Acorrentados

7 Lembranças


12 de novembro de 1983

As portas da instituição Onotakamushi para crianças autistas abriram lentamente. Por trás delas, estava uma das instrutoras com uma criança agarrada à suas mãos.

Todas as outras crianças que se encontravam no saguão naquele momento olharam para o novo colega, dando-lhe boas vindas. Mas este não se sentia assim. O garoto tinha uma relação difícil com as pessoas, já que não confiava em ninguém.

Seus olhos grandes e cinzentos varreram o local, e recuou alguns passos para trás da instrutora. Ele não queria estar ali, e a instituição não era o lugar dele também.

– Não precisar ser tímido, ko-chan. Esta é sua casa agora.

A criança olhou para a instrutora, com olhos inexpressivos.

Outro instrutor se aproximou da criança, desta vez um homem.

– Diga-me pequeno, qual é o seu nome?

O garoto olhou para o instrutor e seus lábios se curvaram em um beicinho.

– Ei, não precisa chorar! — A mulher enxugou as pequenas lágrimas que caiam do rostinho da criança, e depois encarou o homem.

Com o tempo, as outras crianças da instituição foram se interessando por aquele garoto. Que maneira estranha era aquela de sentar? Quem no mundo se sentava assim? Os instrutores consertavam sua postura na cadeira, mas logo depois ele estava novamente com as mãos nos joelhos e os pés na cadeira.

Até mesmo as crianças autistas da instituição conseguiam fazer amizades em menos de uma semana. Bom, o nosso garotinho já estava a mais de cinco, e ainda brincava sozinho. Com o tempo, as outras crianças acharam que isso era motivo de vergonha, e zombavam dele sempre que podiam. Afinal, ele era diferente, mas ele sabia que todas elas também eram iguais.

Ele sabia também o verdadeiro motivo de estar ali e não com seus pais e irmãos. Estes foram mortos na sua frente em um beco da Rua Yamanoda, daí veio seu senso de justiça, alimentado por sua sublime inteligência que era apresentada aos poucos, tanto para as crianças quanto para os instrutores. Aos cinco anos, já os vencia no xadrez e aos nove já sabia resolver equações. Montava um cubo mágico em menos de dois minutos e já era inapto para brincar com as outras crianças, pois não importava o jogo, ele sempre vencia.

Afinal, ele era infantil e odiava perder.

Certo dia, um grande inventor britânico chamado Quillsh Wammy ouviu sobre o garoto, e decidiu levá-lo consigo do Japão para a Inglaterra. Um inventor precisava de uma grande mente para suas criações. Ele seria um ótimo pai, um ótimo segurança e um ótimo servo da justiça.

– Juntos, seremos uma grande dupla. — Ele disse para o garotinho, enquanto dirigiam-se para casa – Porque não me diz seu nome?

A criança encarou-o com seus olhos cinzentos e inexpressivos, o cabelo negro, bagunçado e arrepiado dançando com a neve. O cachecol enrolado no pescoço e as luvas cobrindo seus dedinhos. Ele não confiava em ninguém, mas aquele homem era uma exceção. Afinal, seriam uma grande dupla.

– Lawliet. — Disse a criança.

– Ótimo — respondeu — Me chame de Watari, se quiser.

Abri mais uma barra de chocolate, e observei o símbolo L desenhado na parede.

Eu sabia que ele tinha segredos. L sempre foi cauteloso com sua vida, e nunca informou nada dela à ninguém, nem mesmo para mim e Near, pessoas cujo ele dizia ser as favoritas dele. E eu acreditava nisso. L gostava de nós.

Eu sabia disso porque, logo depois que chegamos à Wammy's House, L propôs ser nosso mentor. Ele tinha grandes expectativas, e esperava grandes feitos de nós. Tínhamos apenas cinco anos quando fomos convidados a morar com ele, e fomos os primeiros, além de Watari, à vê-lo pessoalmente.

Ele sorria sempre que eu e Near brigávamos por causa dos brinquedos. Ele achava engraçado, porque eu sempre me irritava quando Near desistia da briga e ia brincar com outra coisa. Era tão raro L sorrir... Nós não conseguíamos isso sempre, mas provavelmente éramos os únicos capazes disso.

Watari nos disse certa vez que L não gostava de contato físico. Portanto, eu sempre evitava tocá-lo. Pra mim, era proibido. Mas eu não sabia que eu e Near éramos uma exceção até L afagar meu rosto pela primeira vez.

Near era menor que eu, tanto na idade quanto na estatura. Ele se assemelhava muito ao L, e também não gostava muito de contato físico. Apesar disso, até seus sete anos Near não conseguia dormir longe de L. Ele chorava instantaneamente, e L era sinônimo de segurança, tanto para mim quanto para ele. Toda noite, encontrava Near encolhido no sofá, com meias brancas cobrindo seus pesinhos, e L ao seu lado, sentado de sua maneira típica, lendo um livro. Às vezes Near usava seu colo como travesseiro, e de vez em quando L enroscava o dedo indicador em uma mexa de seu cabelo. Desde então, tornou-se hábito de Near fazer o mesmo.

Uma vez L me pegou roubando alguns de seus doces da bandeja que Watari deixou em cima da mesa. Ele agarrou meus pés e me jogou por cima de um de seus ombros, me carregando como se eu fosse um porco à venda. Ele percebeu que eu só comia os doces que continham chocolate, então, mais tarde, pediu para que Watari me entregasse uma cesta repleta de chocolates de todos os tipos. Branco, amargo, meio amargo, ao leite, suíço e outros que eu nem sabia o nome. L com certeza alimentou meu vício.

Porém, quando tínhamos oito anos, chegou o dia em que L achou melhor voltarmos para a Wammy’s House. Os casos que ele resolvia se tornavam cada vez mais complexos, e a partir do momento em que ele revelasse seu rosto, estaria pondo nós dois em perigo. Near compreendeu, e certamente não se opôs. Mas eu sempre fui conduzido por meus sentimentos, e não conseguia aceitar até entender. Aquele tempo que moramos com ele, foi para fazê-lo ter certeza de que nós dois éramos os únicos que poderíamos sucedê-lo algum dia.

L se aproximou de mim, e passou os dedos lentamente nas lágrimas que escorriam de meus olhos. Pela primeira vez na vida senti seus braços me rondarem em um círculo protetor, e sua mão afagar minha cabeça desengonçadamente, como um pai abraçando um filho. Ele sabia que aquilo seria mais difícil para mim. Watari observava impressionado; nunca vira – e nunca veria novamente – L agir de tal maneira. Aquilo era totalmente o oposto do Lawliet que qualquer um conhecia.

Ele sussurrou em meu ouvido, pediu para que não nos preocupássemos, pois ele seria capaz de dar a vida por nós. Nós éramos sua família. E ele cumpriu sua promessa.

Watari nos levou embora, e deixamos para trás o L que nunca mais veríamos novamente.

Eu sentia falta dele agora. Mas havia algo que me confortava...

L, você está mais vivo do que nunca agora, não é mesmo?

Notas finais
Ko-chan = Pequenininho Todos sabem sobre Mello e seu modo de deixar seus sentimentos o guiarem, então nada mais justo do que o capítulo sentimental ser narrado por ele. L é meu personagem preferido, e em Another Note, há uma parte que o Mello diz conhecer um L que Near não conhecia. Decidi utilizar isso, e criar uma história entre eles. Demorei para escrevê-lo, porque tudo que está nesse capítulo saiu de minha cabeça.