Notas iniciais
Fruto de uma noite de insônia '

O som de meus passos eram abafados pela fofa grama em que pisava, o asfalto ao meu lado parecia um lago traiçoeiro. Á minha frente, nada, apenas o vazio daquele lugar esquecido por todos.

E eu continuava andando, mesmo com todos os meus instintos gritando para fugir dali. Afinal, o que eu tinha a perder? Minha vida miserável? Acho que não ligava se um assassino saísse das sombras e me atacasse, na verdade, eu estava torcendo para isso acontecer. Morrer não devia ser tão ruim como o que eu vivia.

Um ruído atrapalhara as angústias que eram corroídas em minha mente, olhei para trás procurando o infeliz que caminhava por ali, mas me deparei apenas com a escuridão convidativa da noite já familiar.

Voltei a caminhar olhando para os tufos de grama irregulares no chão verde, aguçando os ouvidos para escutar algum barulho como novamente, mas tudo voltara aquele silêncio melancólico.

Eu apenas enxergava meus pés sobre a terra, não encontrava nenhum poste que pudesse iluminar a estranha estrada. O ar começara a parecer abafado, como se não houvesse óxigênio suficiente para mim ali.

Senti um mal-estar começando a escurecer ainda mais minha vista, meus joelhos cederam ao peso de meu corpo e me ajoelhei no chão, tentando voltar minha respiração ao normal. O que estava acontecendo?

Vi um pequeno flash de luz brilhando em contraste com o céu, parecia estar flutuando sobre a estrada. Comecei a ouvir sons vindos dali. Enquanto se aproximava, percebi que a claridade vinha de uma lamparina equlibrada na ponta de uma carruagem preta que caminhava lentamente, a lâmpada iluminava parcialmente os cavalos também escuros que puxavam o cavalheiro em sua viagem, e não pude deixar de notar que seus olhos eram de um tom parecido com vermelho. Eu queria correr dali quando um arrepio percorreu meu corpo, mas meus joelhos estavam fincados no chão, e meus olhos fuzilavam aquela cena sem eu ter consciência do que estava fazendo.

A carruagem passou por mim em seu passo calmo e vagaroso, o ar parecia ter vacilado de temperatura, ficando mais frio, mas afastei o pensamento com a idéia de que era só a minha imaginação me pregando peças. Os cavalos foram se afastando e eu ainda não sabia quem era o cavalheiro, senti uma onda de curiosidade infantil enquanto a luz ia diminuindo, me mostrando as sombras da escuridão novamente.

Sem me dar conta, levantei do chão de terra e comecei a caminhar na direção que eles haviam desaparecido, tentando afastar a idéia de que aquilo poderia levar á minha morte para o fundo de minha mente.

Andei por tempo suficiente para começar a ficar irritada, claro que eles já deviam estar muito longe, e eu nunca iria alcançá-los, não fazia sentido continuar andando, mas mesmo assim não parei, algo me puxava para aquele caminho, e eu queria saber o que estava me deixando daquele jeito.

Depois de mais alguns passos desajeitados, me deparei com uma grande mansão destacada em meio áquele deserto, suas janelas brilhandavam, refletindo a luz das lamparinas de seus quartos antigos. Meus olhos fraquejaram diante daquela claridade instantânea me forçando a parar por aguns segundos para não tropeçar em nada pela estrada.

Quando me acostumei á luz, percebi que a carruagem estava parada em frente a casa, vazia, apenas com os cavalos parados organizadamente á espera de uma ordem. Comecei a me perguntar onde estava o cavalheiro, não percebendo que andava em direção ao lugar.

Parei em frente aos animais, que recuaram assim que me viram e viraram a cabeça para o lado oposto. Tentei acariciar o pelo do mais próximo á mim, mas ele relinchou e pôs-se nas patas traseiras em resposta, quebrando o silêncio que dominava o lugar.

Me afastei do cavalo, torcendo para que não tivessem escutado, o que parecia bastante improvável naquela situação. Fiquei ali parada esperando alguém chegar e me ver, porém ninguém veio.

Andei em direção á mansão me certificando de que ninguém estava ali, o que era estranho já que todas as luzes estavam acesas, dei uma volta em torno da casa, descobrindo que atrás desta havia um pequeno cemitério deserto.

Me vi caminhando entre os crucifixos simples que cercavam o lugar tristemente, como uma promessa do que viria para todos nós algum dia. Andava com cuidado entre as tumbas sem nomes quando ouvi um sussurro abafado atrás de mim.

- Deseja alguma coisa? — aquilo disse, virei para trás já me preparando para um possível ataque. Percebi que falava com o cavalheiro de antes.

- Eu só quero achar o meu lugar — disse sem pensar, porém não deixava de ser verdade.

Ouvi um leve riso por parte dele.

- Eu posso te ajudar com isso. — ele respondeu, se aproximando de mim com a cabeça baixa.

Tentei me afastar, porém atrás de mim havia uma enorme escultura de um anjo de asas pretas e rosto de pedra, abaixo de seus olhos, corriam filetes de cor púrpura.

- Como? — perguntei, com o que sobrara de minha voz escondida pelo medo.

- Podemos fazer um acordo. — disse ele, perto de mim o bastante para vê-lo perfeitamente. Percebi que ele era idêntico ao anjo que acabara de ver, porém o anjo não recebia um sorriso sinistro nos lábios perfeitos.

Ele estendeu a mão pálida para mim, um convite para algo desconhecido. Não sabia o que decidir, mas afinal, o que eu tinha a perder? Minha vida miserável?

Notas finais
Reviews me deixam feliz, e sim, vou deixar vocês imaginarem o que ela decidiu. Adoro fazer isso #leva pedrada#'
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!