Ad Kami
1 Ad Kami
Kami
Frio não sentido. Mas está lá. Seja no vento que derruba telhas e madeiras podres. Podres aos meus olhos, que carregam a podridão de tudo que morre.
Morte não deliberada.
Frio não sentido. Mas está lá. Seja no que cai do céu e molha, ao que pouco me atento porque hoje, sim nesta noite, estou vestido de morte.
Morte não deliberada.
Frio não sentido. Mas está lá. Seja no fuzil M16 automático, carregado seguramente e com propriedade em minhas mãos. Morte encomendada pelo Estado, embalando o sono do cidadão de bem.
Morte não deliberada.
E rumo assim, comandando o pelotão da morte não deliberada, a entregando livremente, todas as noites adentrando Paraisópolis, Vila Rubi, Jardim Novo Mundo, Jardim Varginha¹, e quantos mais outros jardins com os mais belos nomes vocês quiserem dar.
Afinal, para esse bando de gente na merda, um nome hipócrita para servir de status no miserável jantar já está de bom tamanho.
O silêncio noturno, corrompido apenas pela justiça das armas. Ovacionados pelo cidadão de bem, fazemos o serviço completo. E assim, carregamos o manto do herói.
Mas não nessa noite, leitor. Essa é noite de extermínio.
Frio não sentido. Mas está lá. Seja no vento que dá vida ao Haori, símbolo de poder. Símbolo que me transforma em ferramenta para algo maior, um deus da morte.
Morte deliberada.
Frio não sentido. Mas está lá. Seja no que cai do céu e molha, purificando almas e lavando espíritos, uma embriaguez caprichosa, para a morte a ser desembainhada.
Morte deliberada.
Frio não sentido. Mas está lá. Seja em Katen Kyoukotsu, gêmeas chistosas, chorosas na noite. Morte encomendada pela necessidade, embalando o sono da doce sociedade das almas em equilíbrio.
Morte deliberada.
E rumo assim, comandando o esquadrão dos deuses da morte deliberada, todas as noites adentrando os confins do mundo mortal, à caça de potenciais. Trazendo assim o estandarte, da resolução sem volta.
O silêncio noturno corrompido, apenas pela justiça das armas. Não há aplausos, não há aclamação. Porém fazemos bem nossa tarefa. E assim, trajamos o manto dos deuses
Pois esta é noite de extermínio.
Não há onomatopéia que retrate em texto, o vil som das balas que perfuram o crânio. 206 frágeis, destrutíveis e míseros ossos, e o melhor e mais audível som da morte, vem do crânio.
Mas não vejo satisfação na justiça da morte indolor. A bala que perfura e se aloja no cérebro, destruindo sinapses e exterminando neurônios, não me satisfaz.
Eu e meu pelotão, enquanto cruzamos as vielas, quebramos o que pudermos. Não há tarso que resista, para o legista bancar o CSI.
Carta branca é carta branca, leitor. Se te mandam exterminar, o serviço precisa ser bem feito. Tudo pelo zelo da família, no país da Ordem e do Progresso.
Mas a noite avança ainda mais rápida que nós. E onde o vagabundo final se esconde, a merda fede ainda mais. Não há AR15, AK47 ou granada que nos impeça hoje.
E naquele barracão final, os heróis encontram o demônio. Em 20 segundos, quase todos os meus homens se encontram perfurados contra a parede.
Não há fuzil, bazuca ou grosso calibre o impeça hoje.
O vagabundo do arco luminoso, simplesmente não pode ser humano.
Não há descrição que retrate em texto, a atrocidade vinda das mãos humanas. Não há misericórdia no caminho daquelas mortes não deliberadas.
Ofereço meu saquê aos corpos, na passagem dos mortos que não carregam em si, metade da culpa que o massacre tenta justificar.
A miséria de Rukongai, vista no mundo humano. Favelas e mais favelas. Nos olhos dos que não me veem, apreensão, medo, não há celebração pela justiça empregada naquela noite.
Algo que simplesmente não podia ser humano perfurou a balas, os corpos de todos aqueles seres.
Um campo de extermínio, distribuído democraticamente entre mulheres e crianças.
...
“Vamos achar logo o Quincy” – apresso-me. A miséria humana, pouco pode ser suportada pelos deuses.
E encontramos. O alvo de nossa morte deliberada.
Morte por todo o barraco, um reles homem resta. Veste escura, tristemente e terrivelmente mortal. Ele não pode me ver.
Batalha rápida. Deuses da morte são os melhores mensageiros desta. É inegável. Incontestável.
Decapito em velocidade shumponica, corte limpo de minhas gêmeas chorosas. Mais sangue no ambiente, aquele cheiro ferroso que impregna o Haori, e nunca sai.
E então, o atroz homem me vê.
Vejo um homem. Suas armas não me chamam atenção. Katanas não são novidade. O manto, oriental, aquele chapéu, também dessa laia.
Meu coturno lamacento, afundado em sangue dos mais variados tipos. O cheiro de morte, o barraco diminuto. Nada disso chamando atenção. Apenas sendo captados pelos sentidos, inconscientemente talvez.
Leitor. Os olhos daquele homem, porém. Lá estava, e quão tolo eu fui. Via-me herói, me via portador da morte não deliberada, um agente perfeito do Estado.
E como me enganei, leitor. O verdadeiro portador de todas as mortes deliberadas e não deliberadas, o agente perfeito, que eu nunca seria.
Estava em minha frente, o verdadeiro deus da morte. E ante à esta divindade apenas pude, finalmente, conceber e verbalizar meu mais poderoso desejo, que refletia tudo que fiz até aquele momento de minha vida:
“Deus! Tenha piedade! Mate-me, por favor!”
No segundo seguinte, não havia mais deus. E eu, estava deliberadamente morto.
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