Acorrentados

9 Especial ~ Dia dos Namorados - Parte II


Juliet havia acabado de chegar ao castelo e já havia topado com o príncipe Keith. Ela percebeu que o moreno tinha uma presença bastante imponente, e nem havia se tocado em como ele havia sido ríspido. Logo em seguida lembrou que agora o príncipe era noivo de Harume. A cantora parecia ser uma garota meiga e doce, enquanto Keith era mais frio e sério. Um contraste no casal. Juliet sabia que eles haviam sido forçados, e que não existia amor entre os dois, o que há deixou um pouco triste. Não era assim que as pessoas deviam se casar, pelo menos era assim que pensava.

Apesar de ter pena da garota, não poderia fazer nada naquele momento, talvez devesse ter pegado o numero de celular da cantora, assim poderiam conversar. Quem sabe um dia teria a oportunidade de conversarem novamente? Juliet resolveu ser otimista. Deu uns leves tapinhas no rosto, precisaria de muita energia para cuidar do jantar.

Ela já estava na cozinha, a equipe na qual iria coordenar era composta por mais três pessoas. Juliet precisava começar com os preparativos, mas não tinha ideia do que fazer naquele momento. Aproveitou que Luke estava passando por ali e o chamou.

No canto da ampla cozinha os dois conversavam.

— Desculpa incomodar... Mas o senhor pode me dizer as coisas que eles estão acostumados a comer?

— Ah é verdade... Deixe eu te mostrar o cardápio que foi servido nos últimos meses. — o jovem mordomo pegou em um armário uma pasta. – Acho que vai te ajudar! A família Liberty tem preferência por comidas apimentada, porém são exigentes. E eles também gostam de doces com amoras.

A ruiva prestava bastante atenção no que o mordomo falava, queria preparar um jantar perfeito para a realeza. Luke a ajudou na montagem do cardápio, o que acabou ocupando meia hora do tempo dele.

— Luke, se tem tempo pra ficar batendo papo, vá arrumar meu escritório. — Keith apareceu na cozinha, seu tom de voz era exigente.

— Sim, senhor! — Luke se despediu com um aceno e tratou de se mandar para fora da cozinha.

— Você é a... – Keith tentou lembrar-se de Juliet, mas teve seus pensamentos interrompidos pela ruiva.

— Sou Juliet Winter, alteza. Fui contratada pra ser a chef do castelo a partir de hoje.

— Que seja. – depois de encará-la por uma última vez, se retirou.

Juliet ficou encarando onde Keith estava e por onde ele saiu. Ela não esperava que ele fosse do tipo caloroso e receptivo, mas ele poderia ao menos dizer "oi".

— Bom, vamos ao trabalho! – sacudiu a cabeça, buscando focar em seu dever. E foi até sua equipe, teria muito que fazer até o jantar.

Luke tinha entregado a Juliet os horários em que as refeições deviam ser servidas, e não poderia ter um minuto de atraso.

—/-

Luke estava arrumando o escritório de Keith, enquanto ele fazia ligações para outros reinos.

O humor do príncipe não era dos melhores, apesar de ter boa relação com os reinos vizinhos, ainda havia alguns que perigavam entrar em conflito ou pior, uma guerra. Assim que desligou o telefone ele sentou em sua poltrona e suspirou cansado.

— Luke, traga chá pra mim. – ordenou e sem demoras o mordomo foi até á cozinha.

Keith costumava ficar mais mandão quando estava de mau humor. Luke entendia aquilo muito bem, também já havia se acostumado com o jeito do mestre ser. Porém, nem todos os empregados tinham essa compreensão.

Ele chegou esbaforido na cozinha, também, desde a hora que chegou ele estava correndo pra lá e pra cá.

— Algum problema, senhor Luke? — Juliet viu o mordomo pegar uma leiteira e enchendo de água.

— O mestre Keith me pediu pra fazer chá. Se eu não me apresso ele come meu fígado! Ele já não é muito paciente... Quando está sob pressão... — Luke não gostava muito de lembrar-se desses momentos.

— Deixa que eu faça o chá! Tenho certeza que ele vai se sentir mais calmo. — Juliet sorriu. — Sempre me ajuda quando eu estou estressada.

— A senhorita não me parece ser uma pessoa estressada... – sorriu, avaliando o rosto tranquilo da jovem.

— Eu tento não ser, mas tem dias que não tem como.

Juliet pegou umas ervas, mel e gengibre. Enquanto esperava a água ferver foi picando as coisas. Em dez minutos estava pronto.

— Aqui está, espero que ele aprove.

— Obrigado, senhorita Winter! — e sem esperar saiu andando apressado.

—/-

— Pensei que ia ter que esperar anoitecer. – Keith não tirou os olhos dos papéis em que assinava. — Pode deixar aí e se manda.

— Sim, senhor! A senhorita Winter quem fez o chá... — ele disse antes de sair.

— Tanto faz. – assim que Luke foi embora, ele se serviu e deu um gole no chá. — ... — Keith deu um leve sorriso. – Nada mal.

—/-

Poderia fazer apenas algumas horas que Juliet estava no castelo, mas sabia que não teria “colher de chá”. A família Winter era famosa por sua excelência na cozinha, não ia ser ela que iria arruinar o nome de sua família.

Depois de escolher cuidadosamente cada prato, resolveu colocar a mão na massa, coordenou sua equipe para que as coisas saíssem perfeitas e no horário correto. E em algumas horas estava pronta a entrada e o prato principal, faltava a sobremesa, a jovem chef ia cuidar da finalização dos doces enquanto a família Alford jantava.

Luke servia a mesa, via como os pratos estavam bonitos e parecia tudo uma delícia.

— Acho que ela fez um bom trabalho. – e assim que terminou de por a mesa, anunciou o jantar.

Pontualmente às oito horas da noite tudo estava preparado, os mestres já estavam sentados em seus lugares. Luke serviu a todos e depois ficou no canto da sala, esperando novas ordens.

— Que delícia! – o rei exclamou. – A senhorita Winter está se saindo muito bem! – a longa barba branca do rei acabou se sujando de molho, enquanto ele falava. – Meu prato favorito!

A mesa foi composta por frutos do mar e o prato favorito que o rei mencionara era o camarão na moranga, era um prato típico de outro reino, comeu em uma de suas visitas pela América do sul, perto do reino de Altaria e foi amor a primeira garfada.

Todos viam os olhos do rei brilhar, comendo todo feliz parecendo uma criança. A rainha vendo o rei se esbaldar, resolveu comer e realmente pode comprovar que o prato estava delicioso.

— Tem razão, querido! Está maravilhoso! – a rainha comia com elegância, mas tinha um sorriso nos lábios enquanto degustava vagarosamente.

Keith não falou nada, apenas comia silenciosamente, ele nunca fora o tipo de pessoa que ficava elogiando outra pessoa que não fosse ele. Porém havia aprovado.

— Mal vejo à hora da sobremesa! – o rei juntou as mãos, esfregando uma na outra. – Adoro doces!

Luke foi até a cozinha, iria ver se a sobremesa estava pronta, logo eles terminariam de jantar.

Juliet estava decorando o último prato, uma das especialidades dela era a parte de confeitaria. Adorava decorar as sobremesas, achava que se assemelhava a pintura, na qual era uma de suas paixões.

— Wow! – exclamou Luke. – O rei vai admirar a sobremesa por uma semana inteira antes de comer.

— Não exagera senhor Luke. – a ruiva sorriu, sem graça.

— Ele adora comer, principalmente doces. Aliás, é o único momento em que ele não está estressado, durante o dia ele briga muito com o jovem mestre. – Luke sussurrou. – Ele tava fazendo birra porque queria alguém da família Winter na nossa cozinha.

Os dois ficaram conversando durante alguns minutos, até que ouviram a voz do rei chamar, pedindo para levar logo os doces, antes que sofresse de hipoglicemia.

— Graças aos céus, achei que ia ter que desmaiar para poder ter a sobremesa.

— Não exagere querido. Não faz nem cinco minutos desde que o Luke foi até a cozinha.

— Desculpe a demora... Eu tava arrumando o carrinho com os pratos. Já vou servi-los.

O rei ficou encarando a sobremesa. Uma taça de tamanho médio, decorado com frutas e calda de chocolate meio amargo. Dentro da taça, tinha um doce gelado, parecia pudim.

— Querido, pare de babar.

— Oh, desculpe. – o rei puxou a baba de volta para a boca.

— Que nojo... – Keith sussurrou, cobrindo o rosto com uma das mãos.

— Você devia abrir a boca para elogiar a comida e não para falar mal da minha baba. – o rei ouviu o comentário do filho.

— Eu não vou elogiar algo que não está bom. Aquela cozinheira de quinta vai ter que trabalhar cem anos até agradar meu paladar. – Keith disse com desdém, mas a verdade era que ele não gostava de ser repreendido, mesmo que na brincadeira.

— Não diga isso sem antes comer. – a rainha chamou a atenção do filho, desta vez com um tom sério.

— E eu preciso provar? – e a contra gosto, ele deu uma colherada e colocou na boca. Um gosto suave preencheu sua boca, na real, uma delícia, entretanto o príncipe não ia dar o braço a torcer e continuou a tecer comentários nada educados sobre a comida de Juliet.

A ruiva ouviu da cozinha as palavras do príncipe e não pode deixar de ficar chateada. Sabia que tinha que trabalhar duro, mas não achava que ele havia odiado a refeição. Sentiu os olhos encherem de lágrimas, mas se recusou a chorar, tinha que ser forte e iria fazer um doce na qual ele iria se apaixonar.

Depois do jantar, o rei foi até a cozinha, queria elogiar Juliet pelo excelente trabalho em seu primeiro dia.

— Obrigada, vossa majestade. Fico feliz que tenha apreciado. – apesar do sorriso que ela formou nos lábios, ainda sentia-se triste pelo fato do príncipe não ter aprovado assim como o rei e a rainha.

— Tenho certeza que continuará fazendo um ótimo trabalho. – E sem dizer mais nada, ele deixou a cozinha, desejava tomar um banho quente e descansar.

Keith subiu e deitou em seu quarto. Depois de um tempo achou que tinha falado demais, porém ele sempre fora daquele jeito e detestava receber sermão na frente dos empregados, e de ser contestado. Admitia que o jantar todo estava gostoso, mas não poderia dizer nada a respeito, o orgulho sempre foi sua principal característica. O avô de Keith era igualzinho a ele, apesar de ter uma personalidade um pouco pior, mesmo assim, ambos eram boas pessoas.

O jovem príncipe tomou um banho demorado e depois foi para a cama, estava cansado de tanto trabalhar e também tinha o fato que se estressava facilmente com qualquer coisa. Depois de alguns minutos ele adormeceu, mas acabou acordando no meio da madrugada, sentindo o estômago roncando, era normal ele levantar no meio da madrugada para comer de vez em quando. E talvez tivesse sorte de ter algo gostoso na geladeira.

Quando chegou ao corredor que dava para cozinha, notou que a luz estava acesa. Eram quase duas horas da manhã, não devia ter ninguém ali, talvez estivessem esquecido à luz acesa, quando chegou perto da porta, ouviu barulho de panela e colher. Com cuidado o príncipe foi espiar, não era possível que alguém estivesse cozinhando àquela hora.

Assim que entrou viu Juliet confeitando, ela sussurrava alguma coisa e ao prestar atenção, conseguiu ouvi-la falar: “Vou fazer algo que o príncipe goste”.

Será que ela tinha escutado a conversa? E depois que se lembrou das duras palavras que havia dito e voltou sua atenção para a jovem chef, via que ela estava chorando.

— Não chore sua tonta... O doce vai ficar salgado assim... – com as costas das mãos, ela limpava as lágrimas.

Pelas lágrimas, ficava claro que ela ouviu o que ele disse no jantar, mas mesmo assim, ele não ia pedir desculpas, não conseguia fazer aquilo. Também não poderia deixar daquele jeito, ele não era o tipo de pessoa que gostava de fazer garotas chorarem por sua culpa.

Ele respirou fundo e entrou na cozinha, como se não tivesse visto que a garota estava chorando, colocou seu cotovelo na cabeça dela e pegou um dos bombons trufados que estavam em cima da mesa, comendo-o.

— Você devia ir dormir, às sete da manhã o café tem que ser servido.

— Desculpe. – foi o que saiu dos lábios da jovem. – O café será servido no horário, eu prometo. – ela dizia com a cabeça baixa.

— Que seja. – e sem falar mais nada, pegou o prato que tinha os bombons e o levou para o quarto. – Esses estão razoáveis... – e saiu comendo-os.

Juliet olhou confusa para o que havia acabado de acontecer e sem perceber, um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.

Notas finais
Bom assim terminamos nosso especial, espero que tenham gostado! Beijos e até o próximo mês! ~ See ya!