Aconteça o que Acontecer...
4 Capítulo 4 - Instabilidades
Era um dia como outro qualquer estava tudo normalmente normal. Na janela da cozinha da casa de Nathan andava com suas minúsculas patinhas uma abelha, que por alguma razão tentava entrar. Sobre a mesa ainda estavam os restos do café da manhã, pães, torradas, geleia e suco, algo dizia que a senhora Hill não estava em casa.
A casa estava com um gostoso cheiro de flores, a brisa batia no jardim da frente e carregava consigo o cheiro das rosas para onde ela ia. O céu estava tão limpo quanto uma folha de papel em branco, até agora não aparecera uma se quer nuvem por ali, nem mesmo um avião foi visto atravessando a imensidão azul.
Quem passasse na frente daquela casa poderia, sem dúvida, ouvir as risadas altas de Emily que ria descontroladamente enquanto Nathan fazia palhaçadas. Apesar de um pouco escandalosa, o som da garota gargalhando era bem harmônico, era o que o rapaz mais gostava de fazer, fazê-la rir.
Aqueles dentes perfeitamente brancos e alinhados eram resultado de cinco anos com aparelho ortodôntico. Emily certamente tinha um sorriso ainda mais lindo agora. Os dois estavam deitados, como sempre, debaixo do velho carvalho que havia nos fundos da casa do garoto.
Eles seriam capazes de passar o dia todo ali se fosse possível, o braço de Nathan já estava dolorido de tanto que Emily o batera, mas ele não se importava. Eles conversavam sobre assuntos em geral, não existia uma ordem lógica que eles devessem seguir. Não fazia nem uma hora que a garota havia chegado, mas quem os via diria que eles já estavam ali há horas.
– Você não acha isso muito curioso? – a menina colocou a mão sobre a barriga, seus pés se mexiam devagar para lados opostos e seus olhos rasgavam o céu procurando algo que ela pudesse fixar sua visão.
– O que? – ele virou sua cabeça, que estava apoiada na grama macia, para o lado, e os olhos do garoto eram capazes de dizer muito mais que sua própria boca.
– Sonhar! – respondeu ela. – Sonha e logo em seguida ver tudo se destruindo quando abrimos os olhos – Emily havia mudado completamente o rumo da conversa, há não mais de um minuto atrás eles discutiam sobre as asas dos pássaros.
Nathan ergueu as sobrancelhas.
– Por quê? Aconteceu alguma coisa que você queira me contar? – ele ficara curioso agora, em sua mente criaram-se muitos pensamentos e apesar de ter ficado quieto ele falava bem alto dentro de sua mente.
Ela permaneceu quieta, parecia pensar longe.
– Emy? – ele chamou a atenção da amiga.
– É que... Tive um sonho estranho a noite passada – respondeu ela finalmente, sua voz estava em um tom mais baixo agora e seus dedos estavam inquietos. – É bobeira, nada para com que se preocupar.
Ele se virou de lado e ficou de frente para ela.
– Agora vai ter que me contar, estou curioso – desse ele sorrindo. – Como é que foi? – perguntou ele dando um cutucão na menina com o dedo indicador esquerdo. – Não me diga que tinham ninjas! – ele deu um pequeno pulinho.
Emily riu.
– Não Nath – disse ela ainda rindo. – Não havia ninjas. Era... Era com nós dois – ela sentiu seu rosto corar e soltou um pequeno sorriso de vergonha de lado.
Era aquilo mesmo que ele havia ouvido? Ela havia sonhado com ele? Antes mesmo de ela explicar, Nathan já mergulhou em muitas ideias bobas sem mesmo perceber que estava fazendo aquilo, seu coração acelerou e seu estômago parecer congelar.
Ele estava tão corado quanto ela.
– Eu... Também tenho sonhos assim às vezes – ele tentou descontrair um pouco. – São bem legais – seus dedos batiam contra a sua barriga.
– Não! Você não entende Nath – ela ficou séria, aqueles olhos cor de mel estavam brilhando demais.
– Então me explica! – ele ergue e abaixou seus ombros.
– Você não entenderia – respondeu ela, em sua voz havia sinais de tristeza, ela parecia indecisa e inconformada com alguma coisa. – Ou pior, poderia pensar algo errado de mim – Emily se virou para o lado, em suas costas havia pequenos pedacinhos de grama.
Agora Nathan estava morrendo por dentro, precisava muito saber o que era.
– Ei, Emily, sabe que pode confiar em mim para tudo, não é mesmo? – ele se sentou e a tocou, ele gostava da sensação que tinha tocar suas mãos na pele lisa da amiga. – E, aliás, nada nunca é tão estranho pra mim.
Emily não tinha como evitar, ela havia sonhado que beijava Nathan no cais de lago, ela não parava de pensar em tudo aquilo e ela sabia que podia confiar em Nathan, ele era seu melhor amigo.
– Se você ficar me irritando depois que eu te contar eu juro que te dou um soco tão forte que nunca vai se curar dele – Emily nunca disse nada tão sério em toda sua vida, sua voz era firme e seus olhos estavam diretamente nos olhos de Nathan. – Está me ouvindo Nathan?
O rapaz estava com muita vontade rir, aquilo era sério demais até para ela, além disso, ela não era o tipo de garota durona que resolve as coisas com brigas e agressões. Mesmo assim ele preferiu não a contrariar, ou ele aceitaria ou não saberia nunca o que era que ela sonhara.
– Tudo bem – respondeu ele. – Não farei nada, juro.
Ela respirou fundo.
– Foi bem esquisito... Eu e você... A gente se... Se beijava... E... – Emily não conseguia nem mesmo formar uma oração simples, saia tudo cortado e bem confuso.
Aquilo já bastava, depois de ouvir “Se beijava” nada mais entrou nos ouvidos de Nathan, um arrepio subiu pela sua coluna e o fez ter todo autocontrole necessário, ele odiava sentir tudo isso quando conversava com ele, Nathan estava com medo.
– E... E isso foi estranho? – ele não gostou nem um pouco da ideia de ela ter julgado estranho sonhar que o beijava.
– Eu não sei... – ela realmente não sabia. – Só achei que você acharia isso estranho – ela ficou envergonhada, na verdade, ela queria saber o que ele achava de tudo aquilo, só não queria perguntar diretamente.
– E porque eu acharia? – Nathan sentia que lá no fundo começava a gostar de tudo aquilo. – Isso foi... Foi só um sonho, nunca aconteceria, não é mesmo? – sua consciência lhe dizia que tudo aquilo era uma tremenda loucura, mas seu coração lhe dizia para acreditar que aquilo era um bom sinal.
– Pois é... Nunca... É loucura – ele mexeu em seus cabelos e sorria de uma forma decepcionada.
Não, não e não! De fato não era aquilo que Nathan queria ouvir, mas o silêncio é sempre um grande amigo em momentos como esse.
Na realidade os dois abraçaram o completo e absoluto silêncio, depois dessa tentativa de diálogo os dois pensavam muito, não se sabia ao certo o que passava dentro daquelas cabecinhas, tudo era tão rápido.
Nathan seguia com olhos uma pequena ave que zanzava de um lado para o outro no céu, ele só não queria manter contato visual com a amiga. Mesmo muito sem jeito ele decide quebrar o gelo.
– Eu preciso... Preciso... – o que ele a diria? Adrenalina sempre fazia as pessoas fazerem coisa que certamente elas se arrependeriam depois, Nathan precisava pensar muito antes que falasse qualquer coisa pra Emily. – Preciso arrumar a cozinha, minha mãe vai ficar furiosa se chegar e ver que passei a manhã toda deitado aqui – ele se levantou e sacudiu as roupas.
– Vou te ajudar! – exclamou Emy, ela esticou a mão para que o amigo a ajudasse a se levantar e ele o fez.
Pouco a pouco o tempo ia passando, Emily ajudava Nathan a colocar tudo em ordem antes que eles partissem para a casa da garota. Parece que aquele seria mais um daqueles dias em que guardamos para sempre na memória, aqueles dias em que o único detalhe que importa não é o que fazemos, mas sim estar acompanhados daqueles que verdadeiramente significam algo para nós.
Parece que mesmo depois de o assunto um tanto quanto constrangedor eles estavam bem, parecia que nem mesmo falaram sobre aquilo e apesar de não aparentarem ambos não paravam de pensar naquilo, um se preocupava com o que o outro havia pensado sobre tudo e no fundo aquilo era o que eles queriam que acontecesse.
Emily havia prometido ajudar Nathan com os deveres, aquele era um longo feriado e parece que os professores haviam deixado tarefas o suficiente para um mês e logo em seguida vinham as provas. Sobre a cama da menina estavam algumas folhas de papel com desenhos estranhos, livros de matemática e alguns cadernos abertos.
Nathan estava jogado de costas sobre tudo aquilo, ele não achava nada justo ter que estudar no seu tempo de descanso, mas não tinha opção. A menina tentava o animar, já havia lhe mostrado algumas roupas e agora ela tirava um vestido de dentro do seu armário. Era longo e azul, perto do pescoço havia pedras brilhantes, seu corpo era muito bem justo e mais a baixo havia detalhes que davam volume a roupa.
Sem nenhum interesse Nathan apenas deu um joia e continuou deitado, na realidade não eram apenas todos aqueles deveres que o preocupava. A garota começou a falar e explicar cada detalhe do seu lindo vestido, deitado ali ele fingia ouvir tudo, mas a voz da menina foi ecoando em sua cabeça e sumindo cada vez mais, como o sol some ao se encontrar com o horizonte, gradativamente.
Vibrou. Algo havia vibrado no bolso do rapaz e o fez acordar de sua hipnose. Ele sentiu com força o ar entrar em seus pulmões e sem mais nem menos levou a mão ao bolso e pegou seu celular. Era uma mensagem, ele ficou pasmo ao ver quem havia mandado aquilo, era... Era Caroline Wust.
Rapidamente Nathan abriu a mensagem e continuou fingindo ouvir tudo que a amiga falava. O texto dizia:
Nathan? Se lembra de mim? Você me ajudou com aquele problema na festa no Louis. Queria saber se não está a fim de sair qualquer dia desses, ouvi dizer que você é um cara Legal.
Caroline.
O rapaz ficou completamente sem reação, não disse nada, só conseguia ouvir a voz fraca de Emily o xingando. Quando Nathan percebeu a garota já havia tomado seu celular e estava lendo a mensagem, ele sabia que ele não ia gostar nada daquilo.
– Parece que você tem um encontro – disse ela colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha, ela parecia estar um pouco sem graça.
Ele se sentou bem depressa.
– Mas eu não vou! – exclamou ele rapidamente, seus olhos se arregalaram.
– Não? – sua voz parecia esperançosa, mas logo sua pose de durona voltou. – Ela é bem popular, se fosse você não perdia essa.
Ele se sentiu um idiota, para ele era óbvio que Emily nem ligava para ele e que estava até feliz por ele ter arrumado alguém.
– É... Tem razão acho que devo aceitar – ele pegou o celular da mão dela e começou a escrever. – Domingo à noite acho que estou livre, será que... É estou – e continuou a escrever.
Na verdade domingo a noite ele não estava livre, Emily e ele iriam ao Pizza Huts, era novo na cidade e todos diziam que era muito bom. A jovem sentiu uma pontada no peito, queria chorar, mas não faria aquilo na frente dele ao invés disso ela preferiu ficar sozinha.
– Nathan... Eu tenho algumas coisas para fazer agora e se não se importa poderíamos nos ver mais tarde – ela se abaixou e pegou alguns livros que estavam jogados no chão.
Ele percebeu que cometeu um erro.
– Tudo bem – ele coçou a cabeça, pegou sua mochila, colocou o celular e saiu. – E Emy... – começou ele, mas a menina fechou rapidamente a porta ante mesmo de dizer tchau.
Já eram sete da noite. O dia de Nathan não fora um dos melhores, depois de vir da casa da amiga ele se deitou sobre toda a bagunça que estava em cima da sua cama e pegou no sono, sua tentativa de estudar havia sido um fracasso e só agora ele percebeu que não conseguia fazer nada sem a garota.
Caroline havia lhe respondido a mensagem, ela parecia feliz e o convidou para ir à nova pizzaria da cidade, Pizza Huts. Ele não iria se sentir nada bem indo a um lugar onde ele deveria estar com a sua melhor amiga depois de uma suposta briga. Não tinha como fugir, ele já havia aceitado e ele pensava em como ficaria popular depois que todos soubessem que ele estava saindo com Caroline Wust.
Sua mãe percebera que aconteceu alguma coisa ente ele e Emily, a garota não ligou, não foi lá, nem mesmo mandou nenhuma mensagem pelo resto do dia. Nathan queria muito falar com ela, no entanto seu orgulho era maior, ele preferiu deixar aquilo passar e logo tudo voltaria ao normal.
Por outro lado Emily não parecia nem um pouco preocupada. Ela havia feito tudo que era para fazer durante todos aqueles quatro dias de descanso. Aquela era uma de suas fortes características, quando alguma coisa ruim acontecia ela mergulhava nos livros para tentar esquecer tudo.
Mais a tarde ela fora encontrar algumas amigas, Emily não gostava muito de fazer aquilo, mas queria ocupar a cabeça. As garotas não paravam de falar de todos os garotos do colégio e aquilo de certa forma a irritava facilmente. A única coisa que ela queria saber era em o que Nathan havia ajudado Caroline na festa do Louis.
O que ela não sabia era que naquela festa que ela não fora o rapaz havia ajudado a moça com um problema relacionado a outros garotos. Ele fingira ser namorado de Caroline para que alguns rapazes passassem de irritá-la. Aquela havia sido uma atitude corajosa de Nathan, os garotos eram muito maiores e mais fortes que ele, mas Caroline não teve tempo de agradecê-lo nem mesmo de dizer um “obrigado”.
Emily estava deitada em sua cama agora, seus braços estavam abertos e suas pernas também. Era como se ela quisesse fazer um anjo de neve em meio ao cobertor e lençol. Seus olhos estavam semicerrados e sua expressão era de cansaço e apesar de tudo aquilo ela queria mandar uma mensagem para o amigo.
Aqueles dois voltariam a ser falar de uma hora pra outra, eles não podia fugir um do outro por muito tempo já que Nathan ficaria na casa de Emily enquanto seus pais iam para Nova Iorque visitar alguns parentes. O rapaz não gostava muito de ir à casa do tio Hank, a casa cheirava a alho velho e no fundo do quintal ele cultivava plantas bem estranhas.
Emily pegou seu celular e o encarou por alguns segundos, ficava olhando para o relógio enquanto o tempo parecia estar parado. A bateria já estava por um fio e ela estava com preguiça demais para pegar seu fone de ouvido ao lado do seu computador. Finalmente ela decide mandar alguma coisa para o amigo, não queria mostrar que estava sentindo alguma coisa, só queria parecer não se importar com quem ele se envolvia.
Seus dedos escorregavam por sobre as letras do teclado roxo do seu celular e formavam palavras que logo fizeram um pequeno texto.
Nathan, o que houve com você? Simplesmente desapareceu do nada, não sei o que está acontecendo, mas se quiser conversar estou aqui.
Nathan estava na cozinha, tinha acabado de pegar uma maça e estava a lavando quando seu celular vibrou em cima da longa mesa de madeira que havia ali. Ele deu uma grande mordida na fruta e andou vagarosamente até a mesa, ele esperava que fosse Emy, no entanto era mais provável que fosse Nick com mais alguma de suas perguntas sem sentido.
Ele desbloqueou seu celular e começou a ler o que havia recebido, seus olhos corriam vagarosamente sobre as orações enquanto ele mastigava a suculenta fruta. Depois de alguns segundos algo parecia ter chamado sua atenção, ele passou a mastigar mais devagar e seus olhos pareciam mais atentos. Em seguida ele deu um pulo, parecia comemorar algo.
Nathan acabará de receber uma mensagem de Louis e ficou sabendo que todos os garotos já sabiam sobre Caroline ter o chamado para sair, afinal não era muito normal uma garota convidar um cara para sair, muito menos uma garota como Caroline Wust.
Parecia que Emily havia desistido de sua mensagem, seu orgulho era tão alto quanto às nuvens, ela realmente jamais faria aquilo. Nathan parecia já não se importar tanto, ele começara a conversar com o amigo e eles certamente ficariam até tarde fazendo aquilo.
As coisas acontecem de uma forma engraçada não é mesmo? As mudanças chegam como uma frente fria e congelam tudo que parece estar bem, e quando se menos espera, de uma hora para outra surge um dia ensolarado, ele aquece tudo, até mesmo os corações mais frios.
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