Notas iniciais
Infelizmente, Êve continuou no mesmo hospital, com os mesmos médicos, tomando os mesmos medicamentos, numa dosagem menor, e embora não tivesse mais pesadelos, ela entrou em depressão profunda. Pouco a pouco, começou a se esvaziar, como um copo, sem conseguir sentir nenhuma emoção. Quando James chegava para vê-la, ela virava o rosto. Não queria mais beijá-lo. Sequer quando Marta a visitava ela conseguia sorrir. Marta a abraçava, em seguida lhe dava banhos na banheira com óleos perfumados, penteava a cabeleira, contava-lhe coisas de Alain, dos amigos, mas Êve parecia uma múmia. Um robô. Marta se abraçava nela e a fazia caminhar pelo jardim. Sentavam num banco, onde Êve só olhava para a luz do Sol.

Quando Êve chegou ao hospital psiquiátrico Saint Remy, foi levada para uma sala em cujo interior havia 3 psiquiatras, que sussurravam entre eles, e anotavam diagnósticos médicos em livros.

Um deles perguntou-lhe, com uma voz doce, como a de um padre dentro de um templo:

— O que está se passando?

— Acho que sou Êve... Mas a verdadeira, e meu marido é Adan...

— Seu nome é Êve... Mas seu marido se chama James...

— Mas isso é nesta vida! Na pré-história era diferente... Olha, parece doideira, mas existe a reencarnação, e eu sou um espírito muito velho, muito antigo, eu vivi na pré-história... Nasci na África...

— E o que mais você viu?

— Naves inter espaciais... OVNIS... Muitos OVNIS... Chegaram à Terra antes das pirâmides...

— E como eram essas criaturas?

— Iguais a nós! Lindas! E eu estava ali, com elas...

— Observou algo mais?

— Sim! Notei que tudo é mentira... A história que estudamos na escola é falsa... As coisas não aconteceram como se diz. Há uma existência oculta... Uma verdade que está por baixo dos panos...

Outro médico interrompeu de súbito:

— Basta por hoje... Vamos lhe dar uns remédios para se serenar, e vai ficar aqui até que se sinta melhor... James pagou uma suíte muito linda, vai ter atendimento preferencial e vai poder receber os amigos. Tente se acalmar, que amanhã conversaremos de novo... Tá bom?

E o tormento de Êve começou.

As drogas ministradas em horários regulares a faziam dormir, mas, porém, lhe provocavam os pesadelos mais horríveis de sua vida. Assistiu a Jesus sendo chicoteado por romanos, sangrando, pingando, outras vezes, olhava Inês morrendo na Índia junto a seu marido, queimando numa pira de fogo, e se via a si mesma, lutando contra invasores numa nave espacial, morrendo de derrame cerebral. Sempre acordava aos berros, pois as lembranças eram profundas, como se ela estivesse lá. Todas as dores que sentira nessas ocasiões, voltavam para torturá-la sem piedade.

As enfermeiras chegavam correndo, colocavam-lhe toalhas molhadas na barriga, esfriavam sua cabeça, ou a colocavam embaixo do chuveiro com água fria, pois assim ela se sentia melhor e parava de tremer.

Mas a medicação persistia, a cada 4 horas, e os pesadelos retornavam, com convulsões horríveis, com ela pulando na cama como uma gangorra, espumando pela boca, com um pânico tomando conta dela. As enfermeiras novamente cuidavam dela, mas, no dia seguinte, abriam sua boca e davam-lhe cinco pastilhas diferentes de uma vez.

Era um pesadelo sem fim. O pior era o calor. Parecia que queimava inteira. Tirava a camisola, ficava em frente às janelas para tomar vento frio, mas as enfermeiras corriam para vesti-la, colocá-la na cama, e fazê-la dormir com injeções no braço.

E sem saber o que fazer, depois de três dias de inferno ininterrupto, ela começou a berrar:

— ADAN... Estão me matando... Estão me matando... Adaannn... Vem cuidar de mim... Adaaannnnn...

Mas quem veio para tirá-la desse martírio foi Felina, sua guardiã da vida espiritual, acompanhada por 10 médicos do além. Eles se posicionaram ao redor da cama. Olharam para Êve e começaram a fazer o diagnóstico entre sussurros.

Êve sentiu os espíritos em redor imediatamente. E falou: — É você, meu pai? E as almas lhe responderam: — Ele também está aqui, mas ele não é médico, e você vai passar por uma cirurgia! Êve perguntou: — Vou morrer? Todos os espíritos caíram na gargalhada. E desta vez, seu pai respondeu-lhe: — Olha, filha, um cavalo teria morrido no primeiro dia, da superdose de drogas, mas você é indestrutível, minha querida! Em seguida, ela sentiu uma boca na bochecha. O primeiro beijo de seu pai, desde o outro lado da vida.

A seguir Êve adormeceu como dormem os anjos. Nenhum pesadelo, nada de convulsões, num sonho profundo que durou sete dias e sete noites.

Quando Êve abriu os olhos, Manon, Mirelle e Marta estavam em redor de sua cama, chorando abraçadas, esperando que ela morresse. Os médicos haviam diagnosticado coma, e estava cheia de mangueiras, tubo de oxigênio, um lixo humano. Pierre apareceu correndo, beijou-a e pediu que a transferissem para outro lugar. O melhor.

Infelizmente, Êve continuou no mesmo hospital, com os mesmos médicos, tomando os mesmos medicamentos, numa dosagem menor, e embora não tivesse mais pesadelos, ela entrou em depressão profunda. Pouco a pouco, começou a se esvaziar, como um copo, sem conseguir sentir nenhuma emoção. Quando James chegava para vê-la, ela virava o rosto. Não queria mais beijá-lo. Sequer quando Marta a visitava ela conseguia sorrir. Marta a abraçava, em seguida lhe dava banhos na banheira com óleos perfumados, penteava a cabeleira, contava-lhe coisas de Alain, dos amigos, mas Êve parecia uma múmia. Um robô. Marta se abraçava nela e a fazia caminhar pelo jardim. Sentavam num banco, onde Êve só olhava para a luz do Sol.

— Quer pintar, mãezinha?

— Não... O que o James está fazendo?

— Está em casa, bebendo... Ele se acha culpado... A companhia vai viajar... Estou tentando convencê-lo para ir junto...

— Faça isso, filha... Depois de sair daqui, vou pedir o divórcio... Eu nunca vou conseguir beijá-lo... Eu sinto nojo dele... Só de olhar a cara dele, meu estômago vira... Ele me traiu, filha... Beijou outras mulheres...

— Mas não pense mais sobre isso... Não se torture com as más lembranças... O que gostaria de fazer?

— Ir para casa... Odeio este lugar...

— Mas o médico não vai deixá-la ir, até você não acabar com essa história dos OVNIS, mãe... Fale de outra coisa. Engane os psiquiatras. Nada de OVNIS, nada de Adan, nada de Jesus, nada de nada... Fale sobre mim, sobre sua pintura... Mude a conversa...

— Você não acredita em mim? Acha que estou louca?

— Mãe, eu sou materialista dialética como meus avós... Reencarnação é religião... Não me peça para acreditar que eu vivi outras vidas...

— Então, o que vou fazer? Se minha própria filha não acredita que estou falando a verdade, não vou abrir minha boca nunca mais...

E desta vez, Êve entrou em estado catatônico.

Além de não falar, não queria comer, e ficava como estatua junto à janela, pois nunca mais quis passear pelo jardim. Marta entrava agora para derramar-se em lágrimas ao seu lado, pedir perdão, e lhe dizia entre soluços:

— Mãe, eu vou fazer o que me pedir... Juro, mas fala comigo de novo, mãe... Por favor...

Um dia, um sussurro respondeu-lhe:

—Procure o russo...

Depois Êve desmaiou.

Foi examinada, e o médico a enviou a fazer eletrochoque, para devolvê-la à normalidade. Marta saiu dali correndo, aos prantos.

Depois, Marta caminhou pelas ruas, desesperada.

Peregrinou pela beira do Sena, e viu a “Notre Dame” mais linda do que nunca. Despertou dentro dela um interesse em rezar pela primeira vez na sua vida. Mas como todos os dias, havia uma fileira de turistas que dobrava a esquina para entrar. Procurou outra igreja, mas elas estavam todas iguais, cheias de gente. De repente viu um templo Pentecostal desocupado. Vazio. Nenhuma imagem em lugar algum, com uma faixa gigantesca na parede, que dizia: — Jesus te ama! Foi a primeira vez que ela não caiu na gargalhada por causa dessa frase. Jesus era objeto das maiores e melhores piadas entre os camaradas do partido comunista. Ela crescera ouvindo piadas de Jesus com seu avô Pierre e seus tios Paul e Georges. Na verdade, eles eram todos uns hereges, sem nenhum medo do castigo eterno, e muito menos do Inferno.

Caminhou dentro desse templo, sentou numa cadeira, olhou para cima e falou:

— Afinal, Jesus, você é mesmo miraculoso como falam? Você existe, ou não? Como é que é? Você pode ajudar minha mãe?

E um sussurro no seu ouvido direito lhe respondeu:

— Mas que pergunta, minha irmãzinha! Estava viajando para o “Sistema ALPHA” na primeira dimensão do Universo, e de súbito senti os gritos da mãe... Fica tranquila, que vou cuidar dela e de ti, a partir de agora... Estou indo para o hospital... Fica calma... Eu te amo...

Marta tampou os ouvidos, e pensou consigo mesma: — Será que loucura é hereditária? Depois saiu correndo, mais apavorada do que nunca.

Depois de sete dias de sonho profundo, Êve abriu os olhos sentindo-se melhor.

Sorriu com ela mesma. Os espíritos haviam-na salvado pela segunda vez. Assim que Marta entrou com um enorme ramo de rosas vermelhas, ela levantou os braços e se abraçou na filha.

— Filha, eu estou boa... Mas como você é ateia, nem vale a pena falar mais nada...

— Pode sim! Eu falei com Jesus, mãe! Ele me disse que ia cuidar de você, e que me amava...

— Verdade?

— Juro! E desta vez pode pedir-me o que quiser. A loucura mais doida, que eu garanto que vou fazer...

— Procure esse russo...

— Vou rastejar o bonitão e trazê-lo para você... Juro. Se o remédio é um novo marido, eu vou ajudar, pode deixar...

E Marta começou o que seria a tarefa mais difícil de sua vida.

Falar com Jesus havia sido moleza. Agora entrar em contacto com o russo, era impossível. Foi ao Consulado da União Soviética, onde recebeu o endereço, com um sorriso nos lábios. Ela escreveu uma carta, contando que tinha uma fã chamada Êve, e que quando viesse para a França fosse vê-la. Escreveu o seu endereço completo em Paris, o seu telefone, cheia de esperanças.

Mas um ano se passou, e Marta jamais recebeu uma resposta. Êve voltou para casa, sem que nunca houvesse um retorno dos Comitês Olímpicos, nem da França nem da União Soviética.

Foi Pierre que lhe deu uma pequena esperança.

Ele viajou para Moscou numa delegação de operários, e uma vez lá, tentou falar com membros importantes do partido para saber o endereço do ginasta. Deixou também um cartão, mas nunca conseguiu vê-lo. Os camaradas explicaram que a fuga de ginastas para o lado ocidental estava aumentando, e que ter qualquer contacto com ele era perigoso. Pelo bem da União Soviética, cada atleta famoso era acompanhado nas viagens pelo mundo, por membros da KGB.

Quando James voltou de um giro pela Europa com a Companhia de Teatro, encontrou Êve em casa. Ele ficou tão feliz, que não sabia o que fazer. Tentou abraçá-la, beijá-la, mas Eva lhe virou o rosto, e gritou como quem vê chegar o demônio.

Marta chegou correndo, levou-o para outro lugar e explicou:

— Pai, a mãe não está totalmente bem... Ela ainda pensa que é essa mulher da pré-história, e que o marido dela é outro homem... Por favor, paizinho, não toca nela, pois vai enlouquecer de novo e os psiquiatras vão levá-la para esse hospital... Ela até ganhou eletrochoque, pai... Jura para mim, pai... Não toca nela... Por favor...

— Não vou, filha... Arrume para mim outro dormitório...

— Já arrumei um dormitório especial para ela... Coloquei cortinas cor de rosa, flores, ela está feliz... Tenha paciência pai, um dia ela volta para realidade e vai ser sua mulher de novo...

— Espero que sim...

Mas para James morar no chateau, olhando para Êve de longe, começou a ser torturador. James se consolava em orgias com até 5 mulheres de uma vez, onde abria os braços e pedia que o fizessem feliz. Lembrava-se de sua lua de mel, e chorava. Nada era igual. Ninguém conseguia fazê-lo tão feliz quanto Êve.

A bebida começou a ser seu consolo.

Chegava ao amanhecer, caindo aos trancos. Os empregados o carregavam para cama, despiam, e cuidavam dele. Passaram a ser dois adoentados dentro de casa. Uma louca e um bêbado. Marta tentava organizar a vida, mas os empregados terminavam se demitindo, porque ninguém tinha paciência com dois enfermos. Os serviçais foram sumindo, e Marta passou a dar banho na sua mãe, preparar almoços, ir aos supermercados para suprir a despensa, sempre correndo.

Uma manhã, enquanto Marta percorria feiras em busca de frutas, James entrou no dormitório de Êve, fechou a porta com chaves, levantou a camisola dela, e caiu por cima aos beijos e abraços. E foi amado novamente, por uma mulher que recuperara a sanidade mental. Depois de fazer amor, James a carregou para a banheira e lavou seus cabelos, sorrindo, pois finalmente seriam um do outro para sempre.

Quando Marta chegou a casa cheia de pacotes, Êve estava na sala abraçada ao marido, lendo revistas. Pareciam felizes. Marta aprontou um Coq au Vin, acompanhado de purê de batatas, de sobremesa fez creme brûlée, e serviu acompanhado de vinho e suco de frutas. Em seguida, comeram felizes. Marta começou a fazer planos para o futuro, pois tinha convites para tocar em Viena, e ela só iria depois que a mãe estivesse boa. E sua mãe falou-lhe sorrindo:

— Vai, filha... James vai cuidar de mim daqui para frente... Eu não tenho mais nojo dele... E a culpa não foi minha... Foram os remédios que me deixaram assim...

— Eu sei, mãe! Mas, não quer mais o divórcio? Nada de um novo marido?

— Não! Vou deixar minha alma-gêmea para a próxima reencarnação... E não fique com ciúmes, meu querido...

— Nada de ciúmes... Juro.

Mas depois de três meses, James faleceu atropelado, enquanto corria atrasado para os ensaios. Morreu de forma instantânea. O motorista do ônibus jurou que não o vira na frente. Ele ficou estendido no chão numa morte misteriosa, deixando uma enorme riqueza para a viúva e para a filha.

Êve não conseguiu derramar nenhuma lágrima durante o enterro.

Ela não amava mais o James. Esses últimos dias haviam sido um teste. Um experimento para uma teoria sobre a cura da homossexualidade, e do fim da promiscuidade. Mirelle, sua melhor espiã, jurava que James abandonara todas as amantes, femininas e masculinas, depois que ela fez amor com ele. Êve estava mais do que convencida de que a homossexualidade, qualquer que fosse sua origem, tinha cura. E, mais ainda, a culpada pelo surto gay a nível mundial era da mulher. A mulher buscava o machão, o peludo, o garanhão, dispensando os homens delicados. Alain era um machão. Mas durante o sexo era tão meigo quanto qualquer mulher. Alain se derretia como manteiga. Eram beijos sensuais, doces, e se mexia com delicadeza como se a mulher fosse desmanchar. James na cama era um animal selvagem. Um bruto. Batia como um touro bravo e jamais cansava. As mulheres nada sabiam da natureza masculina.

Enquanto Marta começava sua turnê pela Europa, interpretando seu melhor repertório de Chopin, Êve deu início a suas primeiras divagações como escritora.

Numa tarde tranquila, música suave, um vinho para acompanhar, sentou ao lado da janela, suspirou fundo, lembrou-se do russo, do marido da pré-história, e se disse para si mesma: — Vou escrever sobre um homem que algum dia, quem sabe, eu vou conhecer. Seja nesta vida, ou seja, após a morte. Um homem que sempre amarei em meus sonhos!

Depois, escreveu na primeira página de seu primeiro livro: — Crônicas de Adan, da pré-história até os tempos atuais.

Notas finais
Êve não conseguiu derramar nenhuma lágrima durante o enterro. Ela não amava mais o James. Esses últimos dias haviam sido um teste. Um experimento para uma teoria sobre a cura da homossexualidade, e do fim da promiscuidade. Mirelle, sua melhor espiã, jurava que James abandonara todas as amantes, femininas e masculinas, depois que ela fez amor com ele.