Acorrentados

12 Assombração


Só me dei conta de que estava na hora quando Aizawa me alertou que era melhor irmos andando. Fazia dias desde que Near comentou seu desejo de me encontrar em breve, e há exatamente três dias ele me deu todas as informações de nosso encontro.

Yellow Box, 13 horas.

Pensei sobre o porquê de ele ter escolhido a região leste de Kanto ao invés da região central, mais movimentada e civilizada, mas não achei este um fator muito importante. Afinal, não importava aonde nos encontraríamos de fato, e sim o que esperaríamos deste encontro.

Eu estava confiante, a maior prova deles, Beyond Birthday, agora estava morta. Eles não tinham nada para usar contra mim. Mas Near não se atreveria a encontrar-se comigo caso ele estivesse de mãos vazias; eu sabia que ele estava pronto, e de qualquer forma eu também estava. “Que vença o melhor” pensei comigo mesmo.

Aizawa estava com o Death Note preso no peito. Todos nós caminhamos para o carro e dirigimos até a Yellow Box. Near disse que havia comprado esta propriedade recente e exclusivamente para isso, e logo pensei que ele não teve de gastar muito. O lugar parecia uma fazenda velha, com pequenos montes de feno empilhados perto da porta e uma hélice girando perto do telhado. A porta tinha marcas de ferrugem e parecia que há anos não fora aberta. Meus olhos circundaram o local, e agora eu entendera o porquê de Near ter escolhido um local tão remoto.

– Vamos, eles já estão lá dentro – murmurou Aizawa.

Pingos de chuva caiam suavemente pelo asfalto, anunciando a tempestade que se aproximava. Caminhamos lentamente até a porta, que foi aberta após um ou dois empurrões. O lugar era mal iluminado, havia algumas lâmpadas balançando em longos fios de alta-tensão, mas elas tampouco iluminavam tão bem quanto os gélidos raios de sol que penetravam pelos basculantes. Sem eles, o local pareceria um cenário de filme de terror.

Chegamos à mais uma porta enferrujada; ouvi Ide murmurar que a SPK estava por trás dela. A derrota de Near estava a míseros metros de distância. Empurrei a porta com um barulho estrondoso, e depois de caminhar mais um pouco, encontrei os três bastardos negligentes, e uma criança de branco sentada na frente deles, rodeada de bonequinhos.

Espere, aquilo era Near? Isso só podia ser brincadeira! Tive que conter um imenso instinto irônico, para não ser pego rindo antes da hora.

Ele levantou a cabeça, e uma máscara com o rosto do L esculpido nela foi iluminada pelos raios de sol. Ele estava se escondendo, o que me fez ter vontade de rir mais uma vez. Ele era muito inferior ao L, e não tinha direito de usar aquela máscara.

– Porque está se escondendo Near? Todos nós estamos nos arriscando, não é justo você se esconder desse jeito – disse Matsuda.

– Tem razão – ele disse, com a voz abafada pela máscara. Ele puxou o elástico, e retirou-a através de sua cabeleira branca. Além de autista, ele era albino também? Que patético.

O sol bateu discretamente em sua pele branca. Seu olhos eram cinzentos, mas não como os de L, que puxavam suavemente para o azul. Os dois possuíam pupilas enormes, fazendo com que na verdade os olhos de Near parecessem pretos, com uma linha tênue e cinza, quase branca, envolvendo sua negritude. Sua boca se contorceu em um sorriso, e ele murmurou “Prazer em conhecê-los” através dele.

– Parece que temos um convidado especial, não é mesmo Raito? – perguntou logo depois, indicando a porta com a cabeça. – Porque não o convida para entrar?

Mikami. Near sabia que ele estava ali. A esta altura, ele já terminara de escrever todos os nomes, como eu instrui. De qualquer forma, eu devia fingir que não sabia de nada.

Quarenta segundos. É tudo o que lhe resta, Near.

– Porque não entra, Mikami? Se já escreveu nossos nomes, não tem mais nada a temer! – murmurou Near.

Depois de alguns instantes, a porta foi aberta, e dela saiu a figura de Mikami com o caderno envolto pelos seus braços.

Ótimo trabalho! Eu não poderia ter escolhido alguém melhor.

– Há quanto tempo escreveu os nomes? – Perguntei.

Seus olhos enlouquecidos de adoração tornaram ao relógio em seu pulso:

– 30, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37, 38, 39...

– Eu venci!

– 40!

Todos ajoelharam-se ao meu redor. Um a um, todos caíram com seus corações estraçalhados pelo caderno, agonizando e caindo em um estupor profundo. E eu observei Near dar seu último suspiro, e juntar-se ao L onde quer que ele estivesse. E eu era finalmente o Deus do novo mundo.

Pelo menos, era isso o que deveria ter acontecido. Meus olhos estavam cegos pela ansiedade. O que eu estava esperando mesmo? Porque Near ainda me olhava com seus olhos indecifráveis? O que estava havendo?

– Quero que saiba, Raito – murmurou ele – Que Beyond Birthday me deu o caderno uma semana depois de você ter entregue à ele. E que aquele enigma foi criado por mim, para que você pensasse que Beyond não era meu aliado, e que estava entregando a minha localização quando na verdade nada disso seria possível sem ele.

Minhas sobrancelhas se curvaram. O que ele estava dizendo?

– Seu plano era que Mikami pegasse o Death Note que estava com Beyond para ele, assim que o matasse, e te enviasse de volta o atual caderno que estava com ele. Ou seja, o caderno de Beyond vai para Mikami, e o caderno de Mikami volta para Raito. Não é isso?

Droga! Isso era impossível. Near não seria capaz de deduzir isso. Ele nunca fora capaz de prever meus movimentos desta maneira. O que ele estava fazendo?

– Pois bem, quando Beyond me deu o caderno, eu dera à ele um falso, e foi este que Mikami pegou. Só existem dois cadernos verdadeiros, um está no peito de Aizawa, e o outro está aqui comigo – Near puxou o caderno de dentro de sua blusa.

Mikami soltou um urro, e se curvou para a porta. A única mulher da SPK e mais um homem o impediram, e ele deixou o caderno cair no chão.

– Agora, veremos quem é Kira – O caderno foi entregue nas mãos de Near.

Meu raciocínio estava lento. Como eu pude deixar isso passar? Nada além do ódio ocupava minha mente naquele momento.

– Vejam! – Ele virou o caderno para que todos o vissem — O nome de Raito foi o único que não foi escrito. Logo, Raito Yagami é Kira.

Todos ficaram em silêncio. Matsuda foi o único que se moveu, caindo de joelhos.

– Raito... Por quê?

– Mas acho que está faltando um nome aqui – prosseguiu Near – Você teve seu convidado especial, e eu também tenho o meu.

Ele estendeu a mão para o único lugar onde a luz não alcançava. Todos se entreolharam, e eu senti um peculiar calafrio percorrer meu corpo, que no fundo de minha mente eu lembrava que eu já sentira.

– BANG!