Adaptação

3 Capítulo 3


Oscar e Heloísa tinham viajado em lua-de-mel fazia cinco dias, o gelo entre seus filhos havia sido quebrado e agora Marcelo estava no quarto que dividia com Mateus esperando o irmão sair do banho. Eram 22:00, ambos já tinham jantado, haviam preparado a comida juntos, e um pensamento insistente se alojara na mente de Marcelo.

O garoto estava deitado em sua cama, com a de Mateus a dois palmos de distância, e tentava se lembrar de qualquer comentário, qualquer coisa falada por alguém que pudesse responder à pergunta em sua cabeça. Ainda imerso em si mesmo, Marcelo não percebeu quando Mateus entrou no quarto, com os cabelos molhados, apenas com uma bermuda e a toalha sobre o ombro.

— Pode ir.

— Heim? Ah, tá! – Marcelo saiu de suas divagações e sentou na cama, pensando se teria coragem de fazer sua pergunta agora. Por que não? Era uma simples pergunta casual.

— Acho que a sua toalha ainda não secou. Pode usar a minha se quiser – disse Mateus.

Marcelo levantou-se e deu uma olhada para Mateus. O corpo do irmão era esguio, assim como o seu, apenas um pouco mais baixo. A extensão do seu tronco, do peitoral até a cintura era reta, apenas com uns poucos pelos abaixo do umbigo, ainda úmidos do banho. Era um corpo saudável, não atlético,
mas belo de um modo discreto, com seus músculos se ressaltando muito sutilmente em seus braços. Os olhos eram um caso a parte.

Os olhos de Mateus eram castanhos escuros, quase pretos e normalmente ficavam escondidos atrás de óculos escuros, exceto quando o rapaz estava em casa. Desde que se mudara, Marcelo teve a oportunidade de vislumbrá-los livremente, embora quase sempre se sentisse estranho fazendo isso.

- Valeu, vou querer a toalha sim – disse. Mateus, que abria o armário, estendeu a toalha na direção da voz de Marcelo e disse, de forma casual:

— Quando sair do chuveiro, não se sinta constrangido em se trocar na minha frente.

— Pode deixar – Marcelo respondeu num tom descontraído, embora não tivesse certeza se seu rosto não estaria vermelho.

O rapaz pegou algumas roupas no armário, enquanto Mateus vestia uma camisa e se dirigiu ao banheiro.
Sentindo a água morna escorrer sobre o seu corpo, Marcelo respirou profundamente. Mateus estivera sob aquele chuveiro poucos minutos atrás. No exato lugar onde Marcelo estava agora, o irmão deixara a água escorrer em seu corpo, sua nudez exposta naquele mesmo pequeno box embaçado pelo vapor de água quente. O sabonete que Marcelo usava agora era o mesmo que percorrera a pele do
irmão, o rosto, os braços, seu torso liso e todas as outras partes. Marcelo
pensava nessas coisas muito sutilmente, sem nem se dar conta, apenas com essas impressões ocupando sua mente. O rapaz nem mesmo se deu conta de quando se encostara na parede do box, os olhos fechados, a mão não mais segurando o sabonete. A água morna correndo por sua pele e as sensações do corpo de Mateus naquele pequeno cubículo do box, eram os únicos estímulos de Marcelo e sua respiração arfante e a mão que começava a doer naquele exercício solitário mal eram percebidos.

Quando terminou, sentiu um misto de vergonha e algo mais que não saberia dizer. Ele é seu irmão, pensou. Ele agora é seu irmão, então tire isso da cabeça e aproveite que está no chuveiro e lave essas mãos. Esqueça o
que queria saber, deixe a pergunta pra lá, você provavelmente não se satisfaria com a resposta. Marcelo terminou o banho, se enxugou e vestiu a bermuda no banheiro mesmo. Ainda que aqueles olhos não enxergassem nada, ele não se sentiria confortável se trocando no mesmo cômodo que Mateus. E agora sabia que simplesmente não devia.

O rapaz já tinha vestido a bermuda e passava a gola da camisa pela cabeça, com a mente ainda repleta de Mateus, quando um escorregão no pano de chão o derrubou, fazendo com que batesse de costas na pia. Marcelo levou alguns segundos pra perceber o que acontecera, e a dor veio logo em seguida.Merda! Pensou o rapaz caído no chão ao lado da privada, sentindo como se as costas tivessem sido marcadas a ferro.
Levantando com dificuldade, Marcelo se apoiava na parede quando Mateus abriu a porta do banheiro.

— Você tá bem? Eu ouvi um barulho!

— Não foi nada, eu tropecei e bati com as costas na pia – Marcelo respondeu, ainda sentindo as costas arderem.

— Pela sua voz não parece que não foi nada, cara. Você consegue ver se o machucado foi muito feio?

Marcelo olhou no espelho do banheiro e tomou um susto ao ver o tamanho do hematoma roxo se destacando na parte direita de suas costas.
Percebeu também que uma pontada atravessava seu braço esquerdo ao menor movimento que fizesse.

— É, não tá legal não – admitiu Marcelo, sem animo para fingir otimismo.

Mateus continuava no batente da porta, parecendo pensar em alguma coisa, enquanto Marcelo desistia de tentar vestir a camisa.

— Quer que a gente vá pro hospital? – perguntou Mateus, de forma séria.

— Não precisa, não é tão grave assim. Eu acho que o meu pai deixou uma pomada que ele costuma usar nesses casos de queda e contusão. Eu uso um pouco e fica tudo bem – respondeu
Marcelo, não querendo deixar o irmão preocupado.

Voltando para o quarto, tentando andar sem mexer o braço, Marcelo abriu a gaveta da cômoda, e revirando um pouco entre outas coisas, achou a pomada. Mateus veio atrás dele, em silêncio, mas com uma cara preocupada. Marcelo sentou em sua cama e passou a pomada nos dedos da mão direita, tentando espalhá-la nesse mesmo lado do ombro. A tentativa era falha, seus dedos não conseguiam ir muito além da parte de trás do ombro e nem chegavam perto da área machucada das costas. Mas sabia que se tentasse usar o braço esquerdo, também ferido, veria estrelas.

- Tá passando a pomada? – perguntou Mateus, sentando ao lado dele na cama.

— Não muito. Meu braço não alcança e se eu usar o outro vou uivar de dor por uma hora – respondeu Marcelo, tentando fazer comédia do ridículo que via na situação.

— Deixa que eu passo – respondeu simplesmente Mateus.

— Não precisa, eu me viro – respondeu desconfortável Marcelo, lembrando da situação debaixo do chuveiro. O rapaz tentou usar levemente o braço esquerdo e não conseguiu impedir um silvo baixo de escapar de seus lábios.

— Deixa de besteira, cara, vai deixar suas costas se ferrarem?! – falou Mateus, a voz levemente alterada.

Marcelo não soube o que responder e nem foi preciso, já que antes que pudesse falar qualquer coisa, a mão de Mateus percorreu pela sua coxa, para seu sobressalto. Subindo até encontrar seu objetivo na mão de Marcelo, Mateus tomou do irmão a pomada e a passou na mão.

— Vira as costas e me explica onde é – falou Mateus.

Pensando que resistir só pareceria suspeito, Marcelo virou as costas ao rapaz e guiou a mão dele até o ponto onde estava o hematoma. A pomada era gelada, a mão do irmão, no entanto, era quente. Marcelo sentiu o movimento suave e lento de vai e vem subindo e descendo em suas costas, sem coragem de se virar ou dizer alguma coisa. Ele sentiu o irmão chegar mais perto, apoiando a perna na cama, enquanto espalhava mais pomada nas duas mãos, expandindo a área massageada naquele movimento macio, onde a palma das mãos e os dedos subiam e desciam pelas num movimento rítmico, escapando um pouco para os ombros e a parte abaixo da axila.

— Você tava distraído lá no banheiro? – perguntou Mateus.

- Tava. Tava no mundo da lua – respondeu Marcelo. Seria estranho explicar pelo que a sua mente estivera divagando naquele mesmo banheiro, apenas alguns minutos no passado. Sem se dar conta, apenas externando uma duvida que há algum tempo estava na sua mente, Marcelo simplesmente perguntou:

— Você tem namorada?

— Não – a resposta de Mateus viera curta e rápida, enquanto ele ainda massageava suas costas – e você?

— Também não – Marcelo respondeu, sem saber o que acrescentar.

— Por quê? – perguntou o irmão – não posso ver, mas minha mãe disse que você era bonitinho.

Marcelo ficou alguns segundos em silêncio e apenas riu de leve.

— Garotas não estão nos meus planos – respondeu, sentindo-se sutil e ao mesmo tempo explícito.

— Hmm.

— E você, por que não tem? Você também é bem bonitinho – perguntou Marcelo.

— Pelo mesmo motivo que você, eu acho – respondeu Mateus simplesmente, terminando a massagem.

Marcelo se deitou de bruços enquanto o irmão se dirigia ao banheiro para lavar as mãos. Quando Mateus voltou, Marcelo fingia estar dormindo, e ele passou as mãos casualmente pelos seus cabelos.