Notas iniciais
Esse é o maior capítulo que já escrevi na minha vida!!! Bianca é uma excelente influência! Estou muito orgulhosa de mim mesma! Espero que vocês gostem!!! Muitas exclamações!!!! Boa Leitura!

Aquela era a segunda semana de Elisabeta no novo emprego. Não estava na lista dos preferidos, mas também não estava entre os piores. Era um restaurante francês luxuoso em Chelsea e não foi tão simples conseguir a vaga, Elisa se sobressaiu graças às poucas aulas de francês que o pai lhe deu durante a infância. O salário era o suficiente, o expediente terminava já de madrugada, mas não era como se Elisa fizesse questão de sair à noite como Ludmila e estivesse, de fato, perdendo qualquer coisa. E, mais importante, era um emprego dentro do trâmites legais. Ela ainda estava em fase de experiência, mas ao final da próxima semana, se tudo corresse bem, seria efetivada e seu problema quanto ao visto estaria resolvido, ao menos temporariamente.

O gerente não era dos mais simpáticos, ela haveria de concordar, e o maior desafio de Elisa estava sendo manter seu temperamento forte contido, tendo que aceitar calada os gritos sem motivos do gerente, as investidas inconvenientes de Eliot, um dos garçons, e as frequentes reclamações de Camile, a recepcionista. E Elisa estava indo bem. Até aquela noite.

O restaurante estava sempre lotado, as reservas costumavam ser feitas com meses de antecedência, e apenas a nobreza e elite britânica frequentava o restaurante do famoso chefe francês. Naquela noite não foi diferente. Elisa estava responsável por duas meses em específico no setor oeste: a do lorde Mayer e a do Primeiro-Ministro. O último senhor em questão não era nada agradável, e suas atitudes machistas estavam pondo Elisabeta completamente fora de si. Ela não sabia por quanto tempo mais aguentaria ver e ouvir a esposa do parlamentar ser destratada e humilhada diante de todos os presentes na mesa. Eram homens que já haviam passado do limite aceitável da ingestão de álcool cinco taças atrás, esposas envergonhadas esperando ansiosamente pela hora de ir embora. A pobre mulher já não era mais capaz de conter as lágrimas que insistiam em cair. O erro de Elisa foi se demorar demais encarando o Primeiro-Ministro quando ele interrompeu a fala da esposa a chamando de burra, com um olhar que, para qualquer telespectador minimamente atento, indicava repulsa e fúria. O homem, completamente dominado pelo álcool e pela sua falta de educação levantou-se subitamente, fazendo a mesa tremer e o líquido de algumas taças respingar. Duas senhoras gritaram, mas foram logo contidas pelos maridos, enquanto o Primeiro-Ministro avançava em direção a Elisa, o dedo indicador praticamente tocando o rosto da moça em uma rudeza inexplicável, levantando a mão para batê-la. Em um reflexo, Elisabeta segurou a mão do Primeiro-Ministro no ar e lhe dirigiu um belo tapa em sua cara, tal qual havia feito com seu ex-patrão, O Advogado Abusado. Os demais senhores levantaram-se da mesa, alguns tentando conter o companheiro, outros tentando afastar Elisabeta. As esposas gritavam e pediam calma, enquanto dezenas de pares de olhos observavam a cena, em meio a expressões de horror e divertimento.

Tudo aconteceu rápido demais. O Primeiro-Ministro gritava com Elisabeta, a destratando e a chamando de enxerida e abusada. A esposa do parlamentar chorava copiosamente apoiada numa das demais mulheres. Um casal aproveitou a confusão para ir embora sem serem notados e um dos senhores tentava conversar civilizadamente com o gerente, em vão.

—Eu quero a senhorita fora desse estabelecimento! Agora! É inaceitável sua atitude de desafiar um cliente, principalmente um cliente tão importante quanto o Primeiro-Ministro! Uma nativa brasileira inconsequente e mal-educada, é isto que a senhorita é! — o gerente gritava com Elisa enquanto a puxava pelo braço até a saída.

—Me solte! — Elisa estapeava o braço do patrão com sua mão livre — O senhor não tem o direito de tocar em mim! Nem o senhor nem o Primeiro-Ministro, nem ninguém! Me largue! Eu sei o caminho da porta! Não se preocupe que não faço questão de voltar a esse lugar antiquado e de gente ridícula! Imbecis! Estúpidos! — xingou em português enquanto procurava por sua bolsa no pequeno depósito.

— Cuidado com seus xingamentos estrangeiros, senhorita, alguém pode acabar entendendo. — uma voz conhecida falou próximo demais a ela, e Elisa se virou com ainda mais raiva.

— Ah, você. Ótimo. Claro. Como diria dona Ofélia, eu só posso ter jogado pedra na cruz. — ela resmungou, novamente, em português.

— Pelo visto a senhorita é especialista em causar confusão por onde passa. Eu estava realmente me perguntando como faria para encontrá-la, aparentemente basta esperar que alguma confusão aconteça e lá estará a senhorita comandando o motim.

— Olha aqui, senhor lorde-sou-bom-demais-para-cuidar-da-minha-filha, eu não estou com paciência para discutir uma única sílaba com o senhor. Se me dá licença…

— Espere! — Darcy se antecipou, se aproximando mais da brasileira, as mãos bagunçando o cabelo em sinal de nervosismo. — Me desculpe. Acho que começamos com o pé errado. Se me permite… Darcy Williamson, à seu dispor.

— Pois eu não estou nada à seu dispor. Com licença! — Elisa deu às costas a ele e saiu pisando firme, até sentir uma corrente elétrica passando por seu corpo quando a mão delicada dele tocou seu cotovelo.

— Senhorita Benedito, por favor, me escute por dois minutos. É sobre Victoria.

Ao ouvir o nome da menina Elisa virou-se para o homem alto que ainda segurava levemente seu braço.

— O que aconteceu com Victoria? Ela fugiu de novo? Eu avisei que se o senhor fosse negligente mais uma vez com a menina eu avisaria à polícia e…

— Ei, calma. Não aconteceu nada. Não com ela. Aconteceu com as outras moças.

— Que outras moças? Perdão, senhor Williamson, mas o Lorde não está fazendo o menor sentido. E confesso que também não estou em melhores condições para acompanhar qualquer raciocínio.

— Darcy. Me chame de Darcy. — Ele pediu.

Elisa o olhou novamente, dessa vez reparou na súplica que o verde dos olhos dele passavam. Lembrou-se de Ludmila. Ela tinha que questionar a aparência dele? Se tinha passado despercebido antes, agora não era mais possível ignorar. E os seus olhos… Havia uma tristeza quase doce neles. Respirou cansada e sentou-se no banco próximo a eles, do lado de fora do restaurante.

—Eu preciso de você, senhorita Benedito. — Darcy falou simplesmente, emitindo um suspiro cansado depois.

O rosto de Elisabeta esboçou expressões nunca antes esboçadas, e Elisa sempre fora uma pessoa de muitas caras e bocas. Sua expressão experimentou o susto, a surpresa, a confusão e, por último, o divertimento.

Então ela riu. E o riso se transformou em uma gargalhada. Deus, ela estava tão cansada. Fisicamente e emocionalmente. Ela estava exausta, e pela primeira vez em semanas — não, em meses -, ela esboçou uma reação genuinamente aliviada.

A neve fina começou a cair e Elisa se deu conta de que havia deixado seu casaco no restaurante, junto com sua última semana de salário. E sua chance de conseguir o visto. O riso em seu rosto foi morrendo, se transformando em uma expressão perdida. Darcy observava tudo em silêncio, sem saber ao certo o que fazer ou falar, sem saber o que estava acontecendo diante dele. Pensou em se aproximar da moça, oferecer seu paletó, sua mão, o que fosse. Mas o barulho dos saltos de Susana deslizando sobre o chão frio veio acompanhado de sua voz, o trazendo de volta para a realidade:

—Darcy, meu querido, o que foi aquilo? Primeiro você não me dá atenção por dias e depois me deixa sozinha no meio de um restaurante finíssimo para correr atrás de… De… Disso! — ela apontou para Elisa com uma expressão próxima a de nojo.

— Susana! — Darcy havia esquecido dela, e agora estava no meio de duas mulheres confusas e que, a julgar pelo rosto de ambas, claramente não gostavam uma da outra antes mesmo de qualquer apresentação. — Eu estava oferecendo à senhorita Benedito um emprego!

Elisabeta quase saltou do banco tamanha sua surpresa. Aquele homem era completamente louco! Ele não fazia sentido nenhum! Talvez não fosse mentalmente são e por isso não notou o sumiço da filha. Pobre Victoria. Emprego? Ele havia falado de emprego? A cabeça de Elisa começava a dar voltas.

—Emprego? — as duas mulheres perguntaram ao mesmo tempo.

—Sim! — Darcy respondeu, como se fosse óbvio. — Victoria se deu muito bem com a senhorita Benedito e eu não pude deixar de pensar que ela é a escolha perfeita para ser preceptora de Vicky! Essa noite mesmo eu estava me perguntando como faria para encontrá-la em uma cidade tão grande como Londres e cobrir qualquer que fosse sua oferta atual de emprego para que ela aceitasse cuidar de Victoria, mas tudo se acertou sem nenhuma dificuldade, porque a senhorita Benedito acaba de perder um emprego e imediatamente ganhar outro! — Darcy respondeu confiante, passando as mãos na cintura de Susana e a guiando de volta para o restaurante — Passe na minha casa amanhã de manhã, senhorita Benedito.

—Espere aí! — Elisa se dirigiu a ele, incrédula. — Não está nada acertado coisa nenhuma. Quem foi que disse que eu quero trabalhar para o senhor?

—Pelo que vejo a senhorita não tem opção melhor. Ou sequer outra opção.

— Lorde. — Susana disse balançando os dedos.

— Perdão? — Elisabeta se voltou para ela.

—É Lorde. L-O-R-D-E-W-I-L-L-I-A-N-S-O-N.- Susana, que observava tudo com desinteresse, os pés batendo no chão, impaciente para ir embora, olhou as unhas e esfregou os braços, pelo frio.

Elisabeta ignorou o comentário da acompanhante do lorde e dirigir-se novamente a ele:

—Pois saiba que o senhor é o último homem para o qual eu trabalharia! — Elisabeta rebateu.

Darcy riu em desdenho:

— Lhe espero amanhã às oito. Victoria ficará muito feliz em vê-la.

E saiu com Susana em direção ao restaurante.

***

Quando Ludmila chegou em casa, às 3 da manhã, Elisa estava sentada próxima à janela do pequeno apartamento que dividiam, segurando uma xícara de chá já frio, de tanto tempo que estava ali, apenas enfeitando a mão da moça.

— O restaurante fechou mais cedo hoje? — perguntou a ruiva enquanto tirava os saltos.

— Fui demitida.

— Ai meu Deus, Elisa, eu sinto muito.

—Tudo bem, eu não ficaria por muito mais tempo em um local com aquele tipo de cliente.

—Me conte, o que aconteceu?

— Eu nem sei direito, Lud. Uma confusão com o primeiro-ministro. Eu nem lembro se cheguei a falar algo em voz alta, acho que ele simplesmente se incomodou com meu olhar acusador pela forma como ele estava destratando a esposa.

—Eu também seria demitida se visse um idiota destratando uma mulher, porque claramente não deixaria barato.

— Pois é. E o pior de tudo é que acabei saindo sem o pagamento dessa semana, e estou novamente desempregada.

— Ai, minha amiga. Mas logo você arruma outra coisa, você é competente demais para ficar parada. E, se Londres não tiver nada de extraordinário para oferecer à mulher extraordinária que é Elisabeta Benedito, então você pode voltar comigo para São Paulo e assumir a gerência da fábrica ao meu lado.

— Nem eu nem você queremos voltar ao Brasil agora, Lud.

— Eu sei, mas talvez eu não tenha alternativa.

As duas amigas sentaram-se no sofá, tristes e cansadas. Elisabeta deitou a cabeça no ombro de Ludmila e ficaram em silêncio vendo a neve fina cair. Elisa sentiu saudades de casa. Especialmente de Jane e de seu pai. Aquele era o tipo de coisa que a faria correr para um dos dois, seus melhores amigos e confidentes.

— Lud, lembra do lorde arrogante? O tal senhor Darcy Williamson.

A ruiva arqueou a sobrancelha e um riso discreto surgiu em seu rosto.

—Sim…

— Ele estava lá. No restaurante. Veio atrás de mim todo debochado e me ofereceu um emprego todo cheio de certeza de que eu aceitaria. Prepotente.

— O que? Darcy Williamson lhe ofereceu um emprego? E você está aí reclamando que não tem como pagar as contas?

— Eu não aceitei, óbvio. Quem ele pensa que é? Pro inferno com toda aquela prepotência dele! Veja bem se estou tão desesperada assim! Na verdade, estou. Mas é muito indelicado da parte dele usar isso ao seu favor dessa maneira. Um idiota arrogante, é o que ele é.

— Elisa, Elisa… Que tipo de emprego ele ofereceu? Algo nas empresas Williamson?

— Um serviço de babá, Ludmila. Babá! Está vendo o que estou falando? — Ludmila fingiu tossir para esconder o riso, mas ele já havia chegado a seus olhos — Não ria! Está vendo como é humilhante? Ele disse que estava disposto a me pagar mais do que qualquer outro emprego que eu tivesse para cuidar da filha dele, mas como não tenho emprego algum agora ele acha que pode me pagar qualquer mixaria. Para fazer um trabalho que deveria ser dele!

— Você deve ter entendido errado.Não deve ser exatamente um cargo de babá. Deve ser algo mais como governanta. Ou talvez preceptora.

— Preceptora é apenas um nome chique que usam na Europa para se referir à babá! E eu não teria problema algum em trabalhar como babá, é um emprego digno como qualquer outro, que requer habilidades e conhecimentos bastante específicos, inclusive. E eu até gosto de crianças, dessa em especial. Mas a forma como ele me tratou, arg! Que ódio! Foi humilhante.

— Elisa… Eu não consigo imaginar Darcy Williamson humilhando ninguém. Veja, eu não o conheço direito, devo ter esbarrado com ele uma ou duas vezes na minha adolescência quando ainda frequentava os bailes de mamãe, mas pelo que sei dele, sempre me pareceu um homem muito íntegro e respeitoso, com todos. Inclusive com seus funcionários.

— Ora, Ludmila, de que lado você está? — questionou Elisabeta, cruzando os braços sob o peito, numa cara emburrada.

— Do seu lado. Do lado de quem quer que você consiga um emprego que pague bem.

— Você nem sabe quanto ele vai me pagar.

— E você sabe?

— Não.

— Com certeza não será pouco, Elisa. Ele tem posses. E ele disse especificamente que queria você. — Elisa tremeu ao ouvir essas palavras, pois foi exatamente o que saiu da boca do lorde. — E você mesma disse que gosta da menina.

— Gosto mesmo. E se, apenas se, eu aceitar esse trabalho, será unicamente por Victoria. Agora, se me dá licença, eu vou tentar dormir. Boa noite, Lud.



***

Elisabeta quase desistiu por várias vezes na manhã seguinte ao ocorrido. Quase desistiu após vestir as três camadas de roupa para sair no frio e pegar o trem até Kensington Gardens. Quase desistiu quando quase foi atropelada por um esquilo na saída da estação e quase desistiu segundos antes de bater na porta da casa dos Williamson.

Uma moça loira e muito bonita abriu a porta e sorriu simpática para Elisa:

—Pois não?

—Bom dia. Eu...Eu estou procurando o lorde...

—Elisa!!!! — um corpinho pequeno se chocou ao de Elisabeta em um abraço desengonçado na altura de sua cintura.

—Ah, então você é a famosa Elisa! — cumprimentou a moça — Entre, fique à vontade. Eu sou Charlotte, tia de Victoria. E é um prazer finalmente conhecê-la.

— Elisa, o que você está fazendo aqui? Veio brigar com meu pai de novo? Mas ele não fez nada errado dessa vez…

— A senhorita Benedito é minha surpresa para você, Vicky! — a voz de Darcy preencheu a sala e Elisabeta não pôde evitar virar em sua direção. — Bom dia, senhorita Elisabeta. Fico feliz que tenha aceitado o meu convite.

— Se é assim que você prefere chamar… — Elisa falou baixo, mas não o suficiente para não ser ouvida por Charlotte, que sorriu discretamente. — Estou aqui por Victoria.

— Que bom. É exatamente por ela que estou fazendo isso. Filha — o lorde se abaixou diante da filha para falar com ela na mesma altura — A senhorita Elisabeta será sua nova preceptora. Espero que agora esteja do seu gosto.

— Eu adorei, papai! Obrigada! — A menina o abraçou, deixando Darcy sem reação no início, mas logo retribuindo o abraço com mais força do que deveria. Era a primeira vez em um ano que ela tomava a iniciativa. Charlotte observava a cena comovida, já com a certeza de que ela e a famosa Elisabeta seriam grandes amigas. — Eu posso mostrar meu quarto pra Elisa, pai?

— Agora não, filha. Antes eu preciso conversar com a senhorita Benedito sobre algumas coisas importantes. Mas logo logo ela irá lhe encontrar no seu quarto, tudo bem? Espere lá com sua tia.

A menina e a tia saíram contentes rumo ao andar superior, enquanto Darcy guiava gentilmente Elisa até seu escritório. Ele pôs a mão nas costas dela apenas como um direcionamento, mas arrepios passaram pelo corpo de ambos sem nenhum aviso.

— Sente-se. — ele apontou para a cadeira à sua frente.

— Estou bem assim.

— Pois bem, como preferir. Precisamos acertar seus horários e pagamento. Suas funções devem envolver a completa tutoria e supervisão de Victoria. Cinco horas de aulas por dia, envolvendo matemática, história, geografia, inglês e português. Inclusive fiquei muito feliz quando Victoria me disse que a senhorita era brasileira, pois eu estava mesmo querendo que ela voltasse a praticar a língua. A senhorita domina áreas como música e desenho ou devo contratar professores por fora? Bordado? Pintura? Francês? Entendo se estiver além de suas habilidades, nunca conheci de fato meia dúzia de mulheres que fossem verdadeiramente prendadas.

— Me admira que conheça uma única criatura que domine todas as habilidades que o senhor considera imprescindível, gostaria de ser apresentada a esta criatura divina.

— Perdão?

— Eu sei um pouco de piano, mas não creio que minhas habilidades estejam no nível esperado pelo senhor.

— Faremos um teste a princípio. Se encontrarmos necessidade de um professor externo então conversaremos sobre isso futuramente. Pode ficar conosco das 8 às 5 da tarde? Mas espero poder contar com a senhorita caso precise de alguém para cuidar de Victoria em noites que eu tiver algum evento para comparecer, apesar de não ser nada afeiçoado a festas.

— Por mim parece tudo ótimo. Estou liberada?

— Quase. A senhorita não quer saber o seu salário? — Darcy então entregou um número no papel que fez com que Elisa arregalasse os olhos.

— Por ano?

— Por mês. — Darcy bagunçou o cabelo. Elisabeta reparou que era a terceira vez que ele fazia isso em sua presença. Era quase fofo. Quase. — Não está o suficiente? Podemos negociar…

— Não, está ótimo, Lorde Williamson. E se o Lorde não ficar no meu caminho, nos daremos bem. Posso ir agora?

— Sim. A senhora Smith lhe guiará até o quarto de Victoria e também indicará os seus aposentos. Para guardar suas coisas e… Bem, será de seu uso pessoal quando necessário.



As primeiras semanas de Elisabeta como preceptora seguiram de forma muito tranquila. Victoria era uma menina muito esperta e carinhosa, que precisava apenas ser mais estimulada após passar tanto tempo sem acompanhamento algum nas lições. No geral, era uma menina que gostava de ler e aprender, e possuía uma ótima aptidão para música. Elisa suspeitava que Victoria estivesse contendo-se ao piano, para não humilhar a preceptora no instrumento. Talvez realmente fosse melhor contratar um professor, ela falaria com Lorde Williamson sobre isso depois. Mas para ela, a maior questão de Victória era emocional e não intelectual. Ela era fechada, quieta e… preocupada? Não sabia dizer. Por mais que ela estivesse se abrindo com Elisa cada dia mais, sentia que a menina não se comportava como uma típica criança feliz de 7 anos de idade.

Quanto a Darcy, bem, ele costumava sair logo após a chegada dela e voltar somente para o jantar, depois do horário de Elisabeta. No entanto, aquela já era a quinta vez, em duas semanas, que Elisa jantava com eles. Victoria costumava pedir para que ela ficasse mais um pouco, até o pai chegar, e quase sempre Elisa cedia, afinal não era sacrifício nenhum, pelo contrário, adorava a companhia da menina. O pai, para completa surpresa de Elisabeta, estava se mostrando mais agradável do que ela jamais imaginou que seria possível. Sempre perguntava sobre o dia das duas, ouvia sobre as lições e, vez ou outra, até praticava português com Victoria à mesa.

Naquela noite, Darcy chegou um pouco mais tarde do que o normal. Tirou o paletó e o apoiou em uma cadeira da sala de estar,dirigindo-se até a sala de jantar. Elisa e Victoria conversavam animadamente à mesa.

— E você gostou de crescer no Vale? Deve ser legal ter uma irmã, imagina quatro!

— É muito bom, sim. Nosso pai construiu uma casa na árvore para que pudéssemos brincar sempre, era muito divertido. Hoje a casinha é mais da minha irmã Cecília do que de qualquer outra, mas todas nós temos memórias lindas dela.

— E seu pai lhe ensinou a construir uma casa na árvore? A gente podia tentar. Fiquei com vontade de ter uma também, e tem tantas árvores no jardim.

— Eu não sei se seu pai iria gostar que você brincasse em uma casa na árvore, Vicky.

— Eu iria gostar se ele fosse brincar lá comigo, como ele fazia quando eu era menor. Ele sempre brincava comigo.

Aquela era uma ferida antiga, mas doía toda vez de um jeito diferente. Pensar que sua filha sentia sua falta. Ouvi-la dizer isso. Darcy queria que as coisas voltassem a ser como antes, mas não sabia como. Ele vinha tentando se reaproximar de Victoria cada vez mais, mas às vezes parecia que eram passos tão pequenos, que mal conseguia enxergar.

— Papai, o senhor chegou! — Victoria finalmente o notou escondido na entrada da sala de jantar e ele sorriu constrangido ao ser pego ouvindo a conversa por Elisabeta.

— Agora que seu pai já chegou eu vou para casa, Vicky. — disse Elisa já se levantando da mesa.

— Não, por favor, termine de comer. — Darcy interrompeu. — Quero ouvir sobre o que aprenderam hoje. — Ele puxou uma cadeira ao lado da filha e sentou-se. Não era seu lugar comum, mas decidiu arriscar o gesto.

— A Elisa tava me contando das irmãs dela. Ela tem cinco. Estão todas lá no Brasil. No Vale… Vale o quê, Elisa?

— Vale do Café.

— Isso, Vale do Café. E ela disse que o pai dela construiu uma casa na árvores para elas. Eu posso ter uma casa na árvore, papai?

Darcy olhou para Elisa e os verdes dos olhos de ambos se encontraram no meio, numa expressão desconhecida pelos dois. Antes que Darcy pudesse responder à filha, Susana entrou na sala.

—Ainda estão jantando? Victoria não deveria estar na cama a essa hora? E essa moça está jantando com vocês? Darcy, querido, o que está acontecendo aqui? Não interessa. Elionete, querida, você pode levar Victoria para o quarto já que ainda está aqui? Preciso conversar com o pai dela.

Elionete. Ridícula. A tal Susana era uma cobra peçonhenta e ridícula. Não era a toa que Victoria não gostava dela. Elisa respirou fundo e segurou na mão de Vicky em direção as escadas.

—Eu realmente não gosto dela. — Victória falou ao chegarem no quarto.

—Mas ela é a namorada do seu pai, e você precisa ser legal com ela. E eu preciso ir.

—Queria que você pudesse passar a noite aqui. Poderíamos fazer uma festa do pijama, como você fazia com as suas irmãs!

—Ou nós podemos ir no parque onde você possa fazer amigas da sua idade e então nós organizamos uma festa do pijama. — Mas Victória foi até a cama, deitou e apagou o abajur.

—Boa noite, Elisa.

—Boa noite, Vicky.

Descendo as escadas, ela escutou Lorde Williamson e Susana discutirem, mas não estava interessada. Aproveitou sua deixa e foi embora.