Acredite
1 PRÓLOGO - Despedidas
Notas iniciais
Anna morava numa cidadezinha do interior de Minas Gerais quando recebeu o resultado de um dos vestibulares da capital, Belo Horizonte. Ela tinha passado.
Dar a notícia a seus pais foi um tanto quanto difícil. Também pudera… Anna era filha única e estava para se mudar para longe e deixar os dois teimosos para trás. Ela havia falado com eles para a família toda ir, mas eles recusaram. "Somos muito velhos pra esse tipo de coisa, Anna. Além do mais, nosso lugar é aqui na roça mesmo, nós nunca nos acostumaríamos com a vida numa cidade muito movimentada!". Diante das recusas deles, ela até pensou em desistir de tudo. "Nem pense nisso, senhorita! É seu mérito e seu sonho fazer faculdade, e não vai desistir só por causa da gente. Isso não vai mesmo! Pode ir tranquila, eu e meu velho ficaremos bem...".
Malas prontas, passagem comprada, documentos separados, apartamento alugado, estava tudo em ordem exceto por um pequenino detalhe: seu coração não diminuia o compasso. Felicidade, medo, saudade adiantada, nervosismo, alegria. Ela não sabia o que era aquilo exatamente, mas a sensação era ótima.
Mal dormiu na noite antes da viagem, e a mãe ainda tinha insistido para que ela comprasse a primeira passagem depois do almoço, assim ia poder ter uma última refeição com a família antes da mudança. Foi a melhor comida que Anna já havia provado! Anos e anos provando a comida da mãe, e era justamente agora, quando ela estava prestes a perder esse mimo que percebeu quão bom era morar com a família. Quão bom era sempre ter alguém ali para abraçar sempre que se machucava ou se decepcionava. Agora tudo isso estaria a não menos que quinhentos quilômetros de distância… Mais uma vez o aperto no peito. Era melhor ir logo antes que desistisse ou perdesse o ônibus.
"Assim que você se ajeitar e tiver um tempinho dê notícias, minha pequena!", o pai com seus olhos marejados, forçava tentando ser o mais forte o possível, mas estava sendo difícil. Não era legal pensar que sua garotinha não estaria mais a apenas alguns cômodos de distância. Que não teria mais a ajuda dela no dia a dia. Era difícil acreditar que aquela menina linda que ele um dia segurou nos braços com tanto cuidado estava se despedindo, de malas na mão pronta para entrar em um ônibus rumo a uma vida nova, simplesmente aquilo não lhe entrava na cabeça.
A mãe já não conseguia mais falar, uma palavra e ela se desabaria em choro. Sua menininha estava indo embora... Tá certo, ela havia criado a filha para o mundo, mas precisava ser tão cedo?! Ela tinha apenas vinte anos, não sabia direito das maldades do mundo, o que a aguardava numa cidade tão grande. "Calma mãezinha! Também não é assim... Te prometo que sempre que possível ligo pra vocês e venho pra cá todas as férias e feriados. Mas a senhora tem que entender que tenho que seguir meu caminho. Eu sinto que tenho potencial, sinto que eu posso ser feliz seguindo por esse caminho, acredita em mim, tá?".
O motorista começava a sair da rodoviária enquanto Anna acenava para os pais até que eles desaparecessem logo após uma curva. Então era isso. Agora ela estava por conta própria. Frio na barriga. Aperto no peito. Aquilo era bom, não era? Estar por conta própria, se arriscar, começar tudo de novo... Mas era tudo assustador ao mesmo tempo. "Não há como voltar agora Anna. Você soube disso desde o dia que recebeu aquela carta. Agora é respirar fundo e ir em frente porque o caminho é longo".
Todos aqueles pensamentos sobre a vida nova e a noite mal dormida acabaram por fazer Anna cair no sono. Um sono profundo, sem sonhos, que durou quase que a viagem toda, as luzes da cidade a acordaram.
"Estamos quase lá, senhora. Mais uns trinta minutos e já estaremos na rodoviária da capital." Enquanto o comissário se afastava, Anna não conseguia parar de pensar: mais trinta minutos para entrar em sua nova vida. Ninguém a conhecia e ela conhecia parcamente a cidade, só havia estado lá duas vezes, a primeira quando era muito pequena e a outra quando foi conhecer o apartamento de um parente no centro da cidade.
Sua sorte era que um tio estava indo para fora do Brasil e resolveu deixar o apartamento com ela. "É até bom, sabe? Eu não me sentiria muito bem vendendo ele, foram tantos anos ali, que ele quase já é da família! Então vou te emprestar ele até que você termine seus estudos, mas tem que me prometer que vai cuidar muito bem dele!". Aquilo tinha quase que caído do céu, ela jamais poderia bancar algo daquela magnitude. Era lindo o lugar.
Ainda devaneava quando o ônibus parou e os passageiros começaram a descer. "É agora Anna. Agora você começa a viver!". Não havia mais o medo, o nervosismo. A maior vontade dela agora era chegar onde a partir hoje seria sua casa.
No táxi, entregou o endereço ao motorista e mal podia esperar até que chegasse em casa... Pouco mais de dez minutos e já estávamos lá, o taxista disse que nesse horário era isso mesmo, em BH era difícil de se ter trânsito até tão tarde. entregou o dinheiro para ele — nem conferiu o troco tamanha era a vontade de entrar logo -, pegou as malas no bagageiro e adentrou as portas do salão de entrada.
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