Acordo Perfeito
24 Capítulo 23
Notas iniciais
Os meses passaram com tranquilidade e rapidez na casa dos Williamson. Brianna ainda tentou incomodar pelas duas primeiras semanas, mas depois desapareceu. Em uma visita à Elisabeta, Cora deixou escapar — bem propositalmente e em um tom absurdamente divertido — que a ex-mulher de Darcy estava procurando emprego como dama de companhia nas cidades vizinhas, e não estava obtendo muito sucesso.
A gravidez de Elisa foi recebida com muita alegria não só por Darcy e Victoria, mas também por todos os funcionários da mansão. Matilda estava radiante, sempre disposta a realizar os mais diversos — e esquisitos — desejos da patroa relacionados à comida. O antigo quarto de Elisabeta, recém-reformado passara por outra reforma, agora todo em tons claros de azul para receber o novo bebê. Cada móvel e item de decoração foi pensado com muito carinho pelos pais e, claro, pela irmã. Victoria torcia para que fosse uma menina, já havia sugerido diversos nomes. Elisa gostava de Alice; Darcy de Georgiana, mas Vicky fazia uma firme campanha a favor de Catherina, ou a pequena Cat-Cath, como ela gostava de chamar. Mas, no fundo, com todo o seu instinto materno, Elisabeta podia jurar que era um menino, e ela torcia, nem tão secretamente assim, para que ele fosse uma perfeita cópia do pai.
Com a gravidez, a reforma do quarto, o enxoval e todos os preparativos para receber o novo bebê, Darcy e Elisa optaram por contratar uma nova professora para Victoria. Laura era filha de portugueses, e apesar do seu português ser um pouquinho diferente do brasileiro, ela se saía muito bem no ensino da língua, bem como das outras disciplinas. Elisa ainda ensinava literatura e geografia, que sempre foram suas matérias preferidas desde menina, mas agora, com mais tempo livre, ela podia focar na escrita do seu romance. Os Williamson ainda se reuniam todas as noites na sala rosa para ler um livro juntos. Eles já haviam lido mais livros do que Victoria conseguia lembrar, e, por isso, a menina passou a escrever todos os títulos e seus comentários sobre cada obra em uma espécie de diário de leitura.
Cora passou a frequentar ainda mais a casa dos Williamson, o que era uma alegria para Victoria, por ter a amiga Emma sempre por perto, mas também para Elisa, que tinha não só companhia para conversas realmente interessantes, mas também uma frequente ajuda e dicas sobre gravidez. Ela sentia falta da mãe e das irmãs, principalmente de Jane, pois havia descoberto que a irmã engravidara pouco tempo depois dela, e desejou que as duas pudessem dividir os prazeres da gestação. Ter Cora por perto amenizava a saudade.
Emma, Victoria e Lucy estavam mais inseparáveis do que nunca, e todas as vezes que Elisa as via brincando e cochichando ela novamente lembrava-se das irmãs, em como o lema das Benedito era “inseparáveis, inabaláveis e insuperáveis”. A lembrança sempre a fazia rir. Às vezes a faria chorar de saudade. Deus, a gravidez a estava deixando tão sensível! Mas parecia que, de alguma forma, os hormônios da gravidez também trabalhavam em Darcy, o que tornava a gestação ainda mais encantadora. Darcy sempre fora carinhoso, preocupado e presente, mas ele parecia sentir o mesmo que Elisabeta. Passava horas acariciando a barriga da esposa sempre que tinha oportunidade, conversava com o bebê — que adorava sua voz e sempre mexia e chutava, fazendo pai e mãe sorrirem bobos em meio à lágrimas de felicidade -.
E ali estavam eles, em mais um momento de carinho e devoção ao bebê. Darcy havia chegado do trabalho ainda mais cedo naquela tarde — seu expediente na empresa estava ficando cada vez menor e Elisabeta suspeitava de que o próximo passo seria ele tirar férias até o bebê completar quinze anos — e encontrou Elisa sentada no sofá do quarto com os pés um pouco inchados. Imediatamente Darcy desceu até a cozinha e pediu que a Srta Smith — em breve Sra. Hernandez — preparasse um banho relaxante para a esposa. De volta ao quarto ele caminhou até Elisa para um beijo demorado e carinhoso; ajoelhou-se diante do pequeno sofá e começou a fazer massagem nos pés dela. Elisabeta fechou os olhos e aproveitou o momento.
—Você é mesmo de verdade? — Ela perguntou com os olhos ainda fechados, em meio a um gemido de prazer.
—Está tão bom assim? — Darcy perguntou travesso.
Ela abriu os olhos e admirou o marido, ele sempre fora tão sexy assim? A barriga de sete meses atrapalhava um pouco, mas eles sempre conseguiam encontrar uma forma de se perder um no outro.
—Com você é sempre muito mais do que bom. — Foi a vez dela retribuir o sorriso em meio a frase de duplo sentido.
—A senhora não me tente, senhora Williamson.
Nesse minuto, a Srta Smith bateu na porta entreaberta:
—Sr. Darcy, o banho está pronto.
—Obrigado, Mary.
—Dia cansativo no trabalho hoje a ponto de tomar um banho com sais na banheira?
—Sim. E minha linda esposa vai comigo.
Dito isso, Darcy ergueu Elisa nos braços em um gesto rápido, a fazendo gritar. Já no banheiro do casal, ele despiu a esposa, bem devagar. Aquilo era quase uma tortura para Elisabeta. Ele a colocou na banheira e, após se despir rápido demais, juntou-se a ela.
Sentado atrás da esposa, Darcy acariciava a barriga, enquanto beijava o pescoço de Elisa.
—Por que nunca fizemos isso antes? Agora vamos precisar recuperar o tempo perdido. — Ele falou próximo ao ouvido dela.
—Este definitivamente é um sacrifício que estou disposta a fazer por você.
—Um sacrifício, é? — Ele mordeu o lóbulo da orelha dela. — Elisabeta, Elisabeta…
Eles passaram longos minutos se tocando, entre beijos e mordidas. Era relaxante, e ao mesmo tempo excitante.
—A casa está silenciosa demais…- Darcy comentou em um sussurro. — Victória não está?
—Ouvi Matilda a chamando para alimentar os patos no parque. Acho que ela ficou com pena de mim.
—Hmm…- Darcy voltou a mordiscar o lóbulo de Elisa — Então vamos aproveitar essa calmaria. Depois que o bebê nascer ela se tornará muito rara. E estou ansioso por isso.
—Torça para seu filho se parecer com você em tudo, porque se ele se parecer ao menos um pouquinho comigo não teremos sossego nunca.
—Eu amo o fato de você nunca me dar sossego.
—Darcy!
***
Thomas Benedito Williamson nasceu numa tarde ensolarada, o que era raro em Londres. Matilda disse que ele era o próprio sol, que veio para iluminar a todos, e por isso havia nascido loirinho, como as tias Jane e Charlotte. Victoria não saiu do lado da mãe e do irmão pelas três semanas seguintes. E, por conta disso, Emma e Lucy acabaram se juntando à amiga. Elisabeta nunca imaginou que reclamaria por ter tantos pares de mão ajudando. Enquanto amamentava o filho, que era um menino pequeno, lindo e muito calminho — ele havia puxado ao pai, graças a Deus — Elisa agradeceu por Thomas já ser tão amado.
Quando Tom completou seis meses, Elisabeta sugeriu que todos fossem passar uns dias em Pemberley. Afinal, ela ainda não havia conhecido a propriedade, e Dr. Watson afirmou que os ares do campo fariam bem ao bebê. Então, eles partiram. Mary aproveitou sua folga para finalmente casar-se. A sra. Hudson, a antiga babá de Victoria, já era uma senhora de idade, mas encontrou forças para erguer e rodar a menina no ar, tamanha sua alegria em revê-la. Ficou maravilhada com o pequeno Thomas e passou os dez primeiros dias sem parar felicitando Darcy pela linda família.
Numa tarde de sol, estavam os quatro sentados no jardim, em um piquenique com direito a pano xadrez, quando Darcy surpreendeu a todos com uma pergunta à Elisa:
—Elisabeta Benedito Williamson, eu te escolheria de novo e de novo e para sempre, todos os dias de minha vida, e para além dela. Você aceita se casar comigo?
Era o momento perfeito. O cenário perfeito. O sentimento perfeito. Parecia que todo o universo havia se organizado e se preparado para aquilo. Eles já eram casados, mas não haviam escolhido o matrimônio pelos motivos corretos. E ali, em sua casa de campo — que era um de seus lugares preferidos em todo o mundo -, diante da linda família que ele e Elisabeta construíram, ele sentiu que era o momento perfeito para fazer o que ele já estava planejando há algum tempo. Faria de Elisabeta sua esposa novamente, e dessa vez pelo motivo certo, o único que deveria guiar todo e qualquer casamento: o amor.
Victoria e Elisa olhavam para Darcy com uma expressão engraçada, e era incrível como elas se pareciam, mesmo não tendo nenhum laço de sangue as unindo, e começaram a rir.
—Papai, você e a mamãe já são casados, bobinho. — Victoria lembrou.
—Não começamos do jeito certo, e agora quero fazer isso. Case-se comigo novamente, Elisabeta. Aqui, em Pemberley. No lugar em que eu imaginei meu casamento dos sonhos. Você caminhando até mim guiada por seu pai, suas irmãs e cunhados no altar como padrinhos, Victoria levando as alianças. Diga sim, meu amor.
—Diz sim, mamãe! Sim!
Darcy e Victoria olhavam para Elisabeta com a expectativa saltando dos olhos. Thomas chupava seu próprio dedo, totalmente alheio ao mundo, como se não estivesse presenciando um pedido de casamento de seus pais.
—Mamãe?? Deus, eu acho que vou cair durinha aqui se a mamãe demorar mais.
Darcy e Elisabeta riram.
—Você está igualzinha a sua avó, mocinha! — Elisabeta apertou o nariz da filha e então olhou para o marido, lágrimas ameaçando cair. -Meu amor, você faria isso? Trazer toda minha família?
—Mas é claro, Elisa. E você precisa saber, Elisabeta, que tudo que fiz e faço, é por você.
Elisa segurou as mãos do marido entre as suas.
—Darcy Williamson, minha paixão, eu te escolheria de novo e de novo, para sempre, por todos os dias da minha vida, pois sem você não sou mais eu. Sim, eu aceito casar com você. Mais uma vez.
Victoria agarrou o irmão e pulou com ele no colo. Elisa enxugou as lágrimas e Darcy se aproximou da esposa, ainda de joelhos.
—Se me permite… — Ele indicou a aliança na mão da esposa, e ela riu, a entregando a ele. — Eu amo você, minha esposa. Sinto muito não ter comprado um anel novo.
—Eu não preciso de nada novo, estou muito satisfeita com o que já tenho.
—Eu ficaria satisfeito com mais um filho novinho em folha.
—Darcy Williamson! Nós acabamos de ter um! — Ela tomou Thomas do colo da irmã — Que é muito lindo e cheiroso e perfeitinho! — Então ela puxou Victoria para o abraço — Perfeitinho igual a irmã dele, que é a filha mais perfeita que eu poderia ter!
***
Darcy nunca comprendera bem o porquê das pessoas pagarem quantias absurdas em obras de arte. Mantê-las emolduradas dentro da própria casa, longe dos olhos do mundo. Mas quando ele viu Elisabeta caminhar em sua direção, em seu lindo vestido branco com detalhes em renda vermelha, guiada pelo homem incrível que a criou, ele quase entendeu. Elisabeta Benedito era uma obra de arte. Perfeita. Pensada e criada nos mínimos detalhes. Com traçados firmes e certeiros. Um brilho descomunal. Ela poderia perfeitamente estar emoldurada e exposta em grandes museus. E ele quase sentiu-se culpado por tê-la dentro de casa. Mas percebeu que então não seria Elisabeta Benedito. A mulher que nasceu para o mundo. Que o conquistou com sua força e garra; com sua língua ferina e sua coragem de enfrentar engomadinhos ricos no meio da noite fria e megeras mentirosas em um tribunal. Elisabeta Benedito era a mais pura arte. E estava ali, entregando-se a ele, mas também ao mundo.
Certa vez, ela havia deixado escapar para ele, depois de uma noite de amor, que sempre pensara no casamento como uma prisão. Ele riu e a beijou com todo o amor que possuía no peito. Pois o casamento com Elisabeta o tornou livre. Livre de toda e qualquer obrigação, livre de sentimentos ruins que o causava angústias. Livre da culpa por achar que havia fracassado como marido e pai. Naquela noite, ele desejou que ela sentisse o mesmo. Teve medo de que ela se sentisse presa com ele; presa a ele. Mas logo ele percebeu que Elisabeta era capaz de se libertar de qualquer prisão, e que se ela estava com ele, é porque o havia escolhido. Então ele sentiu-se honrado, sentiu-se o homem mais sortudo do mundo. E agora, quando ele recebia Elisabeta das mãos do pai, sorrindo emocionada para ele, ele soube que era, de fato, o homem mais sortudo do mundo.
Dona Ofélia chorava abraçada ao pequeno Thomas no primeiro banco. Uma olhada rápida e era possível perceber cada um dos presentes chorando — mesmo que as crianças estivessem chorando por motivos diferentes de emoção -. E não havia muitos presentes, pelo menos não quando comparado ao primeiro casamento. Mas, todas as pessoas ali presentes haviam feito parte da história individual e como casal de Darcy e Elisabeta. Ofélia e Felisberto. Jane e Camilo. Cecília e Rômulo. Mariana e Brandão. Lídia e Randolfo — o rapaz já havia pedido a caçula dos Benedito em casamento três vezes e nada de Lídia aceitar, mas insistiu em levá-lo ao casamento da irmã pois não admitiria ser a única madrinha sem um par apropriado. Charlotte. Ludmila. Cora e Emma. Charles e Amelie. Rogers. Matilda. Até mesmo Theodore. E, principalmente, Victoria. O elo fundamental dessa união. E Thomas, o primeiro de muitos frutos desse amor. Agarrado à mão de Elisabeta, Darcy contemplou seu presente e também o seu futuro, que era cristalino como as águas da cachoeira do Vale do Café, onde ele e Elisa se amaram mais de uma vez. O futuro dos Benedito-Williamson seria avassalador. E mais bonito jamais poderia haver, pode acreditar.
FIM
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