Notas iniciais
Esse capítulo é tudo pra nós!!! Tivemos um feedback tão maravilhoso do capítulo anterior que corremos para postar esse. Mimos!! Esperamos que vocês gostem. Boa leitura!

Darcy estava preocupado. A audiência tomou grande parte do seu dia e as horas finais da tarde ele usou para resolver algumas questões da empresa, afinal queria estar livre no dia seguinte para ir com Victoria comprar seus óculos novos. Quando Darcy chegou em casa naquela noite já passava um pouco das oito horas. Sequer jantou. Os problemas estavam lhe tirando o apetite e o sono. Alguns funcionários estavam ameaçando uma greve, havia a questão da cláusula recém descoberta do testamento e, agora, estava a um passo de ter que lidar com Elisabeta sendo deportada. Deus, Victoria jamais aceitaria isso. Ele próprio estava tendo dificuldades em aceitar. Logo agora que as coisas entre ele e a filha estavam finalmente voltando aos eixos, fora todas as mudanças positivas que ele já notava em Vicky. O rostinho mais corado e alegre, os avanços na leitura e na língua portuguesa, e até mesmo a forma de se vestir parecia, finalmente, com a de uma criança da sua idade. E tudo graças a Elisabeta Benedito. Não existia a menor possibilidade dele deixar essa mulher ir embora. Com exceção de que não dependia dele e ela iria mesmo assim. Poderia ele se mudar para o Brasil? Possuía terras lá. A herança da sua mãe estava intacta. À essa altura, ele estava considerando toda e qualquer possibilidade.

Largou o paletó e o colete na cadeira do escritório, afrouxou a gravata, abrindo dois botões da camisa social. Pegou uma garrafa de whisky e se serviu um copo. Suspirou cansado e passou as mãos pelo cabelo, no típico gesto de nervosismo.

Ouviu uma leve batida na porta e puxou o relógio de bolso que herdou do avô. Quase nove horas da noite.

— Com licença, lorde Williamson. — Elisabeta colocou a cabeça para dentro do escritório e ele fez sinal para que ela entrasse. — Victoria demorou para dormir, achei melhor ficar com ela até que conseguisse. E eu queria conversar com o senhor, se me permitir.

— Por favor, Elisabeta, sente-se. — ela sentou na cadeira diante dele e ele empurrou a garrafa de whisky na direção dela — Me acompanha?

Elisa negou e ele encheu o copo dele novamente.

— Dia difícil? Posso voltar amanhã. Já está meio tarde mesmo. Perdão pela inconveniência, lorde Williamson.

— Pelo amor de Deus, Elisa, pare com isso. Achei que já tivéssemos superado essas formalidades insuportáveis. É só um título idiota que em breve nem sei mais se terei. Meu nome é Darcy. Me chame por ele.

Elisa ficou em silêncio, sem saber o que responder ou como começar uma conversa de trabalho com seu patrão sem chamá-lo pelo nome adequado.

— Pois bem, senhor… — Ele a repreendeu com os olhos. Os lindos olhos verdes que agora não possuíam brilho nenhum. — Pois bem, Darcy — ela continuou — Estou um pouco preocupada com a Victoria.

— Algum problema?

— Hoje a levei no parque novamente. Tenho feito isso sempre que posso numa tentativa de que ela conheça outras meninas da idade dela, mas Victoria simplesmente não interage com as crianças. Já tentei de tudo, todos os tipos de jogos e brincadeiras, mas ela prefere ficar comigo, me perguntando sobre o Brasil e minha família ou simplesmente lendo. Não é mais curiosidade, é uma fuga. Realmente me preocupa ela não ter amigos.

— De fato Victoria é uma criança muito sozinha. Sempre achei que seria bom para ela ter um irmão. Antes… Bem, quando eu ainda era casado com a mãe dela. Mas com tudo que aconteceu…

— Eu entendo. — Elisa interrompeu, percebendo que aquele assunto o deixava desconfortável. — O senhor não teria amigos com filhos da idade de Victoria?

— Não sei se esse seria o melhor tipo de ambiente para Victoria, Elisabeta. Essas pessoas, elas são fúteis e nocivas.

— E o que faremos?

— Eu não sei — ele respondeu cansado e se encostando na cadeira.

— Um animalzinho de estimação, talvez? — Sugeriu Elisabeta.

— Sempre gostei de cachorros, mas não acho que um animal vá suprir a ausência de amigos da idade dela. Ela conviveria com outras meninas em um colégio interno…

— Eu não acredito que está cogitando essa ideia de novo!- Elisabeta perdeu a compostura. Às favas a educação, ela não ligava a mínima para o fato de ser empregada dele naquele momento. — Foi por isso que sua filha fugiu de casa, lembra? E eu achando que você estava se transformando em alguém minimamente tolerável!

— Olha quem fala! A mulher que chegou na minha casa, sem me conhecer, gritando comigo sobre a melhor forma de educar a minha própria filha!

— E pelo visto eu sabia melhor do que você como criá-la já que o senhor praticamente implorou para que eu aceitasse esse emprego de preceptora, não é?

— Eu implorei? Se bem me lembro era a senhorita que estava desesperada por um emprego, já que não conseguiu manter um por duas semanas sequer!

— Não fui eu que saí correndo atrás de você!

— E eu por acaso saí?

— Ora, faz-me rir, mr. Darcy! O senhor largou sua namorada no meio de uma confusão para ir atrás de mim no frio congelante!

E com isso Darcy se calou. Estava cansado demais para discutir com uma descompassada. E ela estava certa, mas ele jamais admitiria em voz alta. Bebeu o resto do whisky que havia no copo em um único gole, se perguntando como conseguiram passar tanto tempo sem discutir vivendo debaixo do mesmo teto por semanas.

Elisabeta cruzou os braços no peito e esboçou uma cara carrancuda. Como aquele homem a irritava! Tinha uma filha adorável e era lindíssimo, mas completamente insuportável. Respirou fundo e lembrou-se de Victoria, era por ela que estava ali, e não sairia sem tentar encontrar uma solução para o problema de socialização da menina.

— Eu tenho lido sobre o balé, pode ser benéfico para crianças. — Elisabeta falou quando já estava mais calma. — Posso matriculá-la em uma aula? Com certeza haverá outras meninas com quem ela pode tentar amizade.

Darcy não respondeu. Era uma ideia a se pensar, e ele conversaria com a próxima preceptora sobre isso. Uma preceptora inglesa. Que não era Elisabeta. E que ele já sabia que seria um verdadeiro fracasso. Eles ficaram em silêncio por alguns minutos e Darcy encheu o copo pela terceira vez. Um gole depois, decidiu introduzir o péssimo assunto:

— Elisabeta, você pretende voltar para o Brasil?

Ela estranhou a pergunta. Em outros tempos não responderia. Ou responderia com rudeza ou deboche. Mas ali, naquele momento, depois da discussão que acabaram de ter, por algum motivo, Darcy parecia fragilizado e ela quis conversar com ele.

— Morro de saudade da minha família, mas voltar ao Brasil agora não está nos meus planos.

— O que você procura aqui na Inglaterra, Elisa?

Ele a estava chamando assim com muita frequência e ela tentava não se importar, mas se importava. O nome dela soava bonito na voz dele, o sotaque carregado, apesar da fluência em português.

— Eu procuro o meu lugar no mundo. Sempre gostei da cultura e literatura britânica, achei que seria um bom lugar para começar a procurar.

— E encontrou?

— Ainda não. Mas não vou desistir. E é por isso que não posso voltar pro Vale agora.

Darcy sentiu seu coração se apertar. Aquela mulher diante dele, aquela mulher teimosa e com uma resposta sempre pronta na ponta da língua, aquela mulher belíssima, não podia ser deportada. E ele não queria de forma alguma ser o portador da notícia, mas precisava.

— Elisabeta, eu posso ajudá-la a voltar para casa. Com a passagem e o que mais você precisar. Posso lhe arrumar um emprego em São Paulo com uma amiga.

— Darcy, aonde você quer chegar?

Foi a primeira vez que ela o chamou pelo nome, e a intimidade do gesto fez com que ele se odiasse, por tê-la feito fazer isso numa situação tão desagradável.

— Elisa, eu sinto muito. Mas as notícias que trago da Câmara não são boas. As leis de imigração estão prestes a mudar. A nova lei já foi aprovada, de nada adiantou eu votar contra. Mas devido a crise e a atual situação pela qual estamos passando, não será mais permitida a entrada de imigrantes a trabalho, apenas turistas. A fiscalização será mais rigorosa. Não há emprego nem para os cidadãos britânicos, não há como manter estrangeiros empregados. Apenas cônjuges de ingleses terão direito a cidadania.

Elisabeta deixou o corpo cair na cadeira. Passou a mão pelo rosto e depois puxou a garrafa de whisky em sua direção.

— Acho que agora vou aceitar. — falou enchendo o copo e Darcy sorriu em compaixão.

— Victoria ficará devastada. — Darcy comentou chateado.

— Eu mesma quero dizer a ela, se não houver problema.

— Por favor, fique à vontade. — Ele suspirou. — Eu não faço a menor ideia do que farei sem você.

— Você só precisa dar carinho e atenção a ela, já será mais do que suficiente.

— Você acabou de dizer que ela não tem amigos. Que ela sempre prefere ficar com você. E agora ela não terá nem a você. Eu não vou saber o que fazer, Elisabeta.

— Ela não precisará de mim se tiver o pai, Darcy.

O silêncio voltou a se fazer presente e tornou-se constrangedor. Por Deus, Elisa estava bebendo com seu patrão, às dez da noite, com ele completamente informal com a camisa parcialmente aberta e os cabelos bagunçados. Isso era errado em tantos níveis. Mas incrivelmente sensual em tantos outros. Quando ela se tocou do que tinha acabado de pensar, se censurou de imediato. “Elisabeta Benedito, qual o seu problema? Esqueceu que você mal o tolera?!”. Ela sentiu seu rosto ruborizar e levantou-se da cadeira apressada.

— Já está tarde, melhor eu ir.

— Por favor, Elisabeta, fique. Você tem um quarto. E está tarde demais. Jamais permitiria que você atravessasse a cidade sozinha a essa hora e nesse frio.

Ela pensou em discutir. Dizer a ele que não era nenhuma donzela indefesa, que quando trabalhava no restaurante voltava para casa sozinha de madrugada e passava muito bem, obrigada. Mas a imagem dele quase lhe dava dó. E, sinceramente, a notícia que acabara de receber a desestabilizou completamente, ela não estava nas melhores condições de atravessar a cidade sozinha. Sussurrou um boa noite e subiu para o seu quarto na casa dos Williamson.

***

Seria errado dizer que Elisabeta acordou mais cedo naquela manhã, pois ela sequer dormiu. Era estranho passar a noite na casa do patrão, mas, mais estranho ainda, era pensar que aquela, provavelmente, foi uma das últimas naquela casa. E uma das últimas noites em Londres. Não sabia quando aquela lei entraria em vigor, poderia ser deportada a qualquer momento. Ludmila poderia ficar, já que era filha de mãe inglesa, mas Elisabeta era brasileira, de todos os lados e gerações possíveis. Precisava aceitar que havia chegado a hora de voltar para casa. A ideia não era de todo ruim, afinal ela sentia muitas saudades dos pais e das irmãs. Poderia voltar para o Brasil, trabalhar em qualquer coisa, juntar um dinheirinho e embarcar rumo a outro país. Estava determinada a criar um plano B. E talvez um C.

Levantou da cama, a arrumou e aproveitou para reunir os seus poucos pertences que estavam naquele quarto. Sentiu uma gota molhar o lençol e só então se deu conta de que estava chorando ao pensar em Victoria. Ela havia se afeiçoado à menina tão rápido, era uma ligação tão forte que ela jamais conseguiria explicar. Precisava ser forte pelas duas, pois sabia que a pequena Vicky não lidaria bem com a notícia de sua partida. Enxugou as lágrimas, lavou o rosto e desceu rumo à sala de jantar. Pai e filha tomavam café em silêncio.

— Elisa! Você dormiu aqui? — a menina levantou-se animada ao ver a preceptora se aproximar.

Darcy também se levantou, limpando a boca em um guardanapo de tecido elegante.

— Bom dia, Elisabeta. Por favor, junte-se a nós. — convidou o lorde, ao tempo em que puxava uma cadeira para Elisa sentar. Ela sentou-se e agradeceu, servindo a si própria chá e pão. Victória olhou de um para o outro curiosa. Eles não costumavam ser tão amáveis assim um com outro. — Então, estive pensando. E se nós tirássemos o dia de folga das suas aulas hoje? Depois de escolhermos alguns óculos, poderíamos começar o projeto do seu quarto. Podemos passar numa loja e escolher amostras de tecidos para as paredes, ir numa loja de móveis… O que acham? — Ele se voltou para Elisabeta com um sorriso de lado. — Senhorita Benedito, libera sua pupila para um dia inteiro de compras e diversão?

Elisabeta se virou para ele e não soube explicar exatamente o que a acometeu. O senhor Williamson...Darcy, ela se corrigiu mentalmente, estava de cabelos impecavelmente arrumados, barba feita, colete, gravata… basicamente o mesmo de sempre. Mas quando ele a encarou, com a aquele meio sorriso convidativo uma estranha sensação no pé do seu estômago a acometeu. Quase um.. Nervosismo? Nunca tinha sentido aquilo antes. E novamente veio o pensamento de que ele era um homem atraente. Pensamento este que ela, obviamente, bloqueou.

— Não vejo problemas nenhum em tirarmos um dia de folga. Vicky estava falando que queria que seu novo quarto fosse vermelho.

— Vermelho, hã.

— É minha nova cor favorita. — Darcy olhou de uma para a outra. Elisabeta sempre trajava ao menos, uma peça vermelha. Hoje eram os detalhes do vestido verde. Ele sabia que a filha estava projetando a preceptora como sua nova ídola. Ele estaria perdido quando Elisabeta tivesse que ir.

Os três deixaram a mansão Williamson uma hora depois, e partiram no carro de Darcy, que dispensou motorista. Elisabeta ia na frente, com ele, e Victória só faltava explodir de entusiasmos. O que era muito se tratando dela. Ela estava falante e conversava sobre o tipo de cama, e a penteadeira, e os quadros...

A primeira parada foi a joalheria, onde Darcy encomendou quatro novos óculos para filha e Elisabeta ficou impressionada com a pequena fortuna que ele deixou lá. O homem realmente nadava em dinheiro.

Logo depois eles entraram em uma loja de tecidos. Darcy explicou que buscavam amostras para redecorar o quarto da menina e eles foram levados para o fundo loja, onde ficavam as amostras com estampas infantis. Victória não gostou de nenhum.

— Mas e este, Vicky? — Elisabeta segurava uma amostra com gatinhos — Eu achei tão delicado…

— Eu sou alérgica a gatos.

— E esse de cavalinhos? — Darcy segurava um verde com pequenos pôneis. — Você tem um cavalo em Pemberley.

— Mas é verde, eu queria vermelho. — Ela saiu e foi olhar outras amostras, e Darcy olhou para Elisa que deu de ombros, e ele acabou rindo.

— A filha de vocês é uma graça. — Comentou a vendedora.

Darcy e Elisabeta começaram a dizer que ela não era filha deles, quando Victoria apareceu com um pano que provavelmente era coisa mais vermelha que eles já tinham visto. Conseguia ser vermelho e brilhante ao mesmo tempo, e pela quarta (ou seria quinta?) vez no dia eles trocaram um olhar cumplíce.

— Vicky… — Disseram os dois ao mesmo tempo.

— Vocês não gostaram? — Ela olhou para eles. — Tudo bem. Nossa, vocês estão concordando em tudo hoje, que estranho — E saiu novamente à procura do tecido perfeito.

Aquele comentário fez Elisabeta e Darcy se sentirem estranhamente constrangidos, e cada um rumou para um lado, com a desculpa de procurarem amostras, mas na verdade só queriam espaço um do outro. Eles acabaram saindo de lá com tecido perolado, com um padrão de rosas vermelhas. Delicado, feminino. Agradou a todos. Depois disso, almoçaram em restaurante por ali e mais uma vez foram confundidos com uma família. Victória desmentiu mas suspirou. Como ela gostaria que fosse possível trocar sua mãe pela sua Elisa. No restante da tarde eles escolheram móveis e encerraram numa casa de chá, onde tomaram um chocolate quente. Darcy se esqueceu naquele momento dos seus problemas. Existia uma harmonia naquela cena que pacificava seus sentimentos.

Quando chegaram em casa, o jornal do dia, em cima da mesinha da sala, chamou a atenção de Elisabeta. Na capa havia uma manchete bastante chamativa sobre as novas leis de imigração. Elisa pegou o jornal e vasculhou rapidamente a notícia com os olhos. Nos próximos dias todos os imigrantes estariam recebendo uma correspondência para uma visita de “esclarecimento”.

— Mas já? — Darcy falou alto, pois acabou lendo por cima do ombro dela. — Foram rápidos.

— Acho que estão com pressa para se livrarem de nós. — Elisa respondeu jogando o jornal de volta na mesinha.

— Elisa…

— Tudo bem. Eu já fiz as pazes com isso. — Era uma mentira deslavada, mas precisava ser dita. Não suportaria a piedade dele. — O que me preocupa é outra coisa.

Os olhos dela recaíram em Victoria, que nesse momento estava sentada no sofá, escovando os cabelos de uma de suas bonecas.

— Ah, Vicky…- Suspirou Darcy. — Preciso contar a ela.

— Eu acho melhor eu conversar com Victoria e apenas… Você sabe…

Ele sabia, mas não queria. Novamente sentiu o aperto no coração. De novo aquilo. Seria indícios de um enfarte? Pediria para sua secretária marcar uma consulta com o cardiologista ainda para aquela semana. Os dois a encararam a menina, o que fez Victoria olhar do pai para a preceptora sem entender nada, mas sentia que não se tratava de boas notícias, o que a deixava angustiada.

Elisabeta sentou-se no sofá, e Darcy a seguiu. Os três ficaram algum tempo em silêncio, até que Victoria decidiu começar um diálogo.

— Nós iremos pegar meus óculos novos amanhã? Como vai ser seu dia amanhã, papai?

— Acho que ainda não estarão prontos, filha. — Ele olhou para Elisabeta, querendo saber se aquela havia sido uma resposta adequada.

— Mas podemos ir ao parque, não é, Elisa? Podemos aproveitar a presença de papai para fazer um piquenique, não é uma excelente ideia?

— Ótima, meu bem. Vou ver se Matilda pode ir conosco. — interviu Darcy.

— Não precisa a Matilda ir, papai. Ela já tem muito trabalho na cozinha. Nós três damos conta! — a menina falava animada, fazendo planos para mais um dia inteiro com o pai.

Elisabeta e Darcy não paravam de trocar olhares. Os olhos de Elisa diziam que os dois precisavam contar logo à Victoria, e os olhos de Darcy imploravam para que não. Uma discussão silenciosa se estabeleceu, em um jogo de caras e bocas que deixou a pequena telespectadora curiosa, ao mesmo tempo em que estava achando incrivelmente divertido.

— O que vocês dois estão aprontando, hein? — indagou Victoria, já vencida pela curiosidade.

— Darcy, eu não aguento mais. Isto está me matando! Meu amor — Elisabeta virou-se para Victoria e segurou a mão da menina — Infelizmente terei que ir para o Brasil.

— Mas você volta logo?

— Não, princesa. Eu vou embora de Londres. Não posso mais ficar aqui.

Imediatamente Victoria virou-se para o pai, furiosa.

— Papai, por que o senhor está mandando a Elisa embora??

— Eu não… — Darcy tentou se defender, mas foi interrompido por Elisabeta

— Seu pai não está me mandando embora, meu amor.

— Então por que você vai? Eu não quero que você vá! — Victoria agora chorava, o que deixou Darcy e Elisabeta devastados.

— Eu também não quero ir, meu amor. Mas a lei não permite mais que estrangeiros trabalhem aqui em Londres, então vão me mandar de volta para o meu país se eu não fizer isso antes.

— Papai, o senhor foi naquele lugar das leis ontem, diz pra mudarem essa lei boba! Por favor.

— Eu não posso, filha.Eu tentei, mas não consigo sozinho.

— Resolve isso, pai! Resolve! A Elisa não pode ir embora!

— Vicky, me escuta — Elisabeta pediu, já abaixada próxima a Victoria — eu não queria ir, de verdade. Mas preciso. E eu vou sentir muita saudade de você todos os dias, mas eu vou embora muito feliz, sabe por quê? Porque agora você é uma menina super inteligente, que já lê melhor do que eu, e sabe falar um monte de coisas em português. E seu pai vai cuidar de você.

Victoria olhou para Elisa e depois para o pai, e depois para Elisa de novo.

— Mas eu gosto quando vocês dois cuidam de mim juntos. — Darcy se juntou a elas, apoiado no sofá tal qual Elisabeta. — Elisa, você é minha melhor amiga, e melhores amigas não abandonam uma a outra.

— Eu não estou lhe abandonando, meu bem… Eu vou levar você aqui comigo. — Elisabeta pegou a mãozinha de Victoria e colocou em seu coração que, agora, ela sentia como se estivesse em pedacinhos bem pequenininhos, que ela seria incapaz de juntar depois. Ela amava Victoria Williamson. Nunca imaginou que a dor da partida fosse tão grande. Elisabeta puxou Victoria para seus braços e a abraçou apertado, sentindo seu cheirinho pela última vez.

Darcy estava comovido com a cena. Seu coração doía. Sabia que a filha gostava de Elisabeta, mas não imaginou que ela se apegaria da forma como se apegou. Mas também não imaginou que ele também se afeiçoaria à brasileira descompassada. E com certeza não imaginou que seria capaz de ouvir as palavras que se seguiram saírem de sua boca:

— Elisabeta, case-se comigo.

Notas finais
Diz sim, Elisa!! E aí, vocês acham que a Elisa vai aceitar esse pedido repentino?