Darcy e Elisabeta mal se falaram nos dias seguintes àquele episódio. Orgulhosos como eram, os dois achavam que estavam indiscutivelmente certos, e apenas se comportaram na frente da Victória, que obviamente percebeu.

— Papai, você e a Elisa brigaram de novo?

— Não filha, está tudo bem.

— Mentir é feio, sabia?

E então Elisa fez o possível para passar o maior tempo longe de Darcy. Entretanto estava ficando mais e mais frio, o que em breve o clima impossibilitaria as idas ao parque. Victória concordou com Elisa que aquela seria a última vez até esquentar. Victória estava correndo com um menininho e Elisa sentiu-se bem por Vicky finalmente estar interagindo com outras crianças. A Benedito e estava sentada a um banco de distância de outras duas preceptoras que conversavam. Elisa pensou se juntar a elas quando escutou o seguinte trecho:

— Pois meu chefe trabalha no governo, no escritório de imigração. Está havendo um montante exorbitante de anúncios de casamentos entre estrangeiros e ingleses. Estão desconfiando que alguns sejam falsos, que as pessoas estejam pagando ingleses para isso. Então parece que eles vão investigar.

— Meu Deus! O Rafael e eu estamos pensando em nos casar para que ele possa ficar. Quer dizer, nós já estávamos noivos, íamos apenas adiantar.

— Pois avise ao seu noivo que eu escutei isso direto da fonte.

Elisabeta ficou bastante alarmada, chamou Victória para ir embora e rezou para que Darcy chegasse mais cedo hoje. Para sua sorte, ele teve que trabalhar em casa, pois um enxame de abelhas invadiu o seu andar do escritório. Ele estava concentrado examinando contratos quando ela abriu a porta do escritório de vez, sem se anunciar.

— Precisamos conversar.

— Olá para a senhorita também.

— Eu escutei uma coisa alarmante no parque hoje. — Ignorando a sobrancelha levantada dele e o comentário sarcástico, ela reproduziu o diálogo que escutou.

— Não é possível que meu título não nos garanta alguma imunidade.

— O senhor não deve esperar tratamento diferenciado apenas porque é um nobre.

— Tem razão. Então precisamos fazer algo. — Ele passou as mãos pelo cabelo, bagunçando-os. Elisa já achava aquele tique nervoso divertido.

— Disso eu sei. Queria saber se tinha alguma ideia.

— Na verdade, acabei de ter. Eles precisam apenas acreditar que estamos nos casando porque estamos perdidamente apaixonados, e não por um contrato.

— Então estamos perdidos. — Darcy riu enquanto abria a gaveta. Até que algo lhe ocorreu. — Este ano o baile da duquesa de Hampshire foi adiado porque na alta temporada ela tinha acabado de ter um bebê. Será na sexta-feira e basicamente toda a nobreza britânica comparecerá. Nós só precisamos ir e ser convincentes. — Elisabeta gemeu e ele sorriu em solidariedade. — Você está fazendo cara feia apenas porque nunca foi. Se tivesse ido, teria feito como eu, que quase queimei o convite. — Foi a vez dela de rir.

— Não temos escolha, temos?

— Não estou conseguindo pensar em mais nada. Alguma outra ideia?

— Nos mudarmos para o Brasil? — Ela falou com um sorriso, e ele sorriu de volta pois ela não sabia que ele chegou a considerar aquela hipótese. E algo se aqueceu dentro dele ao perceber que ela incluiu ele e Victoria no nós. — Está bem, está bem. Nobreza britânica, aqui vamos nós.

O baile aconteceria na sexta-feira, o que dava a eles apenas quatro dia para se prepararem. Darcy tratou de enviar um mensageiro enviar a confirmação a duquesa de Hampshire, que ele e uma acompanhante estariam presentes. Naquele dia ele estava no escritório, e tratava de resolver algumas pendências com a sua importadora quando o telefone tocou.

— Darcy Williamson. — Ele atendeu.

— Oi papai. — Ele escutou a doce voz de Victória.

— Vicky! — Ele riu. — Aconteceu algo?

— Não. Mas a Elisa me contou que o senhor vai levar ela para uma festa.

— Sim, eu irei. As pessoas precisam saber que eu vou me casar com ela.

— Que tipo de festa é? — A menina perguntou.

— Como assim? — Ele achou a pergunta dela curiosa.

— É um baile? Uma festa íntima? Uma festa americana?

— Um baile. — Ele estava achando aquela conversa cada vez mais estranha. Sua filha não deveria ter conhecimentos de festas da sociedade.

— Baile da nobreza?

— De um duque. — E então ele ouviu ela gritar pelo telefone.

— Elisa, é um baile da alta nobreza. Eu preciso urgente ver seus vestidos.

— Filha, o que está acontecendo?

— Elisa nunca foi nessas festas, papai. Ela não sabe como vai ser. Eu vou ajudá-la. — Darcy achou engraçado.

— E por acaso a senhorita já foi? Como vai ajudá-la?

— Bom, foi a única coisa que a mamãe me ensinou. Eu sei como uma moça deve se comportar e se vestir. Era só isso papai. — E ele ouviu ela gritar de novo. — Vamos na sua casa! — Tchau papai, nos vemos no jantar.

— Tchau filha.

Victória desligou e Darcy estava dividido entre achar aquela situação divertida e ficar com raiva da Brianna. Victória só iria completar oito anos em três meses, e ela já havia enfiado essas besteiras em sua cabeça. Pelo menos Elisabeta cuidava dela direito. E aquilo trouxe um sorriso ao seu rosto. Como podia? Uma mãe e uma filha biológicas serem tão diferentes e tão distantes uma da outra, enquanto uma total estranha era capaz de amar incondicionalmente uma menininha que não era dela e ser amada igualmente de volta? A vida tinha mesmo seus mistérios.

Algumas horas depois, Darcy estava finalizando os contratos com as importadoras, quando sua secretária entrou com um sorriso divertido no rosto.

— Lorde Williamson, o senhor tem visitas. — Ela disse divertida.

— Quem é, senhorita Skinner? Eu estou terminando estes documentos. A pessoa pode esperar?

— Ela pediu para ser anunciada como senhorita Williamson. — Com a sua deixa, Victória pôs a cabeça para dentro do escritório.

— Oi papai. A gente pode esperar sim. Já almoçou? Podemos comer juntos! Eu estou esfomeada. O senhor conhece essa palavra? A Elisa me ensinou hoje.

— Vicky! — Ele fechou a pasta do documento. E abriu os braços. — Eu nunca estarei ocupado para você. — A menina correu até ele o abraçou. Aquilo estava ficando mais natural para os dois, como deveria ser, observou Elisabeta ainda fora do escritório. Ele levantou a cabeça e a viu, sorrindo para ela.

— Elisa, por favor, entre. — Virando-se para a senhorita Skinner, ele as apresentou. — Senhorita Skinner, como deve ter imaginado, esta é minha filha Victória e aquela é minha noiva, Elisabeta Benedito. Elisa, Vicky, esta é Edith Skinner, minha secretária.

Elisabeta sorriu para a moça que arregalou os olhos, indo dela para ele.

— Nossa, eu não fazia ideia. Meus parabéns, Lorde Williamson, senhorita Benedito. Eu vou deixá-los agora.

Ela fechou a porta e Darcy imaginou que antes que as meninas deixassem seu escritório todos no prédio saberiam de seu noivado.

— E a que devo a honra dessa ilustre visita? — Ele apontou para a cadeira e Elisa se sentou.

— Victória praticamente me arrastou para cá sem me dizer também.

— É que a Elisa não iria concordar. — Ela falou descendo-se do colo do pai. — Nós temos uma crise!

— Uma crise?- Os dois disseram ao mesmo tempo, divertidos.

— A Elisa não tem nenhum vestido bom o suficiente para o baile!

— Vicky! — Ela repreendeu a menina.

— Desculpa Elisa, mas é verdade. Mamãe sempre usava os melhores vestidos para essas ocasiões. É traje a rigor! Você nunca pode ir com um vestido repetido a um baile de um conde para cima, Victória. — Victória repetiu as palavras da mãe, imitando seu tom de voz e balançando o dedo. — Não posso deixar você ir com aquele vestido marrom. É feio e fora de moda!

Darcy segurava a gargalhada. Elisabeta estava presa entre a vergonha, o ultraje e a diversão. Então Vicky continuou.

— Papai, precisamos comprar comprar um vestido bonito para Elisa urgente! — Ela se virou para ele com os olhinhos azuis brilhando de súplica e empolgação.

— Com certeza, jamais poderia permitir que a Elisabeta fosse vista com um vestido marrom feio…

— E fora de moda! — Ressaltou a menina.

— De jeito nenhum! — Discordou Elisabeta. — Não estou nessa pelo seu dinheiro, já tivemos essa conversa. — Ela olhou para Darcy, séria.

— Bom, você precisa convencer como minha noiva, e segundo nossa consultora modista aqui, não vai ser com as suas roupas.

— Não mesmo. — Victoria concordou com a cabeça.

— Eu sou voto vencido aqui, não é?

— Sim. — disseram os dois ao mesmo tempo, o que fez ela rir.

— Está bem então, Lorde Williamson, pequena lady Williamson.

— Se vocês puderem me esperar por 20 minutos enquanto termino este documento, eu posso sair com vocês para almoçar, e depois eu a levo na modista que Brianna costumava ir. Eu gastei muitas libras lá, ela deve nos ajudar a encontrar algo adequado em tão pouco tempo.

— Claro papai! — Victória concordou pelas duas. — Elisa você vai amar Madame Adeline. Ela é muito legal e sempre deixava eu desenhar enquanto mamãe estava lá.

Elisabeta e Victória saíram para que Darcy pudesse terminar os seus documentos e ficaram esperando do lado de fora. A secretária dele, volta e meia as lançava olhares curiosos, mas não chegou a engatar uma conversa, e meia hora depois, Darcy deixou o escritório avisando que ele não voltaria no dia de hoje. Eles almoçaram em um restaurante simples, visto que o restaurante que Darcy tinha escolhido não recebia crianças. Ele ficou irritado, mas Victória estava empolgada demais em escolher um vestido para Elisabeta que o distraiu. Madame Adeline olhou para aquela cena com interesse. Quando Darcy disse que aquela era sua noiva e que eles precisavam de um vestido para o baile do duque, a sobrancelha dela levantou. Ela reclamou do prazo apertado, mas Darcy falou que não tinha um limite de preço, então ela abriu um sorriso. Trouxe diversos modelos para Elisabeta experimentar, o problema era que Darcy achava que ela estava ótima em todos e Victória não gostava de nenhum. Até que ela vestiu o vestido vermelho de veludo. Era um vestido longo, sem mangas e ajustado ao corpo, fechado na parte da frente com gola relativamente alta, mas as costas eram nuas. Ele era acompanhado de uma echarpe no mesmo tom. Quando Elisa saiu do provador, a reação de Darcy foi abrir a boca. Ele ficou parado, calado, com a boca aberta.

— Precisa ser feito alguns ajustes… — Madame Adeline começou a pregar alfinetes onde precisava ser ajustado. E Victória batia palmas.

— É esse Elisa! Mas eu escolhi outros dois para você e papai falou que não tinha problema...

Eles saíram da modista com quatro vestidos para Elisabeta, três para Victória, acessórios para os vestidos e um Darcy bastante contente. O vestido para o baile seria entregue na própria sexta na casa de Darcy, pois precisava de ajustes. Assim, ficou combinado de que ela se arrumaria lá.

A cada dia que se aproximava do baile, Elisa e Darcy ficavam mais tensos e irritadiços. Victória contou que na quinta-feira eles brigaram oito vezes por coisas bobas.

Chegado o tão aguardado dia, Darcy ficou no escritório até o máximo que conseguiu. Enquanto dirigia para casa, as cenas do último baile giravam na sua cabeça. A humilhação, a decepção com Brianna. Os olhares que iam de pena a divertimento. E agora precisaria encarar as mesmas pessoas, na mesma casa. E ainda tinha Elisabeta. Ele ia precisar ficar ao lado dela, apoiá-la. Sentia a levando para a cova dos leões. E ela era um carneirinho tão bonito. E como cereja do bolo, tinha essa estranha sensação que estava tomando conta dele toda vez que ela estava por perto. Ele não conseguia raciocinar direito. Ele ficava com a boca seca e tinha palpitações. Já havia até marcado um médico. Ele ficou parado no carro um tempo ainda, antes de entrar em casa.

Já Elisabeta, que também estava uma pilha de nervos, tinha recebido o vestido e agora cacheava os cabelos com um modelador que achou no antigo quarto de Brianna. Que em breve seria seu. Seus cabelos eram compridos, diferente da moda, então ela tentava fazer um penteado com um coque elaborado, baixo com algumas mechas soltas emoldurando o rosto, mas falhava miseravelmente. Foi quando Victória entrou no quarto.

— Elisa, seu cabelo está cacheado como o meu.

— Claro que não, o seu é muito mais bonito. Quis ficar mais parecida com você, acha que consegui?

— Claro que não. Você é muito mais bonita. — Elisa riu da piada de Victória e aquilo a fez pensar enquanto ela já estava mais solta. A menininha perdida que ela encontrou aquele dia estava mais confiante. Até fazia brincadeiras! — Você está tentando prender o cabelo? Posso te ajudar. Fazia isso para minha mãe o tempo todo.

E com a ajuda da pequena ela rapidamente ficou pronta. Com o toque final de um batom carmim, e o enfeite de cabeça, ela levantou.

— Como estou, Vicky?

— Você é a mulher mais bonita que eu já vi! — Victória ajustava os óculos no rosto. Elisabeta se encarava no espelho. Estava elegante. Parecia nobre.

— Mais que sua mãe?

— Muito mais! E você ainda é mais legal também. — Elisabeta foi até ela e a abraçou.

— Muito obrigada, meu amor. Agora vá tomar seu banho, que você ainda precisa jantar. Eu vou ver se seu pai está pronto.

Ela não atravessou o quarto de vestir para ir até o quarto dele, por mais que soubesse que poderia fazer isto. Era muito íntimo e ela não se sentiu confortável. Ela bateu na porta, e ele falou para que entrasse, então ela abriu a porta timidamente. Ele estava sentado, com o colete posto, apenas um pé do sapato calçado, e encarava o vazio. O doce desolamento que ela costuma encontrar em seus olhos não estava mais doce. Ele parecia um menino perdido e ela não pôde se conter.

— Está tudo bem? — Ela caminhou até ele. Aquilo o despertou de seu transe e o fez levantar o olhar para ela.

— Uau. — Ele falou por fim. — Elisabeta Benedito, este é seu novo uniforme. — Aquilo arrancou uma gargalhada dela.

— Como futura Senhora Williamson, eu libero a preceptora de usar uniformes. — Darcy riu sem graça do comentário dela, o que não passou despercebido.- O que está acontecendo? Você não está se sentindo bem? Você está meio pálido.

— Esse maldito baile. — Ele suspirou e sorriu para ela. — Acho que não tem porque esconder, já que todo mundo deve comentar mesmo, então que saiba por mim. Três anos atrás foi minha última ida a este baile. Foi quando o caso de Brianna com Hampshire foi a público. Houve uma cena, a duquesa atirou as roupas dos dois escada a baixo. Princesa Mary estava lá. Inclusive, você deve conhecê-la hoje. Fiquei sabendo que ela é madrinha do novo bebê deles. — Ele suspirou novamente. Elisa teve se segurar com todas as forças para não abraçá-lo e embalá-lo como ela faz com Victória. — Essa festa me traz más recordações.

— Então vamos fazer umas novas! Boas, dessa vez. Como você quer que me comporte? Posso me passar por uma completa caipira e cuspir nas torres de camarão. Posso derramar vinho nesse duque aí. Não me importo.

— Não. Eu quero que você seja apenas você. Eles vão todos invejá-la hoje. Tenho certeza que será a mulher mais bela da noite. Já disse como está bonita?

— Não. — E ela sentiu o rosto enrubescer.

— Pois saiba que a senhorita está uma visão. Pode pedir o Rogers para tirar o carro? Devo descer em dez minutos.

E assim, pouco depois eles estavam a caminho do baile. Os dois permaneceram em silêncio o trajeto todo. Elisabeta refletia sobre a história de Darcy. Ela nunca tinha dado muita atenção. Sempre havia se preocupado em como tinha afetado Victória, mas nunca pensou em como havia afetado a ele. Em outra conversa, ela lembrou, ele lhe contou que o pai o obrigou a se casar e a se divorciar. Ele amava a ex mulher? Ainda a amava? Seu coração foi partido? Mas seus pensamentos foram interrompidos quando eles pararam na propriedade dos Hampshire. Conseguia ser duas vezes maior que a Darcy. Era imponente e bela, e havia muitos carros chegando. Assim que entraram, eles foram anunciados como Conde de Pemberley e a Senhorita Benedito. Ela percebeu que ele fez uma careta ao escutar o título e pensou em chamá-lo assim a partir de agora, toda vez que quiser irritá-lo. Ela olhava as luzes e a decoração. Estava tudo tão perfeito com em um romance inglês.

— E agora? — Ela perguntou.

— Agora a gente circula. Cumprimentamos algumas pessoas, eu lhe apresento como minha lindíssima acompanhante, dançamos duas músicas, nos fazemos ser vistos e depois vamos embora.

— Certo. — Darcy ofereceu o braço a ela, que aceitou. Os dois sentiram uma estranha sensação. Era… confortável.

E assim, começaram a andar. Elisabeta reparou que a reação de todos era sempre a mesma. Havia um espanto inicial por verem Darcy. Um segundo por ele está acompanhado. Elogios. Os homens perguntavam pelos negócios e Pemberley. As mulheres perguntavam por Victória. Eles tinham combinado de não contar que estavam noivos. Não ainda. Eles se mostrariam perdidamente apaixonados e uma semana depois ele poria um anúncio no jornal e um anel no dedo dela. Eles entraram no modo automático depois de um tempo, até que Darcy sentiu uma mão em seu ombro.

— Ora, ora, se Darcy Williamson não saiu da caverna! — Elisa virou-se de vez ao ouvir alguém o chamando pelo nome e não pelo título, enquanto Darcy virou-se tranquilamente ao escutar a voz do velho amigo.

— Charles! Amelia! — Ele abraçou o amigo e depois a esposa dele. — Faz tempo que não os vejo!

— Porque o senhor evita todo e qualquer evento. Assim fica difícil. — Respondeu Amelia. E então seus olhou pararam em Elisabeta. — E você está acompanhado? Charlie, olha. É uma moça de verdade. E ainda é lindíssima. — Aquele comentário arrancou uma risada de Elisa.

— Eu tenho certeza que ele deve estar pagando uma bela quantia a ela, uma moça como essa jamais daria a menor bola a ele, querida. — Darcy revirou os olhos.

— Elisa, esses são Charles e Amelia Russel, também conhecidos como Visconde e Viscondessa de Huntingdon. Charles, Amelia, esta é Elisabeta Benedito, minha namorada. — os dois se olharam com surpresa.

— É um prazer conhecê-los. — Elisa fez a mesma reverência, mas Charles a puxou para um abraço que a deixou sem jeito. Mas antes que pudesse se recuperar, Amelia fez o mesmo. Com ela foi ainda mais complicado, visto o tamanho da barriga da moça.

— Uma namorada! Eu nem sabia que você sabia namorar! — Charles sorriu. — E como você conseguiu essa proeza? Porque Elisabeta, você é a segunda mulher mais bonita aqui.

— Ah, meu bem, eu agradeço o elogio, mas olha o meu estado. Hoje ela é a mulher mais bonita aqui em disparada. Quando este bebê nascer nós podemos considerar uma briga justa. — Ela riu. — Mas Elisabeta, posso te chamar assim, não posso? Nos conte como vocês se conheceram? A quanto tempo estão juntos? — Elisa achou a moça simpática e aqueles pareciam ser verdadeiros amigos de Darcy então tentou ser tão verdadeira quanto a situação permitia.

— Bom, algumas semanas atrás Vicky fugiu de casa e eu a encontrei no parque. Ela estava um tanto triste, porque achava que Darcy iria mandá-la para a Suíça. Ela me contou um pouco da história deles e eu fiquei tão furiosa! — Ela riu e olhou para Darcy.

— Então imagina meu susto, que nem sabia que Victória tinha saído, quando abri a porta no meio da noite e a encontrei com a Elisa. Ela estava soltando fogo pelas ventas. Entrou na minha casa sem ser convidada, me disse poucas e boas, mandou enfiar meu dinheiro no traseiro quando ofereci uma recompensa por ter levado Vicky de volta em segurança. — Elisabeta revirou os olhos ao relembrar, o que causou ainda mais risadas nos Russels. — Então ela abraçou Victoria e disse que a avisasse se eu fosse um pai ruim novamente. — Darcy passou o braço ao redor dos Ombros de Elisa, pousando seus dedos em seus ombros desnudos casualmente, tamborilando de vez em quando. Ela levava pequenos choques toda vez que os dedos dele a tocavam.

— E o resto é história. — Elisa encerrou o tema.

— Que começo inusitado! — comentou Charles.

— Pois eu achei romântico. — Neste mesmo momento, O duque e a duquesa de Hampshire se aproximaram deles.

— Eu posso saber o que meus velhos companheiros estão rindo? — Ele disse, pondo uma mão no ombro de cada.

— Hampshire. — Os dois disseram ao mesmo tempo, mas com tons completamente diferentes. O de Charles era animado, enquanto o de Darcy era quase um rosnado.

— Estávamos escutando a história de como Darcy e Elisabeta se conheceram. — Disse Amelia, casualmente. Em seguida ela fez um cumprimento mais formal. — Duque, duquesa, como vão? E o pequeno Harry?

— Vai muito bem. Crescendo bastante. — A duquesa respondeu educadamente, mas voltou seus olhos com interesse a Elisa. — Acho que não fomos apresentada.

— Perdão. Elisabeta Benedito, ao seu dispor. — Ela fez uma reverência mais demorada do que deveria. Darcy sorriu e segurou sua mão.

— Elisabeta é minha acompanhante. — Darcy disse a duquesa. — E meus parabéns pelo menino. Espero que tenham recebido meu presente.

— Recebemos sim, foi muita bondade sua. — A duquesa respondeu sem tirar os olhos de Elisa.

— Acompanhante, hã? Duque de Hampshire. — Ele estendeu a mão e beijou a mão livre de Elisa. Ela sentiu Darcy ficar tenso ao seu lado e apertou sua mão de leve.

— Muito prazer, duque. Ouvi coisas bastante interessantes sobre o senhor.

— Boas, imagino.

— Sinto dizer que não. — Ela respondeu honestamente, fazendo Charles gargalhar e a duquesa levantar uma sobrancelha.

— É uma pena. Mas creio que sua fonte seja tendenciosa. Elisabeta Benedito. Que nome diferente. É portuguesa? — O duque retrucou.

— Brasileira. — Ela respondeu.

— Como sua mãe. — Ele se voltou a Darcy. — Freud tem umas teorias interessantes sobre isso. — percebendo o clima, Amelia resolveu resgatar Elisabeta.

— Tendo em vista que os velhos amigos não põe o assunto em dia faz algum tempo, eu vou apresentar Elisabeta aqui a algumas amigas. Me acompanha, duquesa?

— Claro.

Elisabeta olhou para Darcy que concordou. Mas na verdade ele só queria tirá-la de perto de Hampshire. Então ela foi apresentada a diversas mulheres, que não conseguiu guardar o nome de nenhuma. Perguntavam de onde ela era, o que sua família fazia, comentavam sobre a lei de imigração com falsos pesares e depois retornavam ao assunto que mais as agradava: elas próprias e fofocas sobre as outras. Estava bastante entediada quando o duque apareceu. Sua esposa havia subido com Amelia, que queria muito ver o bebê.

— Pemberley deveria ter avisado a você que só há um jeito de sobreviver a estes eventos. — E a entregou a taça.

— Muito obrigada, duque.

— Não precisa de formalismos comigo, Elisa. É Elisa, certo? — De alguma forma, seu apelido soava errado em sua voz. — Eu tenho uma impressão que seremos bons amigos. Mas para isso você precisa ser honesta comigo. Está com o Williamson pela lei de imigração, não é?

— Perdão, o que? — Elisabeta bebeu todo o champagne de uma vez, com nervosismo.

— Não precisa esconder de mim. Não tem menor chances de que Pemberley tenha conquistado uma mulher de sua estirpe. Mas se você busca proteção, posso garantir que tenho muito mais influência que ele. Se for… gentil comigo eu posso ser bastante generoso com você. — Elisa sentiu seu estômago revirar.

— Deixa eu ver se entendi… O que necessariamente eu deveria fazer para conseguir tal proteção?

— Ora, não se faça de inocente, Elisa, sabe do que estou falando. Mas você teria que largar Pemberley. Não gosto de dividir meus...afetos. — Para a surpresa dos dois, ela soltou uma gargalhada.

— Ah, como o senhor é divertido, duque de Hampshire. Por um momento quase acreditei que estava falando sério. Depois pensei… Não, ele jamais faria isso em sua casa, com tão pouco tempo que ele e sua esposa tiveram um filho. Além do mais, o senhor teria que ter bebido bastante para achar que trocaria meu Darcy pelo senhor. Há de concordar comigo, ele é o homem mais bonito deste local, não acha? Aquela altura toda, os olhos verdes… — Ela suspirou. — Sonho de qualquer mulher. Mas como o senhor está sóbrio, entendi a piada! O senhor é hilário, duque!

— Claro, claro. — Ele respondeu, desconcertado.

— Agora se me dá licença, — ela falou pegando outra taça de champagne do garçom que passava. — Preciso encontrar meu noivo.

— Noivo?

— Ops. O duque não escutou isso de mim! — Ela saiu à procura de Darcy.

Que homem insuportável, ela pensou. Como Brianna pode trair Darcy com aquele sujeito? A mãe de Victória só caia mais em seu conceito. De longe, ela avistou Darcy conversando com um grupo de mulheres. Ela pegou mais uma taça de Champagne. A medida que se aproximava via que duas delas o tocavam bastante enquanto falavam. Uma delas chegou a deslizar a mão pelo braço dele!! Aquilo era um absurdo. E essa gente supostamente deveria ser a nobreza da Inglaterra. Quando se aproximou, ouviu um comentário da senhora que não estava alisando seu noivo inapropriadamente.

— Lorde Williamson, fico feliz que tenha finalmente perdido a vergonha pelo que aconteceu, nessa mesma casa, anos atrás. Foi lamentável, mas também compreendemos o senhor ter se afastado de todos, eu teria ficado mortificada se o meu nome e minha honra também tivesse sido jogado na lama.

Aquilo foi a gota d´água para ela. Elisabeta terminou sua quinta taça de champagne e foi até o pequeno grupo.

— Meu amor! Estava te procurando. — Afastou a alisadora número um, pondo-se ao lado dele e passando o braço em sua cintura. A alisadora número dois estava com a mãozinha no braço dele então ela lhe deu um tapa. A mulher retirou a mão num susto e a olhou com ressalva. Darcy observou a cena e um sorriso gigantesco surgiu em seu rosto. — Desculpe, eu interrompi a conversa! É Lady Harris, certo? — Ela se dirigiu a mulher que fez os comentários maldosos em forma de elogio. Era o pior tipo na sua opinião. — Ouvi algo sobre vergonha e nome na lama? A senhora não tem nada que se envergonhar! Eu escutei que seu marido perdeu tudo, mas com essa crise, muita gente perdeu. Acredite, seu nome não está na lama, vocês vão se recuperar!

Darcy olhou para Elisa surpreso, sem saber se agradecia o resgate, se ela realmente estava sendo inocente ou se ria da cara de mortificada da Lady Harris. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Lady Crowley que estava ao seu lado, passou a mão novamente em seu ombro e disse.

— Ah, Lorde Williamson! É tão triste estar sem par para dançar. E eu adoro essa música.

Percebendo que a alisadora número dois tentava por suas garras mais uma vez em Darcy, Elisabeta achou que precisava deixar as coisas claras.

— Meu bem, eu cometi um pequeno deslize e acabei contando ao duque nosso segredinho.

— O que? — Darcy arregalou os olhos.

— Bom, agora ele sabe que estamos noivos. — Ela suspirou. — Mas a senhora ali tinha razão, essa música é muito boa, vamos dançar.

E puxando-o para a pista de dança.

— Elisabeta, quanto você bebeu? Achei que um de seus termos era não dançar comigo.

— Eu concordei em dançar quando fosse necessário. E bebi um pouquinho. Mas ainda estou em posses dos meus pensamentos. Talvez nem tanto do meu bom senso, já que quase dei um tapa no duque.

— Em Hampshire? Por quê?

— Acredita que ele teve a audácia de me fazer uma proposta indecorosa? Me prometeu proteção se eu aceitasse deixar você e ser sua concubina.

— Eu vou acabar com a raça dele. — Darcy virou a cabeça procurando o duque, mas Elisa puxou suas mãos, em um passo de dança.

— Não se preocupe, eu o pus em seu devido lugar. Que mulher em santa consciência trocaria você por ele? Ele tem metade do seu tamanho e já está ficando careca. Você é bonitão. Quantos anos tem mesmo, Darcy?

— Trinta. Você me acha bonitão? — Ela tinha um sorriso divertido que ela parecia não notar.

— As vezes eu acho que você não nota. Aquelas ladies mesmo. — Ela cuspiu a palavra como se fosse venenosa. — Todas atiradas, passando a mão em você em público. E eu sabia que era educado demais para dispensá-las, certo? Você não estava deixando por que estava gostando, não é?

— Claro que não. — Ele não conseguia mais conter o sorriso na voz. Eles dançaram um tempo em silêncio. — Elisa. — Ele disse por fim.

— Sim?

— Você realmente me acha bonitão?

Ela revirou os olhos e então uma canção que fez sucesso anos atrás ressoou no salão. A interpretação da cantora ali presente era mais lenta e mais melódica, transformando aquele jazz numa canção ainda mais romântica. Darcy a trouxe para perto e de repente ela se sentiu desperta. Ela encostou a cabeça em seu ombro, e ele a trouxe ainda para mais perto. Elisabeta fechou os olhos e se permitiu viver aquele momento. Mas quando a música chegou nos versos “It had to be you, it had to be you, I wandered around, and finally found…” Ela levantou o rosto apenas para encontrar o dele a centímetros do seu. Ele se inclinou em sua direção e ela pode sentir a sua respiração. Os dedos de Darcy, em suas costas nuas a pressionou levemente e ela fechou os olhos, esperando pelo beijo.