Acorde-me
1 Capítulo Único
Notas iniciais
PM significa "após o meio-dia", sendo essas as horas entre 12:00 da tarde e 23:59 da noite.
6:30 AM
O alarme toca insistentemente uma melodia que eu um dia considerei agradável, apesar de detestá-la agora que é a responsável por me tirar de meu sono confortável onde eu ainda não sou um fracasso completo.
Levanto preguiçosamente e me espreguiço, tentando me encorajar a começar minha rotina. Tomo banho em uma água gelada e ouço uma melodia agradável. Se parece com minha música favorita mas eu não a coloquei para tocar. Deve ser um de meus vizinhos, nunca interagi o suficiente com eles para descobrir seus interesses.
Me dirijo à cozinha e a encontro impecável onde antes era uma bagunça. Nunca encontrava a vontade necessária para arrumá-la. Sei que não está certo mas seria muito trabalhoso me preocupar, ainda mais com algo que não me prejudica. Como algo que não tenho certeza da procedência, mas se encontrava na geladeira e parecia caro. Escovo os dentes. Não encontro meu terno favorito e decido usar outro qualquer. Recolho meu material e meus pertences. Saio de casa.
7:15 AM
O céu está nublado. O clima está frio. Pessoas na mesma situação que eu se arrastam pelas ruas como as cascas vazias que são, ignorando umas às outras e possivelmente sonhando com realidades melhores que não alcançarão enquanto chapinham em poças assustadoramente grandes de água.
Pego um ônibus lotado, uma vez que não vi praticidade em comprar um carro já que quase não saio de casa. Pessoas se aproximam umas das outras para disponibilizar espaço para mais passageiros e todos parecem desconfortáveis estando assim tão próximos de um estranho. A cada buraco ou quebra-molas que o ônibus atravessa, algum coitado se desestabiliza mais um pouco, chegando assustadoramente próximo de cair e causar uma reação dominó, derrubando todos ao seu redor, que derrubarão outras pessoas até a última estar no chão lamacento. Isso se houver espaço o suficiente para alguém cair.
Esse é o problema da depressão. De todos os sintomas que os psicólogos dizem provocar, todas as alterações físicas, hormonais e psicológicas, a mais evidente é a que ela faz com seus olhos. Ela o torna cego a todas as coisas boas a seu redor. É como um filtro que apenas deixa passar aquilo que é neutro ou ruim e eu imagino todas as características boas que esse dia tem e me passaram despercebidas ou minimizadas. Você não está sempre triste, mas quase nunca está feliz. É o vazio, aquele momento em que há uma falta completa de emoções que te derruba, pois aquele que não é nada não tem capacidade de se erguer e isso destrói lentamente a sua mente.
8:00 AM
Chego ao edifício cinzento e decrépito no qual trabalho. Me dirijo ao meu cubículo minúsculo e deprimente. No caminho ninguém me olha nos olhos ou sequer na minha direção, não me desejam um bom dia. Antes eles se davam o trabalho.
Ao longo do dia as coisas continuam as mesmas. Ninguém se dirige a mim ou parece notar minha presença. Não chegam nem a me mandar trabalho, embora isso seja alarmantemente comum devido ao fato dessa empresa não ser grande e não pegarmos grandes projetos. Os cortes de gastos são frequentes e quando não se tem rendimento não há maior gasto que um funcionário. Talvez eu seja o próximo e todos estejam receosos demais para me falar que eu não preciso ou deveria estar ali e devia gastar meu tempo com coisas mais importantes como achar um emprego antes que morra de fome.
Mesmo assim continuo em meu lugar, não sou corajoso o suficiente para buscar minha demissão eu mesmo, ao mesmo tempo que não quero que nenhum deles seja corajoso o suficiente para vir me dar essa notícia. Dizem que se uma pessoa não tem a coragem de desafiar as circunstâncias e situações nas quais estão presas elas nunca vão mudar, e sem pessoas corajosas no mundo nós viveríamos uma imitação de vida estagnados e miseráveis para sempre. Eu não acredito nisso. Muito pelo contrário, acredito que se todos fossemos covardes ninguém machucaria ninguém, e o que se pode desejar mais do que que não te prejudiquem? Você não tem que dar algo a ninguém, mas não deve tirar o que elas têm também. Não tem que fazer o bem enquanto não fizer o mal.
5:00 PM
O turno pelo qual provavelmente não serei pago acaba e saio desse lugar. Meu dia foi exaustivo.
O tempo é apenas uma convenção e depende muito de como você o mede. Veja bem, se passar um dia se divertindo com pessoas que você gosta terá a impressão de que ele passou rápido, porém, se passar um dia em uma escola no qual você não faz nada, depois saindo para trabalhar, novamente sem produtividade e, finalmente, chegar em casa para descobrir que precisa arrumá-la vai parecer que se passou uma eternidade, mas o dia é medido em 24 horas em ambos os casos. Quando se faz algo parece que o tempo passa, você se sente confortável porque tudo parece em seu lugar e não nota que seu dia não foi bom, apenas que ele passou como todos os outros que você teve. Quando se tem muitas coisas a fazer parece que o tempo passou muito rápido e você não conseguiu ajustar ele a todas as suas tarefas. E quando não se faz nada parece que o tempo está suspenso, parece que você vai ficar preso naquele momento até decidir fazer algo. Cada segundo tem o peso de horas e sua cabeça não carrega ideias o suficiente para te manter entretido por toda essa pequena eternidade. Parece confuso e de fato é, na verdade a única coisa em que consigo pensar é que é uma coisa maravilhosa o fato de não medirmos nosso tempo em ações. Só queria dizer que não fiz nada o dia todo e justificar meu desânimo com essa tentativa frustrada de explicação.
5:45 PM
Chego em casa, mas ela já não parece mais tão convidativa. Não parece ser o refúgio que eu usava para me esconder do mundo e me sinto desconfortável aqui. É como se não pertencesse mais a esse lugar.
Ando ao redor um pouco, mas algo ainda parece fora do lugar apesar de tudo se encontrar impecável. Talvez eu seja o problema. Talvez eu esteja fora do lugar. Me sinto agitado e decido sair para meu jardim.
Moro em um terreno desnivelado em um bairro não muito agradável, não tem nada por perto daqui. O ponto bom de ter que andar por quilômetros para achar uma simples padaria é que ninguém acredita que um lugar tão longe de conveniências simples seja um lugar que possua algo de valor para ser roubado. Os crimes por aqui são raros e distantes entre si.
Minha casa fica na ponta do terreno e atrás dela há um pequeno morro, onde coloquei um banco para passar o tempo. Gosto de olhar o sol nascer ou se pôr, aquele momento de transição, quando não é exatamente dia, mas também não é noite. É apenas um momento perdido no tempo e eu gosto dessa ideia, a de que mesmo algo tão grandioso pode ser isolado.
Esse banco também me permite ter uma visão da minha casa, que não faz uma imagem muito interessante em um dia bom, mas sinto que não devo olhar para trás especialmente hoje. Que não devo ver o que está dentro dela.
6:00 PM
Fico lá olhando aquela luz laranja brilhante. Me machuca os olhos, mas é uma dor agradável. E me sinto em paz por um momento.
Meu momento favorito do dia é entre 6:00 e 6:30 da tarde. É o período em que eu descanso e todos os meus problemas parecem incapazes de me tocar.
Isso só dura até perceber que alguém caminha em minha direção.
6:05 PM
Não consigo definir o gênero dessa pessoa. Ela é alta e desconcertantemente bonita, usa roupas pretas e um sorriso reconfortante no rosto.
Deveria me sentir ameaçado. Deveria correr ou gritar. Deveria ao menos perguntar porque ela está aqui em uma propriedade que não lhe pertence, mas não consigo. Fico apenas lá assistindo ela se aproximar lentamente.
Quando me alcança ela se senta ao meu lado no banco. Sua presença é agradável e transmite segurança.
— O que está fazendo aqui? – me pergunta. Sua voz é baixa e suave, do tipo reservada para crianças assustadas ou idosos. É tão hipnotizante e agradável que demoro um momento para assimilar sua pergunta.
— É minha casa. Eu pertenço aqui.
— Não, não pertence. O que ainda faz aqui? Sabe que tem que ir.
Não sei ao que essa pessoa se refere mas começo a me sentir nervoso. Não quero ouvir o que ela tem a dizer. Não posso ouvir o que ela tem a dizer.
— Não tenho. É minha casa. Você tem que ir.
6:10 PM
Ela agora me olha com um uma expressão irritada. Não me sinto mais confortável ou seguro. Sinto como se caísse em um abismo.
— Agora, não seja infantil. Sabe o que fez.
O que fiz? A resposta para isso seria um grande nada. Não sou bom em tomar iniciativas e muito menos em fazer algo fora da minha rotina.
Ela agora me olha com uma expressão curiosa. Continua sendo linda, ou lindo. Apesar de querer saber acho que seria rude perguntar.
— Realmente não sabe? – ela não me deu tempo para responder — Isso é raro e bem perigoso. Não posso te fazer acreditar, é algo que deve lembrar por si mesmo.
— Lembrar o que?
— Sobre ontem. As exatas 6:30 PM. Tenho que admitir, você é bem pontual quanto a esse horário.
— Eu estava dormindo a essa hora. – não sei sobre o que ela está falando mas sei que não devo ouvir isso. Me levanto e começo a caminhar em direção a casa, para longe dele. Qualquer lugar serve desde que essa pessoa não esteja lá.
Paro abruptamente e fico encarando a janela de meu sótão. Essa visão me causa dor. Não deveria olhar para isso também
— Vê? O que resta de sua mente tenta esquecer sobre isso, mas sua alma tenta te lembrar. Sabe que você não pode esquecer ou vai ficar preso aqui.
Começo a hiperventilar. Isso está errado. Não me esqueci de nada.
— Por qu..
— Cala a boca! Só cala a boca. Eu não quero ouvir isso.
Ela me olha de um jeito estranho.
— Mas precisa. Apenas entre em casa. Veja o que tem no sótão.
6:15 PM
Apenas a encaro por um momento de silêncio carregado. Me viro furiosamente e volto a me dirigir a casa. Talvez se eu apenas provar que não há nada nesse lugar ela vai me deixar em paz.
Subo os degraus de dois em dois, mas ao chegar na frente da porta de meu sótão meu coração para por um momento. Ouço música através da porta, deve ser daqui que a música que ouvi essa manhã veio. Algo em minha mente diz que se eu apenas me virar, se eu apenas ignorar isso, vou poder continuar vivendo minha vida fútil e normal.
Posso sentir minha pulsação em meus ouvidos, minha respiração está pesada e pareço estar sufocando. Um último passo e é isso, eu só preciso abrir a porta.
— Sabe, não precisa fazer isso se não quiser. Não é como se eu fosse te forçar ou nada assim. É uma decisão sua.
Me viro assustado com a voz atrás de mim. Não havia percebido que o estranho me seguiu até minha casa e sua voz me deu um pequeno ataque cardíaco. Ela também serviu para me trazer de volta a meus sentidos. O que quer que tenha atrás da porta, prejudicial ou não, eu preciso saber.
Abro a porta lentamente como se esperasse que algum animal fosse pular em mim, mas não é isso o que acontece.
Queria que houvesse, no entanto. Seria melhor do que isso.
6:20 PM
Dentro do cômodo há um corpo pendurado em uma das vigas. Seu rosto já escuro pelo tempo que passou aqui, mas ainda assim ele é inegavelmente meu. A música tocando ao fundo é Big Bird, de Andrew Jackson. Minha favorita. Também uso meu terno favorito, um preto simples e confortável de uma marca qualquer que não me faz sentir uma criança brincando de ser adulto. Mas isso está errado. Eu não posso estar aqui olhando essa cena hedionda e pendurado lá ao mesmo tempo. Não posso.
Ouço um som lamentoso tomar conta do cômodo e depois de um tempo percebo que ele vem de mim. Sequer me lembrava de ir para o chão. Eu estou choramingando e lágrimas que eu não tinha percebido escorrem de meus olhos.
— Shhh. Não direi que ficará tudo bem, mas você precisa ir. Sua alma não vai aguentar ficar aqui por muito tempo. Este mundo está corrompido e vai torná-la impura. – o estranho diz enquanto passa as mãos delicadamente por meus ombros.
— Por que? Por que eu estaria lá e aqui ao mesmo tempo? Isso é mentira, não é? Não é? Quem faria isso comigo? – minha voz sai quebrada e chorosa, em qualquer outro momento eu teria vergonha do tom suplicante nela.
Essa pessoa agora me olha com dor nos olhos.
— Não. Seu corpo realmente está lá. Está assim desde ontem, as 6:30 da tarde. Você fez isso a si mesmo.
6:25 PM
Essas palavras parecem sem sentido no começo. Depois elas machucam e, finalmente, elas me acordam. Eu realmente fiz isso.
Ontem não foi um dia particularmente ruim, mas após uma série de dias neutros o que você faz parece não ter mais sentido. Mas ontem eu decidi tomar um caminho diferente para casa. Passei por um restaurante caro que sempre quis experimentar mas nunca tive o dinheiro para isso. Pedi comida para viajem e voltei para casa.
Ao chegar em casa apenas a coloquei no balcão da cozinha e fiz uma faxina geral nesse ninho em que vivia. Fazia muito tempo que não fazia isso e meus vizinhos devem ter ficado frustrados quando descobriram que depois das 22h eu ainda não havia terminado.
Quando finalmente terminei a faxina estava sujo e exausto. Tomei um banho e vesti meu terno favorito. Esquentei parte da comida e guardei o resto na geladeira.
Ao terminar peguei meu rádio e o levei ao meu sótão, nunca pensei que fosse usar essa coisa ultrapassada mas ainda bem que a guardei, veio a calhar bastante agora. O depositei em cima de uma mesa bamba que tinha jogado por lá e coloquei um disco com apenas uma música gravada para tocar. Poderia escutá-la o dia todo.
Atei para mim mesmo um nó, e foi nele que me pendurei e descansei.
6:30 PM
Agora que tudo me voltou a memória consegui finalmente me acalmar.
Olhando para as consequências de minhas ações ela provavelmente não foi a melhor das ideias.
— E então? – a pessoa fala comigo novamente
Olho par cima e a percebo me encarando.
— O que acontece agora?
— Nada muito especial. Você só vem comigo. Não está curioso para descobrir a resposta para a maior dúvida e o maior medo dos mortais? Agora que despertou está pronto para vir comigo?
A sensação de calma e plenitude voltou. Sorrio pelo que parece ser a primeira vez em uma vida inteira.
— Estou.
Ela muda de aparência. Seu corpo perde toda a carne e agora somente os ossos são visíveis. Por mais impossível que pareça, a morte fica ainda mais bela nessa forma. Pego sua mão e caminhamos em uma direção qualquer para um lugar desconhecido.
Minha hora favorita do dia é entre 6:00 e 6:30 da tarde. É mais ou menos nesse período que eu percebo que nenhum dos meus problemas pode mais me tocar.
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