Acting or Dance?
2 ❦ Capítulo 1
Notas iniciais
A brisa do vento agitava os meus longos cabelos encaracolados enquanto caminhava lentamente pela praça. O dia estava ótimo para continuar dormindo encolhida na cama com um cobertor quentinho e aconchegante, porém hoje começaria as aulas e não podia faltar.
Eu amava o inverno, sempre passava o dia inteiro enterrada debaixo dos cobertores lendo centenas de romances, mas ele deixava o parque com um aspecto sombrio. O inverno parecia matar qualquer sinal de vida. As árvores estavam mais secas e sem nenhuma folha; os brinquedos pareciam mais sombrios do que o normal e algumas plantas estavam murchas.
Logo algo desviou a minha atenção e eu rapidamente comecei a admirar a sua beleza, fixando o meu olhar sobre as suas asas. Uma borboleta azul havia pousado em um galho seco e a sua cor se destacava naquele parque sem vida. A ponta de suas asas tinham pequenas bolinhas pretas que pareciam ter sido pintadas delicadamente à mão; o azul das suas asas refletia um leve brilho quando eram abertas e fechadas, o que a deixava ainda mais linda.
Ao olhar novamente em suas asas, lembrei-me de um par de intrigantes olhos azuis. Havia um garoto que estava sempre ao meu lado me confortando e se preocupando comigo. Sua casa era um verdadeiro campo de batalha. Seus pais estavam sempre brigando e várias vezes ele aparecia com hematomas no corpo. Mas apesar dele sofrer tanto, esse garoto continuava a sorrir sempre que estava perto de mim e dizia estar tudo bem para que eu não me preocupasse, o que não adiantou. Eu queria cuidar dele, queria que fosse eu a confortá-lo, mas algum tempo depois ele se mudou, deixando apenas o seu número de telefone.
Tirei uma foto da borboleta e a salvei na galeria, imaginando qual seria a sua reação ao vê-la. Ouvi alguns passos atrás de mim logo cortando os meus pensamentos e a borboleta rapidamente voou assustada. Franzi a testa levemente frustrada e me virei para o dono daqueles passos. Michael. Ele abriu o maior sorriso que pôde e veio se aproximando rapidamente para perto de mim. Retribui o sorriso sentindo os seus braços ao meu redor me apertando contra o seu corpo.
Michael era um dos meus colegas de classe e de atuação. Na verdade, ele era o meu parceiro e companheiro de atuação, então ele estava sempre comigo e com o Kile durante a semana, nas aulas, trabalhos e na nossa casa. Estávamos quase sempre grudados.
— Senti a sua falta, Scarlett. — falou carinhosamente enquanto eu desfazia o abraço. Ele falava de um jeito tão inocente e descontraído que não dava para resistir. Levantei a cabeça para o seu rosto e pude ver o intenso brilho de felicidade em seus lindos olhos âmbares. Céus! Como um garoto podia ser tão fofo e carinhoso como ele? — Pensei em você a cada minuto das minhas férias.
— Não diga isso. — Dei uma risada forçada escondendo a minha vergonha. Passei a minha mão sob o seu rosto e dei uns leves tapinhas brincando — Aposto que ficou encantado demais com a vista da fazenda que até se esqueceu de mim.
— Bem, isso pode até ser verdade... — admitiu escondendo o seu rosto com o braço fingindo sentir culpa — Mas garanto que as minhas noites e os meus sonhos foram todos reservados a você.
Dei uma gargalhada ignorando o que disse e voltei a minha caminhada na direção da entrada da escola. Michael caminhava ao meu lado enquanto observava outros estudantes aparecendo à medida que andávamos. Olhei de relance para o seu rosto e ele estava levemente corado, talvez por causa da baixa temperatura. Provavelmente o meu rosto estaria muito mais corado, por causa da vergonha que eu sentia em tê-lo abraçado e do meu coração estar agitado. Levei as minhas mãos até a bochecha para ver se estava quente, mas lembrei de que usava luvas e me senti um pouco idiota por esquecer isso.
Com a volta das aulas eu teria que me acostumar com a velha rotina que eu levava. Imaginei as grandes quantidades deveres que eu teria que fazer; noites passadas em claro enquanto planejava os trabalhos de pesquisa, palestra e atuação; piadas sem graças do Kile logo no café da manhã... Voltaria com a minha vida sufocante de antes.
Olhei para o relógio vermelho em meu braço e notei que o sinal tocaria daqui dez minutos. Pensei se haveria alguma novidade em nossa classe, pois eu estudava com as mesmas pessoas durante três anos seguidos! Isso é praticamente um recorde.
Quando já estávamos dentro do refeitório, Michael me avisou que nos encontraríamos na classe e em seguida se distanciou de mim, andando na direção de um grupo de garotos barulhentos. Fiquei um pouco decepcionada por ter se afastado de mim, mas logo nos veríamos..
Continuei a andar distraidamente na direção da minha sala. Passei entre dois corredores e de repente alguém esbarrou fortemente em meu braço, surgindo vários papéis pelo ar. Aquela situação me deu uma pequena vontade de gargalhar.
— Oh, me desculpe... — Agachei delicadamente o ajudando a pegar os milhares de papéis caídos no chão. Peguei um papel em especial juntos com alguns outros e vi escrito em letra maiúscula Transferido em vermelho. Seria um novo aluno?
— Ah... Não se preocupe, a culpa foi minha. — Pela voz pude perceber que eu havia esbarrado em um garoto. Ela saiu meio baixa e misteriosa. Enquanto falava, seu sotaque era muito puxado para o francês, o que me fez imaginar se ele já tinha andado pelas ruas de Lyon. — Eu não estava olhando para frente. — Ele deu uma risada fraca.
Olhei de relance e pude reparar em seu rosto que ainda olhava para o chão. Seu cabelo era profundamente negro e sua franja caía um pouco em seus olhos; seu rosto era meio fino e estava também um pouco pálido. Mas o que me chamou ainda mais a atenção foram os seus olhos. Embora ele estivesse olhando para baixo, eu pude ver a profundidade dos seus olhos azuis. Eles me intrigaram. Quando percebi, estava o encarando mais que o normal e a minha respiração havia parado.
— Aqui está. — Levantei rapidamente evitando que ele visse o meu rosto provavelmente corado. Esbocei um sorriso simpático olhando para o chão e o garoto também se levantou, olhando nos meus olhos, que agora também o olhava.
— Obrigado. — Ele pegou delicadamente os papéis da minha mão, organizando-os em seguida. Se ele era transferido então não tinha nenhum amigo aqui, certo? Então como filha do diretor eu devia ajudá-lo, certo? Certo!
— Ah... Meu nome é Scarlett, sou da sala dois B. — Comecei a me apresentar. Vi ele abrir um pequeno sorriso no canto dos lábios e tive a esperança de que talvez ele fosse amigável.
— Scarlett... — Ele repetiu o meu nome em um sussurro, talvez para memoriza-lo. Notei uma breve mudança em seu rosto, mas não consegui identifica-lo. — Dylan Walker.
— Walker? — indaguei meio confusa. — Você tem algum parente britânico?
Dylan arqueou as sobrancelhas talvez pensando que eu tivesse feito uma das perguntas mais idiotas do mundo.
— Eu sou britânico...
— Tem certeza?
— Absoluta. — Diante da minha confusão ele deu uma risada mais aberta, e não resisti e dei uma risada também. Sim, eu fiz uma pergunta idiota, mas até que não foi tão idiota assim...
— Seu sotaque é muito enganador. — Fiz uma careta. Olhei novamente para o meu relógio. Um minuto. — Bem... Nos vemos por aí. — despedi-me dele e me direcionei para a minha sala.
Minha aula começaria daqui a pouco e eu teria que ir mais depressa. Talvez tenha alguma novidade nesse semestre.
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