Across the universe
1 único
Gatos gostam de caixas
Olhar para ela já não era tão atrativo quanto antes. Às vezes apertava o olhar ou procurava por outro ângulo, mas sua namorada nem ao menos era interessante mais. Sanji se pegava perguntando por que não gostava mais da ruiva à sua frente, mascando um chiclete enquanto falava, vestida com o uniforme da escola.
Nami pegava uma mecha de seu cabelo longo e enrolava nos dedos, sua boca suculenta se mexia sem parar, mas Sanji não prestava atenção, aliás, nunca lhe pareceu tão agridoce como agora.
A única coisa que se passava em sua mente era se estaria certo continuar com aquela relação, enquanto achasse os garotos cada vez mais atraentes. Não compreendia por que as garotas não eram sedutoras como antes, só podia estar doente.
— Está me ouvindo, Sanji-kun?
Estavam em frente a um shopping, onde haviam passeado depois da escola. Nami se escorava no muro com um joelho levantado e pé na parede, revelando mais da sua pele alva sob a saia rodada. Se estaria provocando o namorado, não funcionava. Sanji estava com a mente em outro lugar, com os olhos mirados nele e não nela.
— Ham... sim... quer dizer, não... — Admitiu coçando a nuca e Nami ficou emburrada com os seus braços cruzados. — Não me sinto muito bem...
— Quer ir pra casa?
— Sim, se não se importa...
Ela se desgrudou do muro e se aproximou da bicicleta do namorado. — Então, vamos.
Sanji montou na bicicleta, seguido por Nami. Ele pensava se ela nunca perguntaria por que estava tão alheio ultimamente, talvez por medo de ser um assunto que pudesse por fim naquela relação. Ele sabia que ela não o amava também, eram apenas alunos populares que quiseram ter um tipo de relacionamento para exibir feito uma vitrine em dia de natal.
Aliás, Sanji parecia cansado dessa vida. Depois de levar Nami até sua casa, resolveu passar no supermercado e agradeceu mentalmente por ainda estar aberto. Ele comprou 1Kg de ração para gatos e voltou para a escola.
Era noite de lua cheia, Sanji prendeu a bicicleta num poste como sempre fazia, e pulou o muro para ir até o prédio da biblioteca, por trás dele havia uma caixa de papelão — que ele arrumou — com 4 gatinhos. Estavam escondidos e protegidos da chuva na área que ficava por baixo de uma sacada, servindo como marquise. Desde que foram largados pela mãe, que provavelmente havia morrido, Sanji cuidava deles, trazendo ração e água em certo momento do dia.
Só não esperava encontrar naquela noite um estudante de cabelos tingidos de verde, agachado e com um dos gatos envolvido nas suas mãos grandes. Sanji trincou os dentes por ter pensado que era um delinquente pronto para pisar nos filhotes, já que o rapaz tinha o cabelo colorido
— O-o que acha que está fazendo?
Se praguejou por sua voz ter saído falhada. Ele não podia parecer um covarde diante de um mero delinquente, não quando era popular e rodeado por pessoas que o respeitavam.
— Vejo que trouxe comida. — Respondeu o delinquente, depois de notar o saco numa sacola que Sanji carregava.
Assim que virou o rosto, Sanji corou instintivamente ao vê-lo. Nunca havia visto antes um rapaz com um olhar tão misterioso na escola.
— Sim... — Se agachou ao lado dele, após entender que ele apenas brincava com os gatos, além de achá-lo atrativo, queria conhecê-lo. — Parece que eles gostaram de você.
— Onde está a mãe deles?
— Acho que morreu, cuido deles desde semana passada.
— Seria bom tirá-los da escola, alguns alunos problemáticos podem fazer algo...
Sanji fitava o rapaz, como se estivesse hipnotizado, mas estava tudo bem, quando ele parecia nem notar os seus olhos azuis fincados nele.
— Como se chama?
— Zoro, e você?
Sorriu ao ver o olhar genuíno do suposto delinquente, era verdade a hipótese de que ele não fazia ideia de quem era.
— Sanji.
Eles voltavam caminhando no campo próximo a escola sob o céu escuro da noite e sua lua brilhante. Zoro carregava a caixa, pretendia levar os filhotes pra casa e doá-los. Sanji andava ao lado dele, levando sua bicicleta consigo.
— O que fazia na escola essas horas?
— Meu clube de kendô funciona nesse horário também.
Sanji piscou os olhos, compreendendo o porquê de Zoro ser forte.
— Legal, não conheço ninguém de lá. Eu faço parte do futebol.
— O de futebol faz bastante sucesso na escola.
— Sim, mas parece que pra você não, senão tu me reconheceria, não?
Zoro conversava observando os gatinhos na caixa perdendo seus equilíbrios com seus passos largos. — É chato e me dá vontade de dormir.
Dito isso, Sanji sentiu uma fúria dominar o seu corpo. — Kendô que é chato, marimo estúpido!!!
— "Marimo"? — Parou os passos e compreendeu que havia ganhado um apelido, bem ofensivo por sinal. Os gatinhos que carregava, tombaram com a parada súbita. — Sim, chato como você e sua sobrancelha enrolada!!!
Sanji era um rapaz loiro com uma franja caindo sobre o olho esquerdo, o motivo era que ele tampava uma de suas sobrancelhas para não mostrar a ninguém de que, além de enroladas, eram assimétricas. Raivoso, partiu pra cima de Zoro e nem quis saber se era um delinquente super forte que praticava uma arte marcial.
Eles passaram a discutir, mas tomavam cuidado com os gatinhos, é claro. Sanji voltou pra casa exausto, dando boa noite ao seu pai e foi tomar banho. Depois de vestir uma roupa confortável, se sentou na beirada da cama e pegou seu celular da cabeceira. Havia algumas mensagens de Nami e outras notificações como likes do instagram. Nesse momento, pensou se poderia encontrar alguma rede social daquele marimo de aparência não muito bonita, mas intrigante. Em fotos, ele não pareceria tão chato e ainda poderia admirá-lo, mas acabou não o achando.
Se conheceram faz algumas horas, entretanto, era a cara do marimo não ter redes sociais. Bufou largando o celular na cabeceira e abraçou um travesseiro com força, escondendo seu rosto corado. Um aperto no coração fazia Sanji temer de não poder vê-lo nunca mais... até se lembrar de que poderia encontrá-lo no clube de kendô da escola.
Ser gay é tudo de bom
Não era só o futebol que contribuía para a imagem popular de Sanji. A sua beleza com os seus gestos minuciosos e transmitida em seus olhos de um azul invejável, somada aos cabelos loiros e sedosos, ajudava o rapaz para ser conversa em rodas de amigos, muitas garotas suspiravam quando ele andava pelos corredores da escola.
Mas Sanji era gay e ninguém sabia disso. Ele achava que namorando Nami faria com que os assédios das garotas fossem menores, e ele também pretendia se “curar” nessa relação. É claro que algumas vezes se sentia culpado por mexer com os sentimentos de Nami, mas ele não conseguia levá-la tão a sério, ele sabia que ela se envolvia com outras pessoas e não a culpava. Afinal, Sanji nem sequer fazia sexo com ela. Nessa altura, ele se perguntava se Nami suspeitava de algo, pois o que a prendia a ele? Era só o desejo de ter a imagem de casal perfeito da escola? Contudo, ela poderia namorar facilmente outro aluno popular. Beleza era o que havia de melhor nela.
No entanto, Nami achava vantajoso essa falta de empatia, porque era mais fácil se envolver com o professor de biologia Trafalgar D. Water Law, servia como uma fachada e ninguém a discriminaria ou suspeitaria.
A luz do hotel estava acesa, ela observava as tatuagens que cobriam o seu corpo sobre o dela, mas focava em seus olhos cinzas, que a fitavam serenamente. Era impressionante de como ele mudava de sedutor para tenro com muita facilidade, era um homem completo. Law se aproximou para dar mais um beijo e Nami deixou escapar uma lágrima, amava-o demais.
A diferença de idade não era grande, mas ainda assim ele era o seu professor, como também era noivo de outra garota e prometia a ruiva que não se casaria.
Mas Nami sabia que era mentira.
O celular sobre a mesa de cabeceira vibrou, Law esticou o braço para pegá-lo, enquanto Nami fez um bico pelo beijo ter sido interrompido. Ele começou a falar e vestiu sua calça para continuar a conversar na sacada, fechando a porta de vidro logo em seguida. Estava claro que não queria que Nami ouvisse. Provavelmente era sua noiva.
Estava cansada de ser ninguém para Sanji, para Law, para todos.
No outro dia no colégio, Sanji deu uma passada no clube de kendô para vê-lo. Ele se sentou no tatame e observou alguns duelos, nos quais Zoro fez parte de um. Ficou encantado com o seu talento e, por mais que não entendesse das regras ou do esporte, ele lhe pareceu ser o melhor.
Zoro não trajava mais as proteções e sim uma regata, tinha uma toalha branca em volta do pescoço que usava para enxugar o seu suor, carregava uma garrafinha de água na mão e antes mesmo de ir pro vestiário para tomar um banho, parou para cumprimentar Sanji, que fez questão de estar bem visível aos olhos castanhos.
— Olá, sobrancelha enrolada! Veio me ver?
Sim, ele estava ali para vê-lo, mas é claro que não admitiria, ainda mais depois de ser chamado mais uma vez por aquele apelido.
— Claro que não, marimo! Só quero saber dos gatos.
— Estão bem, até logo! — Deu as costas para ir até o vestiário, mas Sanji pegou em seu braço.
— Espera, eu...
— Eu o quê?!
— Eu gostaria de vê-los!!
Era estúpido por estar tão nervoso, com certeza Zoro o achava um completo idiota. Mas por que se importava com o que um musgo pensava dele?
— Você é fofo. — Disse o esverdeado num sorriso radiante, Sanji sentiu seu rosto esquentar e quase caiu pra trás. — Depois das aulas me encontre no portão para irmos até minha casa.
— Ah... sobre isso, prefiro que seja no portão do lago de carpas, alguma objeção?
— Não.
Sanji sabia que Nami poderia estar no portão principal o esperando sair para voltarem juntos, e ele sabia que ela não tinha o costume de passar no lago, por ser distante da rota que ela passava todos os dias. Só não sabia que Zoro iria demorar tanto e quando chegou, arfava o ar como se tivesse corrido muito.
— Por que a demora? Estava perdido?
Apenas falou por falar, mas Zoro ficou tão aborrecido que restou a Sanji acreditar que ele havia mesmo se perdido. Deu uma gargalhada alta e o chamou de anta por se perder na própria escola. Zoro o ignorou depois de um resmungo e começou a andar, o outro o seguiu quando percebeu que o marimo já se dirigia para a saída.
— Sabe, seria bom você me passar seu whatsapp pra eu te mandar uma mensagem numa situação como essa. — Sanji pedalava na sua bicicleta, enquanto Zoro pedalava na dele ao seu lado.
— Pretende continuar a conversar comigo, sobrancelhas?
Sanji corou. — E qual é o problema se sim? — Sentia suas mãos tremerem no guidão, respirou fundo para ficar calmo, afinal, ele não o acharia gay por causa disso.
— Não tenho whatsapp.
Esperava por isso, visto que não achou o marimo em nenhuma rede social na noite passada. Eles continuaram seguindo, o céu já estava escuro por Zoro ter demorado muito para encontrar o lago de carpas. Passavam pelas ruas do bairro, enquanto o sobrancelha enrolada se perguntava em como seria a casa dele. Ficou surpreso quando viu que se tratava de uma casa tradicional japonesa, eles guardaram as bicicletas e Sanji entendeu que Zoro era mestiço. O cabelo verde fez com que não percebesse antes.
— Pelo visto meu pai não está em casa. — Disse Zoro, ao sair da cozinha atrás do pai. Sanji ainda esperava no hall da casa. — Fique à vontade, meu quarto fica por aqui.
O loiro o seguiu observando com curiosidade a casa exótica e bonita. Zoro devia ter uma mãe caprichosa, diferente dele que fazia tudo em casa por seu pai ser um inútil.
— Não sabia que você tinha sangue japonês, sabe, com essa cor horrível de cabelo, fica difícil ver que é japonês. — Disse Sanji, sentado na cama do marimo, que estava agachado e tirando um dos filhotes da caixa de papelão da outra noite.
— Você não é o único que não percebeu. — Sorria com o filhote em mãos e sentou-se também na cama, já Sanji corava cada vez mais por ver seus sorrisos.
Percebeu o silêncio que se alastrou e resolveu dizer algo depois de tossir. — Alguém se interessou por eles?
— Sim, meu pai.
— Sério? Ficará com eles, então?
— Sim, aqui é bastante espaçoso.
Disso Sanji não tinha dúvidas.
— Será ótimo porque poderá vê-los.
— Como assim? Você está dizendo que poderei vir aqui mais uma vez?
— Pensei que éramos amigos.
De repente, o quarto se tornou abafado, Sanji levou um dedo para o colarinho do uniforme a fim de puxá-lo, mostrando que estava um pouco chocado por ouvir aquilo. Lembrou-se de como demorou para ganhar a confiança dos seus atuais “amigos”, porque todos eram um bando de exibidos se fazendo de difíceis. Zoro era uma pessoa simples e definitivamente não sabia quem era ele, senão nunca diria isso.
— Ah... claro.
Zoro se levantou e colocou o gatinho de volta na caixa de papelão. — Vou fazer um whatsapp. — Informou, enquanto estava agachado. — Para te dizer mais sobre os gatos. — Olhou por cima do ombro e deu um sorriso, que fez Sanji corar mais uma vez. Voltou a se sentar na cama. — Mas precisa saber algo sobre mim, além do meu lado japonês.
— É? Vai me dizer por que fez a loucura de pintar os cabelos de verde?
Dessa vez não ficou bravo e nem começou uma discussão como da noite passada, Zoro apenas sorriu com o comentário ácido de Sanji. — Não, isso deixo pra dizer outro dia...
Sanji também riu com a resposta. — É... o que seria, então?
— Eu sou gay.
— O-oi?! — Estava surpreso e lhe faltaram palavras para se expressar. — É...
— Estou dizendo porque não guardo segredo sobre isso e para você também ficar mais confortável, caso saiba de outro modo.
Sanji se levantou se sentindo um pouco agitado. — Me desculpa, isso me abalou.
— Tudo bem, estou acostumado. Você pode deixar de falar comigo.
— Não!! Não mesmo!! Eu vou continuar sendo seu amigo, anda, pega seu celular, vamos instalar esse whatsapp logo pra eu poder brincar um pouco com os gatinhos antes que fique tarde.
Zoro deu um sorriso e fez o que Sanji pediu.
Enquanto voltava pra casa com sua bicicleta, Sanji pensou que quase dissera que era também gay, mas se segurou a tempo. Ele não podia dizer isso para uma pessoa que conheceu ontem e tinha também sua reputação na escola. Seus ombros estavam tensos e teve que parar para fumar um cigarro, pouco se importava se seu pai sentiria o cheiro de tabaco saindo dele.
Chegou em casa e foi direto para o quarto, se jogou na cama recapitulando tudo que acontecera nos últimos dois dias. Sentiu inveja por aquele tolo se expressar tão facilmente, como ele queria dizer também para todos de que gostava de garotos!!
Sanji voltou a se sentar, enquanto tentava controlar sua respiração, parecia que sofria de asma ou algo parecido. Talvez após um banho estaria mais tranquilo, mas seu celular vibrou em seu bolso e o pegou as pressas, pensado que podia ser o marimo. Contudo, teve um choque ao saber que era Nami perguntando por que não a esperara na saída para irem embora juntos.
Tudo no seu tempo
Naquele sábado, Sanji tinha um encontro marcado com Nami numa sorveteria. O clima estava quente, mas agradável. Sanji gostava de ver o céu aberto e pensava que não via a hora das férias chegarem. E por estar quente, Nami fora para o encontro com uma blusa de alcinha, mostrando seus ombros e o chupão no pescoço bem visível por não fazer questão de cobri-lo com os cabelos ou com alguma gola. Nem mesmo havia uma maquiagem.
Não dava a mínima de ferir o orgulho de Sanji.
Eles estavam sentados numa mesa próxima a vitrine, comendo seus respectivos sorvetes. Nami parecia longe, observava mais a vitrine do que falava. Aquela relação era um caso perdido que ambos insistiam em manter. Um porque não saia do armário, outro porque não admitia ser uma piranha que caía facilmente nas conversas dos homens.
— Ei, Nami. — Disse Sanji de repente, a ruiva tirou os olhos da vitrine para observá-lo. — Se algo estiver te incomodando muito, você pode contar comigo.
Nami arqueou uma de suas sobrancelhas e sorriu com escárnio. — Você também, estou aqui para ouvi-lo. Pode se abrir comigo.
Aquilo saiu ambíguo ou no sentido pior possível. Nami não era só bonita, era inteligente e muito esperta, provavelmente suspeitava que ele era gay.
Sanji parou de comer seu sorvete, até porque passou a ter um gosto amargo depois de ver o sorriso cínico da namorada. Ele tossiu para limpar a garganta e se lembrou da facilidade de Zoro em dizer que era gay na noite anterior. — Eu sou gay, Nami.
Como presumia, ela não ficou surpresa. Contudo, ele não esperava que ela pegasse nas suas mãos e o encarasse com um olhar tenro, um que nunca vira antes.
— Obrigada por me dizer.
A ruiva deslizava a mão com carinho sobre o braço de Sanji, ainda sorrindo afetuosamente e com os olhos emocionados. Ele pensou se ela não pensava nela por estar todo aquele tempo sendo enganada.
— Não pode me perdoar tão facilmente.
Nami riu e limpou os olhos com as pontas dos dedos, evitando de estragar a maquiagem. — Não tenho muita dignidade, desse capricho não posso usufruir.
— Como assim? Você é uma pessoa como qualquer outra.
Ela deu um suspiro seguido de mais um sorriso. — Sanji-kun, você deve sofrer bastante, não tem como eu sentir raiva de você. — Era esperado Nami dizer isso, porque parecia que vivera mil anos por ser tão compreensiva. — E eu te traio com o nosso professor de biologia.
Okay, por essa ele não esperava. Não a parte de trair, ele sabia disso já, mas nunca pensou que seria logo com um professor! E se não estava enganado, Law era comprometido.
Nami riu com o olhar chocado de Sanji e resolveu se levantar, deixando seu sorvete pra trás. Quando Sanji voltou a si, a ruiva havia desaparecido da sua frente e estava do lado de fora pronta para atravessar a rua. Ele correu até ela e pegou no seu braço, virando-a para si. Se assustou ao vê-la chorando com a maquiagem toda borrada, ela também nunca havia mostrado esse olhar.
— Me desculpe, Nami! Me desculpe por eu ter pensado só em mim esse tempo todo!! — Ele a abraçou forte, ela retornou e passou a chorar em seu ombro.
Pela noite, Sanji resolveu se encontrar com Zoro na casa dele, o pretexto que usou foi dos gatinhos mais uma vez. Estava sentado na cama dele e tinha um filhote em seu colo, mas não conseguia se sentir bem depois da conversa com Nami, embora fosse muito fofo. Zoro notou que estava estranho.
— Por que está triste?
Sanji piscou os olhos antes de mirá-los no marimo. — Eu só estava pensando que deve ser difícil pra uma mulher esconder um relacionamento...
— Você está se tratando de uma “amante”?
— Isso.
Zoro riu e coçou a nuca, o braço esbarrou nos três brincos de ouro da orelha esquerda e Sanji passava a observar o balanço de cada um. Esses detalhes faziam o marimo mais interessante, apesar de ser desagradável pensar que estava sendo seduzido por um cara que parecia um delinquente.
— Pensamento bastante peculiar. — Zoro suspeitava que se tratava de alguma amiga próxima do sobrancelhas, só assim para alguém ter esse tipo de pensamento tão empático e específico. — Mas acho que no geral é difícil esconder algo e ser o que não é.
— Não precisa ser nenhum sábio pra chegar nessa conclusão. — Sanji ainda tinha o gatinho em mãos e Zoro grunhiu por ter zombado de seu conselho. — Me diga, marimo, como sua família recebeu sua sexualidade?
— Eu só tenho meu pai, minha mãe já morreu.
— É mesmo? Como ele recebeu?
— Ele ficou chocado.
— Verdade, não parece que você é gay. — Disse Sanji, sem perceber que o marimo ficou ofendido. — Aposto que você é o ativo da relação, né?
Zoro tirou o gato das mãos de Sanji e colocou de volta no chão, ele estava a ponto de mandá-lo embora do quarto, mas pensou que seria melhor esclarecê-lo. — Sobrancelhas, eu não sou menos homem se for “afeminado” ou o “passivo” da relação.
Sanji sentiu a aura estranha pairando no ar e entendeu que falou uma merda muito grande. — Me perdoe, marimo.
— Tá, tudo bem. Você ainda não chegou no nível que acredita que quero pegar todos os homens no meu campo de visão, inclusive você, por simplesmente ser gay.
Pior que o loiro pensou isso, e até torcia para que o marimo desse em cima dele alguma hora, mas tinha certeza que esse cara era lerdo quando nem percebia as “aberturas” que deixava. Agora nem ao menos namorava Nami ou, pelo menos, tinham certeza de que era tudo fingimento. Então, estava liberado.
Voltou pra casa exausto, havia pensado muito nesse dia e já iria pro quarto quando ouviu uma voz.
— Berinjelinha! Não deixe de jantar, estou vendo que está perdendo peso.
Era a voz de seu pai, ele voltou a descer os degraus que havia subido e foi até a cozinha, encontrando um senhor loiro no fogão. Seu nome era Zeff e era também o pai adotivo de Sanji.
— O cheiro está bom, velhote de merda. — Deu um beijo em uma de suas bochechas e o velho sorriu com a demonstração de amor repentina.
— O que deu em você? — Perguntou ainda rindo.
— Só pensei que há muito tempo que não faço isso.
— É verdade, mas vai lavar suas mãos e me ajude a colocar a mesa.
Sanji revirou os olhos, dizendo “tá, tá” e assim que esteve perto da porta, um pensamento surgiu na sua mente.
— Pai... você está disposto a gostar de mim de qualquer jeito?
O velho ouviu e se virou para o seu filho, sua expressão era séria. — Eu acho que já te respondi isso.
O rapaz sorriu, ele sabia que o velho se referia ao dia em que assegurou que o considerava seu filho e que nenhum, ou a falta de um, traço sanguíneo lhe impediria de acreditar nisso.
Ele amaria Sanji de qualquer forma.
— Eu preciso te contar algo, mas me dê um tempo, okay?
— Tudo no seu tempo.
Um abraço inesperado
Na tarde de domingo, após um bom papo em algum chat, Sanji e Nami decidiram mudar o status de relacionamento em todas as suas redes sociais. Eles sentiram seus ombros mais leves e não havia resquício nenhum de arrependimento, acreditavam que o máximo que aconteceria seria o burburinho entre seus fãs e seus haters. Mas naquela altura, ambos se preocupavam com coisas mais importantes que meros urubus esperando sua presa morrer e apodrecer. Sanji pensava em revelar para todos que era gay, principalmente para o marimo. Nami pensava na sua relação com o professor, faria de tudo para evitá-lo, quando não via futuro em que os dois estariam juntos.
Na segunda-feira, ambos eram abordados por alguns alunos com olhares tristes e oferecendo um ombro amigo, como se aquela gente estivesse preocupada e não atrás de uma fofoca. Em dado momento do dia, Sanji realmente se arrependeu da ação que tomou por conta dos assédios dados pelas garotas doidas, dispostas a fazerem qualquer coisa pra ser parte do covil chamado “populares”. Ele nunca quis fazer parte dessa merda, não tinha culpa de ter nascido bonito e ser um bom jogador de futebol — tadinho, white people problems. Aliás, se achava um idiota por ter se submetido a pressão de ser um popular, riu de si mesmo ao se lembrar das vezes que teve que deixar de ser o que era para agradar terceiros. Ele podia muito bem ignorar todos como Zoro fazia e gritar para todos os lados que era um viado.
Estava sentado num dos bancos próximos ao lago de carpas, refletindo algo. Zoro passava ao acaso e resolveu se sentar ao lado dele.
— O que foi?
Sanji levou um susto tão grande, que fez Zoro rir bastante. Mas passou a ficar vermelho com os sorrisos daquele idiota. Como era bonito — tinha certeza que ele nem sabia —, não tinha nada a ver com as garotas que o perseguiram durante o dia inteiro.
— Estou fugindo das meninas, parece que ninguém passa nessa parte da escola. — Acendeu um cigarro tirado do maço em seus bolsos. — Vou aproveitar e fumar.
— Por que tem meninas te perseguindo?
O rapaz loiro se lembrou que Zoro vivia num mundo à parte, onde nunca ouvira falar de “Sanji, O Perna Negra” do clube de futebol.
— Sei lá.
Zoro se convenceu somente com isso, céus, como era simples...
— Marimo, você tem redes sociais?
— Eu tenho whatsapp.
— Eu sei, idiota, fui eu que pedi pra você fazer.
— É mesmo.
— Mas tem outra? Tipo instagram?
— Não.
— Credo, como faz pra manter contato com as pessoas?
— Vou até as casas delas.
Como era simples...
— Não se perde?
Zoro já iria proferir um xingamento para o loiro, mas Nami viu os dois e se aproximou.
— Sanji-kun, quem é seu amigo?
Ela fez um olhar bem sugestivo, que deixou o rapaz nervoso. — É o marimo.
— Zoro. — Corrigiu o marimo, de saco cheio.
— Eu sou a Nami, posso me sentar com vocês dois?
— Senta aí. — Zoro abriu um espaço para Nami sentar, enquanto Sanji apagou o cigarro numa pisada com seu tênis.
— Nami, não tem medo de ser vista comigo? — Perguntou Sanji, tal pergunta fez Zoro pensar se o sobrancelhas era na verdade um pervertido, isso explicaria as perseguições das garotas. E andar com ele poderia queimar o seu filme. Será que deveria se afastar também?
— É engraçado estarmos mais íntimos agora que nosso namoro terminou, não é? — Nami riu e Sanji também, já Zoro não entendia nada. — Será que podemos ser amigos?
— Já somos!! O marimo também é seu amigo.
Sanji foi intrometido por decidir por ele, mas Zoro não contestou, na verdade, sorriu para Nami.
No horário da saída, os três se uniram novamente e decidiram tomar café numa cafeteria com uma decoração voltada para o rock alternativo da década de 90, em uma das paredes havia várias capas de discos, inclusive o Nevermind. Nami estava ao lado de Sanji, e Zoro na frente deles. Sanji disse a Nami que ele se perdia facilmente, por isso era bom andar de uma forma que daria para observá-lo. Portanto, eles estavam um pouco atrás do marimo, Nami aproveitou o momento para dizer algo.
Ela deu uma cotovelada no braço do ex-namorado. — Você sabe investir, hein?
Sanji olhou para ela e a viu levantando suas sobrancelhas ruivas. — Não somos namorados. — Respondeu, tristonho.
— Ele não é gay?
— É sim, mas é lerdo.
— Nossa... boa sorte, Sanji-kun. — Enlaçou seu braço no dele e riu baixinho, o loiro sentia vontade de chorar.
Quando chegaram na cafeteria mais despojada da cidade, Nami se surpreendeu com a presença do professor de biologia junto a uma mulher numa das mesas. Ele não havia a notado ainda, e a mulher estava de costas. Nami nunca viu o rosto dela direito, mas sabia que era sua noiva. Estava tão focada em fazê-la parar de existir, que não se permitiu olhar em seus olhos nenhuma vez. Engoliu em seco e passou a correr.
— Nami!! — Chamou Sanji, mas ela não parou e ele teve que correr atrás.
Zoro estava achando aquele dia muito confuso, mas foi atrás do sobrancelha enrolada mesmo assim.
Ela parou na ponte e caiu de joelhos, escondia seu rosto na amurada e chorava muito. Sanji a alcançou e ficou triste em vê-la daquele jeito, ele realmente estava preocupado com Nami. Logo atrás, vinha Zoro.
— O que houve? — O marimo perguntou para o loiro, também notou algumas pessoas olhando.
Sanji não respondeu, apenas se agachou e passou a alisar as costas da amiga. Ele sabia que Nami veria o professor cedo ou tarde, até porque ela estudava na escola que ele trabalhava. Mas vê-lo com a noiva seria demais para o seu coração.
— Nami-san, ele disse algo?
— Ele terminou comigo, Sanji-kun!!! — Abraçou bem forte Sanji, que tentava consola-la. — Ele mentiu o tempo todo!!!
Sanji apertou o abraço após ouvir isso, porque também mentiu para Nami, e ainda mente dizendo o que não é. Parecia que ter um relacionamento verdadeiro com alguém era algo utópico ou você precisava mentir pra criar um laço. Será que nunca encontraria uma pessoa decente na vida e que não teria medo de ser autêntica?
De repente, sentiu algo forte lhes envolver, Zoro havia se agachado também e abraçava os dois bem apertado. Por um instante, Sanji quis acreditar que existia tal pessoa.
Eles haviam ido para praia molhar os pés no mar e observar o horizonte com o céu alaranjado, depois seguiram pra casa do marimo com o objetivo de mostrar os gatinhos para Nami. Sanji suspirava aliviado ao ver os sorrisos que ela dava com os filhotes no seu colo. Zoro chegou no quarto com algo em mãos.
— Isso é?
— Álcool, meu pai não estará em casa e ele não se importa de eu beber. Querem esclarecer a mente comigo?
— Claro! — Respondeu Nami, com bastante veemência, até mesmo levantou o braço como se estivesse numa sala de aula pronta pra responder uma pergunta da professora. Zoro sorriu com sua reação, seu conceito sobre ela só subia.
Não restou a Sanji outra opção...
Já era noite como diziam as estrelas brilhantes cobrindo o céu daquela primavera quente e abafada. Nami dormia na cama do marimo, Sanji fumava no engawa da casa japonesa e Zoro estava sentado ao seu lado.
— Então, ela se envolveu com o nosso professor e vocês dois tiveram um relacionamento de fachada porque são populares. Isso é tudo? — Zoro tinha a cabeça inclinada em seu ombro para poder fitar os olhos do sobrancelhas.
— Não, há ainda uma coisa. — Sanji respirou fundo e fechou os olhos, voltaria a falar só quando se sentisse pronto. Zoro não o apressou e nem fez outras perguntas. — Queria te agradecer... desde que te conheci naquela noite com os gatinhos, eu mudei muito. A sua beleza me assustou bastante, mas eu acho que foi sua simplicidade que me pegou de fato. Você fez eu me preocupar com coisas comuns e essas coisas são as que realmente importam, daí decidi me revelar gay. Pretendo fazer um post nas redes sociais depois que eu falar com o meu velho. Mas já é muita coisa eu ter lhe dito. É isso.
— Você disse “beleza”?
— Você só escutou essa parte?!
Zoro riu ao ver o loiro alterado. — Eu ouvi tudo, idiota, mas acho que ainda tem coisa pra sair.
Sanji revirou os olhos com o sorriso petulante do marimo. — Sim, há... eu me apaixonei por você.
O marimo voltou a rir, dessa vez por ver Sanji todo rosa, resolveu se aproximar dele para dizer algo em seus ouvidos.
— Eu também.
Os pelos de Sanji se eriçaram e logo sentiu os lábios úmidos de Zoro nos seus. Era a primeira vez que beijava um rapaz, era a primeira vez que beijava apaixonado.
Grilos cantavam ao redor e o sabor era de saquê.
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