Acordo Perfeito
25 Epílogo
1941 — Dez Anos depois
Vale do Café.
Victoria olhava para o seu quarto. Estava um verdadeiro caos. Malas espalhadas, roupas e livros pelo chão. Agora ela encarava o teto, esparramada na cama. Estaria ela tomando a decisão correta? Estaria ela pronta para morar só, em São Paulo? Uma parte dela queria ir. Afinal, não era todo mundo que recebia um convite para estudar piano na Escola de Música de São Paulo. E ela queria muito ir. Mas também queria ficar. Com igual intensidade. Se ela pudesse estudar em São Paulo, mas voltar para o Vale todos os dias… Ou se ela simplesmente pudesse levar todos com ela… Victoria suspirou. Em pensar que, quatro anos atrás, quando seu pai chegou em casa e disse “vamos nos mudar para o Brasil”, ela detestou a ideia. Mesmo amando tanto o Vale, as tias e os avós, e a casa que o pai havia comprado para quando fossem passar as férias. Mas era para isso, para as férias, não para uma mudança definitiva. Ela se lembrava exatamente da conversa, tinha acabado de fazer quatorze anos. Eles estavam na sala rosa. Thomas estava sentado, no chão, brincando com seu trenzinho, e a pequena Catherina, que na época era um bebê, estava no colo da mãe.
—Mas por quê? — Victoria protestou. — Emma e eu vamos começar a escola esse ano.
—Sinto muito, filha, mas temo que há uma guerra prestes a estourar, e não quero que estejamos no meio.
—Darcy, do que você está falando? — Sua mãe se levantou, com Cath no colo.
—Acabei de voltar da Câmara, foi o único assunto. A França e outros países já estão formando uma aliança. A rainha e o primeiro ministro tem interesse.
—Contra quem?
—A Alemanha. Os relatos de horrores que chegaram até nós… — Darcy olhou para Elisa. Cath, que tinha um ano e três meses, só sabia falar cinco palavras: dada, mama, oooom (que significava Tom), iti (que era como ela chamava Vicky) e ida (comida), começou a bater palmas em felicidade. — Dada, dada! — Darcy estendeu os braços e pegou a caçula. Darcy e Elisa se olharam. Eles se aprofundaram nessa arte, Victoria pensou. Hoje em dia era possível que eles tivessem desenvolvido a habilidade de ler os pensamentos um do outro. Elisa se voltou para filha.
—Sinto muito, Vicky, mas acho que estamos indo para o Brasil. — Thomas finalmente resolveu entrar na conversa, e exibiu seu sorriso faltando um dente.
—Vamos para o Vale?
—Sim. — concordou Darcy.
—Fantástico! — O menino disse, animado.
—Para você! — Victoria saiu pisando duro e bateu a porta do quarto.
Mas, para sua surpresa, ao saber da guerra se aproximando, Cora — agora Evans, já que ela havia casado com um empresário quatro anos antes, — seu marido Malcom, Emma e o bebê Ethan se juntaram aos Williamsons em sua ida ao Brasil. Se estabeleceram em São paulo, mas Emma vivia no Vale. E bastou apenas uma semana naquele lugar, sendo mimada pelas suas tias, pelos seus avós, brincando e conhecendo seus novos primos que Victoria se esqueceu completamente que não queria vir. E agora, sua vida estava perfeita novamente. Sua mãe teve outro bebê, que ela jurou que seria o último. Ela se lembrava de estar sentada nos jardins com a mãe, ainda grávida de Alexandre, elas tricotavam meias para o bebê. Quando Elisa parou e viu que Victoria estava no segundo par, e ela ainda tentava terminar a primeira meia, disse para filha.
—É isto. Este é o último bebê. Nenhum a mais. Chega de meinhas.
—Eu posso fazer as meinhas. — Victoria sorriu.
—Mas sinto que nossa família está completa. E eu preciso terminar aquele maldito livro.- Sua mãe virou uma autora famosa. Começou publicando um romance, depois um livro de biografias de mulheres importantes. Depois um livro de cartas trocadas entre mulheres na primeira guerra mundial. Depois outro, que era o favorito de Victoria, Mulheres Através da História. E por fim, ela retornou a ficção. Seu último livro havia sido um sucesso retumbante, e a editora pediu uma continuação. Mas ela estava “empacada”.
—Eu acho que ainda cabem mais dois irmãos. Um menino e uma menina.
—Está me achando com cara de Ofélia? Não vou ter cinco filhos. — Victoria gargalhou. — Lídia está no caminho.
Sua tia Lídia, que havia casado há quatro anos, já tinha três filhos: três meninos. E estava a espera do quarto. Jane e Cecília tinham dois, cada. E Mariana estava esperando o primeiro bebê. A verdade era que eram todos meninos. Thomas tinha uma gangue, ela costumava pensar. Isso fazia com que ela e Cath fossem extremamente mimadas pelos avós. Ofélia costumava dizer:
—Você já foi estragada pela sua mãe, com essas ideias de ganhar o mundo. Não há nada que eu possa fazer. É Elisabeta dos pés a cabeça. Mas esta aqui… ainda tem salvação.
Então Victoria torcia para que viesse outra menina, assim sua avó implicaria menos com elas. Mas quando Alexandre nasceu, mais um menino, ela começou a torcer para que as tias tivessem outras filhas. Mas desde então, nada. Alexandre havia sido o último bebê (nasceu dois dias depois de Roberto, filho de Lídia, e um mês depois de Carlos, filho de Mariana) e já fazia dois anos.
Como ela poderia deixar tudo para trás e se mudar para São Paulo? E ainda tinha seu namorado, Bento. Nesse momento, ouviu alguém bater na porta.
—Entra. — Então sua irmãzinha, entrou, os cachos castanhos claros, exibiam reflexos dourados, queimados de sol. Ela estava agarrada ao seu ursinho. Aquilo nunca era um bom sinal. — Cat-Cath! — Ela chamou a irmã com as mão. — Venha aqui, deitar comigo na minha bagunça.
—Vicky… você tem mesmo que ir? — Cath subiu na cama. — Você é a única outra menina. Eu não quero que você vá.
—Eu estou refletindo exatamente sobre isso. Eu quero ir, mas também quero ficar. — Ela se virou para irmã. Gostava de ser 100% honesta com ela. Odiava quando as pessoas subestimavam sua inteligência na infância. -Faz sentido para você? — A irmã balançou a cabeça afirmativamente.
—Mas você vai ficar sozinha lá!.
—Não exatamente, vou ficar com Emma. — Catherina fez uma careta. Ela morria de ciúmes de Emma.
—Mas ela não é sua irmã, eu sou.
—E vai continuar sendo. Não importa se more aqui, em São Paulo, ou na China. Você vai ser para sempre minha irmãzinha.
—Você acha que se eu pedir a mamãe para ir com você, ela deixa?
—De jeito nenhum. — Elisabeta disse, da porta. — Quer me deixar sozinha aqui, com esse tanto de meninos?
—Mas mamãe, eu não quero que a Vicky vá. — Cath ameaçou chorar. Victoria puxou a irmã para o seu colo.
—Quando você fala assim, parece que estou indo para guerra. São Paulo é apenas três horas de trem, graças ao papai. Você poderá ir me ver toda semana.
—Toda semana não é todo dia. Quem vai brincar de boneca comigo? Ou trançar meu cabelo? Ou me ensinar a andar de bicicleta? Tom disse que você ensinou ele.
—Catherina, eu estou me sentindo uma péssima mãe. Eu posso fazer isso tudo com você! — Elisa reclamou com bom humor na voz.
—Mas não é a mesma coisa. — Catherina fez um bico. Elisa suspirou. Victoria se parecia com ela, mas Cath não. Era mais delicada e estava acostumada a ter todas as suas vontades atendidas. Darcy era incapaz de lhe dizer não. Victoria era sua ídola. Ela imitava a irmã mais velha em tudo, e ao contrário de Tom — Victoria e Thomas implicavam um com o outro o tempo inteiro — com Cath ela tinha uma paciência quase infinita. Elisabeta tinha plena certeza que Cath era a favorita de Vicky, por mais que ela negasse.
—Você vai fazer novos amigos, vai começar a escola esse ano. E rapidinho não vai nem lembrar que não estou aqui.
—Impossível. — Ela fungou. — Leva o Teddy então. Ele me disse que quer ir com você. Para você não ficar sozinha. — Cath entregou o urso para irmã. Ela dormia com aquele urso desde o dia que nasceu.
—Tem certeza? — Vicky segurou o urso puído. — E se ele chorar a noite pedindo por você?
—Ele não vai. Ele é forte.
Elisabeta não resistiu e pegou a pequena no colo. Ela levou o dedo a boca. Elisa estava tendo dificuldade em fazê-la largar aquele hábito. Victória encarou o urso e depois as malas. Quando voltou a olhar para Cath, percebeu que Elisa tinha lágrimas nos olhos.
—Mãe? — Ela questionou.
—Achei que fosse mais fácil deixar você ir. Olha só a jovem que você se tornou. Tão bonita, independente, cheia de vida. Com fome de vida. E eu aqui, uma velha chorona. É só que… às vezes eu olho para você e ainda vejo aquela garotinha assustada que encontrei em Westminster- Elisa enxugou as lágrimas. Cath olhou de uma para outra. Victoria abraçou a mãe, englobando a irmã no processo.
—Está tudo bem, mamãe. Está tudo bem.
Darcy observava da soleira da porta. Fez menção de entrar, mas achou que aquele momento era só delas. De suas meninas.
Depois que sua mãe e sua irmã saíram, Victoria terminou as malas e adormeceu, abraçada a Teddy.
O dia seguinte foi igualmente estressante. Ofélia e Felisberto ofereceram um almoço de despedida, e todas as suas tias compareceram, com todos os seus primos. Houve lágrimas, lamúrias, abraços e desejos de boa sorte. Seu primo Oscar, que tinha a mesma idade de Cath, parecia tão relutante em deixá-la ir quanto a sua irmã. E passou a festa toda agarrado a sua perna. Ele só a soltou quando ela prometeu que pediria sua Tia Jane para levá-lo a São Paulo, e os dois andariam de carrossel.
—Promete, Vicky? — olhos grandes olhos castanho-claros a encarando.
—E alguma vez eu já menti para você?
E com aquela promessa ela se despediu. Ainda precisava se despedir de Bento. Retornou para casa com olhos inchados e o nariz entupido. Eles tiveram uma briga, ele não queria que ela fosse. Propôs casamento. Ela riu. Ele se ofendeu. Eles brigaram. Ela disse que o amava. Ele questionou porque não se casaria com ele então. Ela deu a única resposta que podia.
—Porque agora, casamento seria ficar. Seria abrir mão dos meus sonhos por você. E meus pais me ensinaram que em um casamento os sonhos não diminuem. Apenas multiplicam. Matemática básica.
Entretanto ele não conseguia entender. E ela, sendo filha de Elisabeta Benedito Williamson, jamais poderia ficar com alguém que não aceitasse seus sonhos. Jamais. Chegou em casa apenas querendo se jogar no colo da mãe e chorar até dormir. Mas assim que adentrou a Ouro Verde o telefone tocou. Se arrastou até ele, sabendo que estava sendo dramática, mas gostava disso às vezes.
—Alô. — Disse sem muito ânimo.
—Alo. Gostaria de falar com Victoria Williamson. — A voz com sotaque a denunciou. Victoria se jogou pesadamente no sofá. Deus! Aquele realmente não era seu dia.
—Oi mãe.
—Vicky, darling! Tão bom ouvir sua voz.
Victoria suspirou. Sua mãe telefonava às vezes. Normalmente quando era despedida e estava precisando de dinheiro. Ou quando era abandonada e precisava se queixar, fazer-se de vítima. Victoria escutava. Às vezes lhe mandava dinheiro, às vezes não. Ela nunca conseguira cortar Brianna totalmente de sua vida, mas ela achava esse meio termo bom. Ela conseguia lidar, e sua mãe biológica não fazia muito estrago em sua vida. Mas fazia algum tempo desde que ela telefonara pela última vez. Tinha sido uns seis meses atrás, para vangloriar-se que havia casado com um Visconde, o Lorde Eymor. Quando ela comentou com Darcy, ele riu. O velho Eymor era quase da idade de seu pai. Era claro que Brianna tinha feito aquilo por dinheiro. E sendo assim, pelo ciclo básico, esse deveria ser o telefonema que ela dava para se lamuriar. E Victoria não estava no clima.
—Aconteceu alguma coisa? Já é bem tarde aqui no Brasil, o que significa que deve ser madrugada aí.
—Aconteceu sim, aconteceu o pior!. Meu querido Ewborne faleceu três dias atrás. — Victoria sibilou um palavrão. Não conseguiria dispensar a mãe agora.
—Eu sinto muito. Você está bem?
—Sim, sim. Bem, todos nós sabiamos que ele não iria viver tanto mais, mesmo assim foi um choque. Infarto. Recebeu um telegrama que o filho morreu na guerra. Bem, mas eu recebi minha herança, e darling, acho que dessa vez estou feita for good. Então estava pensando, já que você fez dezoito anos, não gostaria de passar uma temporada comigo, na aqui na Europa? Poderíamos viajar, fazer compras, conhecer rapazes...
Victoria ficou completamente estarrecida. De fato, sua boca estava aberta e permaneceu daquele jeito por alguns segundo. Primeiro, que sua mãe havia se lembrado de seu aniversário (e acertado sua idade!), segundo, ela estava a convidando para ficar com ela!!! Terceiro, apenas a desmiolada da sua mãe acharia que seria uma boa ideia, viajar pela Europa em plena guerra.
—Mãe, eu agradeço o convite, mas acabei de ser aceita em uma prestigiada escola de música em São Paulo. Estou me mudando amanhã, para estudar piano.
—Ora, ora. Então acho que lhe devo os parabéns. Não há nada que eu possa fazer para lhe convencer? Vamos, docinho. Sua mãe está sozinha, abandonada, viúva. — A-ha! Victoria pensou. Ali estava a sua Brianna.
—Sinto muito mãe. Quem sabe outra vez? Mas se me permite um conselho, viaje para os Estados Unidos. A Europa está perigosa.
—Que linda, preocupada comigo! Sabia que aquela lá não ia lhe roubar completamente.
—Mãe. — Ela repreendeu. — O que já conversamos sobre isso?
—Está bem, está bem. Mas me mande depois seu novo telefone e endereço. Assim posso lhe mandar um par de sapatos decente. E quem sabe eu não faça uma visitinha? Agora tenho que ir. Bye Bye.- E desligou.
Victoria ficou encarando o telefone. Brianna havia passado por poucas e boas. Perdeu tudo, tentou trabalhar como dama de companhia para ladies da alta sociedade, mas curiosamente — e ela atribuía aquilo a Lady Cora — rumores sobre sua conduta sempre chegavam aos ouvido das empregadoras, e ela era demitida. Depois de um tempo, não havia uma nobre que a quisesse por perto. Brianna precisou trabalhar como vendedora, garçonete, secretária. Nunca durava, pois ela detestava trabalhar e não sabia lidar com pessoas. Achava indigno dela. E assim ela foi vivendo, às vezes encontrava alguém que a mantinha por um tempo. Vicky balançou a cabeça afastando Brianna dos seus pensamentos. Aquilo fora bizarro demais até para ela. Saiu pela casa procurando seus pais. Os encontrou na biblioteca. Darcy estava abraçado a Elisabeta, que encarava a janela em silêncio. Ele encarava a esposa. Seu pai havia envelhecido bem. A prova era tanta que todas as suas amigas tinham uma quedinha por ele. Bastava que ele as dirigisse um sorriso que todas esqueciam como se formavam frases. Ela e Elisabeta achavam divertido. Darcy sempre ficava encabulado. Alguns cabelos grisalhos começavam a aparecer nas laterais, algumas linhas nos cantos dos olhos, principalmente quando sorria. Mas fora isso, continuava o mesmo. Ele ainda olhava para Elisa da mesma forma. Devotado, apaixonado. Elisa ainda sorria para ele da mesma forma, travessa, felina. Quando ela se virou para Darcy e os dois começaram a se beijar Victoria gritou.
—Eca! — Mas havia um tom de brincadeira muito claro. — Vocês não estão velhos demais para isso?
—Velho? — Darcy franziu a testa. — Velho?! Elisabeta, sua filha acabou de me chamar de velho.
—Nossa filha acabou de nos chamar de velhos. — Ela cruzou os braços. — Está querendo ficar de castigo? — Victoria riu, mas Elisa conseguiu ver por aquele sorriso. — O que aconteceu?
Victoria correu para os dois e os abraçou. Então cada um sentou em uma ponta do banco da janela, e ela deitou entre eles, com a cabeça no colo de Darcy e os pés no colo de Elisa. E os contou sobre o Bento, sobre Brianna, sobre estar assustada e com medo.
—Eu acho que você fez o certo. — Darcy acariciava seus cabelos.- Você não deve se contentar com pouco. E você é muito nova ainda. Vai encontrar alguém que lhe ame e apoie seus sonhos. Ninguém que não ame cada parte de você merece sua atenção. Mas por hora, vai doer um pouquinho. E eu sempre posso dar um susto nele.
—Pai…
—Tudo bem. Mas saiba que Brandão vai ficar sabendo disso. E o que ele faz com os recrutas no quartel não tem nada a ver comigo. — Victoria riu. O tio Brandão era superprotetor. Quando ela começou a namorar o Bento, o menino sofreu bastante.
—E quanto a Brianna. — Elisa falou, e Darcy fez uma careta. — Ela é sua mãe. E se você acha que existe uma chance dela estar amadurecendo. — Darcy bufou nessa parte, e levou uma olhada de repreensão de Elisa. — E quer ter um relacionamento com ela, é normal. Só tome cuidado para não se magoar, está bem?
Victoria se permitiu ficar ali, no colo dos pais, como fazia quando tinha oito anos. Quando foi dormir, olhou o seu quarto. As malas já estavam num canto do quarto. Teddy em cima de uma delas. Ela sorriu. Victoria já estava dormindo quando escutou alguém bater na sua porta.
—Quem é? — Ela acordou um pouco grogue.
—Oi, Vicky, sou eu. — Ela se sentou na cama tentando abrir os olhos. Thomas a encarou. Surpreendentemente, ele sempre havia sido pequeno. Seu pai era notoriamente conhecido pela altura, e sua mãe não poderia ser considerada uma mulher baixinha, mas Thomas era o menor da turma. Seus cabelos dourados, como os de Charlotte, agora estavam ainda mais claros, pelo tempo gasto brincando ao ar livre. Eles sempre implicaram um com o outro. Ele achava que sabia tudo sobre tudo, e Victoria adorava lembrá-lo que não era bem assim. E eles viviam provocando um ao outro. Thomas a seguia e caguetava seus encontros amorosos. Victoria contava suas travessuras. Mas agora, parado a sua porta, em seus pijamas azuis e cabelos desgrenhados, Thomas parecia um menininho desamparado.
—Está tudo bem, Tom?
—Eu tive um pesadelo. Posso dormir com você?
A verdade é que ele não conseguia dormir. Ele não queria admitir, mas estava muito triste com a partida de Victoria. Ela tinha sido um pé no saco, em sua vida inteira, sempre lhe dizendo o que fazer, mas ela esteve, ali, a vida inteira. Escondeu todos os vasos que ele quebrou com a bola de futebol. Assumiu a culpa no incidente da casa da árvore. O ensinou a andar de bicicleta. Cuidou de seus machucados. Ele não conhecia uma vida sem a Victoria, e por mais que ele achasse que ia amar quando ela fosse, quanto mais se aproximava a hora, mais triste ele ficava. Victoria bateu a mão na cama, e ele se juntou a ela. Os dois pegaram no sono rapidamente. No meio da noite, Cath também se juntou aos irmãos na cama de Victoria.
Quando Elisa levantou e foi acordar os filhos, ficou assustada a não encontrar o Tom na cama. Como a porta de Victoria, era a próxima, ela abriu de vez, para perguntar se tinha visto menino. Mas as palavras morreram no caminho, ao ver os três filhos mais velhos dormindo juntos. Voltou correndo para o quarto.
—Darcy, Darcy, onde está camera?
—Acho que no meu escritório, por quê? — Respondeu o marido, ainda meio grogue de sono.
—Vou pegar! — Ela estava saindo e disse . — De mansinho, vá dar uma olhada no quarto da Vicky. Sem fazer barulho.
Quando ela retornou, Darcy estava encostado no batente, sorrindo. Ela entrou na ponta dos pés e bateu algumas fotos.
Ao chegarem na estação, Ofélia e Felisberto já estavam lá. A matriarca estava em prantos e levava o lenço ao rosto. Pouco antes de embarcar, Mariana apareceu de motocicleta. Se Victoria fosse ser sincera, e ela nunca seria nesse assunto, Mariana era sua tia favorita. Apesar dela ter ficado um pouco amedrontada quando se conheceram (sua tia nunca deixa ela esquecer o “Dona Mariana”), hoje em dia elas eram muito próximas. Mariana tirou uma correntinha do bolso.
—É a santa Cecilia. Padroeira dos músicos e artistas. — Victoria, que estava segurando as lágrimas até aquele momento, deixou algumas caírem. — Seja corajosa, minha menina.
Victoria se despediu de todos, e assim que o trem partiu, Ofélia e Felisberto foram embora, seguidos de Mariana. Darcy e Elisa ainda ficaram um tempo encarando a estação. Thomas estava abraçado a perna do pai, e tentava, bravamente, não chorar. Cath ainda acenava, com a esperança de que Victoria estivesse vendo, e o bebê Alex, se mantinha um tanto quanto alheio ao que estava acontecendo. Elisa segurou a mão de Darcy e apertou. Darcy levou ao lábios.
—Acho que fizemos um bom trabalho com ela. — Elisa sorriu. Darcy concordou com a cabeça.
—Uma já foi — Ele falou pegando Cath no colo e dando as costas para a ferrovia. — Agora só faltam três.
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