A festa de casamento aconteceu na fazenda Bittencourt. Elisabeta olhou ao redor. Antes dela se mudar para Europa, aquela era fazenda Menezes de Albuquerque, de um velho fazendeiro que vivia sozinho. Ele era velho desde que ela nasceu, e a fazenda sempre foi austera, quase proibida. Ele odiava crianças e as meninas costumavam acreditar que ele era um vampiro. Tinha sido, é claro, ideia da Cecília, mas o boato acabou se espalhando pelo Vale. Além dos desafios, no início da adolescência, que a fizeram atravessar as cercas, nunca havia entrado lá. E estava tudo muito bonito, elegante e ao mesmo tempo simples. Delicado. Flores brancas, fitas azuis. Era tudo tão Jane! Desejou ter estado ali para ajudar. Desejou que o seu casamento com Darcy tivesse sido assim. Darcy apareceu do seu lado e segurou sua mão. Quando seus olhos encontraram os dele seu coração se aliviou. Tudo bem. Não importava como havia sido a cerimônia. Não importava se os livros acabam no dia do casamento. Ela sabia que o romance começava mesmo depois.

—No que esta pensando? — Ele perguntou.

—Em como eu tenho sorte. De estar em casa. De estar aqui com você. — Ele abriu um pequeno sorriso. — E você?

—No quanto você combina com este lugar. Fica até mais bonita aqui. — Victoria, que estava mais calada, perguntou por fim.

—Você disse que agora é outono aqui.

—Sim. — Elisa e Darcy falaram ao mesmo tempo.

—Mas está mais quente que no verão. — Ela parou e pôs um dedo no rosto. — Aqui é um verão sem fim?

—Faz um pouco de frio no inverno, mas nada como em Londres. Não neva.

—Nunca?

—Nunca.

—Que fantástico!

Elisa sorriu para Darcy e eles caminharam até os jardins dos Bittencourt, onde as mesas estavam sendo ocupadas por velhos conhecidos. Ela parava em cada mesa, cumprimentava, apresentava Darcy. As pessoas ficavam espantadas, depois a parabenizavam. Darcy estava ficando tonto. Dona Ágatha, Xavier, Nicoleta, Luccino… Ele não lembraria de metade daquelas pessoas. Victoria, entretanto, estava radiante. Toda vez que Elisa a apresentava como sua filha, pedia para que ela exibisse seu português ou inglês, “perfeitos” segundo Elisa, ela abria ainda mais o sorriso e empinava o queixo. Quando eles finalmente chegaram a mesa dos Benedito, Elisa se jogou na cadeira. Darcy e Victoria se sentaram com uma postura perfeita. Ofélia sorriu.

—Ara, casei uma filha, mas sinto como se tivesse casado foi duas. Dois coelhos com uma cajadada só. — Elisa sorriu, mas Ofélia logo a corrigiu. — Agora senta direito, Elisabeta. Isso lá são modos de uma mulher casada?

—Ofélia, deixa a menina… — Felisberto interviu. Elisa olhou para eles com tanto amor que quase os abraçou. Ofélia revirou os olhos e se voltou a Darcy.

—Agora me conta do senhor. O que o senhor faz lá nos estrangeiros? — Felisberto também encarou Darcy. Eles realmente não sabiam nada sobre o genro.

—Bom, eu tenho uma empresa de construção civil. Além de administrar as propriedades da família. — Darcy sorriu. Mas Victoria, que entre os Benedito aparentemente se sentia confortável, — agora que sabia que vovó Ofélia não havia desmaiado por não gostar dela, e sim por ficar muitíssimo feliz com a notícia do casamento — completou.

—Tem aquele lugar das leis também, que o papai vai todo mês. E é sempre chato porque a gente não pode ir e ele demora um dia inteiro.

—Leis? — Felisberto o encarou curioso. — O senhor é advogado?

—A câmara dos lordes é mais uma obrigação do que uma ocupação. — Darcy respondeu.

—Lordes? — Felisberto, Ofelia, Lídia e Mariana falaram ao mesmo tempo. Apenas Cecília e Rômulo não falaram nada, mas ela olhou para Elisa com uma sobrancelha levantada. Ela deu de ombros.

—É o que acontece quando se é um conde. — Foi a vez dele dar de ombros, um pouco sem graça.

—Conde? — Os Benedito falaram, mais uma vez em uníssono. Victoria gargalhou. Darcy se virou para Elisa.

—Você não disse a eles que eu era um conde?

—Eu não disse nem que tínhamos nos casado, meu amor, lembra? — Ela riu.

—Então isso faz da Elisa uma condessa? — Mariana perguntou, mas havia uma certa convicção em tudo que ela falava e Darcy sentiu que era mais uma afirmação.

—Sim, Condessa de Pemberley. — Ele respondeu beijando a mão da esposa.

—Uau. — Cecília e Lídia falaram juntos. E Cecília continuou. — Minha irmã, a condessa. Parece coisa de livro, Elisa!

Elisabeta revirou os olhos, mas Ofélia estava sem palavras.

—Então o senhor é rico! — Ela disse por fim, numa afirmação.

—Bem, gosto de pensar que temos uma boa condição financeira. — Darcy deu de ombros.

—Isso é coisa que só gente rica fala, mamacita. — Ela se virou para Elisa. — Quantos quartos tem na sua casa, Elisabeta? — Elisa fez uma careta e olhou para Darcy que também fez uma interrogação.

— Uns dez, talvez.

— São nove, mamãe, na de Londres. Em Pemberley, eu não sei. — Victoria comentou, ansiosa para ser incluida na conversa.

— Vocês tem duas casas? — Lidia perguntou. — E não sabem quantos quartos tem na outras.

— Vá nos visitar, Lidiazinha, aí você poderá contar os quartos você mesma. — Elisa respondeu, divertida.

— Sério? — Lídia olhou para eles, com as mãos na mesa, o corpo inclinado.

— Claro. — Darcy concordou. — Você pode ficar quanto tempo quiser conosco.

— Posso ir, mamacita? Diz que sim, diz que sim. Vai que eu arrumo um marido bonitão e inglês que nem o Darcy?

— Depois vemos isso, Lídia. — Felisberto cortou, olhando para a filha e o genro com atenção.

— Vocês todos estão convidados. Podem ir nos visitar quando quiserem. — Nesse momento, Jane e Camilo chegaram e se sentaram com eles. Victoria abriu um sorriso gigantesco para Jane, que a chamou com as duas mãos. A menina levantou e foi se sentar no colo de Jane. Darcy e Elisa ficaram olhando, sorrindo.

— Me conte tudo, como está sua vida em Londres, princesa? — Jane perguntou, passando a mão nos cabelos de Victoria. Então a menina começou a contar, animadamente, sobre o fato de que tem duas amigas agora, que o balé estava mais legal, das músicas que aprendera no piano.

— Tia Jane, quando você e o tio a Camilo vão para Londres de novo? A gente está querendo ir para Pemberley, aí você poderia ir com a gente. A mamãe já chamou a tia Lídia também. Ela parece divertida. — Victoria falou com a inocência de uma criança e Lídia, que estava saindo da mesa para dançar com um soldado gritou para Mariana.

— Ha! Tia Lidia. TI-A-LI-DIA. — Mariana fez um muxoxo. Ela deu um beijo em Victoria antes de deixar a mesa.

— O que eu perdi? — Darcy perguntou a Elisa.

— Victoria chamou Mariana de Dona Mariana, enquanto a Jane e a Cecília ela chamou de tia.

— Desculpe. — Ela virou para mariana. — A senhora pode ser inti.. Inti… — Ela olhou para os pais sem conseguir terminar a palavra. Então suspirou e disse em inglês. — Scary.

— Intimidadora. — Elisa olhou para ela, dizendo a palavra que ela buscava. Mariana tinha os braços cruzados, enquanto o seu acompanhante, o Coronel Brandão ria e concordava com a pequena.

— Pois saiba, senhorita, que para você é Tia Mari. No maximo, tia Mariana.

— Está bem. — Victoria concordou. — Você me deixa andar na sua motocicleta? — Ela olhou empolgada, mas logo depois se arrependeu, pois viu o rosto de Mariana ficar branco e arregalar os olhos, enquanto Ofélia e Felisberto, ambos se viravam para filha.

— Que historia de motocicleta é essa, Mariana? — Ofelia disse por fim.

— Não sei do que você está falando.

— Victoria acabou de pedir para andar na sua motocicleta. E minha neta não mente. Agora vai desembuchando, anda logo. — Mariana suspirou.

— Eu falei algo errado? — Victoria olhou para Jane, com seus grandes olhos azuis enchendo de lágrima. — Desculpa, tia Mariana. — Mariana, vendo ali a sua deixa, deu um pulo da cadeira.

— Olha só o que você fez mamãe, agora a Vicky está chorando. — Ela foi até Jane, e pegou a menina no colo. — Venha meu bem, vamos roubar uns bem-casados da mesa de doce.

E assim, ela saiu da mesa, sem dar explicações. Coronel Brandão pediu licenças e saiu logo em seguida.

—Felisberto, Felisberto, essa menina vai acabar com qualquer cabelo escuro que eu ainda tenha. — Ela se virou para Elisa. — Porque os outros a senhorita deixou tudo branco.

—É senhora agora, mamãe. — Ela balançou a mão com a aliança. Ofelia pegou a mão da filha, um sorriso orgulhoso no rosto.

—Ara, tão bonita. O senhor, meu genro, arrasou. — Ela olhou para a mesa, onde estavam Cecília, Jane e Elisa, com seus respectivos maridos.

—Minhas número um, três e quatro casadas. Bem casadas! — Ela sorriu. — Agora vamos para o que realmente interessa: os netos. — Cecília arregalou os olhos e Jane disse:

—Acabei de casar mamãe.

—Pois tratem de providenciar um herdeiro loiro o quanto antes. — se virou para Cecília e Rômulo. — Vocês dois estão me enrolando. Quase um ano casados..

—Estamos tentando, Dona Ofélia. — E piscou para sogra. Cecília corou.

—Rômulo!

—E vocês. — Ela apontou para Elisa e Darcy. — Por hora vocês estão livres, desde que deixem a menina aqui comigo uns meses. Está magrinha demais. E ela é séria demais. Aposto que nunca brincou na lama. — Ela bateu palmas. — Ótemo. Deixem minha neta comigo e voltem para as Europas e providenciem um irmão para ela.

—Mamãe, eu não vou deixar Victoria aqui por meses.

—E por que não? Não confia na sua mãe para cuidar da sua filha?

—Claro que confio, só não existe a menor possibilidade d'eu ficar longe da minha filha.

—Pois fiquem aqui então, não ligo. Ficam todos, a menina também. — Elisa começou a protestar mas Ofélia não estava ouvindo. Se voltou para Felisberto. — Felisberto! Uma criança em casa de novo!

Darcy olhou para esposa que apenas sorria. Desde que eles chegaram no Vale, Elisabeta exibia um sorriso infinito.

—Já que vamos ficar tanto tempo aqui, precisamos de um local. Existem algum hotel na cidade? — Ele perguntou para Elisabeta, mas recebeu seis pares de olhos muito indignados.

—Vocês não vão ficar num hotel. — Camilo disse com convicção. — Meu irmão, vocês vão ficar aqui, conosco.

—Ou na nossa casa. — Cecilia disse. — Adoraria que Victoria ficasse com a gente. — Ela olhou para Rômulo, que balançou a cabeça, concordando.

—Mas de jeito nenhum. — Ofélia bradou. — É claro que vocês vão ficar lá em casa. — virou-se para Elisabeta — Agora com Jane e Cecília casadas, o seu quarto está desocupado. — Felisberto se voltou para Elisa. — Vocês ficam nele, Victoria dorme com Mariana e Lídia.

—Não queremos impor nada, dona Ofélia.

—Não sei como funciona na Inglaterra, Darcy, — Foi Seu Felisberto a intervir — mas aqui, família fica com família. — Felisberto sorriu. — E Victoria fica conosco. — Ele completou, arrancando um sorriso da esposa.

—Está bem. Casa do Benedito então. — Darcy olhou para Elisa que apenas sorriu e disse:

—Bem-vindo a família.

Eles não viram Victoria o restante da festa. Aliás, até viram: ela correndo com crianças do Vale. Dançando com Rômulo. Sendo entupida de comida por Ofélia. Exibida por Felisberto. Ela estava sempre acompanhada por algum Benedito que a tratavam como a coisa mais preciosa do mundo, e Darcy quis chorar. Ele esperava que fossem ser bem recebidos, afinal tinha conhecido Jane, e qualquer pessoa que tivesse criado ela e Elisabeta seriam boas pessoas. Mas aquilo tinha excedido qualquer expectativa. Eles, em nenhum momento, a trataram como enteada da filha. Aquela era neta deles. A sobrinha delas. Ponto. Sem questionamentos, sem adendos. Tal como Elisabeta, os Benedito eram sinceros, transparentes e diretos ao ponto. Darcy pensava nisso enquanto conversava com o padrasto de Camilo.

—Então estou pensando em vender Ouro Verde.

—Perdão? Eu me distraí um pouco.

—Estava dizendo que com minha filha morando em São Paulo com o marido, Jane e Camilo também, e eu morando aqui com a Julieta, a Ouro Verde é só um peso.

—E Julieta não teria interesse?

—Por incrível que pareça, não. Ela disse que estava um pouco cansada de ser Rainha do Café. Que agora ela passaria tudo a Camilo, e se aposentaria, esperando os netos. Não acho que ela realmente consiga ficar parada, mas… E Ema está bem estabelecida na capital, não pretende voltar ao Vale, sendo assim não faz muito sentido manter a fazenda.

—Eu tenho interesse. — Darcy se pegou dizendo.

—Na fazenda?

—Acho que seria bom para nós termos uma casa aqui. Pode me passar o endereço? Amanhã passo para conhecer.

—Todo mundo sabe onde fica a fazenda. Peça Elisa para levá-lo, será uma honra recebê-los.

—Na verdade, eu queria fazer uma surpresa para ela.

—Bom, sendo assim...

Ao final da festa, Darcy e Elisa voltaram para casa dos Benedito junto com Ofélia, Felisberto e Lídia, já que Mariana foi com Brandão, no carro dele. Victoria estava dormindo no colo de Ofélia, que também cochilava. Quando Darcy e Elisa finalmente foram dormir, na cama que era a junção das duas camas de solteira, dela e de Jane, já era quase meia noite.

—Que dia. — Darcy estava deitado na cama, segurando um livro, mas não o lia realmente. Observava a esposa. Ela passava a mão nas coisas, comentava o que estava diferente, o que um dia pertencera a ela.

—Estava pensando em levar vocês na cachoeira amanhã. E depois no morro. O que acha?

—Eu fiquei de encontrar o padrasto de Camilo amanhã de manhã. Podemos ir a tarde?

—Aurélio? Por que? — Darcy queria mesmo que fosse uma surpresa, mas não era bom em inventar mentiras.

—Ele me perguntou sobre a possibilidade de construir uma ferrovia.

—Aqui no Vale?

—Para escoar o café. — Darcy estava agora inventando uma coisa atrás de outra. — Até o porto.

—Na verdade, acho que talvez seja uma boa ideia. Mas por que ele e não Julieta? Ou Camilo, agora que está começando a assumir os negócios?

—Não sei. Talvez seja porque aqui no Vale as famílias tomem decisões juntos, como tem que ser. — Darcy disse por fim, sorrindo para a esposa. Elisabeta deitou-se, se aconchegando no marido..

—Se você for fazer negócios no Vale, talvez tenhamos que ficar um tempo aqui...

—E isso seria um problema? — Ele perguntou, fazendo carinho na esposa.

—Nunca achei que diria isto, mas, estou tentando encontrar desculpas para ficarmos.

—Bom, podemos procurar algumas. — Darcy beijou Elisa e logo depois eles adormeceram.

No dia seguinte, quando Elisa acordou, Darcy já não estava na cama. Levantou para tomar café e encontrou apenas o seu pai.

—Onde está todo mundo?

—Darcy saiu a pouco, disse que ia encontrar com Aurélio. Sua mãe levou Lídia e Victoria para cidade e Mariana, eu não sei dizer. — Olhou para filha e entregou o jornal. — É bom ter você de volta, filha.

—É ótimo estar de volta, papai. Quem diria!

—E é melhor ainda vê-la assim tão feliz. — Felisberto completou, fazendo um carinho nas mãos da filha.

Depois do café da manhã, Elisa foi visitar Tornado. Ela estava com tantas saudades de seu companheiro de aventuras! O cavalo já estava com uma idade avançada, mas Elisa ficou feliz de vê-lo tão bem cuidado. Levaria Victoria para dar uma volta em Tornado, conseguiria um cavalo para Darcy e os três iriam para a cachoeira, e no final da tarde um piquenique no seu morro. Seria perfeito. Era exatamente disso que eles estavam precisando. De ar puro e paz.

Darcy chegou pouco tempo depois, encontrou a esposa nos estábulos conversando com o animal. Ele observou em silêncio, um sorriso no rosto ao ouvir Elisa atualizando Tornado sobre seus anos na Inglaterra e sua nova família, e o quanto amava seu marido e sua filha. Darcy desejou poder emoldurar aquela cena para olhar sempre. Elisabeta ficava ainda mais linda no Vale do Café, os olhos brilhavam na presença do velho cavalo.

—Entāo este é meu concorrente? Devo me preocupar? — Darcy chamou a atenção de Elisabeta, a puxando pela cintura.

—Como foi com Aurélio? Chegaram a um acordo? — Ela beijou o marido.

—Sim! Estou feliz com meu mais recente acordo.

—Eu fico feliz que agora você tenha negócios aqui no Brasil. É uma excelente desculpa para virmos com mais frequência.

—Não que precisássemos de alguma. Podemos vir sempre que você quiser, meu amor.

—Trouxe seus trajes de banho? Vamos à cachoeira após o almoço.

—Essa roupa não está boa? — Ele apontou para o próprio corpo e Elisa riu.

—Só mesmo Darcy Williamson para ir em uma cachoeira com um terno de três peças.

Victoria chegou da rua com o cabelo cheio de fitas e muitas histórias para contar. Mariana apareceu no almoço e antes que Elisa pudesse chamar a filha para um passeio a tarde, Mariana a convidou.

—Quer se meter em uma travessura comigo? — Ela se virou para pequena que a encarou com os olhos enormes e os óculos na ponta do nariz.

—Sim! — Então ela sorriu para Mariana que sorriu para ela de volta.

—Deus do céu, ela tem o mesmo sorriso de gato da Elisabeta. — Felisberto balançou a cabeça em negativa, mas rindo. Elisabeta achou aquilo curioso.

—Mas eu tinha planos para nossa tarde, filha.

—Garanto que você vai se divertir muito mais comigo, afinal tias não precisam disciplinar, apenas se divertirem. — E piscou para Victoria. Elisa suspirou, pois sabia que tinha perdido aquela.

—Posso, mamãe? Por favor? A amanhã a gente sai! — Elisabeta concordou com a cabeça.

—Mas tome cuidado. Você vai precisar ser responsável, já que sua tia não tem um pingo de juízo.

—Que absurdo! — Mariana bateu na mesa. — Ninguém deverá ser responsável.

Aquele comentário arrancou uma gargalhada de Victoria e Darcy concluiu que eles deveriam se mudar para o Vale. As Benedito tinham um magnetismo próprio, e era quase impossível não concordar com tudo que elas diziam. Quando Victoria saiu do quarto de Mariana enfiada em um par de calças, Darcy apenas rezou para a filha voltar inteira.

—Mariana vai levá-la para andar de motocicleta, não é?

—Não duvidaria se ela tivesse arrumado uma para Victoria.

—Oh céus. — Darcy ficou preso entre uma risada e um gemido.

—Não se preocupe, meu amor. Apesar do que eu disse, a Mariana jamais poria nossa filha em perigo.

—Eu sei. Mas você consegue imaginar Victoria voltando para casa depois de tudo isso? Tenho certeza que ela vai chorar nos braços de sua mãe e ela vai esconder a menina quando formos voltar para casa. — Elisa gargalhou.

—A gente leva pelo menos uma das minhas irmãs. Estou tentando convencer Lidia a ir estudar. Tenho umas economias guardadas, acho que conseguiria pagar uma boa faculdade para ela. — Darcy revirou os olhos.

—Quantas vezes vou ter que lhe dizer que tudo que eu tenho é seu? Nosso dinheiro poderia pagar faculdade para todas as suas irmãs.

—Cecília amaria estudar direito. — Elisa refletiu.

—Podemos propor a ela e Rômulo. Se você quiser, colocamos todos os Benedito no avião elevamos conosco.

—Uma excelente ideia. Mas sabe qual outra excelente ideia? — Ela perguntou aproximando-se ainda mais do marido, para que ele a segurasse pela cintura.

—Qual?

—Eu e você. Na cachoeira. — Ela deu um pulo. — Anda, vá se arrumar.

—Yes, ma’am.

Darcy ficou maravilhado com o lugar. A cachoeira parecia ter saído de algum conto de fada, não existia nada daquele jeito na Inglaterra. O sol brilhava e Elisabeta arrumava uma toalha no chão enquanto ele amarrava os cavalos numa árvore.

Darcy foi até a cachoeira e mergulhou. Ele nadou até a queda d’água e ficou um tempo embaixo. Ao contrário do que os trajes de banho da época exigiam, ele tirou a camisa. Elisa ficou na borda admirando o esposo. Se existia um homem mais belo e charmoso, ela desconhecia. Quando Darcy sorriu, mesmo a distância, ela sentiu um impulso de ir até ele. Não sabia o que diabos acontecia com ela, mas era sempre assim. Sempre que ele sorria, ela tinha esse impulso de se jogar nos braços dele. Quando estavam em público, ela tinha que se conter. Agora, no entanto, já não via muitas razões para isto. Assim, nadou até onde ele estava e ele a recebeu com um abraço. Enquanto ela procurou seus lábios quase como um desespero. Darcy respondeu com igual devoção. Acreditava que sempre se surpreenderia com o quão apaixonado era pela esposa, o quanto necessitava dela, o quanto estava disposto a sanar as necessidades dela. Jamais imaginou que seria digno do amor, de amar e ser amado. Mas, já que o universo havia lhe dado aquela chance, ele não iria desperdiçar. E enquanto Victoria abria os braços na garupa da motocicleta da tia, pelas estradas do Vale, seus pais se amavam na cachoeira. Quando Victoria e Mariana passaram na mansão do parque para convidar Cecília para a aventura delas, Darcy e Elisabeta subiram em seus cavalos para conhecer o morro dela.

—Darcy Williamson, bem vindo ao topo do mundo. Ou pelo menos, do meu mundo.

Quando Darcy despiu Elisabeta, em seu morro, ela percebeu que talvez não o tivesse batizado direito antes. Quando Darcy a beijava, a tocava, a mordia, ela pensou que aquilo era o paraíso. E quando Darcy finalmente a penetrou, ela sentiu que enfim estava no topo do mundo.

Os Williamson passaram duas semanas no Vale do Café. Victoria estava com as bochechas coradas, e sardas apreciam. Ostentava joelhos ralados, um dente caiu — de quando ela caiu da casa da árvore — e estava sempre lá fora, correndo, se divertindo. Ela já ouvia reclamações de Ofélia. Reclamações estas que as irmãs não consideravam nada parecidas com as que ganhavam na infância Havia se tornado muito comum ouvir Ofélia reclamar:

—Essa menina é uma espoleta. Está deixando meus cabelos em pé. Tinha que ser filha da Elisabeta.

Darcy encontrou no sogro e nos concunhados uma constante e agradável companhia. Para conversas, passeios, jogos. Quando a compra enfim foi finalizada, ele planejava fazer uma grande festa na fazenda Ouro Verde, de inauguração. E ele estava na cidade, resolvendo essas questões quando um menino, que ele reconheceu como Bentinho, companheiro de brincadeiras de Victoria — e que ele tinha certeza de que estava apaixonado por Victoria, pois sempre aparecia na casa das Beneditos com flores e doce para a filha — o gritou.

—Senhor Williamson, senhor Williamson! Telegrama para o senhor!

Darcy achou aquilo curioso. Ninguém além dos empregados de sua casa sabiam onde eles estavam. E como se confirmou, o telegrama era de Matilda e dizia:

Lorde W. Retorne. Brianna causando problemas. M.T.

Darcy suspirou. Estava tudo bom demais para ser verdade.

Notas finais
A demonha não podia deixar nosso casal em paz?