Acordo partido
1 Prólogo
Oliver não queria estar ali.
Seu pressentimento nunca errava e naquela manhã acordou com o coração aos saltos. Não se lembrava de nada sobre o sonho que havia tido, nada além de um assobio sombrio que ainda ecoava entre seus ouvidos, ensurdecendo sua sanidade.
Alguma coisa estava errada com seu irmão.
Naquela manhã, as amas chegaram cedo para vesti-la, mas não com as roupas femininas de costume. Havia uma tensão crepitante no ar pela forma como a cercavam antes mesmo de acabar seu café da manhã.
O cabelereiro chegou junto com a mensagem de que deveria encontrar seus pais assim que tivessem terminado de arruma-la e o gelo das sombras que lhe assomavam desde a madruga, acercou-se de seu coração.
Nunca era ela de que precisavam. Nunca era ela que queriam. Sempre fora Eden, ele era o filho perfeito, o herdeiro que a mantinha fora dos radares e livre, mesmo que dentro de limites bem conhecidos.
Sentou-se em frente a janela. O homem percorrendo a sua volta com a leveza de um pássaro, as tesouras fazendo um tsc tsc suave ao seu redor, enquanto seus longos cachos loiros caiam ao seu redor.
Durante toda a infância, Oliver havia usado cabelos curtos. Uma brincadeira interna com seu irmão. Uma forma de revezar os deveres chatos de realeza que o rapaz tinha, enquanto ela ficava quase esquecida de seus próprios deveres.
Tudo mudou quando suas regras desceram pela primeira vez. Ela precisava de um bom casamento e isso significava longas horas de aulas de boas maneiras, costura, bordado, tricô e essa era a parte suportavel.
Com o tempo se acostumou a usar os cabelos longos e até conseguiu alguma liberação dos espartilhos, mas aqueles primeiros anos foram dificeis.
— Pronto? — a pergunta foi feita por um dos cavaleiros em sua porta.
Estavam tão ansiosos quanto ela, balançando em seus pés de um lado para o outro.
— Sim!
Essa era a resposta que nunca queria ouvir.
Seus pés arrastavam sobre o calcário de que o castelo havia sido feito. O medo havia drenado toda a força de seu corpo e agora mau podia erguer os pés para caminhar. Joffrey, o cavaleiro que já havia lhe proposto casamento ao menos 10 vezes, tinha de-lhe segurar o braço para garantir que não tropeçasse nos próprios pés e caisse de boca no chão.
A porta da sala do trono se abriu, empurrada por homem grandes com lanças que pareciam imensas demais para ter alguma serventia. Era uma pantomima! Um embuste inútil para a guerra que assomava suas fronteiras.
Mas a sala do trono estava diferente dessa vez.
Uma longa mesa havia sido posta no centro do salão, banhada pela luz difusa do sol, mas, se lá fora a luz dourada parecia rechear os jardins de alegria e brincadeiras, lá dentro servia apenas para iluminar a macabra exposição.
O frio, que antes apenas cercava seu coração, se instalou em seu peito e congelou o sangue que corria por suas veias.
Sua mãe não estava a vista, o que sempre era perigoso. Seu pai assomava sério sobre o que quer que estivesse sob o grande cobertor de linho branco.
Oliver se aproximou com o mesmo passo vacilante. Tremendo com o que poderia encontrar ali embaixo. Torcia para que fosse seu cavalo, ou aquele cachorro sarnento que sempre a acompanhava quando ia a feira, mas era grande demais, parecido demais com uma pessoa. Talvez fosse apenas um moleque das docas que havia sido atacado por um dragão. Não seria a primeira vez.
—- Os guardas trouxeram isso essa manhã.
Isso, aquelas palavras ecoavam em sua mente. O tom frio em sua voz, indiferente. Sempre foram peões aos olhos do rei.
O pano foi retirado e Oliver encarou seu próprio corpo, seu próprio rosto distorcido por um ataque atarrador. A pele havia sido reduzida a uma bagunça de sangue seco e restos de gordura, os ossos quebrados apontavam para fora, brancos contra o fundo marrom da carne destruida. O choro e o vomito a ameaçavam com a mesma intensidade, mas ela não conseguia desviar o olhar.
Eden sempre fora o seu espelho, uma versão mais nobre dela e agora só havia o vázio do único olho escuro que lhe sobrara nas órbitas.
— Seu irmão foi pego à meio caminho do castelo da noiva. — Oliver sabia que precisava responder algo, mas não tinha palavras, não tinha nada. Sua metade havia sido arrancada dela e agora não restava nada. — Os guardas viram apenas uma sombra e então ele havia sumido.
Haviam mais informações sobre aquilo. Ela tinha certeza, mas seu pai apenas não se importava o suficiente para saber. Tinha uma guerra para acontecer e seu irmão havia morrido, quem podia garantir que não era a própria família da noiva que havia mandado matá-lo.
— Mas não podemos perder esse acordo. — respondeu de repente, sem que ela pudesse compreender aquelas palavras. — Oliver sempre foi inconsequente. É horrivel o que aconteceu à sua irmã, Eden, mas não podemos dizer que foi uma surpresa.
Oliver o encarou. Não sabia o que sentir, seu peito estava devastado pela morte de Eden e agora isso. Ela não queria entender, queria fugir, prender os cabelos longos de volta em sua cabeça e usar os vestidos. Eden era o seu sol, sua luz. Jamais poderia tomar o seu lugar.
— Eu não vou fazer isso! — Sua voz era baixa, tão ferida quanto o corpo mutilado de seu irmão, mas se ainda restava uma réstia de vida em seu peito, ela lutaria até o fim por seu irmão.
— Você não entendeu, Eden. — respondeu, apertando o braço delicado em suas mãos. — Salma Pétra tem o maior exército dos cinco reinos e eu não vou arriscar a aliança. Quer defender alguém? Lute por isso ao invés de se esconder como uma garotinha.
Oliver assentiu devagar. Seu pai tinha razão, se alguém ali havia matado seu irmão, a melhor forma de descobrir era entrando para a família. Encarou o corpo ferido de seu irmão, que sempre fora seu espelho, agora nao passava de um mau presságio.
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