parcas relações que já tivera com rapazes mais do que satisfação momentânea. Agora, quando acordava, ele olhava para a cama ao lado e se perguntava quando o irmão acordaria. Tentava captar seu cheiro no quarto que dividiam, admirava o modo como seus dedos corriam pelas pontilhações que substituíam o alfabeto em seus livros, quando lia. Desejava explorar seu corpo e sua mente da mesma forma que observava tão sutilmente seus hábitos. Marcelo amava seu irmão, sem dúvida.
Mateus se ergueu com os braços e ficou sentado na grama ao lado de Marcelo. Ambos ficaram quase dois minutos próximos na mesma posição, até Marcelo notar o irmão ao seu lado. O rapaz estava calado, com o tronco apoiado pelos braços inclinados atrás do corpo, os cabelos mexendo levemente ao vento, os olhos olhando para o horizonte sem ver nada em absoluto.
— Eu não conhecia este lugar – disse Marcelo ao irmão.
— Sempre vim aqui. Primeiro com os meus pais, antes do divórcio, depois sozinho, quando memorizei o trajeto. Como é este parque?
Marcelo não pensou muito em como era estranho descrever um lugar para uma pessoa que sempre o visitou. Passou os olhos pelas imediações e tentou transcrevê-las ao irmão.
— Grande, espaçoso… com árvores que parecem bem velhas e uma fonte que também não é lá muito nova. Tem pessoas andando de bicicleta, mas isso você deve estar ouvindo.
— Sim – respondeu o irmão – como está o céu?
— Bastante azul, apenas com a borda do horizonte esbranquiçada. Tem um nome pra essa formação, mas eu não lembro. Como já são 17:00 o sol já está bastante avançado no céu. O tempo tá comum, mas bastante bonito.
Marcelo se sentiu culpado por se referir à beleza e cores, mas se Mateus se sentiu deprimido de algum modo, não demonstrou. O rapaz apenas continuou com os olhos no horizonte e deitou de novo na grama.
— Deve estar mesmo – disse, apenas.
Marcelo se deitou na grama, ao lado do irmão, e perguntou:
— Como você percebe este parque?
— Feche os olhos, primeiramente. Agora tente ouvir o vento nas folhas, nas árvores, bem de leve. Ouça também as pessoas conversando enquanto caminham, a fonte jorrando água. Tente sentir o calor do sol na pele, competindo com o arrepio leve que o vento causa. Dá pra ter uma ideia.
Marcelo seguiu os comandos de Mateus e tentou captar as
sensações que a visão nublava. Acreditou ter percebido algumas coisas, apesar de não ter a experiência do irmão.
Quando voltavam do parque, conversando apenas um pouco até chegar em casa, Marcelo imaginou como seria estar no mesmo mundo escuro que Mateus, com as sombras abraçando os dois.
Naquela noite, Mateus fizera o jantar e Marcelo lavara os pratos. Ambos foram dormir cedo, e Marcelo se levantou apenas de madrugada para ir ao banheiro. Quando voltou ao quarto percebeu que Mateus estava lendo um livro na escuridão do cômodo de luz apagada.
Marcelo pretendia apenas voltar para a cama, sem perturbar o irmão, mas antes que se deitasse de novo, Mateus perguntou:
— Não tá conseguindo dormir? – perguntou Marcelo na cama com o livro.
— Só tinha ido no banheiro. Não queria atrapalhar – respondeu.
— Não atrapalhou. Eu já ia dormir mesmo – disse Mateus.
— Deve ser bem diferente pra você… quer dizer… é bem diferente pra mim… tipo. Eu não entendo muito como é ler assim – disse Marcelo sem querer soar idiota, mas sabendo que soara exatamente assim.
— Vem cá e eu te mostro – respondeu Mateus simplesmente.
Marcelo se levantou da sua cama e deu alguns passos até a do irmão. Mateus se sentara sobre a cama, dando espaço para que o irmão fizesse o mesmo. Marcelo se sentou e Mateus chegou o livro para perto dele, pegando a mão do irmão e passando seus dedos sobre os pontos no papel grosso.
– Estes dois pontos horizontais com outro ponto sob o ponto direito formam a letra D. Estes dois pontos diagonais são a letra E. Estes dois pontos verticais com outro ponto acima à direita são a letra S. Não é tão diferente de como você faz, eu apenas leio com o tato ao invés da visão.
Marcelo deixou o irmão guiar seus dedos sobre as páginas,
sentindo tanto os sinais em braile quanto a mão de Mateus sobre a sua.
— Tem pouca coisa que você não possa fazer, não é? – Marcelo sentiu o afeto pelo irmão dentro de si.
— Eu ainda não sei como você é – respondeu Mateus.
— Como assim?
— Eu não sei como é o seu rosto, o formato das suas orelhas, do seu nariz, dos seus lábios. Eu simplesmente não sei como você é – respondeu Mateus de modo casual.
— Você sabe que eu sou bonitinho – respondeu Marcelo, em tom de brincadeira. Não imaginava qualquer forma de Mateus saber como ele era.
— Eu e a minha mãe podemos ter gostos diferentes – disse Mateus, erguendo a mão pelo rosto de Marcelo. Primeiro ele se demorou pela face esquerda, contornando as pálpebras com os dedos e apalpando levemente as orelhas. Então subiu a mão, envolvendo os cabelos e alisando a testa, até descer pelo angulo do nariz e contornar de leve os lábios. Mateus estava imóvel, de olhos fechados, imaginando seu rosto sendo moldado como argila na mente do irmão. Apesar dos dedos de Mateus serem leves e delicados, Marcelo os sentia como fogo ou gelo tocando sua pele. Depois de conhecer o seu lado direito, Mateus retirou a mão do rosto do irmão e disse:
— Você é bem bonito mesmo.
Sentado na cama ao lado de Marcelo, Mateus se aproximou mais, com os pelos das pernas dos dois agora se roçando. Sem falar uma palavra, ou esperar qualquer outra do rapaz ao seu lado, Mateus inclinou sua cabeça até a de Marcelo e beijou seu irmão.
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