Acorrentada ao Passado
5 Surpresa
Notas iniciais
Então, ele me levou pra casa.
Cheguei no horário habitual em que eu voltava do colégio, então achei que minha tia não desconfiaria de nada. Caso ela perguntasse como havia sido o primeiro dia de aula, eu diria o de sempre: "Foi legal!, "fiz amigos", "aprendi coisas novas"...
Eu não me sentia culpada por ter feito isso, afinal, eu já estava acostumada a matar aulas do mesmo modo que todos acostumam a respirar.
Subi as escadas que levavam ao 2° andar, onde ficava o meu quarto. Eu estava cansada e precisava de um banho.
O meu quarto não era desses enormes, mas era bem espaçoso e confortável. A janela tinha vista para a rua e metade do jardim, e eu gostava de passar o tempo ali.
Joguei minha mochila em cima da cama (eu havia resgatado ela do meio dos arbustos antes de vir para casa) e fui para o banheiro.
Tomei um banho rápido, coloquei uma roupa confortável (dessas que a gente escolhe para ficar em casa mesmo) e me joguei na cama.
Abri meu notebook e comecei a escrever uma história.
Esse era o meu passatempo favorito. Desde mais jovem eu sempre gostei de ler histórias, e depois de um tempo, comecei a escrever as minhas.
Eu não conseguia criar nem uma linha. Não conseguia me concentrar.
Era difícil admitir, mas eu estava pensando em Lyan.
Minha tia sempre me dizia: "Se estiver interessada em alguém, vá atrás. E não esqueça: quero ser a primeira a saber!"
Mas eu não estava exatamente interessada nele. Ele era um cara muito legal, brincalhão e eu achava que ele era meu amigo. E ele era. Só isso.
Pensando nisso, fui procurar minha tia. Não que eu fosse contar a ela sobre Lyan. De jeito nenhum. Além do mais, assim ela descobriria que eu não fui ao colégio.
Eu só queria falar com ela; até porque eu não a tinha visto quando cheguei.
Desci as escadas e fui até a sala, onde ela costumava assistir TV. Nada.
Pensei em ir à cozinha, onde às vezes se sentava e tomava chá. Nada.
Procurei no seu quarto, no banheiro e não a encontrei.
Quando voltei À cozinha, encontrei jogado no chão um bilhete dela. Ele devia ter caído e por isso não o notei quando passei por lá.
Com a letra de Mariane, estava escrito:
"Sammy,
Fui fazer umas comprinhas rápidas, volto logo.
Beijos,
Tia Mariane :) "
Dobrei o bilhete e coloquei-o sobre a mesa. Fui a sala e comecei a ver TV.
Um tempo depois, a campainha tocou.
Achei que fosse Mariane, mas ela não tocaria a campainha pra entrar na própria casa. Talvez precisasse de ajuda com as compras.
Poderia também ser Alex, meu vizinho, meu melhor amigo. Às vezes ele precisava de alguma coisa.
A campainha tocou de novo.
Levantei-me do sofá e calcei meus chinelos, indo até a porta.
–Já estou indo! — gritei para a pessoa lá fora, que tocara a campainha mais uma vez.
Abri a porta e tomei um susto.
Não era Mariane.
Nem Alex.
Era meu pai.
**********************************************************
Ele sorriu ao me ver. Tentou me abraçar, mas eu recuei.
Ele entendeu o que eu quis dizer e seu sorriso murchou. Mesmo assim, me cumprimentou:
– Olá, Samantha.- disse gentilmente.
Ele não estava tão diferente desde a última vez que o vi.
Meu pai era alto, e tinha os cabelos castanho-avermelhados iguais ao meu. Só que o dele era grisalho nas laterais. Seus olhos eram cansados mas me observavam gentilmente.
Ele vestia um suéter apesar de o clima estar agradável.
–O que faz aqui?- perguntei, me acalmando.- Você não tem que estar aqui.
Ele suspirou e disse:
–Olha filha, eu sei que você pode estar irritada comigo e eu realmente sinto muito por Lauren, mas --
–Vá embora, por favor. — eu falei secamente, interrompendo-o.-Você deixou de ser meu pai há muito tempo, quando abandonou a gente, justo quando mais precisávamos... Aliás, porque "deu na telha" de aparecer agora? hmpf... não precisa responder, eu não me importo.
Tentei fechar a porta, mas esta foi bloqueada por ele, que colocou o pé, impedindo-me.
–Me escuta, Samantha. — ele disse, sem perder a calma.-Você não é mais uma criança pequena. Você é uma adolescente e deve agir como uma. Eu ainda sou seu pai sim, não importa se você não me considere como tal. Eu não vim aqui à toa, tenho algo importante pra dizer e você vai ter que escutar, pois querendo ou não, tem que se conformar com isso.
Desisti de argumentar com ele.
Relutante, dei um passo para trás, abrindo mais a porta.
–Entre.
Ele sorriu. E sem rodeios, entrou na casa de minha tia. Como se fosse sua.
Só pra ser educada, convidei-o para sentar no sofá da sala.
Agora estávamos ali, frente a frente.
–O que você queria me dizer? — eu falei, sem muito interesse.
Ele respirou fundo, como se buscasse paciência, e começou:
–Eu queria te contar que Kim está muito ansiosa para te conhecer sabe, e ela tem um filho também, que ainda não sabe que tenho uma filha...- Ele riu e continuou — Não, se for o que estiver pensando, não ´filho meu, ele já é maior de idade. Enfim, eu achei que seria bom vocês se conhecerem melhor, afinal vocês são minha família agora, entende?
Eu não sabia muito bem o que ele queria dizer com aquilo. Kim Jhones era a namorada do meu pai. Ela deveria valer a pena, pois ele abandonou o que tinha construído por ela.. E, essa conversa de ela ter um filho... eu não tinha a menor vontade de conhecê-lo...
–Sim, e dai? o que você quer dizer com isso? — falei. Queria que ele explicasse logo e saísse da minha casa.
–Samantha, estou querendo dizer que você deve conhecer minha nova família e por isso... Eu e sua tia marcamos um jantar... em família, claro.
–Como é?- perguntei. Dessa vez eu tinha entendido muito bem.
Nesse momento, minha tia Mariane entrou em casa com as sacolas de compra.
Jonathan (meu pai) se levantou do sofá e já ia saindo:
–Espero que pense bem nisso... pois vocês vão se dar muito bem..
Foi cumprimentar minha tia, gentilmente, e saiu pela porta.
E foi como se ele nem tivesse entrado.
Fale com o autor