– Misa, certifique-se de que não pare de escrever nomes no caderno. — Afirmei, enquanto amarrava a gravata em meu pescoço.

– Não se preocupe, Misa fará tudo para ser útil à você! — Neste momento ela estava de joelhos no sofá púrpura de seu quarto, com um sorriso no rosto e o caderno nas mãos.

Abri a porta e me dirigi à Central de Investigação para mais um dia de trabalho. Já fazia dois dias desde que não tinhamos mais sinal de Sayu. Meu pai já perdera as esperanças e decidira se afastar do QG para ficar com minha mãe.

Eu tinha certeza que a entrega das algemas tinha algo relacionado ao sequestro. Provavelmente o indivíduo que se identificava como "B" teve parte nos dois. A questão era descobrir quem ele era e o que ele queria. O fato dele não ter entrado em contato para pedir algo em troca da refém foi o que fez meu pai acreditar que na verdade se tratara de uma execução.

Quando cheguei à central, todos estavam com a mesma cara monótona de sempre, como se não soubessem mais o que estavam fazendo ali. Eles não sabiam se prosseguiam com o caso Kira ou continuavam a busca por Sayu. Quando L estava vivo, — na época que o caderno estava nas mãos de Higuchi e eu ainda não tinha recuperado a memória — trabalhei ao lado dele com todo meu senso de justiça, com o ideal de capturar Kira a qualquer custo. Se eu largasse tudo agora, ou simplesmente não os motivasse o suficiente para continuar a investigação, pareceria extremamente suspeito.

Mas eu também não podia abrir mão de Sayu. Essa seria a chance de descobrir quem estava por trás de tudo, e eu não poderia abrir mão disso. E também, politicamente falando, ela era minha irmã, apesar de não ser esse o motivo principal do meu interesse pelo caso.

A única coisa que eu poderia fazer neste momento para que eles investigassem ambos os casos, seria criar uma falsa ligação entre eles.

– Boa tarde L! — Gritou Matsuda. Todos o observaram abismados.

Peguei uma xícara de café e me dirigi ao computador mais próximo. Ide estava me observando do outro lado da sala.

– E então — ele começou — pensou em alguma coisa, Raito?

Era a pergunta que eu estava esperando. Virei-me e percebi que todos me olhavam anciosos.

– Cheguei a conclusão de que Kira pode estar por trás disso, tanto das algemas como do sequestro.

Aizawa logo protestou:

– Mas porque diabos Kira sequestraria uma garota? E porque logo sua irmã? Como ele sabe que você é o segundo L?

– Da mesma forma que Near sabia que Raito era um L falso, Kira também pode ter deduzido o mesmo. Parece que só estamos enganando a polícia e a imprensa. — Indagou Matsuda.

– Kira não sabe quem eu sou, mas sabe que meu pai é o chefe de polícia. Por isso foi ele quem recebeu a ligação avisando sobre o sequestro. — Conclui.


Mais tarde, quando eu voltei para a central, todos estavam reunidos no computador de Aizawa.

– O que está havendo?

– Raito! Chegou na hora certa! — Matsuda exclamou.

Aizawa tomou a frente:

– Um número desconhecido está tentando contatar pela transmissão, prosseguir?

Eu assenti, caminhando até ele.

Uma letra B cuidadosamente desenhada com o simbolo do L oculto em suas linhas apareceu nas telas de transmissão.

– Prazer em falar com vocês, investigadores do caso Kira — Uma voz distorcida e trêmula saiu pelas caixas de som — Aqui é BB.

Todos ouviam atentamente, e minha expressão não se alterou. Dirigi-me ao microfone e pedi para Aizawa ligar o alterador de voz.

– Aqui é o L.

– L está morto — Seu tom de voz não se alterou — Não acho coerente de sua parte surrupiar a identidade do maior detetive do mundo tão displecentemente.

Aquela forma de falar era extremamente familiar... O que estava acontecendo?

– Quem é você e o que quer?

Ele fez uma pausa, depois prosseguiu.

– Quero propôr algo a vocês — Ele fez uma nova pausa, e senti meus dedos congelarem. Um calafrio percorreu meu corpo, como se eu estivesse retomando um grande problema em minhas mãos.

– Eu sou o irmão do L — concluiu ele.

Todos se entreolharam, e eu perdi a noção de meus atos.

– C-Como...

Ouvi uma leve risada vinda do outro lado da tela.

– A julgar pela sua reação, sugiro que você esteja um pouco mais incomodado com a situação do que os outros. – Ele estalou a língua em desaprovação – Como pode se chamar de L...

– O que quer propor, B? – perguntou Aizawa em um tom arrogante.

Ele pigarreou, e depois abriu o jogo:

– O chefe Yagami está presente? Sei onde está a filha dele.

– Não, ele não está no momento, mas virá assim que puder quando souber que você nos contatou – Ide disse, rangendo os dentes – Onde ela está, afinal?

– Está comigo.

Todos fizeram um silêncio absoluto. O que eu faria em uma situação dessas?

– Estamos no mesmo time, não se preocupem – B voltou a falar de uma forma monótona e fria, sem esboçar nenhuma emoção – Só quero algo em troca para terminar o que meu irmão começou.

– O Death Note – murmurei.

– Exatamente.

Se ele queria terminar o que L começou, então ele queria por um fim em Kira, ou seja, à mim. Mas porque ele precisaria do Death Note para matar apenas uma pessoa cujo nome ele desconhece? Aquilo era suspeito, ele queria o Death Note para benefício próprio, e inventara uma história não muito convincente.

– Bom, assim que falarem com o chefe Yagami, por favor contacte-me através do número grampeado que mandei para vocês. Vocês tem três dias.

Todos permaneceram em silêncio. Meu cérebro estava afundado em pleno raciocínio. Estava na hora do verdadeiro Kira entrar em ação. Eu tinha que descobrir o nome dele, e matá-lo.

– L está por perto – B murmurou, quase sussurrando – mais do que vocês imaginam.

E então ele desligou, deixando para trás um clima de suspense entre nós. Matsuda pegou o telefone imediatamente.

– Temos que falar com o chefe!

– Não! – afirmei – Não falaremos com ele. Ele não saberá disso.

– M-Mas... Sua irmã!

– O Death Note é uma arma letal e perigosa. Não podemos arriscá-la nas mãos de qualquer um. Salvar Sayu pode significar o sacrifício de centenas de pessoas!

– Eu não posso concordar com isso! – Aizawa se manifestou – Raito, ela faz parte da sua família! Ela não tem nada a ver com isso.

Soltei um suspiro e pressionei as têmporas. Eu estava tentando todas as formas para impedir que o Death Note parasse nas mãos de B. Aquela era a última coisa que eu queria fazer no momento, mas se não o fizesse poderia ser suspeito futuramente.

– Aizawa, abra uma transmissão com Near. Vamos resolver isso juntos.